Diferenças Filosóficas Maçônicas no Século XXI

Empreendedorismo em Tecnologia (TI): 4 caminhos possíveis - Loocalizei

Como editor de uma revista maçônica nacional, recebo muitas cartas ao editor e artigos submetidos para publicação. No meu caso, a maioria deles é sobre Maçonaria, Templários ou Cristianismo. Daqueles sobre a Maçonaria, vários são de Irmãos expressando opiniões sobre a grande controvérsia sobre onde nossa liderança deveria estar nos conduzindo neste momento de crise em nossa Fraternidade.

Enquanto leio e tento entender todo esse diálogo, perguntas vêm à mente. Existe uma crise em nossa fraternidade? Se sim, quais são nossas opções? O que exatamente aqueles oferecendo sugestões querem que façamos? Existe acordo ou até mesmo definição da crise? Como chegamos a esse ponto? Quantas opiniões diferentes existem? Qual lado devo tomar? Como posso ajudar?

Vamos explorar essa situação, tentar determinar quais são os fatos, usar alguma lógica e ver se podemos tentar resolver isso para que possamos tomar algumas decisões inteligentes e conscientes e tomar medidas que beneficiem a Fraternidade. Acima de tudo, vamos ver se podemos alcançar ou restabelecer a harmonia entre a Arte. Existe uma situação ganhar-ganhar a se ter sobre tudo isso?

Agora você provavelmente está perguntando: “qual crise, a qual conflito ele está se referindo? Vamos olhar para a nossa história e ver se podemos definir a crise.

Precedente histórico para desacordo generalizado

A controvérsia não é estranha à nossa fraternidade. Eu lhe pediria que olhasse para trás por um momento, para uma disputa que surgiu há mais de duzentos anos, não muito tempo depois que o sistema da Grande Loja foi estabelecido. Um grupo de maçons percebeu que essa nova entidade chamada Grande Loja havia começado a modificar a fraternidade de maneiras com as quais eles não concordavam. A nova Grande Loja em Londres, a partir de sua perspectiva, estava tentando consolidar as visões e práticas de muitas de suas recém-denominadas Lojas “subordinadas” em uma fraternidade consistente. O grupo que se opunha às ações da Grande Loja se desligou e formou sua própria Grande Loja chamando a si mesmos de “Antigos”, porque eles defendiam voltar ao que eles acreditavam ser os antigos modos de fazer a Maçonaria. Isso, é claro, resultou em a Grande Loja original ser chamada de “Modernos”, embora fosse mais antiga que a Grande Loja dos Antigos. Essa controvérsia se estendeu até os primeiros anos do século XIX, quando suas diferenças foram resolvidas, e mais uma vez se uniram para formar a Grande Loja Unida da Inglaterra. Evidências desta controvérsia são encontradas em toda a Maçonaria Americana, já que algumas de suas Lojas carregam o título de “Maçons Livres e Aceitos”, enquanto outras são conhecidas como “Antigos Maçons Livres e Aceitos” ou até mesmo “Maçons Antigos”. A maioria dos irmãos nos Estados Unidos nem sequer entende de que se tratava o rebuliço, e até há indícios de que algumas lojas tomam uma posição firme contra um lado ou outro, sem perceber que receberam cartas constitutivas do mesmo lado a que estavam se opondo.

 Perspectiva histórica

  • A Grande Loja de Londres 1717-1813: Modernos
  • A Grande Loja Antiga da Inglaterra 1751-1813: “A Grande Loja da Inglaterra de acordo com as Antigas Instituições”
  • A Grande Loja dos Antigos: Antigos
  • A Grande Loja Unida da Inglaterra 1813 – Até hoje

A crise proliferando o desacordo atual

O dicionário nos informa que uma crise é “um estágio em uma sequência de eventos em que a tendência de todos os eventos futuros, especialmente para o melhor ou para o pior, é determinada; ponto de inflexão.” A crise atual pode ser rastreada até um único gráfico e a interpretação de seu significado.

Os neomodernos

Em 1959, o número de maçons nos Estados Unidos chegou ao auge e começou a declinar. Na história conhecida da Maçonaria, pelo menos desde que se vem contando os Maçons, o número de membros em nossa Fraternidade subiu e desceu, mas isso foi, de longe, o maior número de membros que já tivemos. Quando eu falo de Maçonaria, eu incluo a Loja Azul da Maçonaria Simbólica e todas as outras organizações que predicam sua participação na Loja ou estão de algum modo associadas a ela. Eu geralmente me refiro apenas à Maçonaria dentro dos Estados Unidos. A fraternidade havia estabelecido uma infraestrutura interna elaborada e extensa. Cada um dos nossos corpos tinha funcionários em níveis estadual e nacional e muitos em nível local. Além disso, a maioria dos corpos estabeleceu filantrópicas estaduais ou nacionais que empregavam literalmente milhares de pessoas. Tínhamos hospitais, lares de órfãos, comunidades de aposentados, fundações e instituições educacionais. Além das folhas de pagamento, havíamos herdado ou construído um grande número de edifícios. Tínhamos edifícios de Lojas, edifícios de Grande Lojas, Templos de Rito Escocês, Templos de Rito de York, Templos de Shrine, orfanatos, hospitais, museus, bibliotecas e escolas, sem mencionar o espaço de escritório necessário para administrar toda essa infraestrutura. Tudo isso era apoiado financeiramente pelos nossos membros através de taxas, contribuições, esforços de angariação de fundos, e às vezes retornos de investimentos que alguns de nossos predecessores mais sábios haviam feito com essa finalidade.

À medida que o número de membros começou a declinar, nossa liderança enfrentou um problema que nenhum de seus antecessores em sua memória havia enfrentado. Reduzir os custos de infraestrutura ou sobrecarregar os membros. Você percebe que eu não disse, “aumentar o fardo sobre seus membros” porque conforme os números subiam durante os cinquenta anos anteriores, as demandas financeiras sobre cada membro diminuía em termos de poder de compra real a ponto que era uma pequena fração do que uma vez foi. A inflação e o índice de preços ao consumidor continuaram a subir a cada ano e o custo das taxas permaneceu o mesmo ou até mesmo diminuiu em alguns casos. Esta situação foi exacerbada pela natureza de nossas propriedades imobiliárias. Durante a primeira metade do século XX, a Fraternidade tinha construído edifícios elaborados e impressionantes em todo o país, e esses edifícios geralmente não tinham sido bem  mantidos. Eles estavam, em alguns casos, literalmente caindo aos pedaços ao nosso redor e tinham significado histórico não apenas para a Fraternidade, mas também para as comunidades em que estavam localizados.

À medida que a pressão financeira aumentava, os primeiros a tentar resolver o assunto foram compreensivelmente o Rito Escocês da Jurisdição do Sul, o Shrine e, em menor grau, a Grande Loja da Pensilvânia. Por que “compreensivelmente?” Porque eram organizações muito grandes, administradas centralmente e, no caso do Shrine e do Rito Escocês, possuíam vastas propriedades imobiliárias. As decisões difíceis atingiram essas organizações primeiro. Justamente acreditando que a fonte do problema estava nas Lojas Azuis, porque todos os seus membros eram derivados da Loja, o Rito Escocês e o Shrine decidiram tentar envolver a liderança das Grandes Lojas na formulação de uma solução para o “problema”. Eles levaram o problema e o colocaram aos pés da Conferência dos Grão-Mestres da América do Norte. Isso resultou na formação de um “Comitê de Renovação Maçônica”. Esse comitê, percebendo que precisava de mais dados para tomar uma boa decisão, contratou consultores para coletar os dados, analisá-los e fazer recomendações. Deste esforço várias recomendações foram oferecidas. Algum reconhecimento foi feito de que nossos membros deveriam ser melhor educados sobre a fraternidade. Atividades de membros mais populares deviam ser adotadas. Nossos membros existentes deviam encarar o fato de que precisam se posicionar e, como indivíduos, compartilhar uma quantidade maior da responsabilidade financeira, aumentando taxas ou conduzindo mais arrecadações de fundos, mas de longe e acima de tudo, a mensagem mais clara dos consultores e do comitê era que precisávamos aumentar o número de membros ou pelo menos diminuir a perda de “sangramento” de membros a cada ano.

