Porque somos as ferramentas para a Grande Obra!

O Ponto Dentro do Círculo

37940

Secular e cosmopolita é a nossa Ordem, perdendo-se nos anais dos tempos sua origem. E, como as demais Escolas de Iniciação, tem suas peculiaridades, que devem ser observadas e refletidas durante nossa ousada e solitária vereda nos caminhos da iniciação maçônica. Antes de abordá-las, em detalhes, permitam-me uma breve definição: a palavra “iniciação” se define como o ato ou a ação de iniciar; de iniciar uma ação; de sair do estado de inércia; de iniciar-se nos Mistérios de uma determinada doutrina.

Não é por casualidade que é chegado o momento em nossas vidas, que deparamos com perguntas sobre a origem do homem, seu destino e quais os objetivos a serem alcançados neste plano físico. Quando despertamos a atenção para estes questionamentos, quando não mais encontramos contentamento na “fé cega”, naquilo que tentam nos fazer acreditar como verdade, é neste incômodo momento de busca dessas respostas que, por causalidade, somos levados…

Ver o post original 984 mais palavras

Anúncios
Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Teoria do Conhecimento Maçônico

O Ponto Dentro do Círculo

Resultado de imagem para camara de reflexoes maçonaria

Quando iniciado na Maçonaria, muitos são os sonhos de realização, educação e cultura que o neófito espera obter. Imagina-se que terá mestres que lhe ensinarão todos os meandros da Arte Real.

Depois de algum tempo, ele percebe que a Ordem Maçônica apenas fornece local físico, ferramentas e amigos para a caminhada que fará a sua maneira e por seus próprios meios. O estudante maçom anda só na estrada do desenvolvimento, porque lhe cabe descobrir, decorrente da própria vivência, por si e em si próprio, na devida oportunidade, as verdades tão sonhadas.

As descobertas intuídas pelo método maçônico de aprendizagem são diferentes para cada pessoa, dependendo de sua herança cultural[1], porque o método objetiva que cada um desenvolva suas próprias verdades, sem submetê-las a um molde.

Esta liberdade de auto-desenvolvimento tem conexão com a teoria do conhecimento da antiguidade, na qual Heráclito afirmou que tudo no universo muda constantemente…

Ver o post original 3.096 mais palavras

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

A linha de fronteira de nossa conduta

O Ponto Dentro do Círculo

Frequentemente participo de grupos em que se discutem normas e procedimentos maçônicos, em Loja e fora dela. Muitas vezes, as opiniões são divergentes e outras potências sãos mencionadas, como sendo tolerantes a isso ou àquilo. O texto que se segue, de autor americano, diz respeito à Maçonaria da Califórnia, tal como é vista pela Grande Loja da Califórnia. As semelhanças conceituais justificam estudar um texto onde tantas diferenças na “praxis” maçônica existem. Ao Maçom estudioso, dedico esta tradução, pois desejo que contribua para o enriquecimento de seu conhecimento da Arte Real.

Introdução

Eu gostaria que cada um de vocês retrocedesse comigo, em seus pensamentos, até a noite em que vocês entraram numa Loja Maçônica pela primeira vez, para serem iniciados. Provavelmente, cada um de nós tem diferentes eventos que se destacam, daquela noite memorável, mas eu posso me lembrar de quão profundamente impressionado eu estava de ser reconhecido como um…

Ver o post original 2.821 mais palavras

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

As Colunas Boaz e Jakin

O Ponto Dentro do Círculo

Estas colunas todas as vezes que mencionadas evocam a imagem do Templo do G.A.D.U, por tradição chamado Templo de Salomão. Neste ensaio, pretendo demonstrar esta obra específica de Salomão e Hiram-abif, suas origens, localizações, tamanhos, finalidades e o mais difícil, seus nomes e significados.

Origens

Eram comuns à época estas colunas e obeliscos, serem erigidos para se “louvar” os deuses e destes angariar favores e, havia também, uma tradição disseminada dos governantes marcarem suas histórias e realizações pessoais com obeliscos ou colunetas, antes e durante ao advento de registros escritos ou figurativos e para isto usaram destas colunas e obeliscos.

Como exemplos, mais conhecidos, os diversos obeliscos Egípcios, quase todos monolíticos e inúmeros outros. Esses pilares foram comuns na Síria, Fenícia e Chipre naqueles tempos. Houve também, imensos pilares, alguns de fogo ou incensa, que eram parecido a sua contra-partida de fenício e eles teriam a finalidade de iluminar…

Ver o post original 2.339 mais palavras

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Velório no Átrio

O Ponto Dentro do Círculo

Determinada Loja Maçônica estava em uma situação muito difícil, era uma fase realmente crítica. Suas reuniões não traziam nada de novo e até as tradições estavam se perdendo. Era sempre a mesma coisa, ou seja, ar pesado e poluído, a energia sempre negativa, os Obreiros apáticos e desmotivados, bem como a descrença em possíveis soluções imperava e os balanços financeiros, um horror, não saíam do vermelho.

A bem da verdade, tanto a sua administração como as contas retratavam muito bem alguns países do Terceiro Mundo. Era uma verdadeira calamidade, levando muitos valorosos Irmãos a se afastarem assustados e, ao mesmo tempo, tristes por não poderem contribuir para a solução dos problemas existentes, até porque nem sequer eram ouvidos.

Efetivamente, esta situação não podia mais continuar como estava. Era preciso fazer alguma coisa para reverter o caos ali instalado. Todavia, nenhum Irmão estava disposto a reagir contra aquele estado de coisas…

Ver o post original 902 mais palavras

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

O que é "Ser Livre e de Bons Costumes" na Concepção Maçônica

O Ponto Dentro do Círculo

Resultado de imagem para livre e de bons costumes

A partir do momento que alguém se torna Maçom, há de se conscientizar que haverá um caminho longo a percorrer. Pode-se dizer que é um caminho sem fim. Ao longo dessa caminhada há bons e maus momentos. Os bons deverão ser aproveitados como incentivo, e os maus não poderão ser motivo de esmorecimento e desistência da viagem iniciada. A linguagem, sempre empregada nas Lojas Maçônicas, diz que o Aprendiz Maçom é uma pedra bruta que deve talhar-se a si mesmo para se tornar uma pedra cúbica. É o início da sua jornada Maçônica.

