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Dentre as atribuições do Primeiro Vigilante, consideramos a mais importante a de pagar os obreiros e despedi-los sob a certeza de que estão satisfeitos com o pagamento recebido. E desde os primeiros passos, ao obreiro é ensinado que para receber precisa trabalhar e, com dedicação e estudo, poderá inclusive solicitar um aumento de salário.

Sabemos que salário é a contraprestação recebida pelo trabalhador em razão do cumprimento de uma atividade ou desenvolvimento de um trabalho a ele determinado. A origem da palavra tem a ver com o “Sal”, que nos primórdios era utilizado para a preservação de alimentos, mas, como em uma oficina maçônica tudo é simbólico, esse salário não é diferente. Um exemplo disso é que muitas vezes, embora tenham recebido seus salários, muitos obreiros não desenvolveram efetivamente um trabalho, mas, ainda assim, foram pagos.

A maçonaria tem por objetivo primordial o aperfeiçoamento individual, e nos ensina a aplicar…

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Maçonaria na modernidade tardia: mitos e imaginários (Parte II)

A Maçonaria que 95% dos maçons desconhecem!

As críticas à Maçonaria e o imaginário antimaçônico

Escolhemos uma consulta aos sites na internet para procurar perceber como a Maçonaria é vista por seus opositores e aprofundar um pouco a reflexão sobre o imaginário que a envolve.

A Igreja Católica é opositora da Maçonaria desde os tempos da Revolução Francesa, à medida que os maçons combatiam a falta de liberdade de pensamento que a Igreja era uma das principais responsáveis. As críticas da Igreja Católica já foram mais contundentes, mas hoje permanece a proibição aos católicos de pertencerem à Maçonaria, como aparece no site https://padrepauloricardo.org/episodios/um-catolico-pode-ser-macom:

Permanece, portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão. (Acesso em 15/07/2014).

A principal motivação para essa proibição, na continuidade da reflexão apresentada no site, é que a Maçonaria defende o relativismo religioso como regra fundamental para seus adeptos. Esse fato fere o princípio cristão de que somente Jesus Cristo pode levar à salvação, o que contraria qualquer tipo de relativismo. Assim, desde o século XIX quando diversos documentos papais condenaram a Maçonaria, permanece o veredicto católico sobre o erro de se participar dessa instituição[4].

Já outros sites são bastante agressivos contra a Maçonaria, como, por exemplo, o site http://intellectus-site.com/site2/artigos/maconaria-braco-direito-do-diabo.htm, que em tom violentamente contrário, procura mostrar que os símbolos e ideais maçônicos são contrários à Bíblia e ligados a Lúcifer ou Satanás. No texto do site encontramos:

Deus está entregando o Brasil nas mãos de saqueadores e de homens cujo coração não somente se encontra longe dele, mas cujos intentos nunca levam em consideração nem o amor ao próximo e nem a misericórdia. Porém, estamos falando de uma nação inteira, de um país com quase 200 milhões de pessoas, como se tem dado isto na prática?
As Origens da Maçonaria e de seu Pai, Lúcifer
Essa organização luciferiana, chamada de Maçonaria, diferentemente do que muitos supõem, não é um organismo isolado e singular no mundo. Antes, trata-se de um poderoso segmento do Império de Satanás. (Acesso em 15/07/2014).

Como pode ser entendido pelo texto citado, o autor do site associa a Maçonaria ao satanismo e também reputa a essa instituição o que ele entende como fracasso do Brasil em se tornar uma nação desenvolvida. O interessante deste site é que o autor parece conhecer bastante os ritos e símbolos da Maçonaria, pois se utiliza de imagens dos mesmos e textos maçônicos para exemplificar e contestar cada elemento pertencente à Maçonaria. Ao fim de sua argumentação, a conclusão é bastante contundente:

A Bíblia e a Maçonaria são opostas entre si e eternamente inconciliáveis!
A Maçonaria é uma organização iniciática, ocultista e completamente satânica!
A Maçonaria se infiltrou na política brasileira, e continua infiltrada, e nenhuma nação da Terra pode ser beneficiada por uma organização filha do Inferno! Muito pelo contrário!
O deus da Maçonaria não é o Deus da Bíblia! O deus da Maçonaria é o diabo!
Impossível ser Cristão e Maçom ao mesmo tempo! Mais cedo ou mais tarde, a escolha terá de ser feita, e significará o Céu ou o Inferno, respectivamente.
(http://intellectus-site.com/site2/artigos/maconaria-braco-direito-do-diabo.htm Acesso em 15/07/2014)

O interessante da contraposição desses dois sites em relação à Maçonaria é que a finalidade é a mesma – manter os cristãos afastados dessa instituição –, mas a forma assumida reflete dois modos contemporâneos do cristianismo de combater as demais crenças: a argumentação racional e assertiva com base em pressupostos teológicos, que é característica do catolicismo e demais igrejas protestantes históricas; e a demonização pura e simples, mesmo que acompanhada de certo conhecimento do tema, que é característica das igrejas evangélicas de cunho pentecostal e neopentecostal surgidas nos últimos 120 anos.

Esses dois exemplos que coletamos constituem uma pequena, mas significativa, amostra do que uma rápida consulta ao “Google” oferece: encontram-se 2.400.000 (dois milhões e quatrocentos mil) sites que disseminam informações sobre a Maçonaria e também os que tratam tanto das acusações dos inimigos da Maçonaria como das defesas postadas pelos maçons e seus defensores. Ao consultar o conteúdo de muitos deles, encontramos sempre os mesmos argumentos contrários e as mesmas explicações, mostrando que o diálogo é impossível entre essas correntes de pensamento, e que, apesar da Maçonaria estar expondo publicamente a parte não secreta de seus rituais e doutrinas, não há um limite para o estímulo dos opositores ao imaginário que procura transformar a instituição numa força demoníaca e conspiradora contra a sociedade que se pensa cristã.

Considerações sobre os mitos e o imaginário que cercam a Maçonaria

A consulta aos livros que estudam a história da Maçonaria, aos artigos de divulgação em revistas científicas e de divulgação jornalística e aos sites que tratam dos temas ligados à Maçonaria, nos possibilitaram um entendimento sobre o poder que é atribuído à Maçonaria, o medo e as polêmicas que a instituição suscita socialmente, assim como os motivos para que ela seja condenada pelos defensores mais radicais do cristianismo.

O surgimento dessa instituição num momento histórico de grandes transformações no mundo ocidental, com a revolução produzida pelos ideais renascentistas e depois iluministas, o confronto das novas formas de pensamento com as tradicionais formas de poder que vigoravam desde o final da Antiguidade, mais precisamente o poder monárquico e o clerical, colocou a Maçonaria no centro de muitas polêmicas, principalmente por acolher entre seus adeptos muitos defensores dessas novas ideias.

Aliado a essa opção pela defesa da liberdade de pensamento e de investigação que marcou a Maçonaria desde o princípio, sua constituição sob a forma de sociedade iniciática, adepta do estudo das ciências ocultas cuja origem remonta a um passado mítico, produziu um efeito impressionante sobre o imaginário das sociedades ocidentais onde a instituição atuou decisivamente. A capacidade de manipular o poder, de influenciar decisões, de mudar os rumos dos acontecimentos, sempre foram capacidades atribuídas aos magos. Numa sociedade de maioria cristã e intolerante com outras formas de crença e de conhecimento religioso, o poder mágico atribuído aos maçons só poderia ter uma única origem, que não era, obviamente, ligado a Jesus Cristo.

Hoje os conhecimentos ditos ocultos estão disponíveis na internet sob a forma de artigos, documentários, guias práticos, etc., não constituindo mais nenhum mistério essas informações que – segundo o imaginário coletivo – podem ajudar uma pessoa a manipular situações e mentes. O fato da Maçonaria permanecer como alvo das críticas e oposições ferrenhas dos cristãos está mais ligado ao passado e ao imaginário social do que ao presente, pelo fato da instituição ter perdido – no último século – grande parte de seu estímulo para lutar por ideais que agora já são bastante comuns e públicos.

É sobre esse aspecto que trataremos na continuidade do texto.

A presença da Maçonaria na História e o discurso e práticas atuais

Já abordamos rapidamente alguns aspectos da participação da Maçonaria e dos maçons na Revolução Francesa e na Independência dos Estados Unidos. Nessas duas nações inspiradoras da maior parte dos ideais que hoje fundamentam a cultura ocidental, assim como na Grã-Bretanha, nação onde se originou a instituição maçônica, o papel da Maçonaria foi muito importante historicamente. Chatenet (2009), por exemplo, afirma que, entre George Washington e Bill Clinton, apenas dois presidentes americanos não pertenceram à Maçonaria: John Kennedy e George Bush.

Se olharmos para a história do Brasil, apesar da participação maçônica não ter sido tão preponderante como nos EUA, houve claras influências da Maçonaria no movimento republicano e abolicionista, assim como na direção que o Brasil tomou na Primeira República. (AZEVEDO, 1996; BARATA, 1999).

As ideias maçônicas estão presentes no Brasil desde o final do século XVIII (AZEVEDO, 1996, ACIOLY, 2004), havendo especulações sobre a presença dessas ideias na Inconfidência Mineira. Entretanto, há certo acordo entre os historiadores de que a primeira Loja foi fundada em 1801. Nas décadas seguintes, até 1860, aconteceu grande expansão das Lojas pelo Brasil, que se afiliaram às tradições maçônicas francesa, belga, portuguesa e inglesa (AZEVEDO, 1996, p. 182).

Apesar de ser impossível dissociar as atividades maçônicas das principais questões que motivaram transformações no Brasil durante o período imperial e no início da República, poucos estudiosos se aventuraram a um aprofundamento maior sobre a real participação da Maçonaria nos eventos políticos, econômicos, sociais e culturais.

Barata (1999) procurou mostrar a Maçonaria no Brasil – como também na sua origem europeia – como a principal divulgadora dos ideais do iluminismo e da ilustração, tendo seus membros se tornado alguns dos mais importantes defensores da abolição da escravidão, da necessidade de modernização para o país, tanto economicamente como na área da educação. O esforço para retirar da Igreja Católica o predomínio sobre o sistema educacional brasileiro aparece como um dos principais investimentos maçônicos, fato que aconteceu nos principais estados do Brasil, como também mostra o artigo de Colussi (2000) quando aborda a participação da Maçonaria no Rio Grande do Sul.

Vieira (1999) centra seu foco na participação da Maçonaria na Questão Religiosa (ocorrida entre 1872 e 1875), conflito que envolveu a Maçonaria, a Igreja Católica e o Regime Imperial, e que contribuiu significativamente para o aumento do descrédito do governo monárquico de conduzir o Brasil ao desenvolvimento, à medida que tinha dificuldade de lidar com o poder religioso e impor sua autoridade (ROMANO, 1979). Esse conflito acabou por beneficiar o movimento republicano e o movimento favorável à vinda de imigrantes para substituir a mão de obra escrava. Para Vieira (1999) a Questão Religiosa e a atuação da Maçonaria – mesmo que os protestantes também tivessem dificuldade de aceitar a instituição maçônica – contribuíram para que o Protestantismo tivesse maior liberdade de atuação no Brasil, país que tinha na época o catolicismo como religião oficial.

Morel e Souza (2008), numa abordagem fundamentada historicamente, mas com o viés do enfoque e da linguagem jornalística, esforçam-se por apresentar um panorama geral da Maçonaria, desde seu surgimento na Grã-Bretanha, explicando seus mitos e sua condição de organização iniciática, até sua chegada e desenvolvimento no Brasil. Procuram mostrar a participação dos maçons nos principais eventos da política brasileira no século XIX e contradizem a tese de Sérgio Buarque de Holanda de que a Maçonaria perdeu força no Brasil devido ao avanço do pensamento positivista. O aspecto diferenciado da obra de Morel e Souza (2008) é ter avançado até o período contemporâneo, quando há um silêncio entre historiadores sobre a Maçonaria, analisando a transformação da Maçonaria em função das transformações culturais acontecidas no Brasil e no mundo.

Azevedo (1996) procura fazer uma reflexão sobre esse silêncio que cercou os estudos sobre a Maçonaria a partir da década de 1940. A autora afirma que mesmo os historiadores da Escola dos Annales pouco se interessaram pelo tema desde a fundação da revista (AZEVEDO, 1996, p. 186). Outro fato que a autora destaca, é que no Congresso Internacional do Bicentenário da Revolução Francesa, realizado na Sorbonne em 1989, entre as mais de duzentas comunicações apresentadas nenhuma tratou da participação da Maçonaria (AZEVEDO, 1996, p. 188).

Algumas explicações têm sido apresentadas para justificar – segundo a autora – o silêncio a que os historiadores relegaram a Maçonaria. A primeira delas é “o impacto do mito da conspiração maçônico-judaica que perpassou o imaginário europeu desde o início da década de 1930” (AZEVEDO, 1996, p. 188), outro motivo seria a dificuldade de acesso às fontes maçônicas, sigilosas pela própria natureza da instituição, por fim, a opção por não pesquisar uma sociedade secreta que supostamente estuda ciências ocultas, tema pouco interessante para a abordagem mais racionalista contemporânea.

Na abordagem de Azevedo (1996), assim como em Morel e Souza (2008) e em reportagens das revistas História Viva e Superinteressante, aparece um aspecto que se mostra bastante relevante para a abordagem que procuramos dar sobre o tema: apesar dos elementos míticos e imaginários que cercam a Maçonaria ainda nos dias atuais, a instituição se tornou comum, isto é, deixou de ser uma vanguarda do pensamento político e cultural como foi nos tempos em que os ideais iluministas ainda necessitavam de um intenso esforço para se tornarem a base da sociedade ocidental.

Nos dias atuais a liberdade de pensamento é uma realidade no ocidente, a liberdade de iniciativa, a liberdade religiosa, a educação laica, a sociedade e os costumes secularizados já constituem o núcleo fundamental da cultura ocidental, tornando, nessa perspectiva, a Maçonaria uma instituição comum, com participação política e social naturalmente aceitas, mesmo que relativamente estigmatizada pelo fato de manter secretos seus rituais. Essa atual posição da Maçonaria na sociedade aparece, por exemplo, no texto de Gwercman (2005) que, citando trecho da entrevista de H. Paul Jeffers, autor de um livro sobre a Maçonaria, escreve: “Atualmente, a maçonaria mais parece uma tentativa por parte de homens bem intencionados, na maioria brancos e velhos, de entender o sentido da vida.” (GWERCMAN, 2005, p. 59).

