Sobre Telhas e Goteiras

De acordo com o Oxford English Dictionarycowan é “alguém que constrói muro de pedras; construtor de barreira de pedras; referência aplicada com desprezo a alguém que, apesar de exercer trabalho de um maçom[1], não passou regularmente pelo aprendizado ou não foi educado para o comércio.”

Cowan, essencialmente, é um termo escocês empregado em negócios da época quando as Lojas, como corpos de controle de comércio, colocavam restrições ao emprego de cowans, no intuito de proteger os homens treinados para o Ofício de competirem contra mão-de-obra não especializada. A mais antiga proscrição oficial contra os cowans está presente nos Estatutos de Shaw, de 1598:

“…que nenhum mestre ou companheiro de ofício receba qualquer cowan pra trabalhar em sua sociedade ou companhia e nem enviem seus servos para trabalhar com cowans, sob penalidade de vinte pounds, aplicada a qualquer pessoa que ofenda o que aqui está escrito.”

Um cowan, na época operativa, certamente era um intruso – do ponto de vista dos negócios ele não poderia ter aprendido muito sobre o comércio se meramente o conheceu escutando por debaixo das telhas.

Essa é a provável origem da expressão goteira. Costumava-se dizer, no período operativo, que intrusos aprendiam segredos maçônicos ao bisbilhotar, espreitando por entre telhas e calhas, as reuniões dos maçons. Durante os encontros, quando os maçons percebiam que estavam sendo observados, eram alertados por um dos Irmãos por meio da expressão cifrada “há goteira entre nós”, clara referência ao que ocorre quando do mau posicionamento das telhas que cobriam o recinto.

Já o uso da palavra bisbilhoteiro, do original em inglês eavesdropper, que literalmente significa “que pinga do telhado”, identifica “aquele que escuta secretamente uma conversa”.

Na Maçonaria Especulativa é provável que o bisbilhoteiro, aquele que secretamente escuta, seja grande fonte de perigo. Então, talvez não seja surpreendente constatar que, quando as palavras começaram a aparecerem nossos rituais entre 1710 e 1730, elas tenham sido antecipadas pelas formas oriundas dos bisbilhoteiros.

A primeira pista das palavras do ritual está no Manuscrito Dumfries Nº4, de 1710, onde existe a seguinte questão:

…está limpa a casa?, e se a resposta for “ela está gotejada ou destelhada”…você permanecerá em silêncio.

Em  A Mason’s Confession, de 1727, existe uma nota relacionada a uma das questões:

…os segredos da Loja estão ocultos à goteira, ou seja, do aprendiz não admitido, e de qualquer outros de fora de sua sociedade, os quais são chamados de goteiras.

A mais antiga menção de nossos “cowans ou bisbilhoteiros” está em Massonary Dissected, de Prichard, publicado em 1730.

  1. Onde se posiciona o novo Aprendiz Admitido?
  2. No norte.
  3. Qual é a tarefa dele?
  4. Manter longe todos os cowans e bisbilhoteiros.

Nas reuniões da Maçonaria, o responsável por proteger o templo de bisbilhoteiros ou goteiras entre os irmãos é o Cobridor, em inglês tyler (telheiro).

A arte do telheiro derivou seu nome do Ofício real de fabricar telhas ou coberturas de edifícios com telhas. A grafia “Cobridor” parece ser de uso puramente maçônico, e o Oxford English Dictionary cita do Every-Day Book (1827) de Hone: “Dois Telheiros ou Guardas…devem proteger a Loja, com uma espada desembainhada, de todos os curiosos” [texto de 1742]

Um Cobridor (Tyler), em seu ofício, trabalha com telhas. Ele constrói o telhamento para proteger o recinto das intempéries. Ainda não se tem notícia da construção de uma cobertura formada por trolhas (espécie de colher de que se serve o pedreiro para distribuir o reboco na parede que vai ser revestida e aplainada).

Sendo assim, o exame do maçom, feito na Maçonaria Especulativa, é o telhamento, realizado pelo Cobridor na Sala dos P.’. P.’., e no caso dos retardatários pelo V.M. após a entrada ritualística (obrigatória), e não trolhamento como, erroneamente, ouvimos algumas vezes.

Autor: Luiz Marcelo Viegas, M.M.
ARLS Pioneiros de Ibirité, 273 – GLMMG

Nota

[1] – O termo “maçom” aqui é utilizado como referência profissional da Idade Média.

Referência Bibliográfica

CARR, Harry, O Ofício do Maçom, Madras Editora, 2007

*Harry Carr foi Secretário e Editor, entre 1961 e 1973, da Quatuor Coronati Lodge, Nº 2076, Londres

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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3 respostas para Sobre Telhas e Goteiras

  1. Pingback: Os Primeiros Mestres Maçons | O Ponto Dentro do Círculo

  2. José Maurício Guimarães disse:

    Ótimo texto, Irmão Luiz Marcelo Viegas! Se por um lado essas goteiras dão um trabalho terrível ao tyler, temos que reconhecer que muitos deles sabem mais maçonaria do que a média dos maçons.
    Quanto ao “telhamento” ao invés de “trolhamento”, lembro-me de uns 10 anos passados quando fomos execrados por tentar apontar o engano em rituais e na prática. Optou-se, a princípio, em anotar – um inexplicável caminho-do-meio. Hoje parece que as águas ficaram menos turvas.

    Curtido por 1 pessoa

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