O nutrimento elementar para a viagem é conhecido do Maçom desde de nossa primeira instrução recebida: a régua de 24 polegadas, o maço e o cinzel. Com o progresso, nós Maçons vamos recebendo outros objetos.

Os utensílios de trabalho, obviamente, são simbólicos. Todos os símbolos nos abrem as portas sob condição de não nos atermos apenas às…

Ver o post original 1.142 mais palavras

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Descalçamento & Maçonaria

O Ponto Dentro do Círculo

Resultado de imagem para footprint

Pra começar, esse negócio de chinelo é coisa relativamente nova, apenas para os candidatos não pegarem um resfriado, machucarem o pé ou mesmo se sujarem em demasia. Preocupações que não existiam anteriormente, mas passaram a fazer parte da sociedade. Afinal de contas, pé com chinelo não é pé descalço!

Os rituais e livros são extremamente omissos quanto ao motivo do descalçamento, muitas vezes informando apenas que se trata de uma questão de respeito. Há ainda os “achistas” de plantão, para viajarem em teorias tendenciosas e sem embasamento como Jesus lavando os pés de um discípulo, ou que como o caminho do candidato é ao Oriente e no Oriente (Japão) as pessoas tiram os calçados para entrar em casa. Se neles falta pesquisa, sobra imaginação. Não me assustará se uns desses quiserem um dia lavar o pé do candidato no Mar de Bronze!

Para demonstrarmos a antiguidade e a importância do…

Ver o post original 259 mais palavras

Publicado em Sem categoria | 1 Comentário

O Homem que queria ser Rei: uma aventura maçônica

O Ponto Dentro do Círculo

o-homem-que-queria-ser-rei2

Resumo

O presente trabalho busca demonstrar a influência da filosofia e do simbolismo maçônico presentes no conto “O homem que queria ser Rei”, de Rudyard Kipling, ressaltando as lições maçônicas que se podem extrair daquela obra.

Introdução

A literatura, arte milenar, oferece ao autor múltiplas oportunidades de se fazer entender e ao leitor, múltiplas vias de entendimento. São exemplos dessas obras “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, “O Livro de Jó”, de William Blake, “Paraíso Perdido” de John Milton e a presente obra, o conto “O Homem que queria ser Rei”, de Rudyard Kipling.

Kipling é hoje considerado um dos maiores autores modernos da língua inglesa, ainda que seu legado seja hoje controverso, dada a associação de seu nome ao imperialismo britânico. Nasceu em Bombaim, na então colônia britânica da Índia, em 1865, filho de pai e mãe ingleses. Aos cinco anos, como era costume entre os colonos que possuíam…

Ver o post original 3.288 mais palavras

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

O círculo, o ponto e as paralelas tangenciais

Imagem relacionada

1 – Introdução

Na profusão da edição de rituais e instruções maçônicas no Brasil, muitas questões têm se apresentado que ainda clamam por uma solução ou explicação satisfatória nesse particular, sobretudo pela inserção de instruções que não pertencem a esse ou aquele Rito e sua correspondente doutrina iniciática, levando-se em conta à vertente na qual pertença o costume maçônico.

É o caso, por exemplo, de uma questão que envolve, dentro da simbologia maçônica, o conjunto composto pelo Círculo, pelo Ponto e pelas Paralelas Tangenciais e ainda no contexto acrescido do Livro da Lei e da Escada de Jacó. Indiscriminadamente esse conjunto alegórico, em não raras vezes, tem habitado as instruções para o Aprendiz emanadas em alguns rituais brasileiros do Rito Escocês Antigo e Aceito como o exemplo do que segue:

“Em Loja Maçônica Regular, Justa e perfeita, existe um ponto dentro de um circulo, que o verdadeiro Maçom não pode transpor. Este círculo é limitado, ao Norte e ao Sul, por duas linhas paralelas, uma representando Moisés e outra o rei Salomão. Na parte superior deste círculo, fica o Livro da Lei Sagrada, que suporta a Escada de Jacó, cujo cimo toca o céu. Caminhando dentro deste círculo sem nunca o transpor, limitar-nos-emos às duas linhas paralelas e ao Livro da Lei Sagrada, e, enquanto assim procedermos, não poderemos errar”.

O conteúdo acima foi motivo de consulta perpetrada por um Respeitável Irmão da COMAB, no que assim se manifestava naquela oportunidade: “Este texto tem gerado inúmeras discussões em Loja sem jamais chegarmos a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico”.

2 – Comentários

2.1 – Vertente inglesa da Maçonaria

Embora o Círculo entre as Paralelas Tangenciais seja um conjunto simbólico eminentemente genérico na Maçonaria universal, a sua composição com o Altar, com a Escada de Jacó e com o Livro da Lei Sagrada, além da menção aos personagens bíblicos de Moisés e de Salomão, é um conjunto alegórico pertencente à Tábua de Delinear[1] inglesa do Primeiro Grau, portanto não são componentes do Painel do Grau de Aprendiz do Rito Escocês Antigo e Aceito, rito esse de vertente francesa, a despeito de que em se tratando do conteúdo simbólico de ambos (da Tábua e do Painel), aparecem significativas diferenças.

Devido à existência dessas distinções litúrgicas e ritualísticas entre os dois principais sistemas doutrinários maçônicos (embora o escopo seja único – o de reconstruir e aprimorar o Homem) – surgem então às anfibologias e as incompreensões sobre esse conteúdo, sobretudo quando pertinente às instruções e catecismos maçônicos se equivocadamente generalizados.

Na concepção inglesa (teísta), por exemplo, esse conjunto no momento em que é composto pelas paralelas tangenciais, pelo círculo e pelo ponto, dentre outros, representa também a Lei (do patriarca Moisés) e a Sabedoria (do rei Salomão).

À bem da verdade, esse conjunto simbólico é fruto haurido da Moderna Maçonaria e sacramentado através das Lições Prestonianas (William Preston[2]), além de outras interpretações relacionadas à mencionada alegoria, efetivamente a partir do primeiro quartel do Século XIX, inclusive quanto à alusão aos personagens bíblicos do Antigo Testamento, Moisés e Salomão, já que os nomes dessas personalidades se dariam em substituição aos tradicionais santos patronais João, o Batista e João, o Evangelista devido à decisão da Grande Loja em transformar a Maçonaria em uma instituição não sectária na Inglaterra, nesse particular sob o ponto de vista religioso[3].