Foi sugerido que a Maçonaria tinha ficado para trás no tempo e não respondia às necessidades da geração atual. Foi anunciado que a perspectiva moderna não estava interessada em ritual e não tinha tempo para passar noite após noite em reuniões de loja por causa das demandas de trabalho e família de nossa sociedade moderna. Foi até dito que parecíamos desencorajar os homens a se tornarem maçons por devido à nossa política de não-convite, nossas exigências de que os iniciados memorizassem e recitassem páginas de palestras e os longos três a cinco meses necessários para completar o processo de iniciação. Assim, as recomendações incluíram propostas para reduzir ou eliminar a necessidade de qualquer memorização, reduzir o tempo e o esforço necessários para se tornar um maçom e até ter aulas de um dia em que um homem pudesse dar o seu dinheiro, participar de uma reunião de meio dia ou de um dia inteiro, observar o que estava acontecendo e, no final do dia ir para casa como um cartão bona fide de Mestre Mason. Além disso, havia recomendações sobre a visibilidade da Fraternidade. Afinal, precisaríamos anunciar para atrair bons maçons em potencial. Daí vieram as recomendações de que nossos edifícios fossem abertos ao público mais do que nunca, que nossas instituições beneficentes e seus benefícios fossem divulgados mais do que nunca e que nossas atividades de arrecadação de fundos para instituições de caridade aumentassem e envolvessem mais participação pública. Para atrair o tipo certo de homens, seria necessário que os conscientizássemos das coisas boas que fazemos.

Neomodernos:

  • Comitê de Renovação Maçônica da Conferência dos Grandes Mestres da América do Norte;
  • Shrine;
  • Rito Escocês Antigo e Aceito;
  • Grande Loja da Flórida;
  • Grande Loja da Pensilvânia.

Agora considerando a definição da palavra “crise” como um momento de mudança significativa, todos em todos os lados desta questão pareciam concordar que havia uma crise. Muitas das Grandes Lojas aceitaram as recomendações do comitê e começaram imediatamente a implementar as sugestões. Outros se rebelaram.

Aqueles que estavam a bordo com as recomendações do comitê começaram a ministrar aulas de um dia, permitir convites a candidatos, relaxar os padrões de memorização e adotar campanhas publicitárias. Eles frequentemente diziam que a família de organizações maçônicas doou mais de dois milhões de dólares por dia para caridade. Open houses e noites “traga um amigo” começaram a surgir em quase toda parte. Essa foi a gênese do grupo que constitui uma das facções do debate sobre aonde devemos nos dirigir no século XXI. Vou chamá-los de “neomodernos” em memória daquela facção dos maçons chamada de “Modernos” na divisão do século XVIII e início do século XIX que ocorreu em nossa Fraternidade.

Havia outros que viam as coisas de maneira diferente. Eles expandiram o gráfico para incluir mais anos e obtiveram a seguinte imagem da situação.

Essa visão expandida levou a duas interpretações diferentes. Uma interpretação é que esse fenômeno de aumento e queda de membros é natural e que há pouco que se possa fazer a respeito, exceto esperar. Existe claramente uma relação entre grandes guerras e o número de membros maçons, mas essa relação não é bem compreendida para se controlar os resultados. Aqueles que assumem essa posição acreditam que não temos controle real sobre a situação e que certamente não queremos destruir a Maçonaria engajando em uma reação radical e instintiva. Eu chamo a esses de “Status-Quos” e falarei mais sobre eles depois.

Outra interpretação dos dados é que esses Status-Quos de alguma forma causaram o problema, e que ele precisa ser resolvido de uma maneira completamente diferente daquela sugerida pelos neomodernos. Essas pessoas estavam de acordo com os neomodernos de que algo precisava ser feito, porque acreditavam que, à medida que os números aumentavam, o caráter, o intelecto e o foco da afiliação diminuíam. Embora os números tenham aumentado, toda a natureza e a finalidade da organização desapareceram. Vamos olhar para essas pessoas a seguir.

Os neoantigos

Mais ou menos na mesma época em que os neomodernos começaram a evoluir, ou talvez um pouco antes, uma Loja na Austrália estava lidando com o mesmo, ou pelo menos um problema similar de declínio de membros e interesse, e em resposta ao seu problema, propuseram um tipo totalmente diferente de solução. Eles decidiram que a razão pela qual o número de membros estava declinando era que seus próprios membros, e portanto o público, realmente não entendiam o que a Maçonaria realmente era, que como resultado, a Loja tinha sido transformada em algo completamente diferente do que pretendia ser, e que os membros e possíveis membros eram apáticos sobre essa “nova” organização chamada Maçonaria, não sobre a Maçonaria em si. Eles notaram que a ênfase havia mudado de companheirismo, estudo filosófico e desenvolvimento espiritual para donuts azedos, roupas casuais e discussões superficiais sobre tópicos mundanos, tal como a maneira como o telhado deveria ser reparado. Eles insistiram que se a Fraternidade retornasse ao que eles acreditavam que uma vez fora, os homens, tanto membros quanto não-membros, seriam atraídos, e o problema se resolveria por si mesmo. Eles insistiram que os homens eram atraídos por coisas que eles consideravam valiosas e que os membros da Loja deveriam ser retratados como sendo de imenso valor a fim de atrair homens que se beneficiariam do crescimento intelectual e espiritual que a Fraternidade oferece. Colocando sua teoria em prática, criaram uma Loja com uma estrutura de taxas de dez a cem vezes maior do que as que estavam pagando. Eles exigiram que os membros se vestissem formalmente e com algum grau de uniformidade. Colocaram ênfase nas discussões intelectuais da filosofia e história maçônicas e reduziram o número de reuniões, eliminando assim muitas oportunidade de se desfazer do custo de seguro do edifício ou de como o teto deveria ser consertado.

Neoantigos:

  • A Fundação de Restauração Maçônica;
  • Lojas de Observância Tradicional;
  • Lojas de Conceito Europeu;
  • Loja Epicureana No. 906 (Victoria, Austrália);
  • Loja Amalthea No. 914 (Victoria, Austrália);
  • Loja Washington-Alexandria Nº 22.

Por todos os Estados Unidos, havia muitos maçons que não estavam realmente felizes com o que estava acontecendo em suas Lojas. Quando finalmente conseguiam se tornar membros da Fraternidade, ficavam desiludidos. Quando viram o que os maçons realmente faziam em suas reuniões, ficaram muito desapontados. Eles tinham esperado cerimônias majestosas e impressionantes; discussões profundas de assuntos que os desafiariam mentalmente; e a oportunidade de aprender sobre grandes mistérios aos quais, de outra forma, não teriam tido acesso. Muitos desses jovens maçons eram DeMolays Sêniores. Eles tinham grande respeito pela Fraternidade antes de apresentarem petições e pelos homens que conheciam como Maçons, mas faltava alguma coisa. Em vez disso, viam Mestres conferindo graus vestidos com chinelos, bermudas e uma camiseta com buracos, anunciando cerveja. Eles eram ridicularizados se usassem uma gravata para ir à Loja, apesar de terem visto seus avós colocarem uma gravata antes de cada reunião da Loja. Eles viram cerimônias que poderiam ou deveriam ter sido mais impressionantes, lidas em um livro por um membro da loja que lia mal e não entendia algumas das palavras, muito menos o significado dos rituais. Eles viam homens assumindo obrigações solenes de fazer todo tipo de coisas elevadas e, em seguida, prontamente se comportando como se não tivessem feito aquilo. Quando eles perguntavam “por quê?” Sobre partes das cerimônias ou dos rituais, eles eram instruídos a memorizar corretamente as palavras, que ninguém sabia por que eles diziam o que faziam. Eles viam homens discutindo incessantemente se deveriam gastar pequenas quantias de dinheiro para consertar um banheiro na Loja, que esses mesmos homens não hesitariam um segundo em a ter reparado em suas casas. Eles olharam para os edifícios decadentes, mal conservados e às vezes apenas sujos, e se perguntaram: “Em que eu me meti? Não há algum lugar melhor onde eu quero gastar meu tempo?

Muitos desses homens se afastaram da Fraternidade, perdidos e desiludidos. Alguns, no entanto, tiraram um tempo para aprender o ritual, ler a literatura, pensar sobre o que a Maçonaria deveria ser e decidiram que isso precisava retornar à instituição que eles percebiam que uma vez ter sido. Eles viram o que o pequeno grupo na Austrália tinha feito. Eles aprenderam que esta Loja Australiana agora tinha uma lista de espera de homens querendo se tornar membros, e eles perceberam que essa era a Maçonaria que eles haviam negociado e, por Zeus, eles a teriam. Fora disso, cresceu um movimento relativamente novo nos Estados Unidos, de estabelecimento de Lojas de “Observância Tradicional”, ou “Lojas de Conceito Europeu”.

