Considerações sobre a regularidade maçônica

Regularidade e irregularidade Maçónicas - Freemason.pt

A regularidade, ainda que de extrema relevância para a Maçonaria, é um tema pouco explorado sob uma ótica científica. Os conceitos básicos que a compõem, em função dessa subexploração, frequentemente geram interpretações equivocadas. Este artigo busca o esclarecimento de alguns pontos fundamentais relativos à regularidade, para que, ao fim, o maçom brasileiro tenha uma ideia clara quanto ao assunto.

1 – Introdução

Especialmente nos últimos anos, quando a discussão sobre esse tema foi intensificada no Brasil, muito se tem falado sobre regularidade maçônica. No entanto, ainda que tenhamos excelentes artigos escritos por pesquisadores sérios (e, obviamente, adotando uma metodologia científica em suas pesquisas), boa parte do material que encontramos disponível sobre o assunto é baseado exclusivamente no empirismo, fundamentado em experiências e opiniões pessoais.

Por mais que reconheçamos as boas intenções que permeiam parcela considerável desses escritos, frequentemente os resultados obtidos não são exatamente aqueles que deveríamos esperar. Muitas vezes esses artigos resultam em um verdadeiro desserviço à Maçonaria, uma vez que propagam informações incorretas (incompletas, para dizer o mínimo), contribuindo para a desinformação do maçom brasileiro.

Embora não faça parte do escopo deste trabalho, é importante frisar a importância do que chamamos de “educação maçônica”, de buscarmos informações em autores sérios, que baseiam seu trabalho em fontes confiáveis, e não apenas em opiniões pessoais. Na obra “Masonic Discourses”, de um ex dirigente de uma importante Grande Loja norte-americana, lemos que “um maçom educado é um maçom dedicado” (ALADRO, 2014, V. 1, p. 13).

2 – Conceitos básicos

Tendo em vista as frequentes confusões causadas por seu emprego e interpretação equivocadas e, em nome de uma melhor compreensão, antes de entrarmos efetivamente no tema central deste artigo, é fundamental que trabalhemos alguns conceitos básicos, no intuito de esclarecer suas definições e aplicações práticas.

2.1 – Potência e Obediência

Potência maçônica e obediência maçônica são dois termos amplamente utilizados no Brasil e frequentemente tidos como sinônimos.

A dificuldade em torno de suas definições reside, sobretudo, no fato de que sua utilização no contexto maçônico é algo eminentemente latino, isto é, os termos são raramente encontrados em outras culturas, onde quer que seja. A título de esclarecimento, nos países de origem não latina, a expressão equivalente é corpo maçônico.

Assim, a despeito de serem considerados intercambiáveis, entendemos que cabe uma diferenciação, baseada nas definições de ambas as palavras nos dicionários da língua portuguesa, que pressupõem uma diferenciação clara.

Enquanto o verbete “potência” define a soberania, o poder e a capacidade de se fazer obedecer, isto é, a autoridade sobre algo ou alguém que a ela se submeta, “obediência”, ao contrário, implica a ideia de submissão a uma autoridade superior.

Dessa oposição conceitual, depreende-se que, considerando exclusivamente as organizações maçônicas regulares no Brasil, o Grande Oriente do Brasil (poder central), as Grandes Lojas confederadas à Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil-CMSB e os Grandes Orientes estaduais confederados à Confederação Maçônica do Brasil-COMAB podem ser considerados potências maçônicas, enquanto os Grandes Orientes estaduais federados ao Grande Oriente do Brasil se enquadram no conceito de obediência maçônica.

No entanto, em nome de uma maior praticidade, neste trabalho foi utilizado o termo “potência maçônica” para se referir a potências ou obediências.

2.2 – Grande Oriente e Grande Loja

Existem algumas hipóteses quanto às diferenças entre as duas denominações e, como era de se esperar, é muito difícil afirmar que essa ou aquela seja a correta. No entanto, indubitavelmente, o emprego do termo Grande Loja é anterior ao surgimento de Grande Oriente.

A seguir analisaremos algumas dessas teorias:

Conforme observa Carolino (2018), inicialmente, por Grande Oriente, entendia-se o local (a sede) onde tinham lugar as assembleias, convenções e comunicações das Grandes Lojas. Para ele, a denominação Grande Loja teria surgido inicialmente na Alemanha, embora sua sistematização tenha se dado na Inglaterra, no ano de 1717. Por outro lado, ainda segundo o mesmo autor, o primeiro Grande Oriente, na acepção que utilizamos atualmente, teria se originado na França, por volta de 1773, e por mera obra do acaso.

Já Christopher Hodapp, em “Maçonaria para Leigos”, nos apresenta uma versão diferente. De acordo com esse autor, há alguns detalhes que diferenciam um Grande Oriente de uma Grande Loja:

Um Grande Oriente considera-se uma federação de diferentes Lojas. As Lojas que ele preside podem ter uma grande variedade de rituais, costumes e práticas, e o Grande Oriente age como um corpo administrativo simples, com poucas regras para todo o grupo.
Um Grande Oriente é composto de um Grão-Mestre e um conselho nomeado por ele. Esse conselho, por sua vez, nomeia o Grão-Mestre. Ele não tem um órgão administrativo composto por representantes das muitas Lojas que supervisiona. De fato, é uma oligarquia […]. (HODAPP, 2015, p. 119-120).

Uma terceira visão, sustentada por Henderson e Pope, diz que uma Grande Loja

Consiste em representação livre e igual de suas Lojas constituintes.
É independente, soberana e autônoma, formada e mantida pelos Maçons de sua jurisdição.
Assume, através de constituições escritas, todo o poder legislativo sobre suas Lojas constituintes e muitos poderes administrativos e judiciais.
É controlada por um Grão-Mestre eleito, por seus Membros e pelos Grandes Oficiais, sendo todos responsáveis por ela.
(HENDERSON; POPE, 2001, p. 30).

Por outro lado, assim como Hodapp (2015, p. 120), os autores definem Grande Oriente como “uma oligarquia Maçônica”, onde “o Grão-Mestre sempre é designado pelo conselho e este tem o poder executivo para designar qualquer Membro, com um resultado autoperpetuante” (2001, p. 31).

Ainda sobre essa forma de governo, Henderson e Pope acrescentam que, com frequência,

um Grande Oriente é subordinado a um Supremo Conselho do Rito Escocês”, o que “apresenta uma barreira ao reconhecimento”, embora existam aqueles que “controlam um sistema do Rito Escocês dentro de sua Jurisdição; e alguns são completamente separados do Rito Escocês (2001, p. 32).

Hoje em dia, a despeito das origens e formas de governo diversas, os dois termos carregam o mesmo significado, qual seja, um corpo maçônico superior, que congrega sob a sua égide todas as suas Lojas jurisdicionadas.

Assim como feito quando da opção pela utilização da expressão potência maçônica (devidamente explicitado na subseção anterior) e, pelas mesmas razões, foi empregado, de maneira genérica, o termo “Grande Loja” para designar tanto Grandes Lojas quanto Grandes Orientes.

2.3 – Regularidade e Reconhecimento

Certamente dentre os termos menos compreendidos pela maioria esmagadora dos maçons, regularidade e reconhecimento, embora absolutamente diferentes, estão intimamente ligados, e isso causa toda a confusão que os envolve.

Em rápidas palavras, tentaremos esclarecer todas as dúvidas que pairam sobre o real significado, maçonicamente falando, dessas duas palavras.

Regularidade é um conceito concreto, absoluto, que não deixa margem para quaisquer dúvidas, uma vez que se faça uma análise cuidadosa de alguns documentos.

Existem certos conjuntos de princípios para a determinação da regularidade ou não de uma potência maçônica, que serão descritos adiante, na seção 4. Uma vez que a potência em questão preencha todos aqueles requisitos, uma vez que siga todos aqueles princípios, ela é indubitavelmente regular. Lado outro, o não atendimento de um único princípio, qualquer que seja ele, é o bastante para decretar sua irregularidade.

Reconhecimento, por sua vez, é uma prerrogativa de cada potência, calcada no princípio básico da soberania, segundo o qual potência alguma pode estar sujeita à autoridade de qualquer outro corpo maçônico. Trata-se de um acordo, um ato diplomático, uma decisão necessariamente bilateral (ainda que a vontade de um dos envolvidos possa ter um peso maior).

Conforme nos diz a Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil, um dos principais pontos do protocolo de relações interpotenciais maçônicas é aquele que diz que “sempre a Potência Maçônica mais nova solicita o reconhecimento da Potência mais antiga” (2000, p. 6).

Para uma compreensão mais ampla dos conceitos aqui abordados, há dois outros pontos dignos de menção:

  • a) ainda que seja prerrogativa exclusiva de uma potência maçônica, o reconhecimento só deve ser estendido (maçonicamente, estender o reconhecimento é o mesmo que concedê-lo) a outra potência sobre cuja regularidade não reste qualquer dúvida. Ao reconhecer um corpo irregular, a potência que estende o reconhecimento se torna, automaticamente, tão irregular quanto aquela; e
  • b) reconhecimento é um privilégio, não um direito, significando que a assunção da regularidade de uma potência não implica, em absoluto, no seu reconhecimento, embora seja condição sine qua non para que possa ser efetivamente reconhecida.

Finalizando esta subseção, ainda sobre a situação descrita no item “b” acima, Aquiles Garcia nos lembra que:

O NÃO RECONHECIMENTO DE UMA POTÊNCIA POR OUTRA NÃO INDUZ, NECESSARIAMENTE, QUE A PRIMEIRA SEJA “IRREGULAR”, mas sim, alternativamente, ou porque (a) não há similitude ritualística, doutrinal e organizacional entre as duas Potências, o que dificultaria sobremodo o intercâmbio maçônico, ou porque (b) não há interesse politico para esse reconhecimento, que é fator eminentemente subjetivo. (GARCIA, 2012, p. 183).