Naquela oportunidade então é que seria recomendado, na medida do possível, que as novas Tábuas de Delinear não contivessem símbolos associados ao Cristianismo. Nesse sentido, por exemplo, é que o título Bíblia seria designado simplesmente como o “Volume das Sagradas Escrituras”. Essa aparente descristianização dos catecismos maçônicos seria um dos motivos principais que levaria às escaramuças entre os Antigos e os Modernos relativos às duas Grandes Lojas rivais à época na Inglaterra.

Obviamente que ao longo desses acontecimentos, longe da unanimidade, muitos símbolos cristãos ainda assim permaneceriam como integrantes desse corolário alegórico particular à Maçonaria Inglesa. É o caso da Cruz que identifica a Fé como virtude teologal, colocada no primeiro lance da Escada de Jacó em direção ao céu, sobejamente conhecida na composição do “Tracing Board” (Tábua de Delinear) do primeiro Grau do Craft inglês nos Trabalhos de Emulação (equivocadamente chamado no Brasil como Rito de York).

Nesse conjugado alegórico o Círculo entre as Paralelas Tangenciais é exposto na Tábua de Delinear aparecendo como uma espécie de base, alicerce ou arrimo que dá apoio ao Volume da Lei Sagrada que, por sua vez, é o sustentáculo da Escada de Jacó.

Dentre outras exegeses pertinentes para esse conjunto alegórico, a mais comum encontrada é a que se destaca a seguir:

O Círculo entre as paralelas expressa os limites impostos pela Sabedoria daquele que cumpre a Lei. Essa é a base (Altar) onde descansa o código de moral e ética (Volume das Sagradas Escrituras), cujo caminho avulta a ascensão do Obreiro ao aperfeiçoamento. É o que sugere a Escada em cujo topo aparece uma Estrela de Sete Pontas (sete – a Fé, Esperança e Caridade somadas à Justiça, Prudência, Temperança e Coragem). O interior do Círculo representa o espaço limitado pelos ditames da obediência à Lei exarada no Volume da Lei Sagrada. Em linhas gerais denota que aquele que segue os ditames da Lei, não pode errar.

Para ilustrar essa interpretação, também fica aqui transcrito um trecho do livro Master Key de autoria de John Browne datado de 1802 com perguntas e respostas pertencentes à Primeira Preleção com base Prestoniana que serve de apoio para justificar de onde fora retirado o conteúdo textual mencionado no ritual da COMAB citado na introdução desse arrazoado e que é o motivo principal desses apontamentos. Esse mesmo texto também pode ser encontrado no livro Simbolismo na Maçonaria, de Colin Dyer, publicado no Brasil pela Madras Editora, São Paulo, 2006.

Perg: Qual é o primeiro ponto da Maçonaria?

Resp: O joelho esquerdo despido e dobrado.

Perg: No que incide esse primeiro ponto?

Resp: Na posição ajoelhada me foi ensinado a amar o meu Criador. Sobre o meu joelho esquerdo nu e dobrado eu fui iniciado na Maçonaria.

Perg: Existe algum ponto principal?

Resp: Sim, o de podermos fazer um ao outro feliz e ainda transmitir aquela felicidade para outro.

Perg: Existe algum ponto central?

Resp: Sim, um ponto no interior do círculo, do qual o Mestre e os Irmãos não podem materialmente errar.

Eis aí então a origem dessas citações nas instruções maçônicas, lembrando sempre que elas realmente se adequam aos catecismos da vertente inglesa da Maçonaria.

Ilustrando ainda mais, segue a sequência do texto mencionado nesse catecismo conforme a mesma obra citada:

 – Explicai esse ponto no interior do Círculo.

R. Nas Lojas regulares de Francomaçons existe um ponto no interior de um círculo, ao redor do qual o Mestre e os Irmãos não podem materialmente errar. O círculo é limitado ao Norte e ao Sul por duas linhas perpendiculares paralelas: a no Norte representa São João Batista, e a do Sul simboliza São João Evangelista. Nos pontos de cima destas linhas e no perímetro do circulo, está colocada a Bíblia Sagrada, sobre a qual se apoia a Escada de Jacó, que alcança as nuvens do céu. Aí também estão contidos as Ordens e os Preceitos de um Ser que é Infalível, Onipotente e Onisciente, de tal forma que, enquanto estivermos no seu interior e obedientes a Ele, como foram João Batista e João Evangelista, seremos levados a Ele e não nos decepcionaremos nem O frustraremos. Portanto, ao nos mantermos assim circunscritos será impossível a que venhamos errar materialmente”.

Como se pode notar, o texto tem a intenção de explicar a instrução onde o termo “circunscrito” representa o limite imposto pelo Círculo, cujo “ponto central” é a origem donde o Maçom por primeiro dobrou o joelho esquerdo apoiando-o no chão e se sujeitando no ato à “obrigação” (também conhecida na vertente latina como juramento) de cumprir os deveres impostos e à promessa perpetrada – o Livro da Lei é o Código de Moral e Ética; o Círculo é o limite; o Ponto é a origem e a Escada o caminho para o aperfeiçoamento[4]. Assim, isso significa que se bem observada a Arte e ressalvados os limites da Lei, o Maçom não pode errar.

Ainda em relação ao texto acima mencionado, há que se notar também que à época ainda era citado na Inglaterra a Bíblia Sagrada, assim como os nomes dos santos patronais cristãos, muito embora já no primeiro quartel do Século XIX não tardariam esses títulos a serem substituídos – a Bíblia seria denominada como o Volume da Lei Sagrada, e cada santo padroeiro passariam a ser um dos personagens bíblicos do Antigo Testamento – Moisés e Salomão.

2.2 – REAA – Vertente francesa da Maçonaria

Dadas essas considerações, entra finalmente na questão o Rito Escocês Antigo e Aceito que, embora até possua em muitas das suas características influências históricas anglo-saxônicas (o título Antigo, por exemplo), sobretudo porque o seu simbolismo sofrera influência direta das Lojas Azuis norte-americanas que praticam o Craft oriundo da Grande Loja dos Antigos da Inglaterra, vale a pena lembrar que mesmo assim o Rito Escocês é historicamente originário da vertente francesa da Maçonaria.

Sob essa óptica, o arcabouço doutrinário francês de Maçonaria, principalmente aquele relativo ao simbolismo do Rito Escocês Antigo e Aceito, nele envolve o aperfeiçoamento humano que é simbolicamente representado pela alegoria da ressurreição e morte da Natureza, bem como a sua constante renovação (cultos solares da Antiguidade).