Essas lojas geralmente têm uma estrutura de taxas mais elevadas, vestem-se mais formalmente, se reúnem com menos frequência, são mais exigentes com seus membros e discutem assuntos mais esotéricos e filosóficos. Algumas também enfatizam a excelência na experiência iniciática transmitida por um ritual bem feito e impressionante. Embora existam diferenças sutis nesses tipos de Lojas, elas se enquadram no guarda-chuva que alguns chamam de “Restauração Maçônica” e, de fato, tem havido uma organização estabelecida para promover esses ideais. Eu chamarei essas pessoas de “neoantigos” em homenagem aos “Antigos” que rivalizaram com os “Modernos” duzentos anos atrás. Lembre-se de que ambos os grupos estão tentando mudar o status quo em resposta ao que acreditam ser uma situação de crise. Naturalmente, muitos dos membros que não olham olho no olho com essas pessoas estão horrorizados, se rebelaram e tentaram suprimir esse movimento. Esses Neoantigos são frequentemente vistos como “elitistas”, especialmente pelos Status-Quos.

Percepções e Posições

Na realidade, tanto os Neomodernos quanto os Neoantigos estão reagindo contra as práticas do Status-Quos. Eles apenas discordam sobre como o status quo deveria ser radicalmente alterado.

Vejamos as percepções de cada um desses grupos e como isso influencia as posições que eles assumem. Eu começo com os Status-Quos. Existem realmente dois subgrupos sob os Status-Quos, os “ativos” e os “inativos”. Embora os inativos não sejam atores importantes no drama que está se desdobrando, eles terão alguma influência e não podem ser ignorados. O inativo é membro da Fraternidade há quinze a cinquenta anos, mas paga suas taxas todos os anos, embora raramente compareça às reuniões. Ele contribui para as instituições de caridade da Fraternidade quando solicitado e pode até aparecer e ajudar nas atividades de levantamento de fundos. Ele tem orgulho do que os maçons fazem pela caridade e se orgulha de fazer parte dela. Ele acredita que os maçons são bons homens e se orgulha de estar associado a eles. Ele não está interessado em fazer rituais ou dar palestras de ensino, mas tem grande respeito por aqueles que fazem essas coisas bem. Ele acha que seu filho deveria se tornar um maçom e fica intensamente orgulhoso se o fizer. Ele não está ciente de que há uma crise e não entende que existe discordância entre os neomodernos e os neoantigos. Ele está muito feliz com o nível de seu envolvimento e não vê razão para mudar nada. Porque ele está acostumado com a atual estrutura de taxas em vigor durante toda a sua carreira maçônica e porque ele não está recebendo nada mais tangível para suas contribuições além de um cartão de papelão de 2x 3 polegadas e talvez um pin de 50 anos, ele é um tanto resistente a qualquer aumento nas taxas anuais. Ele não tem um voto na sessão da Grande Loja e não compareceria se tivesse. Mais importante, ele compreende cerca de oitenta por cento dos nossos membros atuais.

O outro segmento dos Status-Quos consiste nos “ativos”. À medida que eu os descrevo, lembre-se de que eles são apenas os Status-Quos ativos. Quase todos os Neomodernos e Neoantigos são ativos.

Esses Status-Quos são as pessoas que mantiveram nossa fraternidade viva nos últimos cinquenta anos. Eles respeitam, acima de todos os outros, aqueles que podem fazer o ritual de maneira precisa e impressionante, embora menos de dez por cento deles realmente faça isso. Eles são institucionalmente orientados e geralmente não perguntam por que fazemos as coisas que fazemos. Eles se orgulham de ser membros de uma fraternidade que incluiu tantos presidentes, heróis e outras celebridades. Eles têm uma visão firme da origem e da história da ordem e, embora possam discordar uns dos outros sobre essas coisas, eles não os consideram suficientemente importantes para discutir. O importante é que as contas sejam pagas, o prédio permaneça habitável, as instituições de caridade sejam financiadas e a associação pare de declinar. Eles acreditam que os inativos são a chave para a sobrevivência financeira da Loja e temem muito que elevar as taxas produzirá um êxodo em massa de inativos, arruinará a Loja e significará o fim da Maçonaria. Eles acreditam que o ofício maçônico é primariamente uma recompensa pela assistência fiel e pelo trabalho árduo, e sentem que o principal dever da liderança é servir à irmandade exaltando as virtudes da Maçonaria, principalmente para os irmãos. Eles veem o atual declínio em números como temporário e parte da natureza cíclica da Fraternidade. Eles certamente não querem se envolver em nada que possa ser chamado de “oculto” e provavelmente não conhecem a palavra esotérico. Eles não acreditam que o relaxamento de qualquer tipo de padrão beneficiará a Fraternidade, mas sim que, pela introdução de materiais ruins, isso irá destruí-la, transformando-a em algo completamente diferente do que pretendia ser. Eles veem os Neoantigos como “elitistas” que acreditam que são melhores do que qualquer outra pessoa e temem que o estudo da filosofia leve a fraternidade pelo caminho da heresia e ignoram a proibição da discussão da religião na Loja. Eles  veem os neomodernos tentando descartar o ritual e diminuir os padrões de caráter requeridos para o ingresso. Eles veem um desastre iminente, mas acreditam que ainda é possível convencer os inativos a se tornarem ativos e que os Neos de ambas as variedades irão embora ou simplesmente desistirão e se demitirão. Eles continuam a aconselhar novos iniciados dos males dos neoantigos e dos neomodernos, mas com sucesso decrescente. Ao mesmo tempo, lembre-se de que, na maior parte, esses são os homens que estão realmente mantendo a Fraternidade junta neste momento.

Percepções e Posições
Status-Quos
Baixas taxas– Ênfase em inadimplências
O ritual é rei– Educação maçônica sem ênfase
Vestimenta casual– O problema desaparecerá
Neomodernos
Aulas de um dia– Exigir mais votos para rejeitar
Menores requisitos de memorização– Mais caridade pública
Recrutamento– Focado em dinheiro
Vestimenta casual– Estrutura de taxas marginalmente mais altas
Neoantigos
– Estrutura de taxas muito mais elevada– Excelente ritual
– Vestimenta formal– Ênfase em “experiência iniciática”
– Ênfase em filosofia– Educação maçônica

Então, onde se colocam os neomodernos e por quê? Essas pessoas são homens de negócios. Eles entendem o valor da linha de resultados e são homens de ação. Se algo está quebrado, você conserta. Eles acreditam que as duas coisas que estão quebradas sobre a Maçonaria é que nós não temos membros suficientes para apoiar nossas instituições de caridade e infraestrutura, muito menos influenciar a sociedade fora de nossa organização e que não temos dinheiro suficiente para pagar nossas contas. Eles acreditam que a abordagem ativa dos Status-Quos às finanças de simplesmente cortar o orçamento a cada ano está minando os propósitos da fraternidade e acabará fracassando. Eles acreditam firmemente que aumentos substanciais de taxas para compensar a perda de números expulsarão a galinha dos ovos de outro dos Status-Quos inativos e significarão o fim da Fraternidade. Seu principal objetivo é preservar a existência da Maçonaria a todo custo. A única opção que resta, portanto, é aumentar o número de membros de volta ao nível necessário para sustentar nossas instituições de caridade e infraestrutura. Provavelmente será necessário sacrificar alguns dos nossos edifícios elaborados e grandiosos ao longo do caminho. Eles são homens práticos. Então, como aumentamos os números? Os neomodernos acreditam que existem muitos homens bons por aí que fariam bons maçons, pelo menos bons o suficiente para serem aceitáveis. Se conseguirmos que esses homens ingressem, para pagar as contas e um número suficiente deles se tornar ativos em atividades de loja que sejam atraentes para ainda mais homens, poderemos perpetuar a Fraternidade indefinidamente.

Eles acreditam que a Fraternidade sempre evoluiu e deve evoluir à medida que a sociedade em que vivemos continua a mudar. Eles concordam com os Status-Quos de que devemos continuar a relaxar os requisitos de vestimenta para que os homens se sintam confortáveis quando vierem à Loja. Eles acreditam que devemos incluir mais atividades familiares, porque o jovem de hoje é muito mais interessado em gastar a quantidade limitada de tempo de lazer que ele tem com sua jovem família do que em se relacionar com outros homens. Devido aos estilos de vida cada vez mais urbanos e suburbanos, nosso possível membro não tem mais tempo para passar noite após noite na Loja e incontáveis horas aprendendo palestras. Ele será atraído para a ordem em parte por causa de seus bons trabalhos, por isso devemos continuar no nível atual e anunciar cada vez mais nosso envolvimento para que os melhores homens sejam atraídos. Ele não concorda com os Neoantigos e Status-Quos que os homens atraídos e iniciados desta forma seriam inúteis ou mesmo prejudiciais porque afinal de contas, eles estariam pagando taxas e apoiando as instituições de caridade, e alguns até se interessariam pelo ritual e por perpetuar a fraternidade.