Essa afirmação parece ser um exagero, mas as indicações dos sites e das reportagens mostram que, realmente, o que intriga e incomoda os não maçons é o mistério e o imaginário, particularmente as construções negativas que já citamos: satanismo, complôs, etc.

Nas reportagens de revistas que selecionamos para analisar como a Maçonaria aparece atualmente nas publicações, à medida que os livros sobre a Maçonaria que citamos são poucos e provavelmente lidos por um restrito número de pessoas, emergem alguns traços interessantes que devem ser destacados.

Nefontaine (2007), por exemplo, aponta que o segredo ou discrição – como dizem os maçons – é uma condição para manter um dos pontos centrais da organização: a liberdade de pensamento e de busca do conhecimento. Não falando sobre os rituais e sobre as experiências internas que acontecem nos templos, os maçons reservam esse local para a vivência de momentos únicos, voltados para a reflexão e para o debate sobre todos os temas que estão em voga na sociedade, na política, na economia, na ciência e na espiritualidade. Esse autor afirma:

Mas qual a eficácia de ocultar informações? Na França, as lojas maçônicas foram apresentadas como laboratórios de ideias em que novos temas podiam ser explorados com total liberdade, o que contrastava com as tendências naturalmente conservadoras e imobilistas da sociedade. Assim, o segredo permitiu a eclosão e a discussão livre de ideias novas e progressistas, que puderam concorrer para o estabelecimento de legislações sociais e éticas como o descanso remunerado, a liberação do aborto a partir de 1973, a contracepção e o planejamento familiar. (NEFONTAINE, 2007, p. 63)

Outro aspecto que aparece como relevante para a análise sobre a atuação da Maçonaria na atualidade refere-se à suposta proteção social que os maçons recebem da Organização. Gwercman (2005) propõe que a Maçonaria, apesar de não estar mais tão ativa na busca pela influência direta no poder político, permanece atuando nos bastidores para conseguir favores ou alcançar metas que podem ser voltadas tanto para benefícios sociais (hospitais, creches, casas de correção, etc.) como para beneficiar os próprios irmãos. Nesse sentido o autor lança algumas indagações:

Muitos maçons brasileiros adoram listar pessoas importantes que integram a ordem. São empresários, policiais de alta patente, políticos, juízes. Todos unidos pelo compromisso de ajuda mútua – irmão que é irmão nunca deixa o outro na mão. Atualmente, por exemplo, circula entre os maçons paulistas a história de um julgamento recente, parte de um escândalo nacional, que caminhava para a condenação do réu e mudou de rumo após telefonemas entre altos membros do tribunal. Advogados, juízes e o acusado eram iniciados na ordem. Casos assim são frequentemente ouvidos, ainda que na maioria das vezes em tom de boato. E preocupam muita gente. Por mais que os integrantes da maçonaria sejam gente da mais fina estirpe e dotados das melhores intenções, será que têm condições de abandonar os valores e pactos da fraternidade na hora de exercer cargos na sociedade pública? (GWERCMAN, 2005, p. 59)

Esse é um problema que, com certeza, não obterá resposta. Todas as pessoas que ocupam cargos públicos – sejam maçons ou não – podem cometer o mesmo tipo de ato de improbidade, beneficiando parentes, amigos, membros da mesma religião, etc. Não há nenhuma garantia de honestidade quando esses fatores estão em jogo, sendo os casos de honestidade a exceção à regra. Então, esse não é um problema dos maçons, mas – como já afirmamos – do imaginário social que leva grande parte das pessoas a enxergar a Maçonaria sob a ótica que a tem marcado desde o início de suas atividades.

Considerações Finais

A modernidade tardia ou pós modernidade[5] trouxe a necessidade das instituições tradicionais da sociedade ocidental se reinventarem. A não aceitação pura e simples das verdades religiosas ou científicas, por um lado, e a liberdade de investigação e busca por caminhos alternativos de conhecimento e realização pessoal, por outro, redefiniu ou vem redefinindo os papéis e a importância das instituições dentro da ordem social, assim como sua perspectiva de alcançar ou manter o sucesso de suas ideias, crenças, doutrinas e regras.

Ao abordar a Maçonaria como tema de reflexão, nos colocamos diante do fato de que há grande riqueza na história da instituição e também múltiplas interpretações existentes sobre a criação e o desenvolvimento da mesma, assim como sobre seus rituais e sua participação na história de muitas sociedades. Mas entendemos que hoje essa riqueza pode não ser suficiente para a continuidade de suas atividades no nível em que quase sempre se colocou.

No nosso entender, o mito de origem da Maçonaria ainda constitui uma forma de conferir autoridade e reverência aos rituais e conhecimentos que a instituição ensina internamente e defende socialmente. Colocar-se como herdeira da tradição dos grandes construtores da humanidade, conhecedores da arte de erguer monumentos extraordinários – como os egípcios – é se afirmar a partir de conhecimentos imemoriais, que não precisam ser verdadeiros, no sentido que é dado pelo Cristianismo e pela ciência, mas no sentido mítico, como modelos exemplares de conduta e comportamento. Nessa perspectiva, os mitos maçônicos são compreensíveis e conferem sentido à existência de uma instituição como a Maçonaria.

Entendemos também que o imaginário social, construído, como vimos, durante e após a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos, mostra que a instituição lutou por seus ideais como qualquer outra instituição e que o fato de ser uma Ordem iniciática e que mantém seus rituais em segredo, causou maior preocupação nos não adeptos do que o poder real que a instituição possuiu durante sua história. Seus membros fizeram política, procuraram influenciar os destinos das sociedades em que participavam – assim como os cristãos sempre fizeram – mas foram demonizados por não tornarem públicos os seus membros e seus ritos e doutrinas.

A curiosidade, e também o medo, em relação a tudo que é misterioso, emoção comum à maioria dos seres humanos, parece ser o fermento que impulsionou o imaginário antimaçônico, deixando sempre a dúvida sobre se existe mesmo todo o poder que é conferido a essa instituição. De qualquer modo, os maçons continuam mantendo esse imaginário intacto – e talvez se divertindo com ele – porque permanecem fiéis aos segredos da Ordem e continuam atuando sem que a sociedade saiba exatamente onde começa e onde termina sua influência.

Uma questão para ser investigada é se esses mitos e esse imaginário, nas condições do tempo atual, são adequados à manutenção da Maçonaria como uma instituição de peso na sociedade, como aparenta ter sido em outros momentos históricos. Nesse sentido, instituição maçônica não correria o risco – por ter perdido o sentido de sua antiga luta por valores universalistas nos campos político e religioso – de se tornar apenas uma instituição de sociabilidade, que agrega pessoas em torno da manutenção de um status que não representa mais a riqueza da construção histórica e imaginária que a fundamenta?

Autor: André Luiz Caes

Fonte: Revista Sapiência- Sociedade, Saberes e Práticas Educacionais

*Clique AQUI para ler a primeira parte doa artigo.

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Notas

[4] – Podemos citar a Carta Encíclica Humanum Genus, publicada pelo Papa Leão XIII em 20 de abril de 1884, a primeira a não apenas condenar a Maçonaria, mas a apresentar argumentos sobre o posicionamento da Igreja e não apenas acusações. Conferir: http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18840420_humanum-genus.html Acesso em 15/07/2014.

[5] – Não entramos particularmente na discussão desses conceitos, que podem ser melhor compreendidos em diversas obras, das quais citamos: GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991; BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

Referências

ACIOLY, Augusto César. As luzes da Maçonaria sobre Pernambuco. Recife: UFPE,
ANPUH, Anais, Outubro/2004.

AZEVEDO, Célia M. Marinho de. Maçonaria: história e historiografia. São Paulo:
Revista USP (32), Dezembro/Fevereiro, 1996/1997.

BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e Sombras. A ação da Maçonaria brasileira
(1870-1910). Campinas: UNICAMP, 1999.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

BENHAMOU, Philippe. Uma fabulosa indústria de teorias. São Paulo: Ed. Duetto, Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 28 e 29.

BENHAMOU, Philippe. A lenda do complô maçônico. São Paulo: Ed. Duetto, 2009a. Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 30 a 33.

CAES, André Luiz. Da espiritualidade familiar ao espírito cívico: a família nas
estratégias de reestruturação da Igreja (1890-1934). Campinas/Unicamp: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 1995. Dissertação de Mestrado.

CHATENET, Madeleine du. A irmandade faz a América. São Paulo: Ed. Duetto, 2009. Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 37 a 41.

COLUSSI, Eliane Lucia. A Maçonaria gaúcha e a defesa do ensino laico no período da República Velha. Pelotas: Universidade Federal/ASPHE/FAE, História da Educação, nº 7, abril 2000, p. 59 a 73.

CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da religião. São Paulo: Paulinas, 2010.

DARNTON, Robert. Boemia literária e Revolução: o submundo das letras no Antigo Regime. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2007.

ELIADE, Mircea. Ocultismo, bruxaria e correntes culturais: ensaios em religiões comparadas. Belo Horizonte: Interlivros, 1979.

FRANCO JR, Hilário. As Cruzadas. 6ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1989.

GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.

GWERCMAN, Sérgio. A Ordem. São Paulo: Editora Abril, 2005. Revista
Superinteressante
nº 217, set/2005. p. 50 a 59.

LOPES, Reinaldo. Guerreiros de Cristo. São Paulo: Editora Abril, 2006. Revista
Superinteressante nº 223, fev/2006. p. 48 a 57.

MOREL, Marco e SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da Maçonaria: a
história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

NEFONTAINE, Luc. Uma fortaleza inviolável. São Paulo: Ed. Duetto, 2007. Revista História Viva nº 47, Ano IV. p. 60 a 63.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. Belo Horizonte:
Autêntica, 2003.

PINHEIRO, Paulo Sérgio. O Brasil republicano, Sociedade e Instituição (1889-1930) Coleção: História Geral da Civilização Brasileira. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, vol.02.

ROMANO, Roberto. Brasil: Igreja contra Estado. São Paulo: Kairós, 1979.

VIEIRA, David Gueiros. O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no
Brasil
. 2ª Ed. Brasília: Editora UNB, 1999.

Sites:
https://padrepauloricardo.org/episodios/um-catolico-pode-ser-macom
http://intellectus-site.com/site2/artigos/maconaria-braco-direito-do-diabo.htm
http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18840420_humanum-genus.html

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Maçonaria na modernidade tardia: mitos e imaginários (Parte I)

Cordão Maçonaria traçado A maior Loja de Produtos Maçônicos e Paramaçônicos  do Brasil

A Maçonaria é uma das instituições mais polêmicas existentes na sociedade ocidental. Surgida num contexto de transformações no mundo medieval, como uma associação de artesãos pedreiros e construtores, seu posterior desenvolvimento levou à formação de uma organização iniciática, com rituais secretos e ideias inovadoras, baseadas nos ideais iluministas. Desde o seu surgimento, os maçons procuraram construir um mito sobre sua origem como herdeira de tradições muito antigas e poderosas da antiguidade e da própria Idade Média. Por outro lado, a sociedade ocidental, dominada por muito tempo pelos costumes e pelos ensinamentos cristãos, acabou por construir em torno da Maçonaria um imaginário bastante extraordinário, conferindo a essa Ordem o potencial para mudar a história e para corromper a sociedade através de práticas consideradas satânicas. Neste trabalho, analisamos os mitos maçônicos e o imaginário que envolve a Ordem, procurando refletir sobre a forma como a Maçonaria é vista na sociedade atual.

Introdução

A Maçonaria guarda dentro de si, como instituição, muitos segredos.

Pelo menos é isso que a Ordem deseja que todos pensem, é isso que os maçons transmitem para quem os indaga sobre o que acontece dentro do Templo e é isso que a maior parte das pessoas pensa sobre essa instituição que atrai tanta desconfiança.

O fato é que guardar segredo sobre o que acontece dentro de uma instituição que é pública – porque nunca ficou escondida – parece ser uma situação tão desconcertante para a maior parte das pessoas que faz com que a imaginação faça grandes voos. Pode-se dizer que esses segredos se tornaram a maior força da Maçonaria e também o maior foco das críticas que sempre são feitas à instituição.

Mesmo nesse momento histórico, no qual aparentemente a Maçonaria perdeu parte do interesse pelos seus mistérios, ainda é interessante perceber e refletir sobre seu significado no contexto da diversidade das manifestações religiosas ou espirituais que mobilizam o imaginário social. Para escrever este texto, procuramos olhar justamente para essa questão que envolve a Maçonaria e nosso esforço foi para compreender alguns aspectos dessa construção histórica de uma imagem de instituição poderosa, tanto para o bem como para o mal.

Com esse objetivo, analisamos os mitos e imaginários construídos pela própria Maçonaria sobre si mesma e, também, o imaginário que surgiu por meio dos opositores da Ordem, que procuraram denegrir sua imagem e envolvê-la com objetivos negativos.

Para abordar os mitos sobre a Maçonaria utilizamos as noções sobre o mito dadas por Eliade (2007) e Croatto (2010). Para este último autor, o mito é uma narrativa exemplar, na qual a realidade passa a ter sentido pelo fato de ter sido produzida pelos deuses ou entes sobrenaturais: “como instaurador de uma realidade, o acontecimento mítico lhe dá sentido, pois ela remonta-se, em última instância, à primordialidade transcendente, ideia reforçada pela atuação protagonista dos Deuses” (CROATTO, 2010, p. 218, grifo do autor). Assim, a Maçonaria, ao construir seu mito de origem, buscando no passado muito antigo o surgimento do saber de que é portadora, busca conferir uma qualidade de transcendência às suas ações e sua organização. Os mitos maçônicos fazem remontar o saber maçônico ao saber originário sobre as construções sagradas.