Assim, o simbolismo do Rito Escocês aborda e encena a evolução da Natureza. Nesse particular teatro iniciático aparecem representados na sua liturgia e ritualística os solstícios e os equinócios, os ciclos Naturais ou as estações do ano, as Colunas Zodiacais, as Colunas Solsticiais B e J (marcam a passagem dos trópicos de Câncer e Capricórnio), assim como as Colunas do Norte e do Sul que são separadas no Templo pelo eixo imaginário do Equador.

Nesse particular, o REAA por ser um Rito de origem francesa, não usa o título distintivo de Tábua de Delinear, entretanto faz uso no seu lugar do nome de Painel da Loja que fica situado e exposto originalmente em Loja aberta no centro do Ocidente. Entretanto, se faz mister observar que no conteúdo simbólico desse Painel da Loja do REAA não existe a figura da Escada de Jacó e nem aparece o Círculo com o Ponto ao centro entre as Paralelas Tangenciais, daí não combinar qualquer instrução que porventura possa fazer menção a esses símbolos relacionados ao franco maçônico básico do escocesismo – essa conduta doutrinária, se por acaso mencionada, além de equivocada não faria mesmo qualquer sentido.

Devido a não observação correta desses particulares – já que nem tudo o que reluz é ouro – é que, em busca do significado simbólico, ainda existem referimentos como:

“Este texto tem gerado inúmeras discussões em Lojas sem jamais chegarmos a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico.”

Desse modo, infelizmente, é verdadeiro comentar que alguns autores e ritualistas brasileiros, talvez por mera falta de atenção, ainda insistem inadvertidamente em misturar procedimentos de vertentes maçônicas distintas nas suas instruções.

Assim, se explica que a falta de sentido dessa inferência é que faz com que jamais se chegue a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico (é a queixa de muitos).

Essas ilações ainda são o sustentáculo para a propagação, através de certos autores imaginosos, de verdadeiras pérolas do faz-de-conta, geralmente suportadas por palavras bonitas que em superficial análise acabam por não fazer sentido algum – palavras mais palavras e palavras… vazias ao vento.

Não obstante a toda essa aleivosia histórica e ritualística, ainda existe outra classe – a daqueles que “acham bonito”, ou que simplesmente “copiam” rituais anacrônicos imaginando-os como fontes primárias e fidedignas. É o caso, por exemplo, do enxerto da Tábua de Delinear, que é da doutrina inglesa, no Rito Escocês que possui sabidamente preceito francês.

Daí, como se o Sol pudesse ser tapado com a peneira e na tentativa de se justificar toda essa aberração se utilizando a lei do menor esforço, identificou-se o intruso objeto como o tal do “Painel Alegórico”, o que só fez aumentar ainda mais a cinca, oferecendo absurdamente para o escocesismo simbólico a existência equivocada de “dois painéis” – um legítimo (o da Loja) e o outro como produto de enxerto oriundo de outra vertente maçônica (o tal justificado como Alegórico).

Ora, isso evidentemente não existe e é produto de mera enxertia imposto por “achistas”, já que o Rito Escocês genuinamente possui apenas o Painel da Loja no centro do Ocidente e não mais outro painel que, ainda por cima, seja denominado de “alegórico” (sic).

Para que não pairem dúvidas, evidentemente o estudante de Maçonaria deve conhecer o Painel da Loja (sistema Francês) e a Tábua de Delinear (sistema Inglês). Em linhas gerais, no grau de Aprendiz, o primeiro é aquele que, dentre outros símbolos, destaca-se por apresentar um pórtico ladeado pelas Colunas B e J (vide ritual do GOB, edição 2009, por exemplo). Enquanto que a segunda (a Tábua) é aquela que destaca dentre outros símbolos, três Colunas, tendo ao centro uma Escada em direção ao firmamento em cujo topo se apresenta uma Estrela Heptagonal (vide ritual de Emulação).

Nesse sentido, quando misturados os conteúdos simbólicos, a mixórdia acaba por trazer consigo instruções inglesas para dentro da doutrina francesa de Maçonaria. Aliás, esse é um fator deveras importante que todo o estudante da Ordem precisa saber distinguir: existem duas vertentes principais de Maçonaria – uma inglesa e outra francesa. Embora o objetivo da Sublime Instituição seja um só, os métodos doutrinários se diferem conforme a respectiva vertente – tanto pela visão social, quanto pela visão cultural.

Retomando essa questão, embora nos três Graus simbólicos do Rito Escocês cada respectivo Painel da Loja não apresente literalmente o símbolo do Círculo entre as Paralelas Tangenciais, a doutrina por si só ao mencionar a alegoria da evolução da Natureza, de modo abstrato acaba, sem mostrar os símbolos, por se referir ao Sol (Círculo) e aos trópicos de Câncer ao Norte e Capricórnio ao Sul (limites solsticiais).

Explica-se: como as datas solsticiais de 24 de junho e 27 de dezembro aludem respectivamente aos solstícios de inverno e de verão no hemisfério Norte (origem do Rito) ainda, por extensão, coincidem por influência da Igreja com as datas comemorativas a João, o Batista (verão no Norte) e com João, o Evangelista (inverno no Norte).

Assim, essa alegoria maçônica no Rito envolve toda a evolução da Natureza associando-a as etapas da vida humana – Primavera, Verão, Outono e Inverno, ou o nascimento, a infância, a juventude, e a maturidade, tudo distribuído de modo iniciático nos Graus de Aprendiz (puerícia), Companheiro (puberdade) e Mestre (maturação).

Por assim ser, mesmo de modo oculto, o Círculo entre as Paralelas Tangenciais pode representar também o Sol entre os Trópicos indicando que, conforme os solstícios, o Astro Rei, sob o ponto de vista da Terra, estando mais ao Norte ou mais ao Sul nunca ultrapassará na sua eclíptica anual o limite indicado pelos os trópicos.

Sob essa óptica, não significa de maneira alguma que esses símbolos careçam estar literalmente expostos no Painel relativo ao arcabouço doutrinário francês.