Além disso, se ficarmos sem ritualistas, agora temos a capacidade moderna de gravar a coisa toda e mostrá-la a centenas de cada vez. Afinal, o homem moderno agora aprende com vídeos, não livros, e certamente não de um indivíduo sentado sozinho, de boca a orelha; isso é muito ineficiente, e os jovens não são mais treinados para aprender assim. Eles não têm mais esse tipo de paciência. O ritual inteiro não está publicado em algum lugar na internet, então qual é o dano em gravá-lo? Esta é a posição daqueles que eu chamo de Neomodernos, e embora algumas dessas pessoas tenham tentado essa abordagem e determinado por resultados medidos que não tiveram sucesso, essas pessoas parecem estar suplantando os Status-Quos em posições de liderança em vários de nossas Grandes Lojas e alguns dos corpos adjuntos, notavelmente o Shrine. O Shrine já relaxou seus padrões para eliminar a exigência de pertencer a um dos ritos. Esta posição do Shrine é completamente compreensível. A organização tem apenas dois propósitos declarados, apoiar as instituições de caridade e a irmandade. Além disso, eles estão entre os mais atingidos pelo declínio dos números de membros e o custo de seus hospitais está aumentando.

E onde essa nova galera, os Neoantigos, se colocam sobre tudo isso? Em primeiro lugar, embora apreciem os Status-Quo por preservar a Fraternidade durante todos esses anos, eles sentem que fomos longe demais nos Estados Unidos com essa coisa “no nível”, estendendo-a aos profanos. Os bons maçons permitem que um “homem marginalmente bom” se torne um membro na expectativa confiante de que a exposição à Fraternidade polirá suas arestas. Este homem traz alguém que é marginalmente “menos bom” do que ele, com a esperança de que a Maçonaria o “torne melhor”. Eventualmente você tem uma situação em que estamos tendo julgamentos maçônicos para tentar nos livrar daqueles que estão prejudicando a reputação da Fraternidade e destruindo sua harmonia, homens que obviamente não têm o caráter para cumprir suas obrigações ou talvez o entendimento de saber o que eles são. Pior ainda, não estamos tendo esses julgamentos, mas sim tolerando esse tipo de comportamento. Nossos iniciados entram na Loja e ficam apropriadamente impressionados com nossas obrigações solenes, apenas para descobrir que, apesar de todos esses elevados e sonoros princípios, muitos de nossos membros estão se comportando abertamente como se nunca os tivessem ouvido. Somos, então, classificados como hipócritas pelo iniciado de qualidade e descartados como os remanescentes de algo que já foi, com certeza, uma grande instituição. Você vê, o jovem que peticiona em nossas Lojas hoje é bem diferente do que ele era dez anos atrás. Ele viu todos os filmes e pesquisou na internet procurando e encontrando informações sobre a fraternidade. Ele pode até ter lido alguns dos livros. Embora as informações que ele adquiriu possam ser verdadeiras ou falsas, ele tem uma opinião favorável sobre a fraternidade, porque solicitou afiliação mesmo que não conheça realmente um maçom. Ele tem grandes expectativas de ser recebido em uma instituição com uma história antiga e muitos mistérios a revelar que irão melhorar sua reputação e satisfazer sua curiosidade intelectual. Ele não espera que esse esforço seja fácil ou barato. Nada fácil e barato poderia ser tão valioso. Ele espera ter que estudar e trabalhar pelo que recebe, e espera que valha a pena. Ele espera que seus novos irmãos sejam como ele, apenas melhor informados. Ele quer fazer parte de uma irmandade mística que veio de eras passadas e que está engajada em grandes e importantes empreendimentos, importantes não apenas para ele, mas para a civilização como um todo.

Ele certamente não está esperando algum tipo de clube cívico superficial em que os homens finjam ser profundos e sábios e ainda assim não se comportem melhor do que qualquer outra pessoa que ele conheça. Os neoantigos querem encontrar e iniciar este homem. Eles acreditam que o respeito pela instituição exige que um irmão que esteja participando de uma reunião maçônica se vista com as melhores roupas que possua, se possível. Por outro lado, se as circunstâncias realmente ditarem que se trata de uma camisa branca e um macacão, ele é bem-vindo entre eles. Esses Irmãos acreditam na excelência no ritual, assim como os Status-Quos, mas eles insistem na parte de excelência e acreditam que o sujeito que a entrega deve saber o que significa e dize-lo quando disser. A ignorância do simbolismo, da história e da filosofia é tolerada, mas a apatia em relação a eles não é. Eles simplesmente preferem não gastar seu tempo comparecendo à Loja com aqueles que não estão interessados ​​nesses assuntos. A irmandade é importante para esses neoantigos, mas frequentemente em um ambiente mais formal e envolvendo uma maior qualidade de alimentos e arredores. Eles estão dispostos a pagar por essas coisas.

Ao contrário da opinião dos Status-Quos, eles não acreditam que sejam melhores que os outros irmãos, mas eles acreditam que deveriam poder formar Lojas para que possam se associar primariamente a irmãos de interesses similares. Esses neoantigos têm padrões de conduta muito altos para a consideração de futuros maçons. Eles acreditam que só porque um homem parece ser de bom caráter, ele necessariamente não tem “direito” a ser membro de sua Loja, e que se ele não se encaixa bem em suas opiniões e interesses, como um membro, ele pode atrapalhar harmonia da Loja. O número de membros nestas Lojas é normalmente limitado, porque os membros desejam cultivar um relacionamento muito próximo com todos os outros membros da Loja. Eles acreditam que isso seria difícil de fazer com um grande número de membros. Por outro lado, esses Irmãos acreditam que, se você não estiver suficientemente interessado em participar de todas as reuniões da Loja, pode ter sido motivado a ingressar por motivos com os quais eles não concordam. Não deve haver maçons inativos.

Embora eles concordem com os neomodernos que a mudança é necessária, eles diferem deles de várias maneiras significativas. Eles acreditam que a experiência iniciática, incluindo o ritual, é extremamente importante. Eles acreditam que os homens são atraídos por instituições como a nossa, não pelo baixo custo ou pela facilidade de se tornarem membros, mas que exatamente o oposto é verdadeiro. Quanto mais difícil é obter algo, mais valioso parece. Eles também acreditam que a instituição deve cumprir suas promessas, fornecendo associações de qualidade e informações intelectualmente estimulantes, para não mencionar boa comida. Esses irmãos estão dispostos a pagar por essa experiência, muitas vezes várias vezes o que pagam por taxas em outra Loja Status-Quo. A abordagem dos neomodernos parece para aos neoantigos estar pervertendo o que eles percebem como a missão da fraternidade e transformando-a em algo completamente diferente do que originalmente era, apenas para preservar o nome “Maçonaria”.

Este artigo não pretende tentar persuadi-lo a assumir um lado ou outro sobre o debate em curso, embora, seja claro que eu já decidi a minha posição. Ele pretende conscientizá-lo de que existe um diálogo contínuo em escala nacional e que muitas Grandes Lojas já estão realizando ações como resultado da influência de um lado ou de outro. Para saber mais sobre essa controvérsia, recomendo os seguintes sites. Eles descrevem com algum detalhe o que é proposto pelos neomodernos e também pelos neoantigos. Lembre-se de que esses termos são meus e não podem ser encontrados em nenhum lugar da web.

Autor: Sir Knight John L. Palmer
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Recursos para mais informações

Restauração Maçônica – (Neoantigos)

http://www.masonicrestoration.com/

http://traditionalobservance.com/

http://www.freemasons-freemasonry.com/masonic_education.html

Observando o ofício por Andrew Hammer

Renovação Maçônica – (Neomodernos)

http://www.masonicrenewal.org/

http://www.pagrandlodge.org/gmaster/renaissance.html

Maçonaria: problemas modernos ou antigos?

O Triunfo da Maçonaria especulativa: O capitalismo como criação de Lojas  Maçônicas radicais

Introdução

Choque de gerações, novos tempos, entre outros assuntos que envolvem mudanças na Maçonaria costumam gerar bastante polêmica.

No entanto, este artigo se propõe a demonstrar que nem tudo é o que parece e que, muitas vezes, aquilo que é interpretado como um problema da modernidade, na realidade, não tem nada de novo.

Antes da Era da Informação, a Maçonaria brasileira no geral, bem como uma grande quantidade de lojas em particular, viviam numa espécie de bolha de realidade, isoladas do restante do mundo e da história maçônica em uma série de coisas. Afinal, manuscritos, livros e até mesmo conversas com o resto do mundo ficavam restritos a uns poucos.

Mas a realidade atual é outra. E, através de dez exemplos reais, este artigo demonstrará que muitas vezes aquilo que é percebido como uma mudança ruim, na realidade, nada mais é do que um fenômeno antigo.

1) Ritual canibalizado?

Algumas semanas atrás, um amigo me ligava e dizia-se chateado com os desdobramentos do Rito Escocês Antigo e Aceito no Grande Oriente do Brasil. Segundo ele, o ritual havia sido canibalizado e havia uma insatisfação geral na loja com seu conteúdo. Cogitavam até trocar de Potência.

Pedi pra ver o ritual e pude constatar que diversos dos enxertos que foram feitos ao rito nas últimas décadas haviam sido removidos. De modo que aquele era um dos rituais mais próximos do ritual francês de 1829 em prática aqui no Brasil. Quando esclareci isso a meu amigo, ele demonstrou enorme surpresa.

Não importa se alguém é contra ou a favor da revisão dos rituais e eliminação dos enxertos. Fato é que, muitas vezes, os rituais revisados podem se basear numa prática mais antiga. Não se pode considerar que isso seja uma inovação!

2) Sem Entrada Ritualística

Numa crítica recente às sessões virtuais, presenciei alguns irmãos dizendo que não poderiam considerar aquilo como sessão porque não havia como ter entrada ritualística em uma sessão virtual.

Independente da posição que alguém tenha sobre sessões virtuais, ocorre que entrada ritualística não é prevista em diversos ritos ou trabalhos. Rituais do York, Emulação, entre outros, preveem que os trabalhos comecem com os irmãos já em loja.

Mesmo no Rito Escocês Antigo e Aceito, a entrada ritualística não consta nos primeiros rituais. O que não quer dizer que ela seja ruim. Apenas, não se define Maçonaria a partir desse fato.

3) Contra o Espírito da Coisa?

Outra crítica às reuniões virtuais diz que conceder graus de forma virtual quebraria o espírito da coisa, já que não teríamos ritualística e a passagem se resumiria a uma mera leitura.

A crítica a isso ser um processo sem graça e bem inferior à teatralidade e às cerimônias das sessões não deixa de ser bastante válida. O problema é que novamente isso é apontado como um problema moderno.

Se alguém atentar para os rituais originais de Charleston do REAA, produzidos no começo do século 19, verá que a ritualística era extremamente simples e os graus eram quase que essencialmente leitura.

A teatralização e maior elaboração das cerimônias foi algo que começou a ser desenvolvido meados do século 19 em diante.

4) Uso de Novas Tecnologias

Outro problema apontado como recente seria o uso de novas tecnologias.

Porém, uma gravura datando de cerca de 1900, no acervo do museu do Rito Escocês do Supremo do Norte dos EUA (NMJ) mostra um retroprojetor sendo usado em loja para ilustrar o conceito dos graus.

Em outras palavras, a Maçonaria já incorpora novas tecnologias a favor de suas sessões há mais de 120 anos!

5) A Maçonaria agora aceita mulheres?

Recentemente, a Grande Loja Unida da Inglaterra postou uma foto conjunta com a Maçonaria feminina.

A foto gerou vários comentários raivosos de maçons brasileiros mas, o que chamou a atenção foram alguns comentários reclamando da ‘modernidade’ no aceite de mulheres na Maçonaria, o que uns classificavam como traição, outros como comércio, uns tantos ainda como o presságio apocalíptico do fim da Maçonaria.

Ocorre, porém, que existem duas Grandes Lojas femininas na Inglaterra com quem a GLUI tem amizade: a Honourable Fraternity of Ancient Freemasons, que foi fundada em 1913, e a Order of Freemasonry for Women, que se tornou estritamente feminina na década de 1920.

Como se pode ver, a Maçonaria feminina na Inglaterra tem literalmente mais de um século. Além de décadas de amizade com a GLUI. Ou seja, não se trata de uma questão recente.

6) Estão desrespeitando os Landmarks?

Analogamente, não é incomum ver maçons alegando que algo vai contra os Landmarks quando veem coisas que lhes causam estranheza. E qual não é o espanto de muitos ao saber que os landmarks de Mackey, criados em 1858, nunca foram adotados como critério pela Inglaterra, que é quem mais dá as cartas em termos de regularidade maçônica no mundo e tem seus próprios Princípios de Regularidade, nem são adotados como padrão universal pelas Grandes Lojas norte-americanas.

Isso sem contar que, ao longo do século 19, vários compilados de landmarks foram propostos por autores diferentes. Nenhum deles foi adotado de forma universal.

Discussões, portanto, revolvendo em torno de coisas que destoam os landmarks de Mackey também não podem ser tratadas como inovações.

7) Revisionismo?

Não são poucos os que vociferam contra irmãos que se levantam para denunciar as ideias e alegações fantasiosas de autores como Rizzardo da Camino, Jorge Adoum, Jean-Marie Ragon, entre outros. Alegam que fazer tal coisa seria matar a alma da Maçonaria.

Mas, novamente, essa questão está longe de ser uma atitude revisionista moderna.

Muito pelo contrário, a própria loja Quatuor Coronati 2076, da Grande Loja Unida da Inglaterra, foi fundada exatamente porque os maçons ingleses já questionavam desde, pelo menos, meados século 19, as ideias fantasiosas propagadas por alguns sobre as origens e desenvolvimentos da Maçonaria.

E os registros históricos da Quatuor Coronati indicam que a loja questionava ideias lendárias propagadas por ninguém menos do que o próprio James Anderson, autor das famosas constituições que carregam seu nome.

Ou seja, a Maçonaria nunca teve um autor como sagrado ou acima de qualquer crítica, e sempre teve pessoas que criticaram a romantização de suas origens.

8) Maçons não estudam mais?

Igualmente é comum ver irmãos reclamando que nos tempos deles os estudos eram sérios e supostamente muito mais conhecedores de Maçonaria do que atualmente, como se os tempos atuais fossem piores.

No entanto, em 1875, Albert Mackey fez a seguinte reclamação:

“No entanto, nada é mais comum do que encontrar maçons que estão em trevas totais sobre tudo o que se relaciona com a Maçonaria. Eles são ignorantes de sua história – eles não sabem se é uma produção de cogumelos hoje, ou se remonta a idades remotas em sua origem. Eles não têm compreensão do significado esotérico de seus símbolos ou suas cerimônias, e dificilmente estão familiarizados com seus modos de reconhecimento. E, no entanto, nada é mais comum do que encontrar tais pseudo-sábios de posse de altos graus e às vezes honrados com assuntos elevados na ordem, presentes nas reuniões de lojas e capítulos, intermediando com o processo, tomando uma parte ativa em todas as discussões e teimosamente mantendo opiniões heterodoxas em oposição ao juízo de irmãos de maior conhecimento.” (Reading Masons and Masons Who Do Not Read)[1]

Ou seja, o problema de haver uma grande quantidade de maçons ignorantes, e pior, ostentando altos graus, cargos administrativos, etc. não é exatamente um problema novo.

9) Aventais

Outra discussão que recentemente presenciei dizia respeito ao Rito Escocês Antigo e Aceito nas Potências da COMAB. Alguns irmãos reclamavam que a COMAB teria “suprimido as rosetas” em prol do típico M. B. no avental de Mestre.

Outros ainda discutiam o padrão dos aventais de Mestre Instalado. Novamente, acusando alguns de quererem inovar.

Ocorre, porém, que um manual dos graus franceses publicado em 1820, em Paris, descreve o ritual de Mestre como tendo justamente o M. B. utilizado pela COMAB.

E, pra piorar, temos o fato de que Instalação é algo inexistente na origem do Rito Escocês Antigo e Aceito, tendo sido incorporada ao rito aqui no Brasil e em outros países. Ou seja, na origem, o REAA não tinha avental de Mestre Instalado, de modo que não importa o padrão, já que não há um padrão original a ser seguido.

10) Egrégora

Outra preocupação muito constante entre alguns irmãos é que determinadas posturas corporais ou pequenos desvios ritualísticos possam comprometer a egrégora da loja. Reclamam que as novas gerações não atentam para coisas que poderiam supostamente quebrá-la.

Sem entrar no mérito da questão de se egrégora existe ou não, fato é que até pouco tempo atrás não se ouvia falar tal termo em Maçonaria. E ele certamente não figura em nenhum ritual histórico da Maçonaria nos seus principais ritos e sistemas.

Ou seja, ironicamente, o conceito de egrégora é, em si, a inovação, não os desvios que poderiam supostamente comprometê-la!

Considerações finais

A lista poderia continuar, com dezenas de outros exemplos, mas os dez acima já são mais do que suficientes para ilustrar o ponto.

Como se pode perceber, uma parte considerável dos incômodos levantados por alguns irmãos com as supostas mudanças ou inovações dos tempos atuais ou das novas gerações estão muito longe de ser assim. Pelo contrário, às vezes representam até mesmo um resgate de práticas mais antigas.

É importante compreender que a postura do “porque sim” ou do “sempre fizemos desse jeito nesta loja”, para justificar ideias ou práticas, não sobrevivem à possibilidade de escrutínio que a Era da Informação nos trouxe, em que fontes podem ser checadas e informações outrora tidas como verdadeiras podem ser facilmente invalidadas.

A Maçonaria não corre, portanto, risco de extinção por esse processo. Nem é justo atribuir tais coisas, como alguns fazem, ao “danoso espírito inovador.”

Autor: Luis Felipe Moura

*Luis Felipe é M∴ M∴, membro da ARLS São Paulo de Piratininga 250 (GOP/COMAB). É bacharel em Letras (inglês), mestre em Teologia e em Psicanálise, atualmente trabalha como psicanalista e professor de Bíblia Hebraica.

Fonte: Ritos & Rituais

Nota do blog

[1] – Clique AQUI para ler o texto completo de Albert Mackey.

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Bibliografia

DYER, Colin. The history of the first 100 years of Quatuor Coronati Lodge No. 2076. Disponível em: https://www.quatuorcoronati.com/about-qc-lodge/centenary-booklet/. Acesso em: <08/09/2021>

JANTZ, Percy. The Landmarks of Freemasonry. Disponível em: http://freemasonry.bcy.ca/texts/landmarks.html. Acesso em: <08/09/2021>.

MACKEY, Albert. Reading Masons and Masons Who Do Not Read. The Master Mason, 1875.

SIMON, Jacques. REAA – Rituel des trois premiers degrés selon les anciens cahiers. Éditions de La Hutte, 2010.

RODRIGUES, Luciano R. Egrégora: um conceito totalmente estranho à tradição maçônica. Disponível em: Egrégora: um conceito totalmente estranho à tradição maçônica. Acesso em: <08/09/2021>

Magic Lanterns: Illuminating the Teachings of Freemasonry. Disponível em: https://scottishritenmj.org/blog/magic-lantern-freemasonry. Acesso em: <08/09/2021>

Manuel Maçonnique, ou Tuileur de tous Les Rites de Maçonnerie Pratiqués en France. Paris, 1820.

Ordo Ab Chao: The Original and Complete Rituals of the first Supreme Council, 33º – Vol. 1. Boston: Boemandres Press, 1995.

Women Freemasons. Disponível em: https://www.ugle.org.uk/becoming-a-freemason/women-freemasons. Acesso em: <08/09/2021>.

HFAF: Our history. Disponível em: https://hfaf.org/about-us/our-history. Acesso em: <08/09/2021>.

The Order of Women Freemasons: Our History. Disponível em: https://www.owf.org.uk/about-us/our-history/. Acesso em: <08/09/2021>.

Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte IV

O Ponto Dentro do Círculo

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Uma reconciliação ou eventual aliança entre a Igreja Católica e a Maçonaria, como instituição, tão sonhada e sempre distante, permanecerá improvável enquanto as partes se valerem de arroubos retóricos e continuarem a alardear o privilégio e a propriedade da Verdade, sem examinar as reais causas do conflito com espírito fraterno, e não vislumbrarem as características complementares do Exoterismo (Igreja) e Esoterismo (Maçonaria), estratégia essa que continuará a alimentar uma série de equívocos e incompreensões, enquanto os seus reais adversários de fato evoluem, renovam-se e conquistam terreno. Nesse impasse, perde-se a oportunidade de construir uma sociedade melhor para todos.

Caso a maçonaria ceda às pressões para tornar transparente seus rituais simbólicos e sua tradição de sociedade iniciática, restando a sua essência e sua aparência aberta aos não iniciados em seus arcanos, a Ordem perderá certamente seu glamour e a aura de sociedade discreta, transformando-se em algo parecido com um clube social…

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Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte III

O Ponto Dentro do Círculo

Imagem relacionadaCharge de c.1870 a respeito da Questão Religiosa

Na Revolução Pernambucana de 1817, também conhecida como “Revolução dos Padres”, e na Confederação do Equador, de 1824, ambas com foco em Pernambuco e de influência maçônica, a liderança principal encontrava-se nas mãos de padres e frades formados em Olinda. Em 1817, dos 310 ditos subversivos, havia 60 padres e 10 frades. Em 1824 havia 40 padres, com destaques para a liderança de Frei Caneca, e do Padre Mororó, outra importante liderança, ambos executados a tiros. “O iluminismo chegou ao Nordeste pelas mãos dos padres Oratorianos…” (Terra, 1996).

“A Constituição de 1824 estabelecia o catolicismo como religião oficial do Império. O Brasil havia herdado de Portugal o “regalismo”, que subordinava a Igreja ao Estado. O monarca, exercendo a chefia do Estado, era o representante supremo da Santa Sé no país. Os membros da Igreja eram pagos e sustentados pelo Estado…

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Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte II

O Ponto Dentro do Círculo

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A maioria esmagadora das lojas maçônicas europeias dos séculos XVII e XVIII foi fundada por ingleses, irlandeses e escoceses, das mais variadas áreas profissionais, considerados hereges pela origem, dado que a religião anglicana era caracterizada como uma seita pelos inquisidores.

O Tribunal do Santo Ofício, o braço jurídico da Igreja na Europa Ocidental, como também era chamado a Inquisição, tinha como objetivo investigar e punir sumariamente os crimes contra a fé católica, assim considerados aqueles que pusessem em dúvida os princípios e dogmas da Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana, bem como quem exercesse culto que lhe fosse contrário. Num segundo momento, funcionou também como instrumento de coação, de forma a manipular autoridades e obter vantagens políticas.

Apesar disso, não havia algo sólido para que a maçonaria fosse de plano acusada de ‘heresia’, face à sua origem eminentemente Cristã. As citadas Constituições jamais foram colocadas no Index[5] pelo Santo…

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Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte I

O Ponto Dentro do Círculo

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“… Do templo de Javé brotará uma fonte que irrigará o Vale das Acácias” (Joel, 4:18)[1]

A Maçonaria Operativa ou de Ofício[2], que dominava a arte de construir, nasceu e floresceu na Europa, sob o manto da Igreja Católica, por volta dos séculos XI ou XII, por intermédio das corporações ou confrarias dos mestres construtores de catedrais e mosteiros, que recebiam instrução e evangelização dos frades e protegiam os ensinamentos secretos da arquitetura e os interesses corporativos da classe.

A Igreja representava a maior instituição da época e o único poder capaz de assegurar o financiamento das construções, influenciando de forma marcante a vida cultural da Idade Média, constituindo-se a arquitetura religiosa a manifestação artística mais expressiva daquele período. Nesse sentido, o conhecimento, o saber, era monopólio da Igreja. A educação do povo estava aos seus cuidados.  Os governos só educavam os nobres.

Regulamentos na forma de…

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Ética e Política

O Ponto Dentro do Círculo

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Diante da vastidão do tema assumi uma tarefa muito modesta. Pensei que pudesse ser de alguma utilidade apresentar, à guisa de introdução, um “mapa” das diversas soluções opostas que historicamente têm sido dadas ao problema da relação entre ética e política.

Trata-se certamente de um mapa incompleto e imperfeito, pois está sujeito a um duplo erro: quanto à classificação dos tipos de solução e quanto ao enquadramento das diversas soluções nesse ou naquele tipo. O primeiro erro é de natureza conceitual, o segundo de interpretação histórica. Trata-se portanto de um mapa a ser revisto por observações ulteriores. Mas por ora creio estar em condições de oferecer pelo menos uma primeira orientação a quem, antes de se aventurar num terreno pouco conhecido, queira saber de todos os caminhos que o percorrem.

Divido as teorias que trataram do problema da relação entre ética e política em monistas e dualistas. Por sua vez…

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Alquimia

Alquimia: conceito, origem e história - Toda Matéria

O filósofo, santo e cientista Alberto o Grande louvou 8 Virtudes nos Alquimistas: eles são discretos e silenciosos; moram bem longe dos homens; escolhem o tempo do seu trabalho; são pacientes, assíduos e perseverantes; executam segundo as regras herméticas a trituração a fixação, a destilação e a coagulação; trazem cadinhos, vasos de vidro e potes de louça bem iluminados. Mas há os que as degradaram a começar pela essencial: evitar pessoas de temperamento sórdido. Para alguns, a falta de rigor empírico, o flerte com a magia, a busca do poder mundano pela transmutação de vis metais em ouro fazem da Alquimia a história de uma quimera senão uma fraude. Para outros é o supremo dom divino, a arte de integrar o mundo natural ao espiritual pela reflexão, ação e criação de um coração puro.