2.4 – Irregular e Espúrio

Baseado no exposto na subseção anterior, resta pouca dúvida quanto ao que venha a ser uma organização maçônica irregular. No entanto, existe outro termo amplamente utilizado para definir tais instituições, mas que, a rigor, tem significado diverso. Trata-se do termo “espúrio”.

Irregular, segundo os dicionários da língua portuguesa, seria toda pessoa ou instituição que não esteja em conformidade com as normas ou regulamentos estabelecidos, em suma, que incorra em uma ou mais irregularidades.

Espúrio, por sua vez, denota aquilo que seja ilegítimo, falsificado. Ou seja, implica uma atividade ilegal, algo absolutamente diverso do simples não atendimento de determinados requisitos.

Assim, é correto dizer que toda organização espúria é necessariamente irregular, embora nem toda irregular possa ser classificada como espúria, por envolver questões outras que não os princípios básicos de regularidade.

2.5 – Landmarks

Muito se fala sobre os chamados landmarks, mas será que realmente sabemos a que nos referimos quando os mencionamos?

Segundo Pound, os landmarks nada mais são que “um conjunto de preceitos de validade Maçônica universal, unindo Maçons e organizações Maçônicas em todos os lugares e em todos os tempos” (POUND, 1953 apud COOPER, 2015, p. 3, tradução nossa).

Já Mckeown (2016, p. 1, tradução nossa) aponta que “a primeira tentativa, por parte de alguma Grande Loja, de definir os landmarks foi na união das Grandes Lojas Inglesas em 1813, quando elas os definiram como a iniciação, passagem, elevação e instrução de candidatos – nada mais que isso”.

Até esse ponto tudo pode parecer muito claro, mas é justamente onde o quadro começa a se complicar. Ao contrário do que muitos maçons brasileiros possam pensar, os landmarks que conhecemos não só não são universalmente aceitos como também não constituem o único conjunto existente.

O que adotamos no Brasil é tão somente a compilação de 25 preceitos, dentre os muitos que eram então aceitos pelas mais diversas Grandes Lojas, feita pelo maçom norte-americano Albert G. Mackey, em 1858 (mais de um século, portanto, após a fundação da primeira Grande Loja, ocorrida em 1717). Se são assim tão fundamentais, e se a compilação de Mackey é mesmo a única válida, como a Maçonaria sobreviveu por mais de 100 anos sem eles?

Assim como Mackey, outros estudiosos também o fizeram, de modo que existem diferentes conjuntos de landmarks, que diferem, não só em seu conteúdo, mas também no número de preceitos incluídos. Dentre os principais autores de compilações de landmarks, citamos Luke Lockwood, H. B. Grant, John Simons, Rob Morris, Roscoe Pound e Albert Pike.

E mais, se Mackey não foi o único a compilar sua própria lista, tampouco foi o primeiro. Aqui recorremos novamente a McKeown (2016, p. 1, tradução nossa), que nos diz que, apenas nos Estados Unidos, antes de Mackey, o fizeram as Grandes Lojas dos estados do Missouri, em 1850, da Califórnia, em 1852 (embora sem sucesso), e de Minnesota, em 1856, além da iniciativa pessoal de Rob Morris, também em 1856, ainda que, anos mais tarde, em 1874, em sua “Enciclopédia de Maçonaria”, apresente a alegação de que teria sido o primeiro a fazê-lo.

E diferentes Grandes Lojas aderem a diferentes conjuntos de landmarks, existindo até mesmo aquelas que não adotam nenhum deles. Como exemplo, podemos citar Silas Shepherd (1915), que, em um artigo publicado na revista “The Builder”, destaca que as Grandes Lojas norte-americanas dos estados do Alabama, Louisiana, Mississippi, Ohio, Texas e Utah não adotam nenhum conjunto em particular e, de outro lado, temos as Grandes Lojas dos estados de Connecticut, que adota uma lista com 19 landmarks, Kentucky, com 54 princípios, New Jersey, com 10, Nevada, com 39, Tennessee, com 15 e, finalmente, West Virginia, com 7.

E Morris acrescenta que se trata de algo eminentemente americano, uma vez que “a Grande Loja da Inglaterra, que deve saber algo sobre o assunto, não adotou os Landmarks”, considerando-os um “desperdício de energia” (MORRIS, 1993 apud Bizzack, 2018, p. 11, tradução nossa).

Andrew McBride, já em 1914, chamava nossa atenção para o fato de que “entre maçons, não há palavra mais comum, e nem menos compreendida, que ‘landmarks‘. A importância de sabê-los é do conhecimento de todos; sua compreensão é restrita a poucos” (McBRIDE, 1914 apud Bizzack, 2018, p. 1, tradução nossa). Embora escritas há mais de um século, suas palavras permanecem perfeitamente adequadas à realidade atual.

2.6 – List of Lodges, Masonic

Tão mal compreendido quanto os termos analisados nas subseções anteriores é o List of Lodges, Masonic.

Não raro ouvimos maçons brasileiros se referirem a essa publicação como sendo de responsabilidade das Grandes Lojas norte-americanas; a referência definitiva quanto a quem seja ou não regular; e, até mesmo, a lista de todas as potências maçônicas do mundo que tenham sido reconhecidas pela Grande Loja Unida da Inglaterra. Todas essas afirmações não poderiam estar mais distantes da verdade.

Em primeiro lugar, trata-se de uma publicação independente, produzida por uma companhia editorial que não tem nenhuma ligação, exceto uma relação estritamente comercial, com quaisquer Grandes Lojas, de onde quer que sejam.

O requisito para que uma Grande Loja seja incluída no livro é que seja reconhecida por, no mínimo, 10 Grandes Lojas dentre as 51 dos Estados Unidos. Ou seja, para qualquer potência maçônica, ter seus dados nas páginas da publicação garante, tão somente, que ao menos uma dezena de Grandes Lojas a reconhecem e, ao contrário, a ausência de qualquer Grande Loja no List of Lodges, Masonic não implica em sua irregularidade.

Finalmente, e em decorrência do exposto acima, a Grande Loja Unida da Inglaterra não necessariamente reconhece todas as potências maçônicas que aparecem no livro, uma vez que o requisito é o seu reconhecimento por 10 Grandes Lojas dos Estados Unidos.

3 – Antecedentes históricos

Em meados do século XVIII, a Maçonaria viveu sua primeira grande divisão, quando duas Grandes Lojas antagônicas lutavam pela hegemonia da instituição na Inglaterra: a Grande Loja de Londres que, embora mais antiga, foi alcunhada como “dos Modernos”, e a Grande Loja dos Antigos, que observou um crescimento significativo, aliado à sua aproximação com as Grandes Lojas da Irlanda e Escócia (DEL SOLAR, 2017, p. 23-24). Esse crescimento dos Antigos, em grande parte, se deveu à sua maior expansão nos Estados Unidos.

Entre os anos de 1777 e 1791, Lojas em diversos estados norte-americanos se desligaram dos ingleses, iniciando o processo de constituição de Grandes Lojas independentes.

Para Felipe Santiago Del Solar

Foi durante esse processo que se gerou o princípio de exclusividade jurisdicional, norma que estabelecia que cada Grande Loja exercia soberania em um setor geográfico determinado e, consequentemente, controlava as Lojas que ali existissem.
Deste modo, o Pacto de União de 1813, que deu vida à Grande Loja Unida da Inglaterra, se permitiu a unidade britânica, manteve a existência de um espaço completamente autônomo, como os Estados Unidos, que não só deixou de reconhecer a primazia da Inglaterra mas, ainda, impulsionou um processo de territorialização análogo ao desenvolvido pelo Grande Oriente de França na Europa (2017, p. 24-25, tradução nossa).

Importante notar que a questão da exclusividade jurisdicional (ou territorial), mencionada por Del Solar, ainda que não esteja explicitada nas listas de princípios de regularidade expostas detalhadamente a seguir, exceção feita àquela elaborada pela Conferência de Grão-Mestres de Maçons na América do Norte, é algo aceito tacitamente por todo o mundo maçônico.

4 – Princípios de Regularidade

Existem alguns conjuntos de princípios fundamentais a serem respeitados por toda e qualquer potência maçônica que deseje ser considerada regular, dos quais os mais frequentemente considerados são aqueles elaborados pela United Grand Lodge of England, pela Grande Loge Nationale Française e pela Commission on Information for Recognition, órgão da Conference of Grand Masters of Masons in North America. A Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil-CMSB, também adota sua própria lista de princípios de regularidade.

Esses quatro conjuntos são transcritos nas subseções seguintes.

4.1 – United Grand Lodge of England

Inicialmente veremos a versão inglesa, originalmente publicada em 4 de setembro de 1929, e certamente a mais aceita em todo o mundo.