Simbolicamente, no Templo o Sol também é o centro (onde existe a circulação) que fica entre as Colunas do Norte e do Sul, cujo limite deste deslocamento, seja ele austral ou boreal, está representado pela marcação da passagem abstrata (sem base material) dos trópicos de Câncer e Capricórnio. Daí as Colunas B e J, também conhecidas como “solsticiais”, serem os marcos toponímicos que marcam a passagem dos aludidos Trópicos no Templo – sob o ponto de vista da porta de entrada para o Oriente, ao centro está a linha imaginária do Equador, à esquerda, marcada pela Coluna B, está a linha imaginária correspondente ao Trópico de Câncer e à direita, balizada pela Coluna J, a correspondente ao Trópico de Capricórnio.

O Sol, ao tangenciar o limite de Câncer (solstício de verão no Norte), corresponde à data comemorativa ao santo padroeiro João – o Batista, enquanto que ao tangenciar o limite de Capricórnio (solstício de Inverno no Norte), corresponde à data comemorativa ao Santo padroeiro João, o Evangelista.

Essa alegoria sugere no Rito em questão que a consciência do Homem, limitando-se tal qual às Leis da Natureza, é inviolável, já que ele, o Homem, é também parte integrante dessa Ordem Natural perpetrada pela Criação (um conceito deísta).

No escocesismo, a Loja simbolicamente representa um segmento do globo terrestre situado sobre o Equador, cuja largura vai do Norte ao Sul ou vice-versa e o seu comprimento de Leste para o Oeste ou vice-versa. A sua altura vai da Terra (Pavimento Mosaico) ao Céu (Abóbada).

É sobre esse espaço (Oficina) que a Terra simbolicamente fica viúva do Sol uma vez por ano (inverno). À bem da verdade, é o processo da evolução da Natureza a partir do seu renascimento na Primavera até a sua morte no Inverno para novamente renascer na Primavera (Lenda de Hiran). Assim, comparativamente e de modo iniciático, tal como a Natureza que morre para renascer como a fênix revivida, também o Homem profano fenece para renascer iniciado na Luz – da câmara de Reflexão à Exaltação do Mestre (a senda iniciática).

3 – Considerações finais

Em linhas gerais essas são as interpretações que envolvem a alegoria composta pelo Círculo entre as Paralelas Tangenciais nos dois sistemas de Maçonaria abordados. Todavia, somente ficam passíveis de uma explicação racional se devidamente separadas conforme as suas tradições, usos e costumes nos diversos rincões terrenos onde se apresenta a Sublime Instituição – cada coisa no seu devido lugar ou haverá o caos no Canteiro.

É oportuno aqui mencionar uma contradição que não raras vezes aparece no escocesismo quando muitos Irmãos, de modo anacrônico, ainda insistem em comparar a evolução dos Graus com os “degraus da Escada de Jacó” que, diga-se de passagem, nem mesmo aparece como elemento simbólico na doutrina do Rito Escocês.

Pior ainda é querer definir o número de degraus que formam essa Escada quando nem mesmo na Bíblia, essência da doutrina moral como Livro da Lei, essa quantidade é mencionada.

É o caso, por exemplo, quando alguém congratulação menciona o ultrapassado jargão: “parabéns por teres conseguido alcançar mais um degrau da Escada de Jacó”.

Ora, sem apelar para o preciosismo, não existe nada mais contraditório do que comparar a ascensão aos Graus com os degraus de uma escada que nem mesmo é parte integrante da doutrina simbólica do escocesismo.

Diferente do Círculo e das Paralelas que, mesmo de modo abstrato, chegam a fazer sentido no corolário doutrinário do Rito Escocês, a Escada, nem mesmo em caráter contemplativo, é mencionada na alegoria dos Painéis do verdadeiro escocesismo.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

Notas

[1] – O Painel na Inglaterra denomina-se Tabual de Delinear ou de Traçar (Tracing Board). Já na França é denominado como Painel do Grau. O conteúdo simbólico entre ambos aparecem sensíveis diferenças. Alguns autores acreditam que o nome “Tábua de Delinear” se derive como uma corruptela do antigo “cavalete” (tressel) ou Prancha de Traçar (Tracel ou Tracing Board) geralmente usada nas Lojas no final do século XVIII que objetivava apresentar os hieróglifos maçônicos, cuja Prancha ou Tábua muitas vezes nas Lojas ficava disposta sobre um cavalete no centro.

[2] – Willian Preston (1.742 – 1.818) – Nascido em Edimburgo na Escócia, foi iniciado em Londres no ano de 1.763. De carreira maçônica fecunda e brilhante assumiu o veneralato da Loja Antiquity nº 1 (atualmente nº 2) considerada à época como “Loja dos Tempos Imemoriais”. À Preston e dado o título simbólico de ter sido ele o primeiro professor de Maçonaria, permanecendo ainda ligado aos seus Ilustrations of Freemansonry (Esclarecimentos sobre a Franco-Maçonaria), cuja primeira edição data de 1.772. Essa importante obra teve dezessete edições, das quais doze durante a vida do autor. Falecido em 1.818 foi sepultado na Catedral de São Paulo em Londres. Os Ilustrations of Freemansonry se constituem de uma coletânea de conferências eruditas e de alto valor literário para uso das Lojas. É devida ainda a William Preston a autoria das famosas Prestonian Lectures (Lições Prestonianas) que permanecem atuais e são base para conferência de notáveis sobre assuntos instrutivos de interesse maçônico. A coletânea das Lições Prestonianas é publicada pela Quatuor Coronati Lodge, 2.076 de Londres. As dissertações sobre o conteúdo das Tábuas de Delinear inglesas se baseiam nas mensagens Prestonianas. O termo “Prestoniano” deriva-se em homenagem a Preston.

[3] – Além da disposição contrária ao sectarismo religioso, a Grande Loja se posicionava também contrária ao sectarismo político. Essa é a origem da proibição de discussões que envolvam política e a religião nos Templos e em nome da Maçonaria presente até os dias atuais na imensa maioria das Constituições das Obediências Maçônicas.

[4] – A ascensão ou subida dos degraus dá a ideia de evolução e aperfeiçoamento.

Referências

DYER, Colin – Simbolismo na Maçonaria, Editora Madras, São Paulo.

CARVALHO, Francisco de Assis – Símbolos Maçônicos e Suas Origens, Volumes I e II, Editora Maçônica A Trolha, Londrina – Pr.

LOMAS, Robert – O Poder Secreto dos Símbolos Maçônicos, Editora Madras, São Paulo.