Já sobre o imaginário construído em torno da Maçonaria e sua atuação na sociedade, usamos as noções desenvolvidas por Pesavento (2005, p. 45) que afirma: “entende-se por imaginário um sistema de ideias e imagens de representações coletivas que os homens, em todas as épocas, construíram para si, dando sentido ao mundo”. No nosso entender, a partir das reflexões da autora, o imaginário confere sentido às experiências individuais e sociais, por ser uma construção que tem como um dos objetivos, mesmo partindo do campo da imaginação, integrar o que é difícil de compreender, o que é misterioso e amedrontador. É nessa perspectiva que se pode olhar o imaginário sobre a Maçonaria, instituição que supostamente promove complôs, que se utiliza de conhecimentos ocultos e satânicos para manter seu poder e influenciar o destino da sociedade.

Num segundo momento do texto, procuramos abordar a Maçonaria sob a ótica da história, na qual os mitos e imaginários são desmontados e fica a concepção de que essa instituição sempre se constituiu em ambiente para ideias e ideais inovadores, que seus membros se dedicaram à política com o intuito de defender essas ideias e ideais e que – com o decorrer do tempo e as transformações históricas – a instituição deixou de ter essa importância e passou para outro estágio de atuação, que envolve mais o aspecto social e espiritual do que propriamente o político.

É importante informar que utilizamos para construir nosso relato artigos de revistas de divulgação como Superinteressante e História Viva, além de sites que tratam da Maçonaria, pelo fato de que essas reportagens refletem a curiosidade e as indagações que a sociedade têm sobre a Ordem Maçônica e sobre seus segredos. Essas reportagens informativas e investigativas contribuíram para enriquecer a perspectiva que construímos durante o trabalho.

Entendemos, a partir do estudo, que a Maçonaria é um interessante exemplo de como os mitos e imaginários são fundamentais para a visão que temos do mundo e da sociedade.

Maçonaria: mitos e imaginários

Para tratar do tema “Maçonaria” é necessário analisar os diversos elementos que constituem o que podemos chamar de “mitos” e “imaginários” que foram construídos em torno dessa instituição. Esses mitos e imaginários foram construídos tanto pelos próprios maçons como pelos opositores da Maçonaria, em especial a Igreja Católica e as demais Igrejas cristãs. Esses mitos e imaginários permanecem vivos até os dias atuais, fato que indica a importância de se realizar uma análise mais detalhada sobre o tema.

Começaremos pelos mitos e imaginários construídos pela própria Maçonaria para depois tratarmos das construções efetivadas para tentar denegrir e demonizar essa instituição.

O primeiro aspecto a ser ressaltado sobre a Maçonaria é o seu impressionante investimento na criação de um “mito da origem”. Essa criação ocorreu desde o início das atividades maçônicas, momento que é reconhecido pelos historiadores como ocorrido durante o período medieval. Para Azevedo (1996), citando um historiador especialista na história da Maçonaria: “Segundo Paul Naudon, há entretanto um ponto de concordância entre seus estudiosos quanto à filiação direta da franco-maçonaria moderna (a maçonaria especulativa) à antiga maçonaria de ofício (a maçonaria operativa)”[1] (AZEVEDO, 1996, p. 180).

Assim, entre o surgimento das confrarias de pedreiros (a maçonaria operativa) durante a Idade Média, aproximadamente no século XIV – data dos mais antigos textos que citam essas confrarias (AZEVEDO, 1996, p. 180) e a fundação da primeira Loja maçônica (maçonaria especulativa) em 1717 (BENHAMOU, 2009, p. 28), ou seja, praticamente quatro séculos, aconteceu esse intenso movimento que produziu um passado mítico para a instituição.

Azevedo (1996) propõe que as antigas corporações de ofício, existentes desde a antiguidade e que ressurgiram no auge do período medieval, tiveram como características tanto o aspecto operativo como o especulativo.

Podemos considerar essa afirmação a partir da probabilidade de que havia entre os conhecedores dos ofícios, especialmente o das construções, tanto os indivíduos hábeis com as ferramentas quanto aqueles que se preocupavam com as medidas, as formas e os “segredos” contidos nos cálculos geométricos e matemáticos, isto é, uma ciência que não era acessível a todos os construtores e pedreiros. Portanto, é possível que, dentro desse conjunto de artesãos da construção, tenha havido não apenas a transmissão dos conhecimentos das técnicas, mas também a construção de um “mito de origem” a partir da busca pela origem da ciência das construções.

Sabemos por Eliade (2007) que os “mitos de origem” são fundamentais para o homem religioso e foram fundamentais para todas as culturas. Tanto os mitos da criação do universo, da Terra e da humanidade – as cosmogonias – como os mitos de surgimento das instituições humanas constituem uma das bases para a estruturação das culturas.

O mito é assim mostrado por esse autor:

A definição que a mim, pessoalmente, me parece a menos imperfeita, por ser a mais ampla, é a seguinte: o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “principio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja ela uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. (ELIADE, 2007, p. 11, grifo do autor)

Parece-nos que os antigos maçons, ao construírem o “mito de origem” da Maçonaria, buscaram permanecer dentro dessa estrutura do mito, conforme definida por Eliade. Mais do que isso, eles realizaram aquilo que era um procedimento comum na cultura anterior ao desenvolvimento da ciência moderna, isto é, procuraram pela origem de uma ciência da construção, recuando cada vez mais longe no tempo histórico em busca do evento “fundador” da franco-maçonaria ou freemasons, isto é, da confraria dos pedreiros livres.

Assim, podemos considerar a história da Maçonaria sob duas perspectivas.

Por um lado, do ponto de vista histórico, a franco-maçonaria teve origem numa corporação de ofício com características peculiares no mundo medieval, pois detinha uma liberdade de locomoção e deslocamento que não era comum a outras corporações.

Segundo Azevedo (1996), citando Naudon:

O único poder então existente capaz de conceder tais privilégios, ou seja, as franquias, era a Igreja. E foi sob a sua tutela que se desenvolveram essas confrarias laicas de artesãos privilegiados conhecidos na época como os francs-mestiers. Os textos mais antigos nos quais se faz menção a esses artesãos itinerantes, devotados às mais diversas atividades de construção, foram encontrados na Inglaterra ao tempo em que o francês era a língua oficial, e também a língua dos ofícios. Assim, além do termo francs-mestiers, consta em documento de 1376 o termo ffremason; em 1381, masonfree; em 1396, ffremaceons[2]. (AZEVEDO, 1996, p. 180)

Com essa liberdade de circulação por toda a Europa e com o aval da Igreja, os franco-maçons passaram a organizar sua confraria em termos mais filosóficos e especulativos com a passagem do tempo e o aprofundamento dos ideais renascentistas. A aceitação de membros não profissionais como “filósofos, hermetistas e alquimistas” (AZEVEDO, 1996, p. 180), produziu uma atração entre homens da nobreza e da intelectualidade, desejosos de dar livre vazão às suas reflexões sobre os diversos “mistérios” da natureza e da vida, conhecimentos que, naquele momento, eram controlados pelo poder eclesiástico.

É por esse caminho que a Maçonaria foi se consolidando até surgir oficialmente
na Escócia em 1717, quando se formalizou enquanto instituição, com templo, ritos, doutrinas e organização hierárquica. Portanto, podemos considerar que juntamente com a história da Maçonaria enquanto instituição há também um mito sobre o surgimento do saber sobre a construção, e que a Maçonaria – a confraria dos pedreiros – está ligada a esse saber.

É interessante que Benhamou (2009), em artigo na Revista História Viva nº 71, que se declara maçom e autor de diversos livros sobre a Maçonaria, faça questão de negar e até ridicularizar os mitos construídos em relação à origem da instituição.

Por outro lado, para nosso propósito neste trabalho e independentemente das reflexões de Benhamou (2009), é importante olhar para o elemento mítico que marca a instituição maçônica.

O mito de origem da Maçonaria que nos leva mais longe no tempo refere-se a uma possível filiação dos conhecimentos maçônicos aos construtores das pirâmides no Egito Antigo. Nessa civilização ocorreu a construção de alguns dos maiores monumentos arquitetônicos da humanidade, mostrando a existência, desde tempos muito antigos, de conhecimentos matemáticos, geométricos e arquitetônicos muito profundos, além é claro, do simbolismo intenso que essa civilização construiu sobre suas realizações.

Nesse sentido, Benhamou (2009), contrário a esse mito, propõe:

Seria sedutor imaginar uma maçonaria atravessando os séculos para preservar os segredos dos primeiros construtores de pirâmides. Eis uma ideia bonita, mas nada mais que inventiva. É verdade que papiros datando de 2000 a.C. antes de nossa era (sic) descrevem o que poderíamos chamar corporações, com objetivos definidos: caridade, condições de trabalho, salários, privilégios. As referências maçônicas ao Egito e a seus mistérios, porém, são recentes. Surgiram nos séculos XVIII e XIX, quando a franco-maçonaria se estruturava. Os ritos chamados egípcios, como o Rito de Mênfis-Misraim, se multiplicaram no século XIX. Atualmente, subsiste uma maçonaria egípcia que reivindica uma herança espiritual, mas é preciso refletir sobre o que os maçons do século XIX pensavam sobre o Egito. Para eles, tratava-se do berço dos ritos iniciáticos, o que resultou em uma visão extremamente deformada, que foi bastante explorada pelos escritores românticos […]. (BENHAMOU, 2009, p. 29).

Como podemos observar, houve dentro da Maçonaria, em passado mais remoto ou mais recente, a construção de um mito de origem que indica uma filiação a um conhecimento específico, o dos construtores, como também aos conhecimentos secretos guardados pelos iniciados das escolas de mistérios, que existiram também no antigo Egito.

A nosso ver, a preocupação de Benhamou (2009), conforme apresentada na citação, mostra uma característica da atual fase da Maçonaria, que está se tornando mais pública, abrindo algumas das portas onde se encerravam os mistérios que povoaram o imaginário dos não iniciados durante séculos. Não nos cabe aqui discutir se essa desmistificação da Maçonaria é positiva ou negativa, o fato que constatamos é que esses mitos ainda são muito importantes.

Outro mito de origem da Maçonaria propõe que os conhecimentos maçons surgiram durante a construção do Templo de Jerusalém pelo Rei Salomão. Neste mito, os segredos sobre a construção do Templo teriam sido guardados pelo engenheiro-chefe Hiram Abiff. Essa lenda é contada por Gwercman (2005) em artigo da revista Superinteressante:

A lenda mais famosa conta que a origem da maçonaria está na construção do grande templo de Salomão, em Jerusalém, narrada no Velho Testamento. Durante a obra, Hiram Abiff, o engenheiro-chefe, foi assassinado por 3 de seus pupilos. O motivo do crime é nebuloso, mas envolveria segredos de engenharia guardados por Hiram e uma disputa por promoções de cargo. O fato é que Hiram foi para o túmulo, mas não revelou o que sabia. Além de mártir, virou exemplo de bom comportamento maçônico. (GWERCMAN, 2005, p. 53)

Esse personagem Hiram Abiff, não existe no texto bíblico, entretanto, há na narrativa da construção do templo (I Reis, 7) a presença de um artesão com grande habilidade vindo de Tiro, cujo nome é Hiram, que foi responsável pelo acabamento do templo. Também não há a narrativa do assassinato de Hiram, mas é possível que seja este personagem a origem do mito maçônico sobre o homem que guardou os segredos da construção até a morte, atitude que é exigida dos maçons quando entram para a instituição.

Esse mito de origem da Maçonaria nos traz à reflexão o mais importante aspecto do imaginário que foi também construído em torno dessa instituição; como já dissemos, tanto pelos próprios maçons quanto por seus opositores. Esse aspecto é relativo aos segredos que a Maçonaria guarda para si. Mais à frente vamos falar sobre esse imaginário, por ora vamos ainda tratar dos mitos de origem.

Um terceiro mito que está relacionado ao surgimento e desenvolvimento da Maçonaria é o que liga os pedreiros-livres à Ordem dos Cavaleiros Templários. Essa Ordem surgiu durante as Cruzadas com o intuito de prestar socorro e proteção aos peregrinos que se dirigiam a Jerusalém, após a conquista dessa cidade em 1099 (FRANCO JR, 1989).

A própria Ordem dos Templários é envolta em mistérios. Seu rápido crescimento a partir da criação em 1119, tanto em número como em poder, assim como o rápido enriquecimento, foi motivo para o surgimento de inúmeras lendas. A falta de documentos históricos que facilitem a reconstituição das atividades dos templários nas primeiras décadas de sua existência favoreceu essas criações (LOPES, 2006, p. 51).

Em artigo publicado na revista Superinteressante, Lopes (2006), depois de citar as palavras do historiador Ellis L. Knox em entrevista, fala sobre os tipos de especulação que surgiram a partir da falta de informações:

[…] “os documentos sobre essa fase da história deles são escassos. De 1120 até 1140, tudo é especulativo” diz Ellis “Skip” Knox, da Universidade Estadual de Boise, EUA. Tanto é assim que os mais empolgados falam de uma escavação secreta no terreno do velho templo: Hugo e companhia teriam descoberto algum segredo dos primórdios da cristandade bem debaixo do seu quartel. Só alguns nobres de alto escalão teriam sido informados do “achado” e o acobertaram, em conluio com a ordem. O duro é saber que diabos era o tal segredo, porque cada teórico da conspiração tem seu artefato favorito. Alguns falam das relíquias sagradas do templo judaico; outros, do santo graal; há os que apostam na própria cabeça embalsamada de Jesus Cristo, provando que ele não tinha ressuscitado nem era divino. Os mais modestos sugerem que as ruínas do templo deram à ordem conhecimentos secretos sobre a natureza mística da arquitetura, como forma de criar espaços sagrados e de se comunicar com Deus. Essa sabedoria, depois, teria sido passada à maçonaria, que originalmente era uma confraria de mestres construtores.
(LOPES, 2006, p. 51 e 52)

Essa especulação sobre os segredos dos Templários tornou-se maior ainda com o fim drástico da ordem decretado pelo Papa Clemente V, a partir da perseguição movida pelo rei da França Filipe, o Belo. A morte na fogueira dos principais líderes (no ano 1314) e o mistério que envolveu o desaparecimento dos bens e da riqueza acumulada pela ordem foi fundamental para alimentar a ideia de continuidade da preservação dos segredos templários no interior da Maçonaria.