Do Egito, à China, à Índia até o mundo islâmico e a cristandade, a epopeia mais fabulosa da história das ciências mescla romance, superstição, medicina, piedade, tecnologia, trapaça, tragédia, poesia, humor. Forjados na fé do deus três vezes grande Hermes de que o que está no alto está em baixo, o grande no pequeno, o dentro fora, o Um em Todos e Todos no Um, ora cortejando Sofia a Divina Sabedoria ora barganhando com o Demônio como Fausto, para cada imperador ou papa que baniu a alquimia há um imperador ou papa alquimista. Estimada por filósofos como Maimônides ou Tomás de Aquino, praticada por pais da ciência como Boyle e Newton, tão cobiçada quanto ridicularizada por suas panaceias, a Pedra Filosofal ou o Elixir da Vida, quem dirá que a alquimia não tocou a volátil quintessência do pó, do poder e da felicidade?

Há milênios comungamos fermentados como cerveja ou vinho em rituais familiares e religiosos com amigos, mortos e deuses, mas só dos alambiques alquimistas veio a prata e o ouro líquidos dos destilados. Ela inspirou Monteverdi se instilando na forja da mais espetacular das artes, a ópera, e foi o crisol do cinema: um alquimista árabe inventou a câmara escura e um francês pode ter fixado imagens fotográficas em 1750, cem anos antes de Daguerre. Paracelsus foi precursor da homeopatia e da alopatia. Buscando ouro na urina, um alquimista de Nuremberg descobriu o fósforo que queima em nossos palitos e queimou nas bombas que aniquilaram Nuremberg. Rutherford, um pai da física nuclear, se dizia um “alquimista moderno”. Jung viu nos laboratórios alquímicos os elementos de sua psicologia profunda. Paulo Coelho forjou o chumbo de sua “Lenda Pessoal” pregando a “Mão que Tudo Escreveu” e a transmutou em ouro literário e literal na aventura do seu Alquimista na qual uma massa de leitores viveu seu sonho de descobrir o tesouro secreto que sempre possuiu no deserto de suas vidas.

A física hoje persegue o enigma da integração do macromundo da relatividade geral e do microuniverso quântico, afirma a mutação da matéria pela observação, e a interconexão de fenômenos distantes como o voo de uma borboleta e um maremoto ou uma partícula no Sol, outra na Lua e outra na Terra, e dá a qualquer um a chave para transmutar chumbo em ouro, basta bombardeá-lo num acelerador de partículas a custos astronômicos em troca de quantidades microscópicas. Em nossos tempos de fé dogmática na ciência, de nostalgia delirante por uma medicina holística e de profecias transumanistas, terão os alquimistas desaparecido para sempre ou estão chegando?

Nesse episódio do excelente podcast O Estado da Arte, Marcelo Consentino tem a companhia de Ana Maria Alfonso-Goldfarb, professora de história da ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Márcia Ferraz, professora de história da ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; e, Paulo Porto, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, para, fundamentados no conhecimento acadêmico, apresentarem a história da Alquimia: o que era, o que buscava, suas ideias, etc.

Ouvir o que os professores nos trazem é de vital importância para que os iniciados possam compreender o simbolismo da Câmara de Reflexões e o porquê da presença de alguns itens naquele espaço. Sem achismos, invencionices ou ideias pirotécnicas.

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Matrix: impacto filosófico

Matrix 4: sinopse sugere que sequências anteriores não são canônicas -  TecMundo

Nesse excelente vídeo produzido pelo Meteoro Brasil, o jornalista Álvaro Borba faz uma análise da filosofia antes e depois do impacto do filme. Muito além da Matrix, somos instados a refletir sobre nossa existência e o mundo em que estamos. Ou será que não estamos?

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O tempo não existe

Físico fala sobre a física quântica e diz que o tempo não existe

“O tempo não existe. E eu tenho 15 minutos para convencê-los disso”

Assim começa uma palestra TEDx feita em 2012 pelo físico italiano Carlo Rovelli, que não costuma aparecer na imprensa internacional.

Uma das vezes em que ele ganhou destaque foi na revista britânica New Statesmannuma reportagem assinada por George Eaton intitulada “O físico rockstar Carlo Rovelli explica porque o tempo é uma ilusão”, em tradução livre.

“A determinação de Rovelli em tornar a física quântica acessível e suas prodigiosas vendas de livros o levaram a ser chamado de ‘o novo Stephen Hawking'”, destaca o artigo.

Em 2020, no evento “The Nature of Time” (A Natureza do Tempo), organizado pela revista New Scientist, o físico teórico pegou uma corda e a esticou de uma ponta a outra do palco. E pendurou uma caneta no meio da corda para marcar o presente.

Rovelli disse: “É aqui que estamos.”

Ele então ergueu o braço direito e apontou para a direita: “Esse é o futuro.” Na sequência, apontou para a esquerda: “E esse é o passado.”

“Esse é o tempo do nosso dia a dia: uma longa fila, uma sequência de momentos que podemos ordenar, que tem uma direção preferida, que podemos medir com relógios”, disse. “E todos nós concordamos com os intervalos de tempo entre dois momentos diferentes ao longo do caminho, ao longo desta linha.”

Depois acrescentou: “Quase tudo o que eu disse está errado. Em termos factuais, isso está incorreto. É como se eu dissesse que a Terra é plana”.

“O tempo não funciona assim, ele o faz de uma maneira diferente”, emendou.

E esclareceu: “Essas não são ideias especulativas que aparecem em sonhos estranhos de físicos. São fatos que medimos em laboratório, com instrumentos, e que podem ser verificados”.

Pura rebelião

Nascido em Verona, na Itália, em 1956, Rovelli confessa que sua adolescência foi “pura rebelião”. O mundo em que ele vivia era diferente do que considerava “justo e belo” e, em meio a essa decepção, a ciência veio ao seu encontro.

No mundo acadêmico, o jovem pesquisador descobriu “um espaço de liberdade ilimitada”, que ele relembra em um de seus livros.

“No momento em que meu sonho de construir um novo mundo colidiu com a realidade, me apaixonei pela ciência, que contém um número infinito de novos mundos”, descreve.

“Enquanto eu escrevia um livro com meus amigos sobre a revolução estudantil (um livro que a polícia não gostou e me custou uma surra na delegacia de Verona: ‘Diga-nos os nomes de seus amigos comunistas!), mergulhei cada vez mais no estudo do espaço e do tempo, tentando entender os cenários que haviam sido propostos até então.”

Gravidade quântica

Rovelli decidiu dedicar sua vida ao desafio de conciliar duas teorias: a mecânica quântica (que descreve o mundo microscópico) e a relatividade geral de Albert Einstein.

“Para chegar a uma nova teoria, devemos construir um esquema mental que não tenha a ver com nossa concepção usual de espaço e tempo”, diz. “Você tem que pensar em um mundo em que o tempo não é mais uma variável contínua, mas uma outra coisa.”

Ao buscar possíveis soluções para o problema da gravidade quântica, Rovelli foi um dos fundadores da teoria da gravidade quântica em loop, também conhecida como teoria do loop, que apresenta uma estrutura fina e granular do espaço.

Essa teoria tem aplicações em diferentes campos – por exemplo, o estudo do Big Bang ou as formas de abordar e entender os buracos negros.

O físico italiano tem uma carreira brilhante, que inclui inúmeros prêmios e livros. Uma dessas publicações, “Sete Breves Lições de Física” (Editora Objetiva), foi traduzida para 41 idiomas e vendeu mais de 1 milhão de cópias.

Ele também foi professor na Itália, nos Estados Unidos, no Reino Unido e atualmente é pesquisador do Centro de Física Teórica de Marselha, na França.

Rovelli respondeu por escrito a algumas perguntas da BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC Mundo – O que é o tempo? Ele realmente existe?

Carlo Rovelli – Sim, claro que o tempo existe. Do contrário, o que é que sempre nos falta? Mas a ideia comum que temos sobre o que é o tempo e como ele funciona não serve para entendermos átomos e galáxias. Nossa concepção usual de tempo funciona apenas em nossa escala e quando vamos medir as coisas com muita precisão.

Se quisermos aprender mais sobre o universo, temos que mudar a nossa visão do tempo. Porque o que costumamos chamar de “tempo”, sem pensar muito sobre o que isso significa, é realmente um emaranhado de fenômenos diferentes. O tempo pode parecer simples, mas é realmente complexo: ele é feito de muitas camadas, algumas das quais são relevantes apenas para certos fenômenos, e não para outros.

BBC Mundo – O que o senhor descobriu quando se perguntou: por que só podemos conhecer o passado e não o futuro?

Rovelli – A razão de termos informações sobre o passado e não sobre o futuro é estatística. Tem a ver com o fato de não vermos os detalhes das coisas. Não vemos, por exemplo, as moléculas individuais que compõem o ar da sala em que estamos. Mas, no mundo microscópico, não há essa distinção entre o passado e o futuro.

BBC Mundo – O senhor falou sobre a elasticidade do tempo e sobre um dia em que “vivenciamos coisas diretamente, como encontrar nossos filhos mais velhos que nós mesmos no caminho de volta para casa”. Como isso pode acontecer?

Rovelli – A pergunta correta é a oposta: por que quando nos separamos e nos encontramos novamente, o seu e o meu relógio medem o mesmo intervalo de tempo?

Não há razão para que devam medir esse mesmo tempo. A experiência nos diz isso apenas porque nossas medições não são precisas o suficiente. Se fossem, veríamos que o tempo corre em velocidades diferentes para pessoas diferentes, dependendo de onde estão e como se movem. Portanto, eu poderia me separar de meus filhos e reencontrá-los em um tempo que significa apenas um ano para mim, mas 50 anos para eles. Nesse cenário, eu ainda sou jovem e eles envelheceram. Isso certamente é possível. O motivo pelo qual normalmente não vivenciamos esse tipo de experiência é apenas que nossa vida na Terra se move numa velocidade lenta entre nós e, nesse caso, as diferenças de tempo são pequenas.

BBC Mundo – Algum dia poderemos viajar ao passado?

Rovelli – Considero extremamente improvável. Viajar para o futuro, por outro lado, é o que fazemos todos os dias.

BBC Mundo – O que o senhor quer dizer com isso?

Rovelli – Viajar ao passado é difícil. Mas viajar para o futuro é muito fácil. Faça o que fizer, você está viajando sempre para o futuro: o amanhã é o futuro do hoje.

BBC Mundo – Sabemos que o senhor gosta muito de gatos e prefere não se referir ao gato de Schrödinger[1] e a discussão se ele está vivo ou morto (ou dormindo). O senhor poderia explicar por que, segundo esse famoso experimento, o animal pode estar vivo e morto ao mesmo tempo?

Rovelli – Acho que o gato não está realmente acordado e dormindo ao mesmo tempo. Considero que, com respeito a si mesmo, o gato está definitivamente acordado ou dormindo. Mas quando se trata de mim e de você, pode não haver nem um estado, nem outro. Porque eu acho que as propriedades das coisas (incluindo os átomos e os gatos) são relativas a outras coisas e só se tornam reais nas interações com elas. Se não houver interações, não há propriedades.

BBC Mundo – Como o senhor explicou, a discussão entre os físicos da mecânica quântica não é apenas sobre o gato estar vivo e morto ao mesmo tempo, mas também sobre o experimento com dois eventos, A e B, nos quais A vem antes de B, mas também B vem antes de A. Como isso pode ser possível?

Rovelli – Quando dizemos que um evento A é anterior a um evento B, o que queremos dizer é que pode haver um sinal indo de A para B. Por exemplo, sua pergunta é anterior à minha resposta, porque me chega antes que eu possa respondê-la.

No entanto, às vezes pode acontecer que seja realmente impossível enviar um sinal de A para B, mas também impossível enviar um sinal de B para A. Então, nenhum é anterior ao outro.

A razão de não estarmos acostumados com isso é porque a luz viaja muito rápido, então tendemos a pensar que podemos ver tudo “instantaneamente”. Mas a verdade é que não podemos. Portanto, sempre existem eventos que não são ordenados de acordo com esse tempo.

BBC Mundo – O que o senhor quer dizer quando afirma que existem muitas versões diferentes da realidade, embora todas pareçam iguais em grande escala?

Rovelli – As propriedades de todas as coisas são relativas a outras coisas. As propriedades do mundo em relação a você não são necessariamente as mesmas em relação a mim. Normalmente, não vemos essas diferenças nas propriedades físicas porque os efeitos quânticos são muito pequenos. Mas, em princípio, podemos ver mundos ligeiramente diferentes.

BBC Mundo – O senhor disse que temos que reorganizar a forma como pensamos a realidade. Como podemos fazer isso? O que estamos perdendo se não tentarmos seguir por esse caminho?

Rovelli – Podemos continuar vivendo nossas vidas ignorando a física quântica, mas se estamos curiosos sobre como a realidade funciona, temos que encarar que as coisas são realmente estranhas.

BBC Mundo – A metáfora que o senhor faz sobre a mecânica quântica e sua interseção com a filosofia, como se essas duas áreas do conhecimento fossem um casal se reunindo, se separando, depois voltando e se separando novamente, é fascinante. A mecânica quântica e a filosofia precisam uma da outra?

Rovelli – Creio que sim. No passado, a física fundamental também avançou graças à inspiração da filosofia.

Todos os grandes cientistas do passado eram leitores ávidos de filosofia. Não há razão para que as coisas sejam diferentes hoje.

Na minha opinião, o inverso também é verdadeiro: os filósofos que ignoram o que aprendemos sobre o mundo com a ciência acabam sendo superficiais.

BBC Mundo – Para o senhor, o livro “A Ordem do Tempo” é muito especial porque “finge ser sobre física, mas secretamente é o meu livro sobre o significado e a finitude da vida”. Qual é o sentido da vida para Carlo Rovelli?

Rovelli – O sentido da vida para Carlo Rovelli é o que penso ser o sentido da vida para todos nós: a rica combinação de necessidades, desejos, aspirações, ambições, ideais, paixões, amor e entusiasmo, que surgem em várias medidas e em diferentes versões naturalmente de dentro de nós. A vida é uma explosão de significado.

Alguns projetaram o significado da vida fora de si mesmos e ficam desapontados ao perceber que havia algo ilusório em esperar que o significado viesse de fora.

Uma das minhas respostas favoritas a essa pergunta foi atribuída a um antigo sioux [etnia indígena norte-americana]: o propósito da vida é abordar com uma canção qualquer coisa que encontrarmos pela frente.

BBC Mundo – O senhor assinalou que na ciência muitos erros são cometidos quando fingimos estarmos certos, quando na verdade muitas vezes não temos essa certeza toda. O novo coronavírus trouxe muitas incertezas para nossas vidas. Como o senhor lidou com isso?

Rovelli – Eu tenho me esforçado não apenas para minimizar o risco para mim e para as pessoas que amo, mas também para minimizar meu próprio papel na disseminação da infecção.

Mas sabendo bem que o risco foi e continua a ser real e que milhões de pessoas morreram e ainda estão morrendo, tenho em mente que isso ainda pode acontecer comigo e meus entes queridos.

Essa constatação não deve ser motivo para pânico, mas também não gosto de esconder a cabeça na areia.

BBC Mundo – Que reflexões o senhor fez nestes tempos desafiadores para milhões de pessoas ao redor do mundo?

Rovelli – O que fico pensando é simples: não seria o momento de a humanidade trabalhar em conjunto, em vez de continuarmos a ficar uns contra os outros? O Ocidente está construindo novos inimigos: China, Irã, Rússia…

Não podemos viver de forma respeitosa e colaborativa, sem a necessidade de subjugar uns aos outros, de prevalecer sobre os outros, de vencer, em vez de cooperar para o bem comum?

A humanidade está enfrentando uma pandemia, milhões de mortes, desastres ambientais e ainda não conseguimos aprender a nos vermos como membros de uma única família, que é o que realmente somos.

A mecânica quântica é a descoberta de que a realidade é tecida por relacionamentos, mas permanecemos cegos para o fato de que prosperamos em relação aos outros, não uns contra os outros. Posso ser ingênuo, mas é isso o que penso todos os dias quando vejo o noticiário.

BBC Mundo – O senhor disse que gostou de ler “O Amor em Tempos do Cólera”, de Gabriel García Márquez, porque “nestes tempos sombrios, é bom ler sobre o amor verdadeiro”. Você pode nos contar mais sobre o que gostou no livro?

Rovelli – É um livro cheio de graça e luz. Retrata as muitas formas de amar e partilhar, com um olhar que sorri diante de toda essa complexidade.

Uma forma de amor é a lealdade da personagem Fermina Daza ao marido. Outra é a intimidade e a amizade de Florentino Ariza com dezenas e dezenas de mulheres. Mas esse amor absoluto entre ele [Ariza] e ela [Daza] é uma bela forma de amor, que foi venerado e valorizado por décadas, até que conseguiu florescer de forma maravilhosa quando os dois já estavam mais velhos.

Reportagem de Margarita Rodríguez

Fonte: BBC News Mundo

Notas do Blog

[1] – O que é o Gato de Schrödinger? Leia mais em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-o-gato-de-schrodinger/

[2] – O futuro já aconteceu e o tempo é uma ilusão. Leia mais em: https://opontodentrocirculo.com/2015/12/10/o-futuro-ja-aconteceu-e-o-tempo-e-uma-ilusao/

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