MELLOR, Alec – Dicionário da Franco Maçonaria e dos Franco Maçons, Editora Marins Fontes, São Paulo.

JUK, Pedro – Exegese Simbólica para o Aprendiz Maçom – Tomo I, Editora Maçônica A Trolha, Londrina, Paraná.

JUK, Pedro – Topografia e Simbolismo do Templo REAA, Ensaios, Diário JB NEWS, Florianópolis, Santa Catarina.

JUK, Pedro – São João e os Solstícios na Maçonaria, Ensaios, Diário JB NEWS, Florianópolis, Santa Catarina.

Publicado em Simbolismo e Símbolos | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , | 2 Comentários

A quem serve o Graal?

File:Holygrail.jpgElaine the Grail Maiden by D.G.Rossetti

As questões levantadas pela lenda do Graal nos ajudam a entender a busca dos homens por novos caminhos que os conduzam à liberdade e à felicidade.

A lenda do Graal, enquanto realidade mítico-simbólica em processo de contínua atualização, traduz questões básicas como liberdade, busca de novos caminhos e retomada dos tempos da Idade de Ouro[1], reclamantes de solução. A quem ou a que serve o Graal, questão maior do mistério, quando encontrada, coagula a certeza de sermos redimidos.

O tema “liberdade” inclui a libertação de minorias, o resgate de memórias, o banimento do trabalho escravo e a exploração da criança; a cidadania preservada para todos, usufruto do tempo livre, opções de credo, sem distinção de raça ou cor de pele, acesso à cultura e informação. Liberdade é ter a saúde preservada, tornando-nos o que nascemos com potencial para ser; estudar e adquirir conhecimento desfrutando do intercâmbio universal, sem opressões literais ou simbólicas das ditaduras. A busca por novos caminhos emergirá de todas as áreas de pesquisa da Ciência, da Filosofia ou da Arte. Os cavaleiros da Távola Redonda buscaram o Graal como todos nós o buscamos pelo exercício das nossas atividades sociais, profissionais, religiosas, por caminhos individuais, preconizados ou não pelo coletivo. Sendo a busca individual, sua essência será traduzida pela condição de se encontrar uma razão pela qual o mundo se mantém unido em sua condição simbólica ou literal; confere, a quem a descobre, a consciência da própria imparidade.

A retomada do que foi chamado Idade de Ouro, citada nos mitos de criação, traduz um jeito próprio de ser, integrado à natureza, de tal forma que o momento vivido o seja como plenitude do bem-estar. Nesse tempo, a Deusa regia o Universo apresentando-se como fonte de aconchego, alimento, sabedoria, ao mesmo tempo em que apresentava um mundo confuso e assombrado, com tempestades e negritudes. Retomar esse tempo, por opção pessoal e aceitação da tarefa, incluirá o confronto com a Sombra, propiciando a elaboração de símbolos ainda não aceitáveis no campo da consciência solar e dela mantidos alijados por posturas defensivas da psique.

Confrontar a Sombra significará aceitar o desafio do mergulho, despertando para a consciência da concomitância de sentimentos e vivências antagônicas. Excelência e honorabilidade, qualidades divinas do herói, seguirão juntas de todos os “pecados capitais”, atributos da humanidade do herói. Confrontar a Sombra será tomar contato com a realidade de que junto do rosto da donzela convive a face horrenda da esfinge.

O Graal e suas questões

As questões propostas pela mítica do Graal, quando resolvidas, propiciarão a instauração da dinâmica do Coração, até agora não realizada como decorrência de um processo de dissociação. Quer nos parecer que os tempos de dissociação são mais antigos do que possamos imaginar e traduzem antes uma dissociação primordial entre feminino e masculino, já relatado no mito judaico-cristão da criação.

Pensar sobre a origem da consciência e respectiva estruturação egoica pode nos elucidar, em parte, sobre a emergência desse fenômeno. Jaynes (1990) propõe a explicação de que o cérebro direito separou-se do esquerdo por volta do século 16 a.C., e cada hemisfério adquiriu autonomia, atuando aparentemente em franca oposição: o divino, o feminino e o inconsciente ficaram identificados com o cérebro direito, enquanto que o humano, a consciência e o masculino ficaram identificados com o cérebro esquerdo. Nesse tempo, em termos de psicologia analítica, teria ocorrido a instauração da chamada consciência patriarcal.

Neumann (1996) descreve a emergência egoica correlacionando o fenômeno com o processo coletivo desenvolvido pela humanidade, ao longo dos milênios: nos primórdios “uma semente embrionária e ainda não desenvolvida da consciência do ego dorme no redondo perfeito e nele desperta”(p.34). O redondo perfeito é o dragão primal que morde a própria cauda, traduzido pela imagem da Serpente Celestial ou da Uroboros.

Na mítica egípcia, relatada por Neumann (1996), a humanidade lutou para encontrar palavras que exprimissem com fidelidade o fenômeno emergente; a imagem do deus criador primordial ganhou expressão no seguinte relato: “O coração faz surgir tudo que resulta, e a língua repete (exprime) o pensamento do coração. (…) Eis o que causa o nascimento de todos os deuses, e toda a asserção divina se manifesta no pensamento do coração e na fala da língua.” “(…) A transição das imagens para o conceito se torna, nessa formulação do princípio criador, duplamente clara, quando se sabe que, nos hieróglifos, pensamento é escrito com a imagem de coração, e verbo com a de língua” ( p.34).

Mircea Eliade[2] (1975) conta sobre um mito sumeriano no qual o homem foi criado pelo desejo da deusa Namu. Seus auxiliares recolheram terra dos quatro cantos do mundo, juntaram água dos rios, sal e forjaram um boneco. A deusa olhou para a criatura e deu-lhe o Coração, fonte de ideias e conhecimento. En-lil, seu filho, deu Vida à criatura, ou seja, competência para agir e ter movimento. Enquanto a Deusa Mãe dava ao homem reflexão e pensamentos, o Deus Filho dava fala, expressão, verbo, ação.

No mito judaico, o homem foi criado como um boneco feito do barro dos quatro cantos da terra misturado com água doce e salgada; o Senhor soprou “pneuma” em sua boca, tornando-o criatura “viva”. O gosto sentido quando levamos objetos à boca nos faz conhecer; será que o Senhor ao soprar o pneumaespírito na boca do homem fez com que ele provasse do gosto do sabor-conhecimento?