Para Benhamou (2009) essa suposta continuidade entre os Templários e a Maçonaria se deve ao fato da Ordem dos Templários ter construído muitas igrejas e outros prédios na Europa, dependendo para isso das confrarias de pedreiros. Esse autor afirma:

Assim, durante dois séculos, os Templários e as corporações de ofícios coabitaram. Por isso, é tão tentador imaginar que determinados membros da Ordem do Templo fugiram e encontraram refúgio, em especial na Escócia, junto de organizações fraternais de trabalhadores de pedra. (BENHAMOU, 2009, p. 29)

Para completar sua reflexão, Benhamou (2009) propõe que no processo de consolidação da maçonaria especulativa, a instituição se preocupou em alcançar maior prestígio social para atrair membros que possibilitassem à confraria deixar de ser uma simples organização de trabalhadores e passar a outra forma organizativa. Benhamou afirma:

Andrew Michael de Ramsay, grande orador da Ordem Maçônica da França, encontrou um recurso astucioso: fundou uma nova maçonaria, com base na simbologia das Cruzadas. Ele não se referia explicitamente à Ordem dos Cavaleiros do Templo, ainda condenada por Roma, mas a uma ordem construtora que teria surgido na Escócia. Por meio dessa lenda, construiu o chamado “rito escocês antigo e aceito”, no qual certos graus se referem aos Templários: Cavaleiro do Oriente, Príncipe de Jerusalém, Cavaleiro Rosacruz e Cavaleiro Kadosh. (BENHAMOU, 2009, p. 29).

Por esses argumentos, defendidos por historiadores e maçons e publicados tanto em artigos, como em livros ou em reportagens que misturam investigação histórica e curiosidades sobre mistérios que alimentam o imaginário social, podemos perceber como mito e história estão profundamente enraizados na presença da Maçonaria na sociedade ocidental, possibilitando inúmeras interpretações sobre sua participação nos eventos marcantes da história de diversos países.

O imaginário sobre a maçonaria

Para iniciar a reflexão sobre o imaginário que envolve a Maçonaria vamos abordar um aspecto importante desenvolvido na cultura ocidental durante os últimos séculos: a ideia da existência de uma ciência oculta, alheia às conquistas e conhecimentos da ciência racionalista.

Eliade (1979) em artigo intitulado “O oculto e o mundo moderno” faz uma reflexão sobre a grande valorização das chamadas “ciências ocultas” ou do “ocultismo” e do “esoterismo” durante os últimos séculos, com particular ênfase no século XIX em diante.

Para definir o que é esse “oculto”, esse autor utiliza o texto de Edward A. Tiryakian:

[…] por oculto, eu entendo práticas, técnicas e procedimentos intencionais que: a) fazem uso de poderes secretos ou desconhecidos da natureza ou do cosmos, poderes esses incomensuráveis ou irreconhecíveis pelos instrumentos das ciências modernas; e b) que buscam resultados empíricos, tais como o conhecimento da sucessão dos acontecimentos ou a alteração de seu curso norma… Para se ir mais longe, na medida em que a pessoa que pratica a atividade oculta é alguém que adquiriu conhecimento e habilidades necessárias a tais práticas e, na medida em que tais práticas e habilidades são aprendidas e transmitidas de maneira social (embora não abertas ao grande público), de modo organizado, ritualizado, podemos chamar essas práticas de ciências ou artes ocultas. (TIRYAKIAN apud ELIADE, 1979, p. 57)

A partir dessa definição, Eliade (1979) afirma que essas “crenças, teorias e técnicas chamadas ocultas e esotéricas” (p. 57) já existiam desde a mais alta antiguidade, nas civilizações do Antigo Egito e da Mesopotâmia, assim como nas civilizações grega e romana, e que elas permaneceram vivas durante todo o período medieval – apesar do controle que a Igreja Católica procurou exercer sobre a sociedade. Esses conhecimentos chegaram ao mundo moderno pelas atividades de muitos alquimistas, místicos e instituições com caráter iniciático.

Eliade (1979, p. 63) elenca muitas das influências exercidas pelas ciências ocultas durante o período renascentista e também a importância desse conhecimento para o próprio desenvolvimento da ciência moderna. Copérnico, Giordano Bruno e outros cientistas do período estiveram completamente ligados a essas ciências que tinham sua origem nas culturas antigas. A magia, a cabala, a bruxaria, a alquimia, a astrologia, as práticas xamânicas antigas, são muitas das expressões desse conhecimento que tiveram um valor fundamental para muitos sábios do Renascimento e continuaram sendo difundidas em círculos restritos até serem “redescobertas” pelos intelectuais livres-pensadores do século XIX e XX (ELIADE, 1979, p. 63).

Do ponto de vista deste trabalho, quando se fala em Maçonaria há uma referência natural à mais polêmica das sociedades secretas e iniciáticas do mundo ocidental, justamente porque esta parece guardar – e estimula todos a pensar dessa forma – os mais profundos segredos das ciências ocultas, normalmente definidas pelos inimigos como rituais e conhecimentos satânicos.

Benhamou (2009a) mostra que, desde a Revolução Francesa, foi difundida a crença de que a Maçonaria estaria à frente de um projeto cuja finalidade era modificar radicalmente as estruturas de poder que então existiam na sociedade ocidental. O autor afirma:

Não há dúvida de que a Revolução Francesa foi deflagrada em nome dos valores defendidos pelos maçons no fim do século XVIII. A luta contra o despotismo real e a defesa da liberdade eram temas recorrentes nas lojas francesas da época. Há, no entanto, quem acredite que o levante de 1789 teria sido a primeira etapa de um complô mundial orquestrado pelos maçons para destruir todas as religiões. Inúmeros historiadores já demonstraram quão absurda é essa teoria, mas até hoje ela sobrevive entre os amantes de teorias da conspiração. (BENHAMOU, 2009a, p. 30)

O autor propõe que havia realmente muitos maçons envolvidos no movimento revolucionário, mas que no andamento do processo os adeptos da Maçonaria, em sua maioria “burgueses, aristocratas, militares e, surpreendentemente, eclesiásticos” (BENHAMOU, 2009a, p. 31), foram considerados inimigos da revolução, tendo um de seus grãos mestres “o duque de Orléans, Philippe Egalité” (p. 31) sido guilhotinado em 1793.

O fato, para Benhamou (2009a), é que a publicação de pequenos livretos defendendo a ideia de um complô maçônico acabou por alimentar essa teoria conspiratória que permanece viva no imaginário ocidental até hoje. O autor cita três obras publicadas ainda no período revolucionário cujo impacto pode ter sido bastante grande.

Se pensarmos nessas publicações a partir da ótica apresentada por Darnton (1987) sobre o papel da “baixa” literatura durante o período pré-revolucionário e mesmo durante a Revolução, podemos ter uma noção de como os livretos foram recebidos pela sociedade da época. Segundo as fontes analisadas por Darnton (1987), o grande comércio de livros na França naquele período era constituído por escritos panfletários e populares, contendo informações não comprovadas sobre a vida de nobres e eclesiásticos, sobre a política real e a administração pública, escritos que disseminavam ideias completamente avessas aos textos filosóficos do Iluminismo. Vejamos como Darnton apresenta essa “baixa” literatura:

Tantas foram, e tão boas, as descrições do ápice da história intelectual do século XVIII, que talvez conviesse rumar noutra direção, tentando atingir a base do Iluminismo e mesmo penetrar seu submundo, lá onde ele possa ser examinado como ultimamente se tem feito com a Revolução – isto é, de baixo.
O ato de escavar, na história das ideias, exige novos métodos e novos materiais. Remexam-se arquivos, em vez de contemplar tratados filosóficos. Um exemplo da espécie de detritos que tal escavação pode trazer à luz é a seguinte carta, dirigida por um livreiro de Poitiers a seu fornecedor na Suíça:
Eis uma pequena lista de livros filosóficos que desejo. Favor mandar a fatura antecipadamente:
Vênus no claustro ou A freira em camisola
O cristianismo desvendado
Memórias da Marquesa de Pompadour
Investigação sobre a origem do despotismo oriental
O sistema da natureza
Thérese, a filósofa
Margot, a companheira dos exércitos

Eis, no jargão do comércio livreiro do século XVIII, uma noção do filosófico partilhada por homens cujo negócio era saber o que os franceses queriam ler. (DARNTON, 1987, p. 13 e 14, grifos do autor)

O autor sugere, em sua análise da literatura do período revolucionário na França, que foi muito grande a circulação e importante o papel desses panfletos, à medida que eles constituíam a maior parte dos textos que circulavam popularmente entre os franceses.

Nessa perspectiva, e voltando aos livretos citados por Benhamou (2009a) que falam do complô maçônico, podemos obter certo entendimento do por que essa lenda adquiriu tanta força. Os títulos desses livretos já mostram seus objetivos: “Retirando o véu para os curiosos ou o Segredo da Revolução revelado com a ajuda da franco-maçonaria” (Abade Lefranc, 1791), “Memórias a serviço da história do jacobinismo” (Abade Barruel, 1793) e “A tumba de Jacques Molay ou História secreta resumida dos iniciados antigos e modernos, Templários, franco-maçons, Illuminati” (Charles Louis Cadet de Gassicourt, 1796).

Os três livros tratam do complô maçônico sem apresentar provas concretas, apenas especulações. Dentre eles, Benhamou (2009a) cita:

Assim, foi de Londres que Barruel escreveu suas Memórias a serviço da história do jacobinismo. Um trecho desse livro resume bem a visão do abade: “Nessa Revolução Francesa tudo foi previsto, meditado, combinado, decidido, estabelecido – até os mais espantosos crimes: tudo foi resultado da mais profunda maldade, pois tudo foi preparado, dirigido por homens que tinham como único objetivo as conspirações há muito urdidas em sociedades secretas, e que espreitaram e souberam esperar pelo momento propício para o complô”. (BENHAMOU, 2009a, p. 30)

É importante dizer que essa tese mostrada por Benhamou foi amplamente defendida pelos católicos nos anos após o início da Revolução[3].

Mesmo que a perspectiva apresentada por Benhamou (2009a) procure desmontar a tese da conspiração, o fato é que a participação ativa da Maçonaria no processo de independência dos Estados Unidos, ocorrida em 1776, também ajudou a incentivar o imaginário sobre a influência subterrânea ou explícita dos maçons em movimentos políticos importantes. George Washington, o primeiro presidente norte-americano, aparece frequentemente em trajes maçônicos durante momentos significativos de seu governo, como a cerimônia de assentamento da pedra fundamental do “Capitólio”, em (CHATENET, 2009, p. 37).

Consultando outros textos que tratam da história da Maçonaria (BARATA, 1999 e 2000, MOREL, 2001, AZEVEDO, 1996, VIEIRA, 1999 e PINHEIRO, 1997) podemos constatar que os maçons sempre tiveram um importante papel também na política brasileira, sendo, entretanto, impossível afirmar que a Maçonaria como instituição estivesse à frente e comandando os diversos momentos históricos decisivos em que os maçons participaram.

É nesses limites sutis entre a ativa participação dos maçons e a supervalorização do poder da Maçonaria que o imaginário social é alimentado e desenvolvido.

O fato da Maçonaria, como sociedade iniciática, procurar manter – e conseguir, o que é mais impressionante – o segredo sobre suas atividades internas, faz com que o imaginário sobre ela enfoque tanto o cultivo das ciências ocultas como a prática do satanismo. Por isso, é importante ressaltar alguns pontos sobre a Maçonaria encontrados no texto de Nefontaine (2007):

Diferentemente do que pensa o senso comum, essa organização sempre teve sua existência formalmente conhecida e reconhecida e, logo que surgiu, declarou fidelidade ao poder estabelecido. Ao mesmo tempo, suas lojas imediatamente reivindicaram o direito de se constituir de forma livre e autônoma, o que gerou perseguições e transtornos com a polícia. Embora os locais de reuniões fossem perfeitamente conhecidos pelas forças da ordem, a alegação principal para tal repressão era justamente que os maçons se reuniam em segredo. Na realidade, o juramento de nada revelar do que é dito nesses encontros é o que inquieta e assusta. Diante das acusações e das perseguições, os maçons repetem que não são uma sociedade secreta, mas sim discreta; que seu segredo é inviolável apenas porque não pode ser comunicado; que a não revelação da filiação de outro é sinônimo de preservação da esfera privada para se protegerem de qualquer retaliação externa, em particular no meio profissional; que a prática do sigilo é preciosa em momentos de ressurgimento de totalitarismos, sempre prontos a persegui-los; por fim, que a ocultação é a garantia de liberdade total de expressão dentro dos limites do templo. (NEFONTAINE, 2007, p. 60)

É interessante essa perspectiva porque mostra o poder do imaginário: o fato de uma sociedade manter em segredo seus rituais e suas doutrinas internas, além de outros como a não divulgação do nome dos irmãos, faz com que os não participantes se incomodem, especialmente se o imaginário é movido pelo medo da conspiração ou medo religioso.

Como dissemos acima, o estudo das ciências ocultas atraiu muitas pessoas nos últimos séculos, mas atraiu também muito ódio e perseguições, como se o estudo do que é oculto pudesse, por si mesmo, se constituir numa ameaça à vida das sociedades. Esse medo só foi difundido com tanta eficácia porque esteve sempre envolto com as crenças religiosas cristãs e a partir da ideia de que o que está oculto é das trevas.

Continua…

Autor: André Luiz Caes

Fonte: Revista Sapiência- Sociedade, Saberes e Práticas Educacionais

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Notas

[1] – Conforme citado por Azevedo (1996): Paul Naudon, La Franc-Maçonnerie, Paris, Presses Universitaires de France, 1963, p. 9 -13.

[2] – Paul Naudon, La Franc-Maçonnerie, Paris, Presses Universitaires de France, 1963, p. 20 – 2.

[3] – Para um aprofundamento desse tema, conferir: CAES, André Luiz. Da espiritualidade familiar ao espírito cívico: a família nas estratégias de reestruturação da Igreja (1890-1934). Campinas/Unicamp: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 1995. Dissertação de Mestrado. No primeiro capítulo desse trabalho, como introdução ao tema principal da Dissertação, o autor faz uma reflexão sobre a reação da Igreja Católica em relação à Revolução Francesa, abordando também a tese da conspiração.