Segundo o que podemos ler nas Constituições da Grande Loja Unida da Inglaterra, para que seja considerada regular e, consequentemente, apta a solicitar o reconhecimento inglês, qualquer potência maçônica deve preencher os seguintes princípios:

  1. Regularidade de origem; isto é, cada Grande Loja deve ter sido legalmente estabelecida por uma Grande Loja devidamente reconhecida ou por três ou mais Lojas regularmente constituídas.
  2. Que uma crença no Grande Arquiteto do Universo e Sua verdade revelada seja uma qualificação essencial para filiação.
  3. Que todos os Iniciados tomem seus Juramentos sobre ou na presença do Volume da Lei Sagrada, o que significa a revelação do alto, que é o compromisso na consciência do indivíduo em particular que está sendo iniciado.
  4. Que a filiação à Grande Loja e às Lojas individuais seja composta exclusivamente por homens; e que cada Grande Loja não mantenha relacionamento Maçônico de qualquer espécie com Lojas mistas ou com corpos que admitam a filiação de mulheres.
  5. Que a Grande Loja tenha jurisdição soberana sobre as Lojas sob seu controle; isto é, que seja uma organização responsável, independente e autogovernada, com autoridade exclusiva e não-disputada sobre o Ofício ou Graus Simbólicos (Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom)
    na sua Jurisdição; e, de modo algum, esteja sujeita a, ou divida tal autoridade com um Supremo Conselho ou outra Potência alegando qualquer controle ou supervisão sobre esses graus.
  6. Que as três Grandes Luzes da Maçonaria (o Volume da Lei Sagrada, o Esquadro e o Compasso) devam sempre ser expostos quando a Grande Loja ou suas Lojas subordinadas estejam trabalhando, o principal desses sendo o Volume da Lei Sagrada.
  7. Que a discussão de religião e política dentro de Loja seja estritamente proibida.
  8. Que os princípios dos Antigos Landmarks, usos e costumes do Ofício sejam estritamente observados. (UNITED GRAND LODGE OF ENGLAND-UGLE, 2020, p. xivxv, tradução nossa).

O não cumprimento de quaisquer dos itens acima listados implica na irregularidade, o que não admite questionamentos. Desde que não atenda a um único desses princípios, de nada adianta que uma Grande Loja respeite todos os demais; ainda assim será tida como irregular. importante lembrar que a irregularidade decretada pelo descumprimento de determinados princípios em particular, devido à sua natureza, é passível de reversão.

Ressalte-se que, assim como ocorre com todas as potências maçônicas regulares do mundo, o cumprimento integral dos princípios de regularidade não garante o reconhecimento por parte da Grande Loja Unida da Inglaterra, uma vez que se trata de uma prerrogativa exclusiva de cada Grande Loja, o que é assegurado pelo princípio de número 5, que garante sua soberania e independência.

4.2 – Grande Loge Nationale Française

Visto o que pressupõe a versão inglesa, passemos à apresentação do que dita aquela adotada pela Grande Loja Nacional Francesa, conhecida como a “regra em doze pontos”, aprovada por sua Assembleia Geral, realizada no dia 7 de dezembro de 1968:

  1. A Maçonaria é uma fraternidade iniciática que tem por fundamento tradicional a fé em Deus, Grande Arquiteto do Universo.
  2. A Maçonaria se refere aos “Antigos Deveres” e aos “Landmarks” da Fraternidade, notadamente quanto ao respeito absoluto às tradições específicas da Ordem, essencial à regularidade de sua jurisdição.
  3. A Maçonaria é uma Ordem à qual só podem pertencer homens livres e respeitáveis, que se engajam a colocar em prática um ideal de paz, de amor e de fraternidade.
  4. A Maçonaria visa, pelo aperfeiçoamento moral de seus membros, o de toda a humanidade.
  5. A Maçonaria impõe a todos os seus membros a prática exata e escrupulosa dos rituais e do simbolismo, meios de acesso ao conhecimento pelas vias espirituais e iniciáticas que lhe são próprias.
  6. A Maçonaria impõe a todos os seus membros o respeito pelas opiniões e crenças de cada um. Ela proíbe em seu seio qualquer discussão ou controvérsia política ou religiosa. É, assim, um centro permanente de união fraternal onde reina uma compreensão tolerante e uma frutífera
    harmonia entre homens que, fora dela, teriam permanecido estranhos uns aos outros.
  7. Os Maçons tomam seus juramentos sobre um Volume da Lei Sagrada, a fim de dar à promessa o caráter solene e sagrado indispensável à sua perenidade.
  8. Os Maçons se reúnem, fora do mundo profano, em Lojas onde estão sempre expostas as três grandes Luzes da ordem: um Volume da lei Sagrada, um Esquadro e um Compasso, para trabalhar de acordo com o rito, com zelo e assiduidade, em conformidade com os princípios e regras prescritas pelas Constituições da Obediência.
  9. Os Maçons não devem admitir em suas Lojas senão homens adultos, de reputação perfeita, homens de honra, leais e discretos, dignos em todos os aspectos de ser seus irmãos e aptos a reconhecer os limites do domínio do homem e do infinito poder do Eterno.
  10. Os Maçons cultivam em suas Lojas o amor à Pátria, a submissão às leis e o respeito às Autoridades constituídas. Eles consideram o trabalho como o dever primordial do ser humano e o honram em todas as suas formas.
  11. Os Maçons contribuem, pelo exemplo ativo de seu comportamento viril e digno, para a resplandecência da Ordem em respeito ao sigilo maçônico.
  12. Os Maçons devem honra, ajuda e proteção fraternal mútua, mesmo que com risco a suas vidas. Eles praticam a arte de conservar, sob todas as circunstâncias, a calma e o equilíbrio indispensáveis a um perfeito autocontrole. (GRANDE LOGE NATIONALE FRANÇAISE-GLNF, 2020, tradução nossa).

4.3 – Commission for Information on Recognition

Aqui são reproduzidos os princípios adotados na América do Norte, elaborados em 1952 pela Comissão de Informações para Reconhecimento, órgão da Conferência de Grão-Mestres de Maçons na América do Norte:

  1. Legitimidade de Origem.
  2. Jurisdição Territorial Exclusiva, exceto por consenso mútuo e/ou tratado.
  3. Aderência aos Antigos Landmarks – especificamente, uma Crença em Deus, o Volume da Lei Sagrada como uma parte indispensável do mobiliário da Loja, e a proibição da discussão sobre política e religião. (CONFERENCE OF GRAND MASTERS OF MASONS IN NORTH AMERICACOGMNA, 2019, tradução nossa).

À primeira vista, especialmente sob um olhar incauto, os princípios norte-americanos podem parecer demasiadamente simplificados, mas uma análise um pouco mais atenta mostra que basicamente todos os princípios adotados na Inglaterra e na França estão aqui contemplados.

Em estrito cumprimento ao princípio da soberania de cada Grande Loja, – e não poderíamos pensar que essa Comissão, por definição, apenas abastece as Grandes Lojas membros da Conferência com o resultado de suas investigações, “e não tenta influenciar ou recomendar que ação deva ser tomada” (COGMNA, 2019, tradução nossa).

4.4 – Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil

Encerrando esta seção, voltemo-nos para os princípios adotados pela Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil-CMSB, conforme estabelece seu “Manual das Relações Exteriores das Grandes Lojas Brasileiras”, elaborado para servir como um “roteiro teórico e prático” a seus membros, como forma de “orientar e padronizar o relacionamento entre as Grandes Lojas Brasileiras e a Maçonaria Internacional” (CONFEDERAÇÃO DA MAÇONARIA SIMBÓLICA DO BRASIL-CMSB, 2000, p. 2):

  • a crença em Deus, o Grande Arquiteto do Universo que invoca;
  • o sigilo absoluto;
  • o simbolismo da Maçonaria Operativa;
  • a divisão da Maçonaria nos 3 graus: Aprendiz, Companheiro e Mestre-Maçom;
  • a lenda do Terceiro Grau;
  • o juramento em nome de Deus sobre o Livro Sagrado que é parte imprescindível das alfaias da Loja e aberto durante os seus trabalhos;
  • a presença em Loja das três Grandes Luzes da Maçonaria: O Livro Sagrado, o Esquadro e o Compasso, durante os trabalhos;
  • as finalidades dominantes da Caridade, Benevolência e Educação, assim como a livre investigação da Verdade;
  • a absoluta proibição de toda a discussão de questões partidárias, políticas e religiosas. (CMSB, 2000, p. 3.).

Importante ressaltar que, salvo pequenas variações e diferenças no estilo de redação, os princípios básicos que norteiam o conceito de potência maçônica regular são os mesmos em todo o mundo.

5 – Landmarks e Constituições de Anderson

De acordo com o exposto na subseção 2.5, é difícil determinarmos precisamente o que vêm a ser os landmarks, mencionados nos três primeiros conjuntos de princípios básicos de regularidade vistos na seção anterior.

A Grande Loja Unida da Inglaterra (2020, p. XV) exige “que os princípios dos Antigos Landmarks, usos e costumes do Ofício sejam estritamente observados”. Já para a Grande Loja Nacional Francesa (2020), “a Maçonaria se refere aos ‘Antigos Deveres’ e aos ‘Landmarks‘ da Fraternidade, notadamente quanto ao respeito absoluto às tradições específicas da Ordem, essencial à regularidade de sua jurisdição”. Finalmente, a Comissão de Informações para Reconhecimento (COGMNA, 2019) pressupõe a “aderência aos Antigos Landmarks – especificamente, uma Crença em Deus, o Volume da Lei Sagrada como uma parte indispensável do mobiliário da Loja, e a proibição da discussão sobre política e religião”.

Mas, se os landmarks são amplamente aceitos como um requisito fundamental para a regularidade maçônica, e se existem diversas compilações, como saber a que landmarks exatamente nos referimos?

Ainda que, aparentemente, não tenhamos a resposta a esse questionamento, Cooper (2015, p.10-14) nos apresenta uma hipótese bastante plausível. Ele sugere que, uma vez que não tenhamos condições de definir com precisão a que landmarks devemos nos ater, a solução seria nos voltarmos àqueles princípios fundamentais, comuns a todas as organizações maçônicas, quais sejam: a tradição iniciática e a preservação de seus rituais. Em outras palavras, para Cooper, a resposta à questão da definição dos landmarks estaria nos próprios rituais maçônicos.