A seguir, da “costela” do homem criou a mulher e ambos foram colocados no Éden, onde podiam usufruir de todas as regalias. Das duas árvores primordiais, vida e conhecimento, proibiu-os de provar da segunda. A criatura foi concebida com pneuma e vida, coração e movimento, competência para ser e fazer. O Anthropos primordial andrógino foi cindido, e a existência do homem e da mulher se estabeleceu a partir da separação de dois princípios.

Deveríamos entender que a separação, fenomênica necessária para a discriminação de polaridades, tenha dado como consequência a dissociação? Se assim foi, haveremos de pensar um Criador forjando seu Anthropos com Coração e Vida para, a seguir, separá-lo em duas partes, submetendo uma a outra, e retirando das criaturas a possibilidade da conjunção criadora. Ao criar a mulher submetida ao homem e colocá-los no paraíso, como princípios complementares, separados, impedidos de entrar em contato, teria o Criador prefigurado a cisão da dinâmica patriarcal?

A proibição de que as instâncias complementares se conjugassem de forma consciente concorreu, talvez, para a emergência de polaridades acrescidas de valores onde uma é melhor que a outra. Eva, princípio feminino, inerência do conhecimento, deu-se para ser “conhecida” por Adão, princípio masculino, para que ambos pudessem procriar. Ao se juntarem, recompuseram a totalidade, tornando-se deuses criadores, e o Ego nasceu como filho do tempo novo. Juntos, masculino e feminino criam; juntos são o deus e a deusa, a vida e o coração, o fazer e o ser.

Na mítica judaica, comer a maçã tornou-se motivo bíblico da expulsão do paraíso. Entre os celtas, a maçã é o meio pelo qual se aprimora o espírito e se faz contato com o outro mundo. “A maçã apazígua a fome e a sede, e faz parte de sua natureza ser um fruto dispensador da vida e da ciência” (BARROS, 1994, p.131).

O homem-ego-consciência, filho da totalidade, nasce do Deus-Deusa primordial. Na mítica judaica, o nascimento para a luminosidade é retratado como desobediência, e o sentimento experimentado, por tal ousadia, é descrito como vergonha.

Resultado de imagem para “O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso”, Michelangelo 1512“O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso”, Michelangelo 1512

Calasso (1991, p.13) descreve o mistério como sendo aquilo do que se tem vergonha. Para o humano se relacionar com o divino precisa estar protegido pelos véus da hierofania, de tal forma que os segredos, ou os conhecimentos de uma instância para a outra, não sejam revelados para a consciência, mantendo o mistério protegido. Dessa forma, o que era domínio do divino não seria acessado para a consciência. Quando o homem-ego-consciência nasceu, comendo da árvore do conhecimento, descerraram-se os véus da inconsciência e não houve mais como ocultar de si o desejo de unir-se com a outra metade.

Após adquirir consciência, a conjunção para se consumar passou a acontecer no recôndito da alcova, como coisa vergonhosa ou proibida. Ao comer da árvore do conhecimento, juntou feminino e masculino, o ser com o fazer, tornando-se como Deus, passando a conhecer o bem e o mal. Ao acordar para o tempo da consciência, o humano passou a perceber em sua face e na do outro todas as expressões das realidades subjetivas: assoberbado por elas, cobriu-se com as personas protetoras, compondo a Sombra.

Ter consciência passou a ser realidade impeditiva para confrontar a face de Deus; ela é causticante, denuncia a hybris e causa vergonha. A revelação de si para si mesmo causa impacto que a descoberta do mistério traz. Cada vez que a consciência se integra de símbolos que referendam a finitude da própria consciência, fica-se sob impacto. Êxtase e loucura são vivências muito próximas; loucura é como viver a eternidade do inconsciente enquanto que o êxtase é viver a eternidade do momento, na transcendência das polaridades.

O sabor sentido ao se provar da árvore do conhecimento foi amargo: essa atitude colocou o homem na condição de eterno exilado. A junção do conhecer com o fazer foi adquirida às custas de maldição: produzirás o pão com o suor do teu rosto, a mulher parirá o filho do tempo novo com sofrimento e ambos experimentarão a dor da finitude.

Domínio da Consciência

O domínio da consciência, que humaniza, inclui a morte como realidade sistêmica: o preço pago para transpor a instância do ver e fazer para a instância do conhecer e saber-se fazendo foi traduzido como movimento heroico. Para criar Ego, o Herói se faz necessário.

Segundo Mathews (1989), nas versões não canônicas do mito judaico da criação o Deus Criador existia desde todo sempre com sua consorte Shekinah. A partir do momento em que o Criador separou vida de conhecimento e expulsou do Paraíso o homem e a mulher por suas desobediências, Shekinah recusou-se a viver em sua companhia e veio para a Terra fazer companhia aos seus filhos (p.137 e segs.).

O mito canônico coloca o homem como pecador, com a mácula da maldição, porque desejou o que é de sua própria natureza. A cisão, feita pelo divino, entre Vida e Conhecimento, criou um ser em desequilíbrio, condição não aceita pela Deusa.

Ter Ego é apartar-se do centro e compensatoriamente o sistema psíquico gera a Sombra, expressando-se como polaridade, fenômeno esse próprio da natureza da instauração da consciência.

Em outra versão apócrifa (Mathews, 1989), o mito judaico relata que a primeira mulher criada foi Lilith, que não aceitou submeter-se ao jugo do criador, sendo expulsa como maldita. Jeovah forjou uma segunda mulher, Eva, feita “da costela” de Adão, ou seja, com o princípio feminino subjugado ao masculino. Nesses tempos primordiais, havia no paraíso a árvore da vida e do conhecimento como centro do mundo: esse axis mundis era guardado por uma serpente que trazia em sua mão um cálice, oferecido a tantos quantos o buscassem. A fonte da vida e do conhecimento era uma só, sem separações (p.137 e segs.).

O mito cristão apresenta o Cristo como cordeiro imolado que lava os pecados do mundo, bode expiatório sacrificial que redime as máculas do pecado original

Contam também as lendas celtas que as deusas habitavam os mananciais de águas límpidas, regendo as fontes, e quando os peregrinos buscavam esses locais sagrados, as divindades femininas ofereciam, em cálices, a água do reconforto e descanso. Um dia, um indivíduo violentou a Deusa e roubou-lhe a taça: desde então, a fonte secou e as deusas se recolheram para recantos profundos, escondidas dos olhares humanos. A serpente foi morta, sua cabeça cortada e enterrada, e o cálice, perdido. Da cabeça enterrada nasceram os tubérculos que serviam de alimento aos homens. O centro do mundo, velado pela serpente, congrega vida e conhecimento, permanecendo presente em todos nós. Entretanto, enquanto Ego, estamos dele apartados uma vez que somos uma consciência carregada de maldição.