Corda com nós, laços de amor, borlas com franjas e a orla dentada: decoração ou símbolo?

A corda de 81 nós - Freemason.pt

Em alguns painéis de graus simbólicos do Rito Escocês Antigo e Aceito, bem como no Rito Francês e Rito Moderno, há uma corda com nós que termina em borlas com franjas, que, às vezes, estão também localizadas nas paredes do interior da loja.

Esta corda com nós, em francês é chamada de “houppe dentelée” que, em uma tradução literal para o português, não é uma corda com nós, mas sim “borla dentada”.

Borla dentada??? Isso mesmo, não é corda, não é orla dentada, não é borla com franjas, é uma borla dentada?

Será que tal confusão surgiu de um erro de tradução de alguma antiga Divulgação?

Reproduzimos aqui uma obra do pesquisador belga, Jean Van Win, que, com base no simbolismo heráldico, apresenta uma explicação muito possível.

A leitura do trabalho abaixo, deve ser feita, levando-se em conta que seu escritor é um maçom europeu, que tem uma visão diferente, de nós brasileiros, sobre decoração interna da loja e seus símbolos, o que poderá ser notado em uma crítica feita neste texto.

Será também possível observar que, de um símbolo (corda com nós), acabaram surgindo outros (orla dentada e borla com franjas), que atualmente estão presentes na maioria das lojas brasileiras e fazem parte de instruções de graus simbólicos, mas nem sempre foi assim.


Desde que entrei na Ordem Maçônica, sempre me intriguei com um dos símbolos mais familiares: o “houppe dentelée” (a corda com nós).

Como todo Maçom, eu li as descrições imaginativas de Boucher, Plantagenet, Bayard, bem como Wirth, agora atualizado por Mainguy.

É assim, que uma primeira explicação de inspiração operativa, consistia em ver naquela corda, a “corda de nós” dos construtores de catedrais, instrumentos que permitiam que os Mestres de Obra, marcassem uma distância e utilizassem estas proporções sem recorrer a matemática ou geometria.

Na prática, tal utilização realmente permite fazer um ângulo reto com uma simples corda com nós.

Mas, se a intenção fosse reproduzir a ferramenta desses gênios analfabetos de mãos calosas, não seriam utilizados nós bem apertados, em vez dos suaves laços do amor e suas borlas com franjas?

Eu não fiquei convencido com essa interpretação.

Tampouco me convencem estas explicações vagas sobre “o símbolo do infinito” ou a do “número oito deitado” que alguns acreditam, como laços de amor. Muito menos a necessidade de traçar três laços de amor no grau de aprendiz, e nos outros graus de acordo com a idade do maçom naquele grau.

Há outra vertente que nega veemente essa necessidade e que dita que os laços devam ser doze, em homenagem ao zodíaco, que tem doze signos e até mesmo em memória aos doze apóstolos … uma iconografia abundante tão incoerente que a diversidade de teorias que pretendem explicar, mostra apenas a infinita capacidade imaginativa de nossos irmãos.

Finalmente, eu me pergunto qual seria o problema se o universo místico tão querido por muitos de nós, fosse abandonado e o símbolo fosse visualizado a partir de um ângulo puramente histórico e baseado em fatos.

De onde vem? O que este símbolo expressa?

Se trata de uma corda com uma série de nós, de dois a pelo menos doze, (no Brasil utilizamos até 81 nós) terminada em cada extremidade por uma borla.

Na Bélgica, uma borla é descrita como uma “franja”, como a que decora os chapéus da polícia e dos soldados antes da guerra de 1940, onde cada regimento utilizava sua cor.

Na Maçonaria, esta corda delimita os lados norte, leste e sul dos painéis das lojas francesas, pois os ingleses ignoram essa corda, que foi espalhada, a partir da França, pelos painéis utilizados em toda a Europa.

A borla (houppe no século 18) é então o fim da corda e não a corda na sua totalidade.

Ela foi considerada como um todo, mas a “borla” francesa, na sua origem era totalmente equivalente a “franja” belga!

Mas, porque na Maçonaria francesa essa borla é chamada de “dentada”?

Em um dicionário encontramos a seguinte definição:

“Dentada: Tecido ornamentado com desenhos, que normalmente apresenta uma borda irregular.”

O que não esclareceu nada.

O que tem a ver essas decorações dentadas em um painel de loja, mesmo que acompanhem uma borla?

Vamos mais longe.

“Dentada: que apresenta pontas e buracos. Vide lâmina dentada.”

O que tem a ver com nossos painéis, que são conhecidos por representar o Templo de Salomão, algo dentado com franjas, pontas e buracos?

Em francês, não tem um significado preciso e não tem a menor relação com a construção.

Então, onde surgiu a primeira aparição da expressão “houppe dentelée” (borla dentada) e qual poderia ter sido o seu significado original?

Provavelmente surgiu através do famoso Louis Travenol (chamado de Leonard Gabanon) que, em 1744, publicou pela primeira vez na França uma representação da loja, contida em uma divulgação intitulada “Le Catechism des Francs-Maçons”. Três outras divulgações a precederam: “La Réception d’un Fre maçon” em 1735, “La Reception Mysterieuse” de 1738 e “Le Secret des Francs-Maçons” em 1742.

Aqui reproduzimos o primeiro painel de loja onde aparece uma corda e a referência a uma borla dentada:

Como sempre, para investigar os mistérios das fontes francesas da Maçonaria, voltemos às primeiras práticas maçônicas inglesas que foram expandidas em Paris, a fim de encontrar, eventualmente, uma versão intacta de uma prática mal compreendida ou mal traduzida entre nós.

E este é o caso agora!

Em 1742, o abade Pérau publicou “Le Secret des Franc Maçons”, com base no texto em inglês de uma divulgação famosa e importante: “Maçonaria Dissecada”, publicada na Inglaterra em 1730 por Samuel Prichard.

Mas o conhecimento linguístico do bom abade era muito limitado e suas traduções, aproximativas.

Por exemplo, a partir de sua caneta, saiu isso:

  • Mosaic Pavement (Pavimento Mosaico) tornou-se “Palácio Mosaico”.
  • Blazing Star (Estrela Flamejante) passou a ser “Baldaquino cheio de estrelas”.
  • Intended Tarsel tornou-se “Borla Dentada”.

Tarsel é uma palavra que não existe em dicionários contemporâneos. O erro de Pérau vem, talvez, de uma leitura errônea e da confusão cometida com a palavra tassel, que significa borla e taselled é adornado com borlas.

Vamos ver o que o texto original (em inglês) de Prichard diz em 1730:

  • Q : Have you any furniture in your lodge ?
  • A : Yes.
  • Q : What is it ?
  • A : Mosaic pavement, Blazing Star and Indented Tarsel.
  • Q : What are they ?
  • A : Mosaic Pavement, the ground Floor of the Lodge; Blazing Star, the Center; Indented Tarsel, the Border round about it.

Assim, o pavimento em mosaico constituía o piso da loja; a estrela flamejante é o centro; o “Intended Tarsel” seria a borda “ao seu redor”.

Como se sabe, as bordas dos painéis das lojas inglesas sempre tiveram um friso composto por triângulos alternados em preto e branco ou em quadrados preto e branco dispostos diagonalmente, como se fossem dentes, ou seja, “dentados”.

Os painéis de lojas francesas da mesma época, que adotaram esse uso inglês, são extremamente raros.

Atualmente, pode-se observar uma sobrevivência inalterada no tapete das lojas francesas do Rito Escocês Retificado, que preservaram seus usos intactos desde 1778.

Os franceses, provavelmente desde Pérau, chamam indevidamente de “La Houppe dentellee” (a borla dentada) a representação de uma corda com muitos nós, terminada em duas “franjas” ou duas borlas com franjas!

Numerosas divulgações posteriores, gravuras e rituais, assumem a mesma expressão que, apesar da falta de lógica e sua absoluta incorreção, constituirá com o passar do tempo, um uso estabelecido, que já é batizado como “tradição”.

Este não é um caso isolado, podemos citar o ato de tirar as luvas brancas para formar a cadeia de união, o que é, na minha opinião, outro desvio ocultista sustentado por muitos racionalistas!

Por que os primeiros maçons franceses substituíram a “borda serrilhada” das pinturas inglesas por uma corda que foi batizada como “borla dentada” da maneira mais estranha?

Na França, em 1744, a “houppe dentelee” constituiu um ornamento presente nos painéis da loja, se comparado aos painéis ingleses contemporâneos. Os ingleses ignoram a borla atual como sempre fizeram.

Inquestionavelmente, se trata de um dos elementos originários e constitutivos do “estilo” francês, do “espírito” ou da “especificidade” da França, bem como do hábito de manter o porte da espada na loja, o chapéu ou a imitação da fita ou cordão azul da Ordem do Espírito Santo, usos comuns na boa sociedade que frequentava os salões.

No entanto, uma pista aparece com o famoso Luis Travenol, alias Leonard Gabanon, que na segunda de suas divulgações, publicou em 1747: “La Desolation des Entepreneurs Modernos du Templo de Jerusalem” (A expulsão de comerciantes modernos do Templo de Jerusalém), descrevendo o “houppe” como “uma espécie de Corda de Viúva que envolve todo o desenho”.

É surpreendente que Travenol seja o único autor francês da época que considerou esta explicação de uma característica heráldica.

Esta interessante descrição coincide cronologicamente com outra expressão que aparece nos rituais de 1745 em relação ao recente grau de Mestre Maçom (1725, Londres) e qualifica os Maçons como “Filhos da Viúva” por referência a Hiram, pois a Bíblia nos diz (1 Reis 7:14) que ele era “filho de uma mulher viúva, da tribo de Naftali, e fora seu pai um homem de Tiro”.

Este ornamento, que aparece em numerosas lápides, mas também acompanha certas armaduras civis ou eclesiásticas, encoraja-nos a entrar em um domínio cheio de simbolismo: a arte heráldica. E essa invasão nos dará, com grande simplicidade, a chave para esse pequeno problema.

Decoração que em heráldica denota uma Viúva

Em seu notável “Dictionaire Héraldique”, que apareceu em 1974, Georges de Crayencour descreve dois tipos de brasões que nos ilustraram:

O primeiro é o das viúvas e nos diz:

“As viúvas têm dois brasões: um de armas de seu marido e um seu; as duas coladas (muito próximas) e cercadas, a partir do século XVI, em uma corda entrelaçada ou com um cordão de seda trançado, em prata e areia… (prata e preto). A corda tem nós em intervalos em uma espécie de laços de amor… Se distingue pela presença de três nós apertados, postos um no centro e dois nos flancos …”.

Aqui está uma primeira explicação considerada da arte heráldica.

Existe uma segunda, proveniente da mesma fonte, mas ainda mais surpreendente, uma vez que se refere, não mais a arte heráldica para as viúvas, mas refere-se à igreja, como também de ambos os sexos.

A correspondência entre os laços de amor de príncipes e princesas da Igreja e os maçons, é muito sugestiva e ainda hoje pode ser visto nos frontões (fachada) de muitas abadias e palácios episcopais, sobre as lápides, inúmeras nas igrejas barrocas das Ilhas de Malta e Gozo, onde podem ser vistos em composições de mármore multicoloridos, assim como em diversos outros lugares.

Georges de Crayencour nos ensina que

“o chapéu com o escudo e seu cordão com nós (ou laços) e acabados com borlas dispostas em um triângulo que o cercam…. Sobre o significado dos nós e borlas, as opiniões são compartilhadas.”

Não precisamos dizer que isso foi compartilhado fraternalmente entre os nobres e os maçons!

Brasões de uma Viúva, de um Bispo e de um Abade

Atualmente, a maioria dos painéis de loja da Europa continental, deriva da maçonaria francesa, e têm uma “borla dentada”. Será que esse ornamento é apenas estético? Será que ele terá algum outro significado que foi perdido?

Será o resultado de um simples erro de tradução, muito bizarro, apesar da frequência de utilização na maçonaria francesa?

Essa bela borla veio da simples fantasia de um artista maçônico que queria “ser legal”?

Seria um caso único na iconografia maçônica, que faria uma referência de modo geral a algum significado oculto decifrado por poucos?

Uma lamentável prática, na minha opinião, é que certas oficinas localizam a corda na parte superior das paredes norte e sul da loja (que se tornou um templo!) sob o teto.

Isso é mais que lamentável se também estiver associado a um conjunto zodiacal, para mim totalmente incongruente e que é dito ser “operativo”. Isso mostra bem até que ponto uma “tradição” pode ser evolutiva … Essa composição simboliza – eles dizem – a união universal dos maçons!

Veja como uma pobre viúva poderia fazer uma prolífica descendência, graças à imaginação de seus “filhos”.

A confusão entre a fina borla dentada heráldica e a espessa corda de nós dos construtores está, com todas as evidências, em sua máxima expressão.

Essa corda com nós é outra coisa e podemos demonstrar a construção de um ângulo reto, graças a uma simples corda de doze nós, usando o quadrado da hipotenusa com 3, 4 e 5 nós, mas esse instrumento operativo nada, absolutamente nada, tem a ver com o debate sobre a borla!

Voltando ao assunto: disposta sobre o painel da loja, formando originalmente dois laços de amor, que se amaram ao ponto de terem sido convertidos para doze, o que poderia simbolizar os elegantes entrelaçados aos olhos meditativos de nossos irmãos contemporâneos?

Pode se ver muito mais do que um simples ornamento heráldico, que, por outro lado, nunca esteve na Maçonaria.

E nessa última hipótese, seria o único elemento que não teria nenhuma função estética, o que constituiria um caso incomparável entre os elementos constitutivos do painel da loja.

Mas então, tal interpretação seria inviável e, na minha opinião, deveria ser rejeitada.

A escolha deliberada deste cordão lembra ao Maçom que o painel da loja sintetiza, assim como um brasão, um conjunto de elementos simbólicos quanto ao grau praticado. No entanto, um elemento maior em relação ao grau de Mestre já está presente no painel do grau do Aprendiz.

Na verdade, tal antecipação é talvez o caso de passar de um grau inicial a outro, onde não será explicado o que se encontra no germe desse grau. Por exemplo, no século XVIII, o painel da loja do Rito Francês do grau de aprendiz já contém uma estrela flamejante, mas isso não é explicado.

E quanto à “corda da viúva”, ela lembra ao Mestre Maçom, que Hiram vive eternamente em todos nós, todos somos “filhos da Viúva”.

Isso foi imediatamente perceptível em uma sociedade de classe, como a do século 18, onde a heráldica é amplamente disseminada e familiar para todos e serve como meio de identificação; que a arte era comumente praticada de forma banal com os sentidos de identificação que todos conheciam.

Os símbolos são autofalantes, mesmo que sua linguagem pareça ter um duplo sentido que precisa de criptografia; o sentido, no entanto, se perde quando a sociedade evolui e sua composição sociológica se modifica, como ocorreu com a democratização e o estabelecimento do Império.

Os maçons dos séculos XIX, XX e XXI estão cada vez menos familiarizados com a arte heráldica, exceto talvez na Alemanha, Espanha, Áustria ou Suíça, onde permanece vivaz e popular. Não há município ou cidade nestes países que não exibam orgulhosamente os seus brasões.

A minha interpretação do “Cordão da Viúva”, me parece mais enriquecedora no plano simbólico do que as dissertações “esotéricas” sobre os temas de universalidade, do número oito deitado (sic!), do infinito, do zodíaco, dos pedreiros medievais “que conservaram os segredos que vieram das pirâmides” (sic), dos filhos de Isis, dos druidas e isso sem contar os templários, os rosa-cruzes e os alquimistas!

Esta conclusão, obviamente que não é a verdade. Se assim fosse, deixaríamos o marco de uma filosofia interpretativa para entrar na ciência do emblemático, da alegoria, do símbolo, do pensamento único.

Onde estaria o prazer da descoberta e, acima de tudo, o que é ainda mais emocionante, o prazer da investigação, ou essa verdadeira “caçada do sentido oculto”, tornando-se inevitável a dupla natureza do maçom?

“A cada uma de suas Verdades”, é dito em uma peça famosa. Aquela que Pôncio Pilatos responde do fundo de sua Judéia. “A Verdade, qual Verdade?”… antes de lavar as mãos, um gesto altamente simbólico!

Autor: Jean Van Win
Traduzido por: Luciano R. Rodrigues

Extraído de uma obra do Círculo de Estudios del Rito Francés Roëttiers de Montaleau

Fonte: O Prumo de Hiram

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A relação entre a Revolução Farroupilha e a maçonaria

A MAÇONARIA E A REVOLUÇÃO FARROUPILHA - PDF Download grátis

A Revolução Farroupilha é considerada um dos episódios mais importantes e simbólicos da história política e cultural do Rio Grande do Sul. Entre os aspectos que frequentemente justificam a sua grandeza está a vinculação com a construção da identidade regional. Os diversos episódios em torno da revolução sustentam as teses, com algumas variações, das diferenças de “ser gaúcho”. Porém, a temática “farroupilha” somente passou a ser foco de estudos mais aprofundados e sistemáticos nas primeiras décadas do século XX. As comemorações do “Centenário da Revolução”, em 1935, inauguraram a entrada da Guerra dos Farrapos no discurso historiográfico e na própria história do Rio Grande do Sul(1).

Os aspectos mais relevantes na descrição e na interpretação da revolução residem na centralidade do descontentamento de setores da elite socioeconômica sul-rio-grandense com a política centralista imperial. Nesse sentido, pretendo propor algumas reflexões que possam contribuir para o debate sobre o papel da revolução na história do Brasil meridional. A abordagem principal focaliza os farrapos e a provável influência da maçonaria no decorrer da guerra. Antecipo meu posicionamento a propósito da questão: tal influência não foi fundamental e nem decisiva. Contudo, frente à complexidade da realidade social do Rio Grande do Sul no contexto, a maçonaria esteve presente e, em alguma medida, contribuiu para os resultados daquele movimento político histórico. 

Considero relevante que não se perca de vista, ao analisar o quadro histórico do Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do século XIX, as suas peculiaridades em comparação ao resto do Brasil. Na conjuntura em que eclodiram os movimentos de contestação ao colonialismo, a Província de São Pedro cumpriu, na minha opinião, um papel coadjuvante. Tal situação não poderia ser diferente, pois a tardia incorporação ao território brasileiro e sua localização de fronteira projetou, em muitos aspectos, uma condição periférica. Os protagonistas do movimento emancipacionista, com forte influência das ideias iluministas e liberais das correntes francesas, residiam ou atuavam próximos aos centros econômicos e políticos de maior envergadura. O processo que culminou com a independência do Brasil teve, evidentemente, a adesão, mesmo que tardia, também da elite política e intelectual sul-rio-grandense. O movimento maçônico, que crescera juntamente com a difusão dessas ideias, chegou ao Rio Grande do Sul três décadas depois que nas regiões centrais do Brasil.(2)

A maçonaria, a Revolução Farroupilha  e as narrativas historiográficas

A historiografia sul-rio-grandense dedicou pouco espaço ao estudo sobre a presença da ordem maçônica na história do Rio Grande do Sul. Sobre as narrativas historiográficas vinculadas ao tema, recorri a um trabalho já realizado anteriormente e específico sobre a maçonaria no Rio Grande do Sul. No referido trabalho, utiliza-se uma classificação das narrativas historiográficas a partir da análise de dois grupos de autores: a historiografia não acadêmica e a historiografia acadêmica. (3) 

Neste texto, darei ênfase apenas às questões envolvendo a maçonaria e a Revolução Farroupilha. A maçonaria frequentemente é mencionada por historiadores não acadêmicos, que quase sempre abordam a temática valorizando, de forma exagerada, a participação maçônica nos acontecimentos relativos à Revolução Farroupilha. É comum que se explique o espírito associativo, as academias e sociedades literárias como tendo sido o berço da maçonaria no Rio Grande do Sul. (4)

Na década de 1830, a elite intelectual gaúcha aderiu mais intensamente e quantitativamente ao pensamento iluminista e liberal, especialmente de origem francesa. Mesmo que alguns autores acreditem haver indícios da existência de atividades maçônicas na província antes da década de 1830, não há, até o momento, comprovação documental dessas atividades. Com base nessa constatação, é possível relacionar Revolução Farroupilha e movimento maçônico pois eles são, no mínimo, concomitantes e conectados no campo das ideias.

Em termos da abordagem encontrada entre historiadores não acadêmicos, destaca-se o trabalho de João Pinto da Silva. Ao tratar do ambiente intelectual do Rio Grande do Sul às vésperas da Revolução Farroupilha, o autor explica a difusão das sociedades e clubes literários e secretos como fundamentais na vida política e cultural da província. As dificuldades econômicas enfrentadas pelo Rio Grande do Sul em razão de sua condição periférica, e de economia voltada para o mercado interno, teriam estimulado a resistência às políticas do poder central. Tal situação coincidia com um ambiente cultural propício à difusão de associações de “lojas misteriosas”. Entre as sociedades secretas, a de maior destaque, na perspectiva da organização maçônica, foi o gabinete de leitura “O Continentino”, instalado na cidade de Porto Alegre. (5)

Na visão da maioria dos autores desse grupo historiográfico, o clima de radicalização política que opunha “caramurus” e “liberais nativistas” havia sido, em muito, intensificado pela ação dos maçons gaúchos. A maior parte dos liberais gaúchos assumira a opção farroupilha em razão dos privilégios centralizadores do Império brasileiro, que desenvolvia uma política econômica vinculada à provável influência da instituição no campo cultural, isto é, na difusão do ideário que mais tarde seria assumido discursivamente pelos líderes farroupilhas. (6)

Um episódio extremamente valorizado por historiadores desse grupo, e que confirmaria a relação entre maçonaria e farrapos é o da fuga de Bento Gonçalves do presídio na Bahia. Walter Spalding dedicou um capítulo de seu trabalho à descrição desse episódio e aos detalhes da articulação maçônica que teria permitido a libertação do líder Bento Gonçalves. (7) Bento Gonçalves foi aprisionado em 1836 e enviado, inicialmente, para o presídio Fortaleza da Lage, no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, foi transferido para o Forte de São Marcelo, na Bahia. 

Interessante em relação ao episódio da fuga do líder farroupilha é a menção que se fez da existência de uma trama maçônica com a finalidade de libertar Bento Gonçalves. Segundo alguns autores, a intervenção maçônica se efetivou a partir do momento em que Bento foi identificado como “irmão”. Com efeito, não se pode deixar de considerar o fato de que, efetivamente e de forma surpreendente, Bento Gonçalves retornou ao Rio Grande do Sul em setembro de 1837. Se tal complô se deveu à ação de maçons ou de liberais simpáticos aos farrapos é, ainda, uma questão em aberto.

Entre os historiadores não acadêmicos encontram-se, também, as obras publicadas por historiadores maçons. Essas narrativas são as que mais divulgaram a ideia de que a maçonaria foi fundamental para a eclosão e para o desenrolar da Guerra dos Farrapos. Deve-se considerar que, quantitativamente, o grupo não produziu um grande número de obras.

Entretanto, deve-se levar em conta que muitos intelectuais maçons integraram instituições culturais importantes, como, por exemplo, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e, dessa forma, direta ou indiretamente, produziram e influenciaram a divulgação de interpretações que valorizaram a temática maçônica. Selecionei dois autores que considero fundamentais para a tentativa de construção de uma história da maçonaria gaúcha. Nos dois casos, a inclusão do tema “Revolução Farroupilha” aparece com destaque.

Morivalde Calvet Fagundes é autor de inúmeros trabalhos sobre a maçonaria gaúcha. Um de seus méritos refere-se ao cuidado de comprovar suas afirmações com evidências documentais. Frequentemente, o autor transcreve parte de documentos por ele localizados, o que sustentaria em muito suas explicações. Um exemplo é quando transcreve documentos do período farroupilha que confirmam a ocorrência de rituais de iniciação maçônica de Thomas Ferreira Valle, em 1839, na cidade de São Gabriel, e de David Canabarro, em 1841, na cidade de Alegrete. Evidentemente que, para o autor, o fato de vários líderes farrapos terem sido maçons confirmaria a influência da instituição naquele contexto. (8) 

O segundo historiador maçom escolhido para este trabalho foi Carlos Dienstbach, autor que publicou uma importante obra sobre a maçonaria gaúcha (9). Entre um grande universo de informações, dados e documentos apresentados pelo autor, destaca-se, também, a questão da influência da maçonaria no processo revolucionário. Entre os documentos que reforçam suas convicções, ele aponta, em especial, um documento que conferia a Bento Gonçalves a missão de regularizar e filiar lojas e maçons nos locais percorridos pelos revolucionários. Muitas lojas maçônicas teriam suas raízes nessa modalidade de instalação. (10)

Quanto ao segundo grupo historiográfico em análise, e que denominei de acadêmico, aparecem poucas obras disponíveis que abordem temáticas relacionadas à participação da maçonaria na história do Rio Grande do Sul. Entretanto, destaco dois trabalhos que tratam do tema deste artigo: o de Spencer Lewis Leitman e o de Moacyr Flores. O primeiro autor explicou a relação entre maçonaria e Revolução Farroupilha com inserções como a que segue: 

“Na fronteira, Bento Gonçalves organizou lojas maçônicas aprendendo rapidamente todos os meandros da organização, e usando o serviço postal maçônico como uma alternativa para sua correspondência secreta. Alguns anos depois, um de seus filhos afirmou que Sucre, o codinome maçônico de seu pai, era prova suficiente de sua intenção de estabelecer uma república antes do dia 20 de setembro de 1835”. (11)

Moacyr Flores tratou dessa questão em capítulo específico de sua obra sobre o modelo político e as ideias que influenciaram os farrapos (12). O autor discorda que a Revolução Farroupilha tenha sofrido influência maçônica. Contudo, debruçou-se sobre algumas questões episódicas e outras de cunho interno da maçonaria. No caso dessas abordagens, considero a obra de Flores exemplar de um modelo historiográfico tipicamente do seu tempo. O autor procurou argumentar seus pontos de vista informando conceitos, informações e explicações de cunho interno da ordem maçônica. (13)

 Será que a maçonaria foi importante para a Revolução?

Não há, por certo, como responder de forma conclusiva a essa questão. As fontes documentais e bibliográficas disponíveis não falam o suficiente para que se chegue a uma conclusão plausível. Levando em conta esse ponto de vista, suspeito que, no caso de ter que se chegar a uma resposta, a Revolução Farroupilha foi mais importante para a maçonaria do que o contrário. Para pontuar essa perspectiva, lembro que as primeiras lojas maçônicas já estavam sendo implantadas em território brasileiro desde pelo menos o ano de 1800.

Por outro lado, somente três décadas depois se tem notícia oficial da instalação de loja no Rio Grande do Sul, a loja Filantropia e Liberdade, fundada em 25 de dezembro de 1831, na cidade de Porto Alegre.

A estreita vinculação entre a primeira loja maçônica e o gabinete de leitura da “O Continentino”, caracteriza uma das primeiras formas de atuação da maçonaria no Rio Grande do Sul. Os integrantes de lojas maçônicas atuavam discretamente em razão do caráter sigiloso da própria instituição. Também buscavam se proteger da perseguição política ou religiosa que por ventura pudesse se desenvolver. (14)

Volto à questão das origens da maçonaria gaúcha salientando que os liberais gaúchos, que já haviam aderido à causa emancipacionista em 1822, ganharam a adesão de setores descontentes com a política centralista da monarquia recém instalada no Brasil. Aliado a isso, havia o descaso para com as necessidades, sobretudo econômicas e fiscais, das províncias periféricas. A abdicação do imperador, em 1831, assim como as primeiras medidas dos governos regenciais, suscitaram um aumento da frustração por parte da elite gaúcha em relação ao governo central, e foram os integrantes dessa vertente política, muitos deles participantes de sociedades secretas, os responsáveis pela organização do movimento revolucionário de 1835. Nesse ponto, podemos, de alguma forma, ligar maçonaria e Revolução Farroupilha, pois as oficinas maçônicas eram, no entanto, um espaço privilegiado de debate e de aglutinação dos liberais radicalizados.

As primeiras lojas foram, certamente, de iniciativa de um pequeno número de maçons, familiarizados com os “segredos” da ordem no centro do país, ou mesmo no exterior, e que criaram ou encontraram espaços de atuação nos clubes ou sociedades de cunho liberal. O exemplo mais expressivo e já mencionado anteriormente foi, sem dúvida, “O Continentino”, cuja ênfase, dada neste trabalho, se deve ao fato de ser o mais bem documentado; com isso, não descartamos que outras sociedades ou gabinetes de leitura tenham sido embriões maçônicos. 

No decurso dos confrontos da revolução não existiam condições regimentais mínimas para que as lojas maçônicas ou prosseguissem com suas atividades ordinárias e extraordinárias. O clima geral de instabilidade política e social tornava difícil a regularidade das cerimônias e a observância sobre a correção que deveria existir para a realização dos rituais e dos procedimentos administrativos previstos nas constituições e regulamentos. Assim, em condições excepcionais, a ordem maçônica buscou alternativas de funcionamento para que a sua incipiente situação não retrocedesse.

Nessa mesma perspectiva, cito duas situações de lojas maçônicas que se posicionaram como aliadas das tropas imperiais: a loja União Geral, situada na cidade de Rio Grande, e que fora fundada no ano de 1840, portanto, em meio à revolução. Foi numa cerimônia no templo maçônico pertencente a essa loja que se deu a iniciação do Marquês do Herval, Manuel Luís Osório. Para que se entenda o posicionamento de Osório é importante lembrar que, na primeira fase revolucionária, ele compunha as forças farroupilhas. Entretanto, suas divergências vieram à tona quando da Proclamação da República Rio-grandense, em 1838, quando então aderiu às tropas imperiais (15).

Outra situação similar ocorreu em São Leopoldo, na loja União e Fraternidade. Um dos maçons de destaque da loja, e que assumiu a posição política favorável às forças centralistas imperiais, foi o líder da comunidade alemã, João Daniel Hillebrand. Entre os aspectos biográficos que credenciam sua figura na história regional estão o fato de ter sido considerado um médico humanitário, presidente da Câmara dos Vereadores de São Leopoldo, fundador da Companhia de Voluntários Alemães e chefe geral da Colônia. Nos dois casos, fica evidenciado que a ordem maçônica não ficava imune aos confrontos e disputas políticas e ideológicas inerentes a cada realidade histórica.

Considerações finais

Esses e outros exemplos historiográficos me fazem acreditar que a Revolução Farroupilha contribuiu decisivamente para a expansão de um tipo de pensamento político que aproximou parcela da elite regional à causa maçônica. Em sentido contrário, essa mesma revolução impediu a expansão maior da maçonaria, pois foi um obstáculo para a consolidação das estruturas administrativas maçônicas. A maçonaria encontrava-se em fase de instalação na província quando eclodiu a revolução. Dessa maneira, dificilmente teria a força, o prestígio, o sentimento conspirativo e liberal necessário para influenciar ou interferir decisivamente num episódio da proporção da Guerra dos Farrapos. Que alguns líderes farrapos tenham sido iniciados na maçonaria no período anterior à eclosão da mesma, ou no transcorrer da guerra civil, não restam dúvidas. Contudo, esse argumento por si só não garantiria sustentação nas teses de que a maçonaria foi fundamental na organização ou desenlace da guerra.

Lembro, ainda, que o debate sobre a questão da identidade regional deve levar em conta que a sociedade gaúcha se encontrava dividida política e ideologicamente. De um lado, lutavam homens identificados com a causa farroupilha e, de outro, os segmentos que combatiam com as tropas imperiais. Assim, importante, nesse contexto, é assinalar a presença de maçons em ambos os lados do conflito. Reitero o meu posicionamento assumido no início deste artigo, qual seja, acreditar que a influência da maçonaria no desenrolar da Revolução Farroupilha não foi fundamental e nem decisiva. Entretanto, a instituição contribuiu, e isso não é pouco relevante, na difusão das ideias liberais no seio da elite política e cultural na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.

Autora: Eliane Lucia Colussi 

Fonte: Estudos – Blog do Bianchi

* A professora Eliane possui graduação em Curso de História pela Universidade de Passo Fundo (1985), mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1993) e doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1998). Tem experiência na área de História, com ênfase em História, atuando principalmente nos seguintes temas: história, maçonaria, política, violência.

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Notas

(1) – A valorização da temática sobre a Revolução Farroupilha deve muito aos intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, que, no caso das comemorações do Centenário Farroupilha, organizaram um importante congresso de estudos e, posteriormente, publicaram na forma de anais o debate ali ocorrido. Ver: Anais do I Congresso de História e Geografia Sul-Rio-Grandense. IHGRGS. Porto Alegre, 1936.

(2) – O presente artigo é inspirado em outro trabalho de minha autoria: COLUSSI, Eliane Lucia. A maçonaria gaúcha no século XIX. 3. ed. Passo Fundo: Ediupf, 2003. 

(3) – Idem.

(4) – Esta constatação confirmaria um fenômeno cultural e político ocorrido em esfera internacional nos séculos XVIII e XIX. O nascimento, divulgação e recepção do pensamento “burguês” ou iluminista e liberal encontrou nessas sociedades literárias um espaço de sociabilidade fundamental. 

(5) – SILVA, João Pinto da. A Província de S. Pedro (interpretação da história do Rio Grande). Porto Alegre: Globo, 1930, p. 121.

(6) – ANTUNES, Deoclécio Paranhos. Os partidos políticos no Rio Grande do Sul: gênese e desdobramento histórico desde a proclamação da independência à república. In: Anais do I Congresso de História e Geografia Sul-Rio-Grandense. IHGRGS. Porto Alegre: Globo, 1936. v. 2. p. 217.

(7) – SPALDING, Walter. Farrapo. Porto Alegre: Sulina, s/d, p. 134. 

(8) – FAGUNDES, Morivalde Calvet. Revelações da história da maçonaria gaúcha. Hoy es historia, Montevidéu, ano 4, n. 20, 1989. p. 42-43.

(9) – Trata-se da obra DIENSTBACH, Carlos. A maçonaria gaúcha: história da maçonaria e das lojas do Rio Grande do Sul. Londrina: A Trolha, 1993. (4. v.).

(10) – Idem, p.479.

(11) – LEITMAN, Spencer Lewis. Razões socioeconômicas da Guerra dos Farrapos: um capítulo da história do Brasil no século XIX. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p. 61.

(12) – FLORES, Moacyr. Modelo político dos farrapos: as ideias políticas da Revolução Farroupilha. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. 

(13) – Idem, p. 40. 

(14) – Sobre esta questão ver o trabalho de MOREL, Marco. Sociabilidades entre luzes e sombras: apontamentos para o estudo histórico das maçonarias da primeira metade do século XIX. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, n. 28, p. 3-22, 2001.

(15) – DIENSTBACH, Carlos. Op. Cit., p. 518-519.

Referências bibliográficas

ANTUNES, Deoclécio Paranhos. Os partidos políticos no Rio Grande do Sul: gênese e desdobramento histórico desde a proclamação da independência à república. In: Anais do I Congresso de História e Geografia Sul-Rio-Grandense. IHGRGS. Porto Alegre: Globo, 1936. v. 2. p. 215-266.

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SPALDING, Walter. Farrapo. Porto Alegre: Sulina, s/d.

Tornar feliz a Humanidade!

O Ponto Dentro do Círculo

Tornar feliz a Humanidade! – Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

É sabido que a Maçonaria moderna não é uma organização com propósitos específicos de auxílios mútuos, de caridade ou de promoção de campanhas sociais, mas tem responsabilidades e deveres para com a Sociedade, tendo entre vários de seus princípios o do combate ao obscurantismo, aos preconceitos, aos erros e o trabalho incessante pela felicidade do gênero humano.

A reflexão que fazemos neste momento é sobre a força revigorante do serviço voluntário que concretamente pode dar oportunidade ao autêntico Maçom de praticar o bem e a se dedicar à felicidade de seus semelhantes mais próximos e menos favorecidos pela sorte. Nada que o impeça de dedicar-se também a causas de maior apelo e repercussão.

Têm-se notícias que hoje no Brasil milhões de pessoas estão envolvidas em atividades voluntárias e que não se omitem ao abrigo do argumento de que isso é tarefa atribuída a governos e autoridades por lei encarregadas de…

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O maçom Simón Bolívar: entre o mito e a verdade histórica – Parte IV

Maçons Famosos - A∴R∴L∴S∴ 28 de Julho – 133

Proibição de sociedades secretas

Como resultado do fracasso da Convenção de Ocaña em junho de 1828, que confrontou os partidários do General Santander e os de Bolívar, e também do fracasso da conspiração contra Bolívar e sua tentativa de assassinato pela Sociedade Filológica, no final de setembro do mesmo ano [71] Bolívar e seus ministros consideraram conveniente prevenir futuras conspirações, portanto, evitaram encontros ilegais a pretexto de sociedades culturais. E com esse propósito emitiram o decreto de 8 de novembro de 1828, onde proíbem “associações ou fraternidades secretas” no território da República da Colômbia. Certamente, o decreto não menciona especificamente a Maçonaria, mas foi incluído tacitamente. A partir de 8 de novembro de 1828, a Maçonaria na Colômbia foi oficialmente dissolvida. A Maçonaria que, introduzida especialmente da Jamaica, a partir da década de 1820 adquiriu um notável desenvolvimento, com maior força no estabelecimento militar.

Desta proibição de Simón Bolívar, que junto com Francisco Miranda costuma ser colocado nas fileiras da Maçonaria, sendo este precisamente um de seus títulos de glória ou difamação (dependendo do ângulo de onde se olha) pouco se costuma dizer. No entanto, é curiosa a base ideológica que o próprio Bolívar faz no referido decreto de proibição posterior. Diz assim:

SIMON BOLIVAR

Presidente Libertador da República da Colômbia …

Tendo creditado a experiência tanto na Colômbia como em outras nações, que as sociedades secretas servem para preparar convulsões políticas, perturbando a tranquilidade pública e a ordem estabelecida; que ocultando todas suas operações com o véu do mistério, fazendo presumir fundamentalmente que não são boas nem úteis à sociedade, w por esse motivo levantam suspeitas e alarmes a todos aqueles que desconhecem os objetos de que se ocupam, tendo ouvido a opinião do Conselho de Ministros,

DECRETO:

Artigo 1. Na Colômbia são proibidas todas as associações ou fraternidades secretas, independentemente da denominação de cada uma.

Artigo 2. Os governadores das províncias, por si próprios e por intermédio dos chefes da Polícia dos Cantões, dissolverão e impedirão as reuniões das sociedades secretas, verificando cuidadosamente se há alguma nas respectivas províncias.

Artigo 3. Quem doar ou arrendar sua casa ou dependências a uma Sociedade Secreta terá de pagar uma multa de 200 pesos, e cada um dos que concordar, de 100 pesos pela primeira e segunda vez; para o terceiro e outros, a multa será o dobro; Quem não puder pagar a multa sofrerá dois meses de prisão pela primeira e segunda vez; e para o terceiro e outros, pena dupla.

Parágrafo 1.º As multas destinam-se a despesas policiais, a cargo dos governadores provinciais.

O Ministro Secretário de Estado do Gabinete do Interior é o responsável pela execução deste Decreto.

Dado em Bogotá em 8 de novembro de 1828.

O Ministro Secretário de Estado da Administração Interna, José Manuel Restrepo.

A respeito desse decreto sobre as sociedades secretas, há quem afirme que tal ordem foi dirigida especialmente contra a Maçonaria, em decorrência das divergências que surgiram entre Bolívar e Santander. No entanto, parece antes que este decreto pretendia acabar com certos grupos políticos que de outra forma mais ou menos velada conspiravam contra a estabilidade do governo. A Maçonaria que tinha partidários, tanto de Bolívar quanto de Santander, não podia ser excluída, embora Bolívar tivesse sido iniciado nela vinte e quatro anos antes.

O decreto de Bolívar pelo qual “todas as sociedades secretas ou fraternidades eram proibidas, independentemente da denominação de cada uma”, lembra outro decreto, um ano antes, datado e publicado em Granada, Espanha, no ano de 1827. Tem o seguinte título:

Édito do Ilustre Arcebispo de Granada em que é comunicado a todos os fiéis desta diocese e manda observar o Real Certificado de Sua Majestade e senhores do Conselho, pelo qual se manda guardar e cumprir a Bula, que é nele inserido, de nosso santíssimo Padre Leão XII, em que toda seita ou sociedade clandestina, qualquer que seja sua denominação, é proibida e novamente condenada [72] .

Decreto que coincide com a declaração quase textual ao definir o que se entende por empresas clandestinas. Como Bolívar faz com associações ou fraternidades secretas.

Seguindo o decreto de 8 de novembro de 1828 dado pelo maçom Simon Bolívar, todas as lojas maçônicas existentes em diferentes cidades da República foram fechadas [73]. Dessa forma, o Libertador de 1819 tornou-se o Libertador de 1828, segundo Antonio Caballero [74].

Conclusão

Acredito que não seja necessário recorrer a possíveis estudos psicossomáticos ou psicopatológicos de Bolívar [75] , e nem mesmo entrar no jogo da dificuldade dialética que a constante contradição bolivariana acarreta, para explicar que em algum momento de sua vida ele foi um Maçom. Talvez mais por curiosidade do que qualquer outra coisa, como diz Madariaga, seu detrator e ao mesmo tempo admirador [76] . E em outra, passou a considerar a Maçonaria ridícula, como parece que a declarou ao Peru de Lacroix em 1828, que a colecionou em seu Diario de Bucaramanga [77] , e que, pouco depois, a considerou não apenas ridícula, mas perniciosa, banindo pelo Decreto de 8 de novembro de 1828 [78] e praticamente encerrando sua existência na Grande Colômbia por vários anos.

Movemo-nos entre o homem e o mito, entre a lenda e a história. Mitos e lendas que não maculam a história nem o homem por isso, mas antes os enriquecem ensinando a aceitá-los com seus paradoxos e contradições, com sua multiplicidade de nuances, pois são [79]. Sem mais roupas do que aquelas de interesse que nos aproximam da realidade e verdade de um homem que neste caso tem o halo duplo com mais de cem anos, e que aos duzentos e trinta e sete anos de seu nascimento ainda está existindo olhado, talvez excessivamente, mitificado e manipulado em sua imagem em benefício de supostas ideologias bolivarianas distantes de sua realidade pessoal. Bolívar é um homem de quem, como se disse no Congresso Bolivariano de Caracas em 1983, é preciso sair de seu pedestal e levá-lo a passear pelos bairros extremos das cidades e por tantas nações latino-americanas para lembrar sua política. ou mensagem patriótica, maçônica ou simplesmente humana, confraternização, integração, independência de bairros desatualizados (externos e internos),

APÊNDICE I

Notas biográficas de Bolívar antes de sua iniciação maçônica

Os Bolívares têm origem em Marquina, um feudo da Biscaia (Espanha). Dos primeiros que há notícias confiáveis ​​são Simón Bolívar, o Ancião, que era secretário da Corte Real de Santo Domingo. Em 1587 já estava em Caracas com seu filho Simón Bolívar el Mozo ou el Americano, nascido em Santo Domingo. Foi o sacerdote fundador do Seminário Tridentino de Caracas. Em 1593 recebeu o encargo dos índios Quiriquire na cidade de San Mateo, a semente da propriedade da família Bolívar.

Ao longo dos séculos XVII e XVIII, os bolívares ocuparam altos cargos na administração colonial e nas milícias do rei da Espanha. Eles possuíam minas, extensas propriedades de terra e escravos negros para cultivar suas plantações. A família Bolívar alcançou grande prestígio social, fazia parte da chamada aristocracia Mantuan. Contribuíram para a construção do porto de La Guaira e para a defesa do território como oficiais da Coroa Espanhola.

Em 1783, quando Simón Bolívar tinha 3 anos, morreu seu pai, o coronel Juan Vicente Bolívar y Ponte. E em 1792, quando tinha apenas 9 anos, viu também morrer a sua mãe, Concepción Palacios y Blanco. Ambas as vítimas de tuberculose. A mesma doença que acabaria com Simón Bolívar em 1830 aos 47 anos de idade. Simón e seus outros três irmãos (Juan Vicente, Juana e María Antonia) foram deixados aos cuidados de seu avô materno, Feliciano Palacios. Simón, o mais indisciplinado, foi ensinado por Simón Rodríguez, um autodidata que marcou profundamente seu aluno, e Andrés Bello que lhe incutiu o interesse pela história e pela geografia. Aos 14 anos começou a receber treinamento militar no Regimento de Voluntários Brancos dos Vales do Aragua, onde alguns anos depois alcançou o posto de segundo tenente.

Primeira viagem a Espanha

Em janeiro de 1799, quando Simón Bolívar tinha 16 anos, embarcou para a Espanha no porto de La Guaira. Como Havana estava sitiada pelos ingleses, seu navio foi forçado a fazer escala em Veracruz. De lá foi para o mar e chegou a Santander no dia 30 de maio, de onde se mudou para Madrid. Ali o esperava seu tio Esteban Palacios em boa amizade com o secretário de Estado Francisco de Saavedra, ex-prefeito da Venezuela e amigo do pai de Simón Bolívar. Francisco de Saavedra, um ano antes, em 1798 havia substituído Godoy na primeira magistratura do Estado. Em 1800, o jovem Bolívar participava da vida social e política madrilena graças ao prestígio e aos amigos de seu tio Esteban Palacios, que também contava com a simpatia de Francisco de Saavedra.

Mas em 1801 Godoy recuperou o poder, Saavedra foi exilado e Esteban Palacios e sua comitiva presos. Simón Bolívar foi recebido na casa do Marquês de Ustáriz de Caracas, ex-ministro do Conselho Supremo da Guerra, ilustre e liberal promotor de reuniões sociais. Cuidou da formação de Bolívar, que conheceu María Teresa, filha de outro crioulo de Caracas, Bernardo Rodríguez del Toro, por quem se apaixonou tanto que a pediu em casamento. Isso levou Rodríguez del Toro a transferir sua filha para Bilbao, onde o próprio Bolívar logo chegou, perseguido pela polícia de Godoy. De Bilbao, Bolívar foi para a França, onde em Paris presenciou as celebrações pela paz de Amiens entre Napoleão e a Inglaterra, e onde buscou alguma imunidade ou segurança pessoal para retornar a Madrid.

Fê-lo pouco depois, e aos 19 anos, a 25 de maio de 1802, o casamento de Simón com María Teresa teve lugar em Madrid. De Madrid os noivos marcharam para La Coruña onde embarcaram para Caracas e a fazenda San Mateo onde se estabeleceram. Mas depois de cinco meses María Teresa morreu de febre amarela, Bolívar ficou viúvo aos 19 anos de idade.

Segunda viagem a Espanha

No final de outubro de 1803, ele iniciou sua segunda viagem à Espanha. Desta vez, desembarcou em Cádiz, onde estava seu tio Esteban Palacios, que havia recuperado a liberdade. A sua estada em Cádiz deve ter sido breve porque em fevereiro de 1804 já se encontrava em Madrid, de onde partiu com Fernando Rodríguez del Toro, primo de sua esposa, para Paris. Lá conheceu, entre outros americanos, Simón Rodríguez, seu tutor. Sabemos que Bolívar estabeleceu seu domicílio na rua Vivienne, no triângulo entre a Ópera, a Bolsa de Valores e a Biblioteca Nacional. Em Paris frequentou as reuniões de Madame Fany, conheceu Alexander von Humboldt e o naturalista Bonpland, com os americanos Montúfar, Rocafuerte, Tristan, entre outros. E em Paris ele começou na Maçonaria na Loja de Santo Alexandre da Escócia …

APÊNDICE II

Situação da Maçonaria Francesa quando Bolívar entrou

Os dois grandes ramos da Maçonaria universal, a inglesa e a escocesa, tiveram sua própria história na França. As primeiras lojas criadas na França no século 18 estavam de acordo com o modelo e influência ingleses até que em 1758 a Grande Loja da França se proclamou independente da Maçonaria de Londres, mas manteve a ortodoxia e os três graus clássicos de aprendiz, companheiro e mestre. Não foi até 1773 que o Grande Oriente da França foi criado.

Por sua vez, os escoceses constituíram a Grande e Soberana Loja de São João de Jerusalém, também conhecida como a dos Imperadores do Oriente e do Ocidente [80]. O Conselho desta Grande Loja enviou Etienne Morin para espalhar o sistema escocês nos Estados Unidos e nas Índias Ocidentais, onde as lojas inglesas predominavam.

Os americanos aceitaram o sistema escocês, denominado Rito da Perfeição, que alcançava apenas até o 25º grau, mas o aumentaram até o 33º grau e procederam à codificação do escocês dando origem ao antigo e aceito rito escocês. Em 1801, na cidade de Charleston, na Carolina do Sul, foi criado o primeiro Conselho Supremo do 33 [81] onde havia um francês, de nacionalidade americana, capitão de artilharia Alejandro Francisco Augusto, Conde de Grasse-Tilly, que em 1804 ele foi comissionado pelo Conselho Supremo como propagandista e difusor do antigo e aceito Rito Escocês. Após uma breve estada nas Índias Ocidentais, desembarcou em Bordeaux no início de julho de 1804. Pouco depois, o encontramos em Par t s como o fundador do Conselho Supremo do Grau 33[82] e um membro da loja de Santo Alexandre da Escócia que permaneceu fiel ao escocês em face do já poderoso Grande Oriente. Em pouco tempo e graças aos esforços de Grasse-Tilly, Santo Alexandre da Escócia tornou-se a Loja-Mãe Escocesa da França e a Grande Loja Geral Escocesa do antigo e aceito rito [83] com a intenção de ser o centro das diferentes obediências escocesas que até então haviam permanecido na França sem nenhuma relação entre si.

A constituição desta Grande Loja Geral Escocesa ocorreu em 22 de outubro de 1804 na sede da Loja Santo Alexandre da Escócia . Além da loja anfitriã, Santo Alexandre da Escócia , as lojas parisienses escocesas: La Parfaite Union, La Réunion des étrangers, Les Élèves de Minerve e Le Cercle oriental des Philadelphes . Nesse mesmo dia, Luís Bonaparte foi investido como Grão-Mestre da dita Grande Loja Geral Escocesa, e um mês depois, em 27 de novembro, seu irmão José Bonaparte tornou-se Grão-Mestre do Grande Oriente da França.

Dessa forma, a divisão da Maçonaria francesa que existia anteriormente foi patenteada e oficializada. Diante do Grande Oriente da França estava o Conselho Supremo do Grau 33. Porém, poucos dias depois, apenas três semanas[84], os responsáveis ​​pelos dois órgãos, José Bonaparte como Grão-Mestre do Grande Oriente da França e seu irmão Luis Bonaparte, Grão-Mestre da Grande Loja Geral Escocesa, eles chegaram a um acordo. Segundo o qual o Grande Oriente da França exerceria sua autoridade sobre os graus 1 a 18 e o Conselho Supremo de 19 a 33 [85]. Mas esse acordo provou ter vida curta, pois em 6 de setembro de 1805 os dignitários do Rito Escocês romperam com o Grande Oriente da França, e as duas instituições se separaram novamente [86].

Bolívar, que foi testemunha direta dessas divergências e já tinha outras preocupações políticas mais vitais e urgentes, não é de surpreender que esteja decepcionado com sua experiência maçônica parisiense.

Fim

Autor: Jose Antonio Ferrer Benimeli

Fonte: REHMLAC

*Clique AQUI para ler o artigo na íntegra.

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Notas

[71] – O guarda que guardava a residência do Presidente Libertador General Simón Bolívar foi surpreendido, que foi salvo de ser assassinado pela coragem de Dona Manuela Sáenz que o encorajou a se jogar na rua de uma varanda enquanto ela entretinha os conspiradores. Dona Manuela, chamada Libertadora do Libertador, era sua amante desde 15 de junho de 1822, dia em que se conheceram em Quito no baile que Dom Juan Larrea deu em homenagem a Bolívar, recém-chegado de Pasto. O idílio durou até a morte do Libertador, ocorrida em San Pedro Alejandrino, Santa Marta, em 17 de dezembro de 1830.

[72] – Ferrer Benimeli, Maçonaria Espanhola , volume I, 152-160 trata dos decretos semelhantes que Fernando VII deu na Espanha naqueles anos contra as sociedades secretas.

[73] – Segundo Carnicelli, La masonería , tomo II, 307 eram pelo menos trinta lojas: La Unión , Fraternidad Colombiana e Concordia Colombiana , de Caracas; Concordia e Valor y Constancia , de Valência; Por unanimidade, Bolívar e La Guaira , de La Guaira; La Amistad y Libertad , de Puerto Cabello; Os Irmãos Regeneradores , de Maracaibo; Protectora de las Virtudes , de Barcelona; Harmonia Perfeita , de Cumaná; The Prize-winning Virtue , de Carúpano; Amizade, de Barquisimeto; Unión Filantrópica , de Coro; Aurora , de San Felipe; San Juan de la Constancia , de Tocuyo; A Estrela do Leste da Colômbia no. 379 e La Concordia no. 792 , de Angostura; San Juan de la Margarita , da Isla Margarita; Fraternidade, As Três Virtudes Teológicas e Beneficência , de Cartagena; Fraternidade de Bogotana e corações sensíveis no. 20 , de Bogotá; Concordia de Boyacá , de Tunja; Hospitalidad del Magdalena , Honda; The Best Union , do Panamá; e lei natural, De Guayaquil.

[74] – Antonio Caballero, “A ação inútil”, História 16 VIII, n. 87 (julho de 1983): 65-69.

[75] – Diego Carbonell, Psicopatologia de Bolívar (Caracas: Universidade Central da Venezuela, 1965).

[76] – Salvador de Madariaga, Simón Bolívar (Londres: Hollis-Carter, 1952), tomo I, 222.

[77] – Carlos Restrepo, “Relatório sobre a Maçonaria e a Independência”, Boletim de História e Antiguidades 46 (Bogotá, 1959): 236.

[78] – Codificação Nacional , volume III, 437.

[79] – E não como gostaríamos que fossem.

[80] – Coen-Dumesnil, La Franc-Maçonnerie , 24.

[81] – Sua jurisdição se estendia ao sul dos Estados Unidos Em 1813, outro Supremo Conselho foi criado em Washington com jurisdição para o norte dos Estados Unidos.

[82] – Sua sede ficava “nas instalações da Rue Neuve-des-Petits-Champs, mais tarde conhecida como Galerie de Pompei. Cravo, Histoire Pittoresque, 241; Pérez Vila, The Masonic Experience , 329.

[83] – A constituição desta Grande Loja Geral Escocesa foi notificada a todas as lojas da França por uma circular datada de 1º de novembro daquele ano. Pérez Vila, The Masonic Experience , 328. Em 20 de outubro de 1804, dos dez membros do Conselho Supremo, seis pertenciam à loja de Bolívar [ Santo Alexandre da Escócia ]: Grasse Tilly, Thory, La Tour d’Auvergne, Bermond d’Alez d’Anduze, De Haupt e Bernardin Renier. Simon, Histoire du Rite Écossais , 88-89

[84] – Terceiro dia do décimo mês do ano 5804, de acordo com o calendário do sistema maçônico escocês.

[85] – Segundo Clavel, Histoire Pittoresque , 242, o acordo foi feito na residência do marechal Kellerman. Albert Lantoine, La Franc-Maçonnerie écossais en France (Paris, 1925).

[86] – Clavel, Histoire Pittoresque explica em detalhes essa crise que se tornou evidente em março de 1805. Jacques Simon, Histoire du Rite Écossais, 86-94. Em 3 de dezembro de 1804, De Grasse Tilly foi designado para a Itália como deputado do Príncipe Eugène de Beauharnais e deixou de ser Soberano Grande Comandante do Conselho Supremo do 33º Grau da França, sendo substituído pelo Príncipe Arqui-chanceler Cambacérès, nomeado em 8 de julho de 1806 e instalado em 13 de agosto. Pouco depois, em 4 de março de 1807, ele também foi nomeado Grão-Mestre do Rito de Filosofia da Escócia.

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