O mesmo Cooper nos fala sobre a máxima Lex Orandi, Lex Credendi que, em tradução livre, pode ser entendida como “a lei da oração é a lei da crença” (2015, p. 11, tradução nossa). Ora, é inegável que os rituais maçônicos são uma importante fonte de conhecimentos, e que, especialmente os rituais mais antigos, nos fornecem preciosas informações sobre a natureza da Maçonaria. Assim, a resposta que tanto buscamos estaria encerrada nos vários “catecismos” encontrados nos rituais maçônicos, tanto os atuais quanto os mais antigos.

Voltemos, pois, nossa atenção ao terceiro princípio de regularidade elencado pela lista norte-americana, que nos diz claramente que os antigos landmarks seriam “especificamente, uma Crença em Deus, o Volume da Lei Sagrada como uma parte indispensável do mobiliário da Loja, e a proibição da discussão sobre política e religião” (COGMNA, 2019, tradução nossa), e não qualquer outra compilação de deveres feita por esse ou aquele autor, e adotada por essa ou aquela Grande Loja em particular. Isso parece esclarecer nossa dúvida.

No que se refere às Constituições de Anderson, o desafio não é tão mais simples do que aquele que diz respeito aos landmarks.

Publicada originalmente em 1723, sob o título The Constitutions of the Free-Masons containing the History, Charges, Regulations, &c. of the most Ancient and Right Worshipful Fraternity (em tradução livre, “As Constituições dos Pedreiros-Livres contendo a História, Deveres, Regulamentos, etc. da mais Antiga e Respeitável Fraternidade”), foi escrita por James Anderson como sendo o conjunto de regras e regulamentos da primeira Grande Loja.

Ocorre que a própria Grande Loja Unida da Inglaterra, sucessora daquela Grande Loja original, já não adota as Constituições de Anderson há cerca de dois séculos e meio. Como, então, em pleno século XXI, ainda há tantas potências que declaram segui-las fielmente?

No Brasil, explicitamente, adotam as Constituições de Anderson o Grande Oriente do Brasil-GOB, as Grandes Lojas dos estados de Alagoas, Amazonas, Amapá, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins, além dos 22 Grandes Orientes estaduais confederados à COMAB (que, segundo seu Estatuto, só aceita como membros aquelas obediências que adiram às Constituições de Anderson). Lado outro, há quem, como as Grandes Lojas do Distrito Federal e Piauí, que não faz menção alguma a elas, e ainda outras que afirmam adotar as “antigas Constituições”, embora não mencionem diretamente o nome de Anderson, como as Grandes Lojas do Acre, Espírito Santo, Pará e São Paulo.

Se a questão envolvendo esse documento é complexa, a resposta a essa pergunta, todavia, é simples: porque parcela considerável dos maçons brasileiros sequer sabe o que realmente pregam as Constituições de Anderson.

Uma leitura rápida de seu conteúdo é o bastante para constatarmos que trata-se de um conjunto de normas absolutamente ultrapassado, impossível de ser seguido nos dias de hoje (inadequadas, para dizer o mínimo). No entanto, ainda assim, insistimos em dizer que as adotamos.

E isso sem mencionar o fato de que, como nos lembra Ismail (2015), por se tratar da legislação particular de uma Grande Loja específica, como poderíamos ser instados a segui-la, uma vez que não somos filiados àquela potência maçônica?

Assim, no tocante aos landmarks e às Constituições de Anderson, pode-se dizer que sua importância, nos dias de hoje, é tão somente histórica (valor esse que não pode ser menosprezado), não tendo lugar, no entanto, como legislação a ser cumprida.

6 – Organizações regulares no Brasil

Ante o exposto nas seções anteriores, e com base nos vários reconhecimentos firmados no Brasil, a tarefa de enumerar as potências maçônicas regulares existentes em nosso país não se constitui em nenhum desafio em especial.

Ainda que nem todas se reconheçam mutuamente, e ainda que subsistam algumas divergências aqui e ali, podemos com relativa facilidade enunciar que, no Brasil, existem três grandes grupos maçônicos regulares, conforme dito acima, na subseção 2.1:

  • o Grande Oriente do Brasil-GOB, com seus Grandes Orientes Estaduais federados;
  • as Grandes Lojas, em número de 27 (sendo uma em cada Unidade da Federação), confederadas à Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil-CMSB;
  • os Grandes Orientes estaduais, em número de 22, confederados à Confederação Maçônica do Brasil-COMAB.

Assim, chegamos ao número total das potências maçônicas simbólicas regulares brasileiras, qual seja, 50.

7 – Organizações irregulares no Brasil

Ao contrário do que ocorre com as potências maçônicas regulares, qualquer tentativa, por modesta que seja, de catalogar as organizações que, a despeito de não preencherem um ou mais dos princípios de regularidade, se autoproclamam maçônicas, é tarefa das mais árduas.

Isso porque, movidas por razões as mais diversas, tais organismos não cessam de surgir, tanto no Brasil quanto em várias outras partes do mundo.

Como o foco deste estudo são as organizações desse tipo existentes em nosso país, vamos voltar nossa atenção a elas, desconsiderando, aqui, todas aquelas em funcionamento em outros países.

Fruto de um trabalho de pesquisa realizado por um grupo de maçons brasileiros, foi elaborada uma listagem com todas as organizações irregulares que lhes foi possível identificar, até o momento em número superior a uma centena. Esse esforço conjunto foi iniciado há mais de uma década, e seus resultados vêm sendo constantemente atualizados, até mesmo em função do frequente surgimento de novas instituições.

Dentre todos os organismos identificados até o momento, 61 têm atuação nacional, enquanto as outras restringem sua área de influência a alguma região específica. Por razões óbvias, e também em nome da brevidade, a lista completa não será reproduzida neste trabalho.

No entanto, apenas a título de ilustração, as Unidades da Federação com maior incidência de organizações irregulares são os estados do Rio Grande do Sul, com 8, São Paulo, com 7, Minas Gerais e Paraná, com 4 cada, e Amazonas, com 3 organismos.

Importante ressaltar que tais instituições estão presentes, em maior ou menor escala, em todas as Unidades da Federação.

8 – Regularidade de Corpos Maçônicos dos Altos Graus

Até aqui tratamos exclusivamente do conceito de regularidade aplicado à Maçonaria Simbólica, isto é, no que se diz respeito às potências maçônicas cuja jurisdição abrange tão somente os três graus simbólicos (Aprendiz Maçom, Companheiro Maçom e Mestre Maçom).

Mas os chamados “altos graus”, independentemente do rito maçônico a que se referem, não estão isentos da questão da regularidade de suas organizações. Ao contrário, organismos irregulares existem em profusão.

Embora situação similar ocorra no que tange a diversos outros ritos, nesta seção, a título de exemplo, abordaremos apenas os altos corpos do Rito Escocês Antigo e Aceito-REAA, devido à sua maior influência em nosso país.

Os Supremos Conselhos, como são chamados os os altos corpos do REAA, para que sejam tidos como regulares, devem preencher alguns requisitos, impostos pelas leis internacionais do rito. E segundo essas leis, conforme descreve Ismail, em sua obra “Ordem Sobre o Caos”,

com exceção dos EUA, somente pode haver um Supremo Conselho por país, o qual deve ter sua linhagem comprovada até o Supremo Conselho “Mãe do Mundo” e a sucessão de seus Soberanos Grandes Comendadores, do atual, até daquele a quem a carta foi outorgada (ISMAIL, 2020, p. 50).

O mesmo Ismail ainda nos conta que

são basicamente três pontos essenciais de regularidade no REAA: 1) ter sido fundado com base em carta emitida por outro Supremo Conselho comprovadamente regular; 2) apresentar sucessão de Soberanos Grandes Comendadores, do atual até aquele para quem foi emitida a carta; 3) não possuir outro Supremo Conselho comprovadamente regular mais antigo no mesmo país (com exceção dos EUA) (ISMAIL, 2020, p. 55).

Qualquer organização, que se autoproclame um Supremo Conselho do REAA, desde que não possa traçar sua genealogia até o Supremo Conselho da Jurisdição Sul dos Estados Unidos, em Charleston, Carolina do Sul, não pode ser considerada regular.

Outro indicador da regularidade é a participação efetiva na Conferência Mundial de Supremos Conselhos. Em não podendo comprovar sua regularidade, um Supremo Conselho simplesmente não é aceito na conferência, o que, para o mundo maçônico, equivale a dizer que ele não exista. E uma irregularidade na origem é algo que não se pode modificar.

Vale lembrar que, em função da necessária dissociação entre um Supremo Conselho e qualquer potência maçônica simbólica, é perfeitamente possível que um maçom esteja em condição regular no simbolismo, sendo membro de uma Grande Loja regular, mas apresente situação diversa nos altos graus, ao ser filiado a um Supremo Conselho irregular.

9 – Conclusão

Embora seja, indubitavelmente, um tema da mais alta relevância, e que, direta ou indiretamente, diz respeito a todos os membros da Maçonaria, a questão da regularidade maçônica é ainda muito pouco explorada e, em consequência disso, muito pouco compreendida por grande parte dos maçons brasileiros.

Assim, movido por essa lacuna na literatura maçônica disponível em nosso país, este estudo se propôs a apresentar, com a maior clareza possível, os principais aspectos relacionados à regularidade e suas várias implicações, como por exemplo, os reconhecimentos – o que é usualmente chamado de “relacionamento interpotencial maçônico”.

Não temos a pretensão de esgotar o assunto, até mesmo em função de sua complexidade, mas esperamos que este trabalho seja útil no sentido de elucidar as dúvidas mais frequentes.

Esperamos, ainda, que sirva de estímulo a que outros maçons se debrucem sobre o tema, contribuindo para o sempre necessário incremento da chamada “educação maçônica”.

,Autor: Rodrigo Otávio dos Anjos

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

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Referências

ALADRO, Jorge L. Masonic Discourses – Volume I. Melbourne, Florida: Blue Note, 2014. BIZZACK, John W. Treading on Soft Ground: Invented Landmarks – The Early List-Makers. 2018. Disponível em: . Acesso em: 22 abr. 2020. CAROLINO, Aildo V. Os Sistemas Grande Oriente e Grande Loja. 2018. Disponível em . Acesso em: 19 abr. 2020. CONFEDERAÇÃO DA MAÇONARIA SIMBÓLICA DO BRASIL. Manual das Relações Exteriores das Grandes Lojas Brasileiras. Brasília: CMSB, 2000. CONFERENCE OF GRAND MASTERS OF MASONS IN NORTH AMERICA. Commission on Information for Recognition. The Standards of Recognition. 2019. Disponível em: . Acesso em: 19 abr. 2020. COOPER, John L. Into the Maelstrom: The Issue of Masonic Regularity, Past and Present. Policy Studies Organization, 2015. Disponível em: . Acesso em: 19 abr. 2020. DEL SOLAR, Felipe S. Por una Masonería Universal. Orígenes de la Confederación Masónica Interamericana, CMI. 1ª ed. Santiago de Chile: Ril Editories, 2017. DICIONÁRIO Michaelis. Disponível em: . Acesso em: 19 abr. 2020. GARCIA, Aquiles. Maçonaria: da Gênese dos Supremos Conselhos de Charleston e do Brasil ao Cisma de 1927. São Paulo: Livronovo, 2012. GRANDE LOGE NATIONALE FRANÇAISE. La Règle en Deuze Points. 2020. Disponível em . Acesso em: 19 abr. 2020. HENDERSON, Kent; POPE, Anthony. Maçonaria Universal: um Novo Guia para o Mundo Maçônico. São Paulo: Madras, 2001. HODAPP, Christopher. Maçonaria para Leigos. Rio de Janeiro: Alfa Books, 2015. ISMAIL, Kennyo. A Constituição de Anderson nos dias atuais. 2015. Disponível em: . Acesso em: 19 abr. 2020. ISMAIL, Kennyo. Ordem Sobre o Caos. Brasília: No Esquadro, 2020. McKEOWN, Trevor W. The Landmarks of the Order. Grand Lodge of British Columbia and Yukon, 2016. Disponível em: < https://freemasonry.bcy.ca/history/ landmarks.pdf >. Acesso em: 22 abr. 2020. SHEPHERD, Silas H. The Landmarks of Masonry. The Builder Magazine, Anamosa, Iowa, v. 8, ago. 1915; v. 9, set. 1915. Disponível em: . Acesso em: 22 abr. 2020. UNITED GRAND LODGE OF ENGLAND. Constitutions of the Ancient Fraternity of Free and Accepted Masons Under the United Grand Lodge of England, Containing the General Charges, Laws and Regulations Etc., Etc. 2020 Disponível em: . Acesso em: 19 abr. 2020.

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A Temperança e o Protrepticus de Aristóteles

O Ponto Dentro do Círculo

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O intuito desse breve trabalho é relacionar a virtude da temperança com o Protrepticus de Aristóteles, obra cujo conteúdo trata-se de uma exortação à filosofia, feita para um certo Themison, que ao que tudo indica, seria um rei numa cidade do Chipre. Logo no início do texto, Aristóteles mostrará ao rei por que a filosofia é a realização natural do homem e o maior dos bens, e durante os primeiros capítulos dá as razões por que ela deve ser procurada. Pretendo mostrar como a temperança, ou sophrosyne, é de suma importância para aquilo que Aristóteles tem em mente: mostrar a constituição do homem e da natureza para assim convencer ao rei as razões do filosofar. Vou me apoiar principalmente nos primeiros capítulos do Protrepticus, o Cármides de Platão e também me guiarei por autores que esclareçam o conceito de sophrosyne nos filósofos gregos.

Sophrosyne

A sophrosyne é o assunto do diálogo Cármides, de Platão, e…

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Organização, Preceitos e Elementos da Cultura Maçônica: fundamentos para a introdução aos estudos da maçonaria – Parte II

O Ponto Dentro do Círculo

2019 – Página: 2 – Loja Maçônica Cotinguiba

A maçonaria e sua linguagem simbólica

Diferentemente de outras organizações sociais, não há na maçonaria um conjunto de escritos que contenham e traduzam todos os seus preceitos, filosofias, normas e ritos. Embora a Constituição de Anderson seja ainda uma referência para a maçonaria e seus estudiosos, a simplicidade e a objetividade de seu texto não lhe permitem esgotar toda a riqueza da cultura maçônica. De fato, o cerne da filosofia maçônica vem sendo transmitido e perpetuado entre as gerações por meio de uma linguagem não textual, mas, sim, simbólica, baseada em mitos, rituais e alegorias. Esta linguagem simbólica constituiu-se no principal instrumento pedagógico adotado pela maçonaria com o propósito de inculcar entre seus membros os preceitos e as divisas da ordem.

O corpo simbólico maçônico foi alimentado por elementos culturais múltiplos, advindos da cultura grega, egípcia, oriental e, principalmente, judaico-cristã. O mito de origem da ordem, bem como a base…

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Organização, preceitos e elementos da cultura maçônica: fundamentos para a introdução aos estudos da maçonaria – Parte I

O Ponto Dentro do Círculo

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Introdução

Nas últimas décadas, a maçonaria tem se tornado objeto de estudo de muitos campos do conhecimento[1]. No campo da história, a emergência de novos trabalhos, nos quais a maçonaria figura como tema principal de pesquisa, apresenta-se como consequência dos avanços obtidos pela renovação da história política. Por longo tempo, a política, sob influência da escola francesa dos Annales, esteve relegada à situação de mero apêndice da História. Criticada por sua superficialidade, a tradicional história política caracterizava-se pela defesa do trinômio: narrativa, crônica e acontecimento, estando aprisionada em uma visão centralizada e institucional do Estado. Contudo, a partir da década de 1970, a política voltou a assumir um lugar de destaque na historiografia ao tomar para si métodos e abordagens oriundos das ciências sociais. Este fenômeno de renovação chamado de “nova história política” permitiu a abertura dos estudos para novos objetos e novos enfoques que, até então, não…

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Alienação Social

O Ponto Dentro do Círculo

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Alienação social é um termo que se refere à maneira pela qual membros de uma sociedade tornam-se padronizados e perdem – ainda que parcialmente – seu senso crítico. Dessa forma, surge como consequência o “senso comum”, que é um conjunto de crenças e suposições populares edificadas a partir da falta de reflexões profundas. Ou seja, o senso comum é o que torna tudo raso e supérfluo.

A palavra “alienação” vem do latim alienus, e significa “algo que vem de outra pessoa”. Karl Marx foi um dos principais filósofos que estudaram o significado da palavra “alienação”, bem como suas causas e consequências. Em suas obras, o pensador alemão relacionou essa palavra diretamente à noção de trabalho, explicando que os homens, para sobreviver, submetem-se à venda de sua força de trabalho, e isso gera desigualdade social e ocasiona uma divisão das relações sociais. Assim, para Marx, um sujeito submete-se à alguma…

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El Vaticano y los masones

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Las pésimas relaciones existentes entre la masonería y la Iglesia católica tienen sus orígenes en los años de la unificación italiana, cuando sociedades secretas de distinto tipo combatieron el poder temporal del papado y concretamente los Estados Pontificios. La masonería ha mantenido históricamente buenas relaciones, incluso de coincidencia, con otras confesiones cristianas. El Código de Derecho Canónico, en cambio, ha mantenido hasta 1983 la pena de excomunión para los católicos afiliados a la masonería. La reforma de este código coincidió con una declaración del cardenal Ratzinger en la que se apuntaba ya la línea de involución que ahora se expresa en un reciente artículo de L’Osservatore Romano, en el que se postula la incompatibilidad “entre la fe cristiana y la masonería”. En contra de esta opinión, el autor de este artículo piensa que la masonería es una sociedad laica, con una finalidad filantrópico-cultural y humanístico-filosófica, que tiene un ideario de…

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A consolidação e a transformação do mito da “conspiração maçônica” em terras brasileiras (Parte 2)

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No âmbito internacional, o clima hostil entre a Maçonaria e a Igreja parecia não ter fim. Em 1879 a Maçonaria francesa declarava apoio incondicional a todos os elementos que tinham interesse em combater o catolicismo. Em resposta, os setores católicos intensificaram ainda mais a propaganda antimaçônica, que assumiu as formas mais diversas, desde as declarações do Magistério Romano e de livros sérios, até panfletos, destituídos de todo rigor científico, que utilizavam argumentos muitas vezes fantasiosos. Dentre estes últimos, destacamos Os mistérios da franco-maçonaria revelados (1885), de autoria do ex-maçom e jornalista francês Gabriel Jogand Pages, mais conhecido como Leo Taxil. Rapidamente esta obra se tornou um best-seller da época, difundindo ainda mais a narrativa antimaçônica nos meios católicos.

Taxil “revelava” ao mundo a existência de uma ordem maçônica secreta chamada Palladium, no interior da qual haveria maçons incorporados pelo demônio. Nos rituais os maçons dançavam ao redor de Baphomet, uma criatura pagã cultuada pelos Templários que possuía um corpo…

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A consolidação e a transformação do mito da “conspiração maçônica” em terras brasileiras (Parte 1)

O Ponto Dentro do Círculo

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Introdução

No Brasil das últimas décadas, pode-se observar que a história da Maçonaria passou por um profundo processo de amadurecimento teórico-metodológico, com emprego de novos enfoques e novos modelos interpretativos. Consequentemente, diante desta “renovação”, surgiu o interesse em aprofundar-se no campo das narrativas contrárias à Ordem dos Pedreiros-Livres. Desde então, a história dos discursos e imagens que condenavam e degeneravam a própria instituição passou a despertar um interesse crescente entre alguns historiadores.

Para Raoul Girardet, estas narrativas surgiram da associação feita entre a Maçonaria e a ideia de “conspiração”, uma característica peculiar das sociedades que vivenciaram momentos conturbados de crise e de grande tensão social. Segundo o autor, numa realidade coproduzida “a lógica da manipulação se vê substituindo a imprevisibilidade da história”[1].

Quanto à construção do mito da conspiração, Girardet destacou três tipos diferentes de narrativas onde a ideia do complô se faz presente. A primeira forma refere-se ao “complô judaico”, identificado pela “profecia do velho rabino diante de…

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As armadilhas da perfeição

O Ponto Dentro do Círculo

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A perfeição impõe ao homem o controle total sobre a vida, nãoabrindo espaço à experiência, à pesquisa e à livre criação. Aonegar-lhe qualquer possibilidade de erro, este homem está seimpedindo de aceitar a si mesmo e de buscar o seuconhecimento interior.

O conceito de perfeição, que a cultura ocidental considera comosinônimo de valor máximo em todas as ordens, foi exaltado porcerta expressão histórica do cristianismo como o mais sagradodos imperativos para o gênero humano: ser perfeito como Deus éperfeito.

Os que vivem tomados por esta dinâmica acusam uma sensaçãoconstante de inadequação, sentindo-se malfeitas e incapazes deaceitar os próprios erros. Vivem na presença de um juizimplacável. Descobrem-se desprovidos de espontaneidade,necessitando funcionar com a precisão de um relógio suíço,vivendo em função de normas, programas e certezas, como setudo fosse um laboratório.

A perfeição exige seres frios emocionalmente, que se nutrem dedesestima, de sentimentos de culpa e de remorso todas as vezesque cometem…

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Irlanda – Lendas e paixões no coração da Maçonaria

hands across the divide sculpture derry city londonderry ireland  Photography by Joe Fox | Saatchi Art
Hands accross the Divide – Escultura de Maurice Harron, erigida em 14991 em Derry, na Irlanda do Norte. Dois homens se estendem as mãos sem conseguir se tocar. Sob dominação inglesa, portanto protestante até 1921, depois sob o peso da Inglesa católica, a Irlanda será por muitos séculos o teatro de conflitos sangrentos. Considerado ainda hoje uma questão inglesa e protestante, a Maçonaria suscita desconfiança na Irlanda muito católica.

A Maçonaria irlandesa, tão antiga quanto a própria Maçonaria é tudo, menos uma questão simples. Protestante em país católico, mas ao mesmo tempo próxima dos nacionalistas, às vezes legalista, mas com sotaques rebeldes, sua história testemunha os desnorteantes paradoxos que caracterizam a história tumultuada da ilha. É por isso que ela é pouco estudada e ainda objeto de preconceitos hostis tanto da parte de católicos que a confundem com os extremistas protestantes da Ordem de Orange, quanto da parte desses últimos.

Vai-se de verdadeira maçonaria assim como da verdadeira cruz. Cada um deles, onde quer que se coloque, reivindica uma autenticidade mais autêntica, uma anterioridade mais anterior uma verdade mais verdadeira. Para a Irlanda, a autenticidade como a anterioridade assumem a forma de uma inscrição gravada sobre um esquadro em latão encontrado em 1830 durante as obras de reconstrução da ponte de Limerick sobre o Shannon. Erodida, mas visível, a inscrição grafada sobre o esquadro indicava a data de 1507 acompanhada dessa frase : “I will strive to live with love and care upon the level and by the square” (Eu me esforçarei para viver com amor e cuidado, sobre o nível e pelo esquadro). Não faltaria nada mais para imaginar que a maçonaria na Irlanda nada tinha a invejar, em questão de antiguidade, com as Old Charges, essas antigas obrigações dos maçons operativos ingleses recheados de mitos religiosos descritos em antigos manuscritos. Para o historiador, entretanto, este esquadro piedosamente conservado pela Union Lodge nº 13 de Limerick não conseguiria atestar a existência de uma maçonaria antiga no sentido em que a entendemos atualmente, mas antes de uma tradição operativa muito antiga associando trabalho e virtudes morais.

Uma coisa não impede a outra. Se a existência de uma maçonaria regular ─ codificada por regras ─ não seria percebida antes do século XVIII, encontra-se um testemunho comprovante, se não da existência de lojas, pelo menos dos termos “maçonaria” e “loja maçônica” em The Tripos, discurso em forma de peça, onde o esotérico disputa com o cômico, feita em 1688 como era a tradição por ocasião da entrega de diplomas aos estudantes do Trinity College, a grande universidade protestante de Dublin:


“Foi ordenado que para a honra e dignidade da universidade será introduzida uma sociedade de maçons consistente em cavalheiros, relojoeiros, porteiros, eclesiásticos, catadores, mascates, oficiais de justiça, adivinhos, funileiros, cavalheiros, telhadistas, pedreiros, poetas, advogados, desenhistas, mendigos, vereadores, pavimentadores, remadores, novatos, bacharéis, mestres, castrador de leitões, doutores, coveiros, proxenetas, lordes, açougueiros e alfaiates, que deviam ingressar por juramento à ordem de jamais revelar seu possante segredo antigo, nem o nome dos irmãos do grupo, conforme o espírito dos maçons do Trinity College que organizaram uma busca para contribuir para o tronco de caridade destinado a vir em socorro de uma irmão necessitado…”

Este texto foi atribuído a Jonathan Swift pelo irmão Walter Scott que o publicará no início do século XIX.[1]

Daí a pensar que o autor de Viagens de Gulliver, que foi reitor anglicano da catedral Saint Patrick de Dublin, havia sido maçom, é só um passo que muitos autores deram alegremente, felizes demais de se encontrar em fraternidade com tal glória.

Existia uma loja no Trinity College no tempo de Swift como se afirmou? Possível, se acreditarmos na narrativa que precede. O que é certo é que existe no Trinity College um manuscrito datado de 1711 – ou seja, seis anos antes da reunião de quatro lojas londrinas que deviam dar à luz a Grande Loja da Inglaterra – que descreve sob a forma de um “catecismo” o ritual de uma loja maçônica. Muitos duvidam que esse manuscrito, o primeiro a evocar o grau de mestre foi de redação irlandesa. E, para dizer a verdade, não se sabe muito bem como ele chegou às mãos de sir Thomas Molyneux (1661-1733), colecionador emérito que o doou à biblioteca do Trinity College.

Essa não é, ainda, a única curiosidade testemunhando a antiguidade da maçonaria na Irlanda. O americano Albert Mackey (1801-1881) relata em sua monumental História da Maçonaria, a surpreendente história de Elizabeth Aldworth, nascida Saint-Léger (1692 ou 1695-1773). Em 1712, ela teria sido surpreendida observando por meio de um buraco em uma parede em obras, o desenrolar de uma sessão maçônica na casa de seu pai, o Conde de Doneraile, na região de Cork. Após consultas, os membros da loja decidiram dar à jovem curiosa essa terrível escolha: “A iniciação ou a morte”. Ela aceitou a iniciação e permaneceu membro da loja até sua morte aos 80 anos de idade. Uma famosa gravura, posterior à sua morte a representa à ordem, com seus paramentos. Sem dúvida, existe algum embelezamento nessa história incrível. A propósito, principalmente, da data de iniciação, que parece bem precoce. Mas o fato de que o nome da Lady freemason figura em um texto de 1744, de autoria do erudito e propagandista da maçonaria na Irlanda, Fiefeld d’Assigny[2] é testemunho da veracidade. Ele também aparece sobre uma placa funerária na catedral Saint Finnbare de Cork, sobre a qual é mencionada a qualidade maçônica de Lady Aldworth.

Entre algumas lendas e muito exagero, é a data de 1725 que retém a maior parte dos historiadores como a data de criação da Grande Loja da Irlanda. Esta foi anunciada publicamente, como era o costume, pelo Dublin Weekly Journal que apresenta o excêntrico Richard Parsons, conde de Rosse, então com 29 anos de idade, como Grão Mestre da nova instituição. Esta publicação é, de resto, uma das raras provas de função do Conde. Todos os documentos oficiais da Grande Loja da Irlanda antes de 1760 e todos os livros de atas antes de 1780 foram, na realidade, perdidos. Dispõem-se entretanto de muitas atas de lojas locais e provinciais que permitem reconstituir a atividade das lojas que enxameavam na ilha durante a primeira metade do século XVIII.

Um Grão mestre não muito protestante

Richard Parsons, o 1º. Conde de Rosse (1702-1741) foi uma personalidade no mínimo excêntrica e também controversa que seu descendente longínquo, o fotógrafo Antony Armstrong-Jones, que se casou com a princesa Margareth, irmã da rainha Elizabeth II em 1960.

Richard Parsons foi eleito Grão Mestre da Grande Loja da Irlanda quando tinha 23 anos, em 1725, e conservou seu cargo por seis anos. Tinha a reputação de ser libertino, tanto no plano da moral, quanto filosófico; ele escreveu Dionysus Rising depois de uma viagem ao Egito, durante a qual ele alegava ter encontrado certos manuscritos da biblioteca de Alexandria segundo os quais a maçonaria teria tido sua origem em um arquiteto adepto do culto de Dionísio. Ele fundou uma seita dionisíaca cujo ideal era tanto alcoólico quanto filosófico. Richard Parsons é também conhecido por ter criado na Irlanda um Hell-Fire club, um desses clubes frequentados pela aristocracia libertina, onde eles se reuniam para declamar versos, discutir filosofia, zombar da religião e consumir bebidas fortes.

Pouco tempo antes de sua morte, Richard Parsons recebeu uma carta de um pastor de Dublin, recomendando que ele se arrependesse de sua vida de debochado, libertino, bêbado, blasfemo, jogador e outras amáveis inclinações. Ele ordenou que essa carta fosse endereçada ao muito preconceituoso conde de Kildare, que furioso, exige que o pastor autor da carta fosse castigado. Quando se percebe que se tratava de uma última façanha de Richard Parsons, este já não estava nesse mundo.

Lojas da Irlanda ou lojas irlandesas?

Aqui se coloca uma importante questão. Devemos falar de lojas da Irlanda ou de lojas irlandesas? Uma pergunta que não podemos responder sem uma revisão histórica.

No século XII, a Irlanda, cristianizada desde o século V, era o teatro de guerras incessantes entre diversos reizinhos, depois de ter sido presa dos invasores vikings, Em 1170, chamado pelo rei da província de Leinster e com o acordo do Papa, o rei normando da Inglaterra, Henrique II, tomou pé em Dublin, antes que os barões anglo-normandos assumissem a posse das melhores terras e submetessem a quase totalidade da nobreza gaélica. É preciso, então, ter em mente que a partir dessa época e até a criação do estado livre da Irlanda em 1921, a quase totalidade das elites da ilha, quer intelectuais, políticas ou econômicas e que constituíam o essencial dos efetivos maçônicos a partir do fim do século XVII eram anglo-irlandeses, dos quais muito majoritariamente protestantes. O que, como veremos mais tarde, não impediu as elites protestantes mais esclarecidas de se opor vigorosamente a Londres e à coroa, e mesmo se solidarizar com o povo irlandês católico.

A dominação inglesa se acentuou com o cisma de 1536-1537 que assistiu ao rei da Inglaterra, Henrique VIII, romper com Roma para criar sua própria igreja, tornando-se assim Chefe da Igreja da Inglaterra, assim como da Irlanda, rapidamente conquistada pela Reforma protestante. Um tal sismo religioso não ficou sem consequências para o povo irlandês e para alguns “velhos ingleses” bem decididos a permanecer católicos. Até então, a presença inglesa era essencialmente representada pela aristocracia e uma parte da burguesia das cidades. Mas, a partir da segunda metade do século XVI, e ao longo de todo o século seguinte, a Inglaterra se lançou em uma política de grandes plantações, chamadas de colônias, confiscando pouco a pouco as melhores terras em favor dos colonos ingleses, a quem se juntam ao norte da ilha os protestantes presbiterianos perseguidos pela Igreja Anglicana. A dominação protestante se torna sanguinária assim que, tendo mandado decapitar o rei Charles I, Oliver Cromwell decide conquistar a Irlanda em 1649, semeando o terror e cometendo massacres contra a população católica. Depois, em 1690, foi o príncipe William de Orange que se tornou rei da Inglaterra sob o nome de William III, que esmagará em solo irlandês, na batalha de Boyne, o rei católico da Inglaterra, James II Stuart. Este último se exilou na França em Saint-Germain-em-Laye e é um dos mais ardentes partidários da causa jacobita, Charles Radcliffe, Lord Derwentwater que virá a se tornar o primeiro grão-mestre da ordem maçônica na França. Mas, essa é uma outra história…

O ponto alto da gigantesca espoliação, tanto cultural quanto religiosa e política, sofrida pela Irlanda foi, nos primeiros anos do século XVIII, a aplicação das “leis penais”, privando os católicos irlandeses de seus últimos direitos civis e religiosos.

É nesse contexto, no mínimo problemático, que a maçonaria fez sua aparição e se desenvolveu na Irlanda. Durante o século XVIII, centenas de lojas foram fundadas nos quatro cantos da ilha. Seus membros se reuniam nas tavernas e albergues. As reuniões da Grande Loja tendo, elas, os membros mais prestigiosos como a Assembly Rooms na South William Street em Dublin. Nos anos 1780, a popularidade foi tão ou mais importantes que se desenvolveram muitas lojas militares entre os Volunteers, uma milícia destinada a manter a ordem na Irlanda, agora que numerosos regimentos haviam deixado a ilha para combater os rebeldes da América. Assim, existiam, entre outros na região de Fermanagh em Ulster, um regimento conhecido pelo nome de Lowerstown Masonick Volunteers. Embora dedicados, em princípio, à coroa, esses regimentos e lojas que lhes eram vinculadas não eram indiferentes ao destino de um país submetido à boa vontade de Londres. É por isso que nos últimos anos do século, após o sucesso dos revolucionários americanos e franceses, as ideias do Iluminismo começaram a se espalhar, se não em todo o país, mas ao menos nos meios protestantes presbiterianos do Ulster, a região mais rica que contava com mais lojas.

Os Irlandeses Unidos

Se bem que se deve considerar com extrema prudência a influência de lojas sobre o movimentos dos United Irishmen (Sociedade dos Irlandeses Unidos), é provável que as ideias de universalidade fundadas no deísmo e desenvolvidas perto de um século antes pelo filósofo “livre-pensador” John Toland (ver quadro) iluminavam o caminho filosófico de certas lojas. O movimento dos Irlandeses Unidos que se desenvolveu de maneira aberta em 1791, e então clandestinamente depois de 1795, via na maçonaria, ao mesmo tempo, uma corrente de pensamento liberal oposta ao sectarismo, e um meio de se organizar de maneira semiclandestina nas lojas que agora estavam bem estabelecidas.

Como seu nome indica, os irlandeses unidos consideravam as diferenças religiosas como o principal obstáculo à união de todos os Irlandeses. É em tal estado de espírito que em 25 de junho de 1795, quatro lojas da região de Lisburn, no Ulster, reunidas na sede da Loja nº 429 na cidade de Magheragall fizeram a seguinte proclamação:

“[…] seja o que possam pensar os imbecis, os ignorantes e os supersticiosos, o último desejo de nossa instituição é sempre o bem-estar dos homens e a reunião em uma única e mesma família, uma fraternidade [ … ] Deixemos os encrenqueiros entre os homens conduzir as ações diabólicas que visam dividir a humanidade em partidos e os jogar em um combate sangrento, irmão contra irmão, sob o pretexto da religião, para em seguida se comportar como predador de todos os partidos! [ …] Assim, a humanidade se tornando uma família sob isso, em harmonia e reconhecida, poderá se reencontrar e se juntar novamente à Grande Família dos céus ─ onde o malfeitor deixará de atormentar e o fraco será sem temos ─ onde o santo e o religioso de todas as confissões serão unidos em amizade e em amor […]”[3]

Esta profissão de fé, ao mesmo tempo maçônica e de inspiração messiânica, não deve levar a subestimar a importância da maçonaria em um movimento que ao se radicalizar em violência e na busca de uma aliança com a França, termina por ver voltar contra si os conservadores, tanto católicos quanto protestantes, assim como um grande número de maçons.

Segundo o historiador Jim Smyth[4], contam-se apenas uns trinta maçons entre os Irlandeses Unidos. Um número pequeno, compensado pela importância que eles assumem no movimento. A começar por Archibald Hamilton Rowan (1751-1834) um advogado protestante, iniciado na universidade de Cambridge que foi por algum tempo amigo de Robespierre, e foi aprisionado antes de se exilar na América.

Ainda que paire alguma dúvida sobre a filiação de William Drennan (1754-1820), alega-se que ele tenha sido iniciado em uma loja de Newry, no Ulster, em 1784. Ele foi um dos fundadores dos Irlandeses Unidos ao lado de John Mac Craken, membro da loja Brown’s Square 763, que foi enforcado pelos ingleses por ter-se recusado a denunciar seus companheiros após a sufocação da revolta de 1798. O irmão William Orr, acusado de ter feito um soldado prestar o juramento dos Irlandeses Unidos, conheceu a mesma sorte trágica.

John Toland, um maçom antes do seu tempo

Muitos autores querem ver nesse filósofo irlandês um precursor da maçonaria, se não ele mesmo um iniciado. O que ninguém demonstrou.

John Toland (1670-1722) nasceu em uma família católica, mas converteu-se muito jovem ao protestantismo presbiteriano, religião onde o despojamento o aproxima do deísmo, depois do panteísmo. Ele deixou a ilha com dezoito anos, em 1688, para retornar somente nove anos mais tarde, em 1697, por ocasião do lançamento de seu livro mais célebre, Cristianismo sem mistério, que desencadeará a polêmica. Seu livro foi condenado a ser queimados pelo carrasco em praça pública, sentença executada em 11 de setembro de 1697. Foi portanto com muita pressa que Toland precisou fugir de seu país natal, onde nada indica que ele alguma vez retornou.

Seu deísmo foi detestável tanto aos olhos dos anglicanos quanto dos católicos, enquanto seu apoio ardente e devotado à causa da Revolução Gloriosa de William de Orange e aos Hanovers, e mais geralmente à causa do protestantismo europeu, de quem ele via a Inglaterra como o maior defensor, não era, por sua natureza, provável de o tornar amável aos olhos dos compatriotas católicos. Segundo alguns pontos de vista, ele participa da figura do traidor e do renegado, na medida em que por suas origens ele era um autêntico irlandês. Toland foi a primeira pessoa a ser qualificada como livre-pensador. Em 1717, ele reunirá todos os druidas da Inglaterra e da Irlanda para fundar a Ordem Druida, primeiro movimento neo-druídico do qual ele foi o primeiro “Grande Druida”. Ele escreveu o Panteistcom, que criou a noção e a palavra panteísmo e experimentou um grande sucesso na França junto à aristocracia esclarecida. Sua obra testemunha que, como Spinoza, ele pensava ser possível tornar os homens, se não racionais, mas pelo menos razoáveis ao liberta-los da superstição.

A Maçonaria demonizada

Por outro lado, seja o que foi dito essencialmente para o difamar, o principal artesão da revolta de 1798, Theobald Wolfe Tone (1763-1798) não era maçom. Protestante e republicano já era suficiente para o demonizar, tantos aos olhos dos ingleses, quanto aos olhos do alto clero católico. Entretanto, o jovem Theobald foi um dos mais argentes a buscar uma aliança com o movimento dos Defensores Católicos, uma sociedade de católicos abertos aos ideais republicanos. Admirador da Revolução americana, ele embarcou para os Estados Unidos em 1795, depois chegou à França no ano seguinte, onde consegue convencer os dirigentes do Diretório a conduzir uma intervenção em favor de seus compatriotas insurgidos. É assim que ,em 15 de dezembro de 1796, uma frota de quarenta e cinco navios, transportando 13.400 homens, partirá de Brest para o sul da Irlanda. Mas a expedição, surpreendida por uma tempestade, se transformou em fiasco na baia de Bantry, próximo a Cork, deixando no local milhares de prisioneiros e de mortos. Depois, em setembro de 1798 após os Irlandeses Unidos serem esmagados na batalha de Vinegar Hill, uma nova expedição francesa terminará também em fracasso. Wolf Tone, reconhecido sob uniforme francês, foi preso e enforcado sob acusação de alta traição. Até então, os maçons irlandeses estavam divididos sobre suas relações com Londres e seu apoio a um ou outro campo. O Grão Mestre da Grande Loja da Irlanda, Richard Hely Hutchinson, segundo lorde de Dounoughmore (1776-1825), havia ardentemente pleiteado em favor dos pequenos proprietários irlandeses privados de suas terras. Mas, a partir de 1793, ele proíbe toda discussão de natureza religiosa e política em loja. Sem dúvida ele pretendia conservar da maçonaria irlandesa a sua especificidade e sua autonomia em relação a Londres e não pretendia envolver sua obediência na querela aberta em 1753 pelo irlandês católico Laurence Dermott (1720-1791), a respeito de uma pretensa desobediência aos landmarks da Ordem, que deverá culminar com a criação da obediência dissidente dos Antigos.

A exemplo de Dermott, a maçonaria irlandesa havia sido capaz, até o início do século XIX, de contar em suas fileiras com um certo número de católicos esclarecidos, frequentemente originários do meio “Antigo inglês”, esses descendentes dos primeiros colonos anglo-normandos que chegaram no século XII, e que continuaram profundamente ligados à religião católica e por sua vez despossuídos pelos novos protestantes que chegaram. Até então as bulas papais de 1738 e 1751 tinham sido ignoradas na Irlanda. Mas, diante da influência crescente das ideias da revolução francesa e a emergência da “primavera dos povos” em 1848, a Igreja católica para quem as ideias iluministas eram de inspiração satânica ─ ela havia arrastado para a lama um de seus padres esclarecidos, o padre John Murphy, líder da revolta de 1798 ─ decidiu de maneira muito política, realizar a caça aos liberais e, portanto, dos maçons para melhor se colocar ao lado dos nacionalistas irlandeses católicos.

Daniel O’Connell, um maçom muito católico

A condição de maçom de Daniel O’Connell (1775-1847), encarnação suprema do nacionalismo católico irlandês, permanece em muitos aspectos, ainda hoje, um assunto pouco evocado, se não, um tabu na Irlanda. De uma parte porque a maçonaria ainda é considerada ali como uma questão inglesa e protestante, mas também porque a biografia daquele que é chamado o “emancipador”, comporta certas zonas sombrias. Como, por exemplo, seu desafio em relação aos Irlandeses Unidos de 1798 e seu recurso ao exército britânico para reprimir os trabalhadores grevistas quando ele era prefeito de Dublin em 1841.

O’Connell havia sido iniciado em 1799 na loja nº 189 de Dublin e depois filiou-se à loja nº 13 de Limerick. Um manuscrito conservado na sede da Grande Loja Unida da Inglaterra, em Londres, tratando de diferenças entre lojas por ocasião dos eventos de 1798, traz a sua assinatura. O que mostra que sua participação na maçonaria não anedótica. A data de sua partida da Ordem não é conhecida. Mas é provável que isso aconteceu depois da campanha antimaçônica conduzida à época pelo clero romano.

Este período marca um ponto de inflexão na abordagem do nacionalismo irlandês e as relações entre católicos e protestantes. Em seus esforços para livrar o povo irlandês da infâmia na qual ele era mantido pela igreja anglicana e a aristocracia inglesa, O’Connell, em determinado momento, sofreu a séria concorrência do movimento Jovem Irlanda, mais radical, mais republicano e conduzido por líderes, quase todos protestantes. É assim, para assegurar o apoio infalível do clero e de Roma, que O’Connell imprimirá ao movimento nacionalista uma direção claramente conservadora, mais religiosa e bastante menos marcada pela filosofia emancipadora do Iluminismo. Desde então, mesmo se James Stephens, John Mitchell ou Tomas Clarke Luby, que fundaram a muito radical Fraternidade Republicana Irlandesa, fossem protestantes, a corrente liberal e revolucionária que eles encarnavam não ocupava senão um lugar marginal em um republicanismo irlandês portador, antes de seu tempo, de uma ideologia que Maurice Barrès e Charles Maurras não teriam renegado.

A Ordem Orangista, uma paródia de maçonaria

Todo ano, no começo de julho, as televisões mostram as imagens insólitas de senhores entre duas idades, vestidos de negro, usando chapéus coco, armados de um guarda-chuva e cruzando o peito uma faixa laranja.

Essas paradas orangistas destinam-se a comemorar a batalha de La Boyne, vencida em 1690 pelo Rei Billy, o mui calvinista holandês William de Orange, que se tornou rei da Inglaterra, contra o mui católico rei destituído da Inglaterra e Escócia, James II Stuart.

Mas, bem mais que uma comemoração, essas paradas que percorrem as ruas adjacentes aos quarteirões católicos da Irlanda do Norte, são provocações que frequentemente degringolaram no passado, destinadas a mostrar aos católicos que os donos de seu pais são ainda os protestantes favoráveis à União com a Grã-Bretanha. Portanto, para um católico, chamar qualquer pessoa de orangista é um insulto. Um insulto que repercute sobre a maçonaria, vez que a ordem orangista mantém uma confusão funesta com a Arte Real. A estrutura da instituição orangista é, em grande parte, a mesma desde sua formação em 1795. Os orangistas são organizados em lojas e prestam um juramento pelo qual se comprometem a “defender a religião protestante”, “sua doutrina e seus preceitos”, e “opor-se energicamente aos erros e doutrinas da Igreja romana”.

As lojas obedecem a um ritual, elegem um mestre, bem como oficiais. Os mestres de loja formam, por sua vez, uma loja distrital cujos oficiais participam da Grande Loja do condado que, por sua vez, envia representantes à Grande Loja Orangista da Irlanda.

É provável que, a título individual, certos orangistas sejam também maçons. Mas isso não prova absolutamente nada. Na práticas as duas instituições se detestam cordialmente. Mas o fato de que a maioria dos maçons irlandeses seja protestante, sustenta uma confusão nociva para a Maçonaria.

A sufocante dominação da Igreja

Depois que a Grã-Bretanha concedeu à criação do estado livre da Irlanda em 1920, conservando sua mão sobre a Irlanda do Norte, o novo estado Irlandês foi submetido durante mais de meio século à sufocante dominação de uma igreja católica que se identificava em sua missão terrestre a todo o povo irlandês. E, embora o preâmbulo do tratado de 1920 mencionasse a livre expressão das lojas no novo estado, um artigo da revista inglesa The Spectator, de junho de 1922[5], reporta que muitos templos foram atacados e pilhados. Em Dundalk, não muito distante da fronteira com a Irlanda do Norte, os maçons foram forçados a deixar a cidade. Em Dublin, a sede da Grande Loja da Irlanda, na Rua Molesworth foi ocupada por membros do IRA, que se apoderaram os registros das lojas. Pouco tempo depois, registrou-se o assassinato de diversos protestantes na região de Cork. Em Mullingar, no centro da ilha, o templo foi pilhado e objeto de uma tentativa de incêndio, impedida, insiste o artigo, pela intervenção de um padre católico… De fato, a Irlanda conquistou sua liberdade nacional sufocando todo tipo de liberdade. Este é o paradoxo irlandês. Mas nós conhecemos outros exemplos…

Nesse país, qualquer que seja o campo, as paixões nacionalistas, exacerbadas pelo sentimento religioso, muito frequentemente sufocaram-se os impulsos tanto do coração quanto da razão. Os valores de tolerância que encarnam a maçonaria são ilustrados pelas três faixas verticais da bandeira irlandesa adotada em 1848: verde para a Irlanda católica, laranja para os protestantes em memória a William de Orange e, ao centro uma faixa branca sinônimo de neutralidade e respeito.

Mas, se eles têm no coração o ideal de promover seus ideais, os maçons são apenas homens entre os homens. Nem mais nem menos idealistas, nem mais nem menos submetidos às suas paixões. Na Irlanda, como em todos os lugares.

Autor: Jean-Moïse Braitberg

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernado Pessoa

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Notas

[1] – “A obra em prosa de Jonathan Swift, vol. VI, p. 209-242, ed. 1824

[2] – Fiefeld d’Assigny, Cinco Documentos maçônicos Irlandeses, edição bilingue, Editora La Hutte

[3] – Texto em inglês em http://www.unitedirishmen.ie

[4] – Freemasonry and the United Irishmen, in The United Irishmen: republicanism, radicalism and Rebellion. The Liliput Press, Dublin, 1993

[5] – http://archive.spectator.co.uk/article/3rd-june-1922/sinn-fein-rule-in-ireland-attacks-upon-freemasons

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