A cisão existente no mito judaico da criação fez do homem criatura perversa que come o fruto da árvore proibida. Pela desobediência se fez maldito, necessitado de redenção que o religaria ao centro, viável tão somente pelo coniunctio do conhecer com o fazer, do coração com a vida. A leitura simbólica do mito judaico revela um homem-ego-consciência como bode expiatório, expressão da dualidade inconsciente-consciência, feminino-masculino, coração-vida, ser-fazer, conhecimento-trabalho.

O mito cristão apresenta o Cristo como cordeiro imolado que lava os pecados do mundo, bode expiatório sacrificial que redime as máculas do pecado original. O crime do homem, visto pela leitura simbólica, é um paradoxo, uma vez que o revela como se apropriando do que já era condição imanente de si mesmo. O conhecimento, roubado e carregado como maldição, gerou monstruosidades, reafirmando a dissociação. O Cristo, a redenção da unidade divina em cada um, passa a ser o consentimento para que o homem assuma o conhecer, vindo do coração. A cisão, dissociação entre o coração e o verbo, confirma o Cristo como o símbolo da conjunção, consentimento para tornar coração-verbo, conhecimento-ação, uma só unidade.

A perda da Idade de Ouro seja talvez decorrência da condição humana de usar o conhecimento como fonte do poder, dissociado do coração-misericórdia da deusa. O Graal é o feminino continente do sangue e suor do filho amado: buscá-lo será conjugar Deus e sua Consorte, conhecimento e verbo. Dessa forma, o conhecimento terá precedência sobre o verbo, e o coração sobre a ação.

Cristo afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade, a vida!” Buscar o Graal é buscar a verdade, conhecimento, totalidade, cumprindo a tarefa-missão de despedida da missa: ite missa est. Não aceitar o Cristo é manter o Cálice vazio de alimento, a Terra sem o germe; enquanto esse repúdio se mantiver, permanece a dissociação sombria.

Quando Parsifal encontrou pela primeira vez o Castelo do Graal, viu-se diante do Rei Mutilado, assistiu à procissão das sacerdotisas levando o Cálice Sagrado, mas não se fez as perguntas: quem sou eu, que estou fazendo aqui, que tudo isso tem a ver comigo e qual é minha responsabilidade? A resposta, se encontrada, devolverá ao humano a inteireza de ser.

Merlin, o representante simbólico arquetípico do “eu superior” ou do próprio Self, criatura transcendente do reino do inconsciente, é a possibilidade da inteireza de ser. Para encontrá-lo, necessário se faz que o confronto com a Sombra demoníaca aconteça. No reino do inconsciente estão nossas grandes preciosidades. Merlin é o desejo de ser e o ser atualizado, o conteúdo e o próprio Cálice; a busca e o objeto procurado. Não adianta, entretanto, que um só consiga; antes, é necessário que o coletivo se humanize, individuando-se. Todos que fazem o mergulho em busca do confronto correm o risco de enlouquecer ou retomar a consciência fazendo mau uso das descobertas encontradas.

O reino do inconsciente exige do explorador ética acima de tudo: esse é o problema de todo analista. Não é só o mergulho e o trabalho com o inconsciente, mas o que fazer com o conhecimento integrado e o proveito que se tira dele. Merlin dizia que não bastava o confronto com a Sombra ou o mergulho no inconsciente, mas era necessário um retorno criativo. Quando se faz o confronto com o inconsciente, não há como retornar sem as transformações e a modificação ocorrida só poderá ser comunicada a outros iniciados. O uso que se pode fazer das descobertas é perigoso e cruel: atuar a dinâmica do coração é como usar energia atômica como bomba.

A psicopatologia será sempre a hipertrofia da cisão entre cérebro direito, da arte, criação, fantasia, do coração, e o esquerdo, expressão da tecnologia, horário, do tempo linear, da realidade sequencial, da execução da tarefa e do cumprimento do dever.

Cristo, configuração do tempo da dinâmica do coração, confirma a redenção do feminino, prega a liberdade de ser, propõe um novo tempo da Idade de Ouro que só poderá ser vivido na plenitude da interação eu-outro. Ao declarar: “não vim para desfazer a lei do pai, mas ampliá-la” – confirma que além de prover e manter a vida, cada um deverá amar ao seu próximo como a si mesmo, ou seja, deverá ter misericórdia.

Quanto à questão: “a que serve o Graal e/ ou quem serve ao Graal?”, a resposta que trago como proposta de fechamento do tema: cada um de nós serve ao Graal, porque estamos aqui, o que dá sentido a nossa vida fazendo-nos condutores de nossa própria individuação e sincronicamente responsáveis diante do Todo. Todos servem a todos, cumprindo o mandamento maior: “ama ao teu próximo como a ti mesmo”.

Autora: Maria Zélia de Alvarenga

Maria Zélia de Alvarenga é médica psiquiatra formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), analista junguiana pela Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA) e International Association for Analytical Psychology (IAAP). É editora da revista Junguiana, autora de O Graal, Arthur e seus cavaleiros (2008) e organizadora do livro Mitologia Simbólica: estrutura da Psique e Regências Míticas (2 ed., 2010), ambos publicados pela Casa do Psicólogo.

Notas

[1] – De acordo com a mitologia grega, a Idade ou Era de Ouro foi uma época de esplendor da humanidade. Em certo sentido, todas as sociedades procuram remeter-se a um período de glórias passadas para dar conta das mais diferentes justificativas. É comum ouvirmos termos como “anos dourados” ou “era de ouro” para referir-se a tempos de vitórias e bonança de países, movimentos artísticos e até mesmo no esporte.

[2] – Historiador, escritor e filósofo de origem romena, Mircea Eliade (1907-1986) foi um grande estudioso das crenças religiosas e da simbologia dos mitos. Entre livros de ficção, ensaios filosóficos e pesquisa histórica, escreveu a trilogia A história das crenças e das ideias religiosas.

Publicado em Filosofia | Marcado com , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário