A Maçonaria e os Mestres Comacinos

No capítulo sobre os Collegia Romanos, referi-me brevemente às guildas de construtores Comacine como sendo uma ponte entre a cultura clássica antiga de Roma e a da civilização medieval, que cresceu após as invasões dos bárbaros ter cessado, deixando a Europa em um estado mais ou menos tranquilo. Agora, para continuar adiante nesse assunto, pois ele é algo que exige exame cuidadoso, sobretudo porque muito está sendo escrito sobre ele nesses dias, a favor e contra. Um amigo e irmão, que tem um nome entre os estudiosos maçons, exclamou em uma recente carta, “Estou cansado de ouvir sobre estes benditos Comacines, e como a Maçonaria surgiu deles, e como eles mantiveram acesa a luz na Idade Média. A verdade é que nada sabemos sobre eles. “Eu não pude concordar com este colega porque ele está, sem dúvida, errado ao dizer que nada sabemos sobre os mestres Comacine – sabemos muito – mas eu posso entender por que ele deveria estar tão impaciente com aqueles entusiastas que reivindicam muito mais para o Comacines que os fatos podem corroborar. Não será nosso propósito aqui tentar resolver o problema de uma forma ou de outra; estabelecer tais fatos como eles são conhecidos, com um breve esboço da teoria relacionada com a sua influência sobre a história da Maçonaria, satisfará nossas necessidades atuais.

A teoria Comacine foi trazida à atenção do mundo maçônico de língua inglesa pela primeira vez por uma mulher, a Sra. Lucy Baxter, que, escrevendo sobre o pseudônimo de Leader Scott, publicou em 1899 um volume notável intitulado Os Construtores de Catedrais; A História de uma Grande Corporação Maçônica, com oitenta e três ilustrações, publicado por Simpson Low, Marston and Company, Londres. O livro está agora, infelizmente, esgotado, e cada vez mais escasso, com o preço aumentando rapidamente. Esta obra de 435 páginas foi seguida em 1910 por uma espécie de aditamento, na forma de um pequeno volume de oitenta páginas, pelo nosso fiel e querido amigo, o irmão W. Ravenscroft, chamado Os Comacines, Seus Antecessores e Seus Sucessores, posteriormente publicado como uma série no THE BUILDER, juntamente com muitas ilustrações, e depois reeditado em formato de livro. Com exceção de referências dispersas em histórias e enciclopédias, esses dois livros constituem a única fonte literária para os maçons de língua inglesa, mas existe uma literatura abundante sobre o assunto em italiano, algumas das quais deveriam ser traduzidas e publicadas nos Estados Unidos.

I. HISTÓRIA DOS COMACINES

Conforme já vimos, as artes e ofícios do Império Romano eram rigidamente organizadas em guildas, ou collegia, cada uma das quais tinha controle monopólico de algum negócio, profissão ou atividade. Estas foram destruídas pelos bárbaros, juntamente com as cidades e as comunidades em que estavam localizadas, mas algumas delas, particularmente em Constantinopla e em Roma sobreviveram ao holocausto. Acredita-se que um collegium, ou alguns collegia de arquitetos e seus operários continuaram na diocese de Como, situada no reino lombardo da Itália do Norte, na e sobre o belo Lago de Como, que incluía os bairros de Mendrisio, Lugano, Bellinzona e Magadino. Por que eles permaneceram ali é um mistério, mas acredita-se que a presença de grandes pedreiras na região foi uma das razões, e que a força e o relativamente elevado desenvolvimento do estado Lombardo era outro. Esta região, muitos supõem, manteve-se como sua sede e centro de séculos, daí seu nome “Comacini”.

A expressão ‘Magistri Comacine’, escreve Rivoira em seu magnífico Lombardic Architecture (Vol. 1, p. 108), “aparece pela primeira vez no código do rei lombardo, Rotharis (636-652), onde, nas leis de número CXLIII e CXLV, eles aparecem como Mestres Pedreiros com amplos e ilimitados poderes para celebrar contratos e subcontratos para obras de construção; ter seus parceiros colegiados ou ‘colegas’, membros da guilda ou fraternidade; chamá-los como quiserem – e, finalmente, seus servos (servi) ou operários e trabalhadores.” Rivoira diz que na região de Como as guildas ou collegia nunca tinha chegado ao fim, e que muitas pedras, mármores e depósitos de madeira ali existiam para atrair estes trabalhadores.

Na sua História da Arquitetura Italiana, Ricci afirma que as guildas Comacine foram tornadas livres e independentes das restrições medievais, e receberam liberdade para viajar à vontade, mas esta afirmação não recebeu confirmação em Bulas Papais, Atos dos Reis Carolíngios, ou em qualquer dos analistas autênticos, embora pesquisa tenha sido conduzida em Roma muito antes de existir qualquer preconceito contra a Maçonaria naquele lugar. Os Comacines estenderam sua influência e atividades da mesma forma que outras guildas, por convite e contrato, e por organização de lojas em novas cidades.

Quando São Bonifácio foi para à Alemanha como missionário, o Papa Gregório II deu-lhe “credenciais, instruções, etc., e enviou com ele uma grande comitiva de monges, versados na arte da construção e irmãos leigos que também eram arquitetos, para ajudá-los”. Os cronistas italianos dizem que, quando o monge agostiniano foi enviado em 598 d.C. como missionário para converter os britânicos, o Papa Gregório enviou vários maçons com ele, e que Agostinho, mais tarde, pediu mais homens capazes de construir igrejas, capelas e mosteiros. Leader Scott acredita que em ambos os casos os trabalhadores enviados eram mestres Comacine, e baseia sua tese em provas de métodos de construção e estilos empregados. Da mesma forma, ela rastreia os Comacines até a Sicília, a Normandia, e todos os grandes centros do Sul da Itália, explicando que dessa forma, através de um círculo expandindo-se gradualmente, a fraternidade Comacine de construtores chegou finalmente a trabalhar em quase todas as partes da Europa e Grã-Bretanha.

Na página 159 de seu livro, Leader Scott apresenta um resumo valioso da história dos Comacines, baseando-se em grande parte em I Maestri Comacini, Vol. I, de Merzario, um tratado que deveria por todos os meios ser traduzido e publicado no país. Vamos reafirmar o argumento brevemente:

  • Quando a Itália foi invadida pelos bárbaros, os Collegia Romana foram suprimidos por toda parte;
  • Diz-se que o colégio de Arquitetura de Roma retirou-se daquela cidade e foi para a República de Como;
  • No início dos tempos medievais, uma das mais importantes corporações maçônicas na Europa era a Sociedade de Mestres Comacine, que na sua constituição, métodos e trabalho era essencialmente romana, e parece ter sido a sobrevivência deste Collegium Romano;
  • Cronistas italianos afirmam que os arquitetos e pedreiros acompanhando Agostinho à terra, e, posteriormente, escritores italianos continentais de renome adotaram essa opinião;
  • Se isso é provado ou não, era habitual para os missionários tomar em sua companhia pessoas com experiência em construção e, se Agostinho fez isso ou não, sua prática era uma exceção ao que parece ter sido uma regra geral. Além disso, um grupo de quarenta monges teria sido inútil para ele, a menos que algum deles pudesse seguir uma vocação secular útil para a missão, pois eles não estavam familiarizados com o idioma inglês e não poderiam agir de forma independente;
  • Os monges maçônicos não eram raros, e havia tais monges associados ao corpo Comacine; de modo que arquitetos qualificados eram facilmente encontrados nas fileiras das ordens religiosas;
  • A partir da narrativa de Beda da missão de Agostinho na Grã-Bretanha, parece claro que ele deve ter trazido com ele arquitetos maçons;
  • Provavelmente, Gregório escolheria arquitetos para a missão que pertencessem à Ordem Comacine, que conservava as antigas tradições romanas de construção, ao invés daqueles de uma guilda Bizantina, e o registro de seu trabalho na Grã-Bretanha prova que ele fez isso;
  • Em saxão, assim como nas primeiras esculturas Comacine, existem representações frequentes de monstros fabulosos, aves e animais simbólicos; os assuntos de algumas destas esculturas sugerem alguns Fisiologistas, tinham origem latina;
  • Nos escritos do Venerável Beda e de Richard, Prior de Hagustald, nos deparamos com frases e palavras que estão no édito do Rei Rotharis de 643, e no Memoratorio de 713 do rei Luitprand, que mostram que esses escritores estavam familiarizados com certos termos da arte utilizados pelos mestres Comacine”.

Se essa narrativa é verdadeira, ela é de importância inestimável para nós, dando uma explicação de como as artes da civilização, que se supunha ter-se tornado extintas durante a Idade das Trevas, nunca foram realmente extintas, mas continuaram a ser preservadas pelos operários e artistas nas corporações Comacine. Aqueles homens eram mais que construtores,pois eram qualificados em muitos outros ofícios, e compreendiam a escultura, pintura,trabalhos ou mosaicos Cosmati, trabalho em madeira e escultura, e também, pode muito bem ser, literatura e música, juntamente com muitas outras realizações pertencentes às artes civis.Como um navio cruzando um mar revolto em que todos os navios irmãos tinham afundado, a organização dos mestres Comacine preservou a arca da civilização até que o furacão amainasse na Europa e as fervilhantes tribos bárbaras se tornassem prontas para a paz e a vida comunitária. Se existe alguma continuidade ininterrupta na história da arquitetura; se as corporações de construtores de um período mais moderno podem ser mapeadas até qualquer uma de suas artes, tradições e costumes das épocas antigas, é através dos Comacines que a cadeia foi mantida intacta durante a Idade das Trevas.

Não se deve supor que tudo isso já tenha sido solidamente estabelecido; a Teoria Comacine continua a ser uma teoria. Rivoira, que é sempre tão cuidadoso, é cauteloso ao aceitar demais. Ele diz que pouco sabemos sobre seu modo de organização, ou sobre os termos ligados a eles, Schola, loggia, etc. Mas, mesmo assim, ele lhes atribui grande importância histórica, não apenas servindo de ligação com os antigos collegia, mas também abrindo caminho para o magnífico renascimento da arte e da civilização que, como vimos em nosso primeiro capítulo desta série, floresceu como arquitetura gótica. Suas seguintes palavras testemunham isso:

“Qualquer que tenha sido a organização das guildas Comacine ou Lombardas, e embora elas possam ter sido afetadas por eventos externos, elas não deixam de existir em consequência da queda do reino lombardo. Com o primeiro sopro de liberdade municipal, e com o surgimento de novas confrarias de artesãos, elas também, talvez, pode ter-se reformado como as últimas que nada mais eram que a continuação do “collegium” da época romana, preservando sua existência através das idades bárbaras, e transformadas, pouco a pouco, na corporação medieval. Os membros podem ter-se visto obrigados a entrar em uma unidade mais perfeita de pensamento e sentimento; vincular-se em um corpo mais compacto e, assim, colocar-se em condições de manter sua supremacia antiga na realização das obras de construção mais importantes na Itália. Mas, nada mais podemos dizer. E mesmo deixando de lado toda a tradição, os próprios monumentos estão lá para confirmar o que dissemos.”

Merzario, não tão cauteloso quanto Rivoira, testemunha da mesma maneira:

“Na escuridão que se estendia por toda a Itália, apenas uma pequena lâmpada permanecia acesa, lançando uma faísca brilhante na vasta necrópole italiana. Ela vinha dos Magistri Comacini. Seus respectivos nomes são desconhecidos; suas obras individuais não são especificadas, mas o sopro de seu espírito pode ser sentido durante todos aqueles séculos, e seu nome coletivamente é legião. Podemos afirmar com segurança que de todas as obras de arte entre 800 e 1000 d.C., a maior e melhor parte se devem àquela irmandade – sempre fiel e, muitas vezes secreta – dos Magistri Comacini. A autoridade e julgamento de homens eruditos justifica a afirmação.”

O Signor Agostino Segredio está igualmente convencido, e assim se expressa em um trecho citado na página 56 de The Comacines de Ravenscroft:

“Assim, embora não haja prova certa de que o Comacines foram a verdadeira matéria de que surgiu pseudo maçonaria de hoje, podemos pelo menos admitir que eles eram uma ligação entre os Collegia clássicos e todas as outras guildas de arte e comércio da Idade Média.”

O Irmão Joseph Fort Newton aceita esta interpretação no The Builder, onde, na página 86, ele escreve:

Com a dissolução do Collegium de Arquitetos e sua expulsão de Roma, deparamo-nos com um período em que é difícil seguir seus caminhos. Felizmente, a tarefa se tornou menos confusa por pesquisas recentes, e se não somos capazes de mapeá-los todo o caminho, muita luz foi lançada na escuridão. Até agora tem havido um hiato também na história da arquitetura entre a arte clássica de Roma, que se diz ter morrido quando o império desmoronou e a ascensão da arte gótica. Dessa forma, na história dos construtores encontra-se uma lacuna de igual dimensão entre os Collegia de Roma e os artistas da catedral. Embora a lacuna não possa ser perfeitamente preenchida, muito tem sido feito nesse sentido por Leader Scott em Os Construtores de Catedrais; A História de um Grande Guilda Maçônica – um livro em si uma obra de arte, bem como de fina erudição. Sua tese é que o elo perdido deve ser encontrado nos Magistri Comacini, uma guilda de arquitetos que, com o desmembramento do Império Romano fugiu para Comacina, uma ilha fortificada no lago de Como, e lá manteve vivas as tradições da arte clássica durante a Idade das Trevas; a partir deles foram desenvolvidos em descendência direta os diversos estilos da arquitetura italiana e que, finalmente, eles levaram o conhecimento e a prática da arquitetura e escultura para a França, Espanha, Alemanha e Inglaterra. Tal tese é difícil e, por sua natureza, não é suscetível de prova absoluta, mas a escritora torna tão certo quanto qualquer coisa possa muito bem ser.”

Do outro lado estão autoridades que negam a existência de qualquer fraternidade como a dos Comacines, ou então lhes conferem um lugar menor na história da arquitetura medieval. R.F. Gould, na edição original de sua História Conche, página 105, diz claramente o que pensa:

“Hoje em dia, a ideia de ter havido, no início do século XIII, collegia de maçons em todos os países da Europa, que receberam a bênção da Santa Sé, sob condição de dedicar sua habilidade para a construção de edifícios eclesiásticos, pode ser demitido como quimérica. Embora eu não deva me esquecer de que, de acordo com o bem conhecido e altamente imaginativo Historical Essay on Architecture (1835) de Mr. Hope – que expande enormemente o significado de duas passagens das obras de Muratori – um corpo itinerante de arquitetos, que vagavam pela Europa durante a Idade Média, recebeu a denominação de Magistri Comacini, ou Mestres de Como, um título que se tornou genérico para todos os daquela profissão. A ideia foi revivida por um recente escritor, que acredita que estes Magistri Comacini eram uma sobrevivência dos Colégios romanos; que se estabeleceram em Como e foram posteriormente empregados pelos reis lombardos, sob cujo patrocínio desenvolveram uma guilda poderosa e altamente organizada, com uma influência dominante sobre toda a arquitetura da Idade Média (Os Construtores de Catedrais). Mas, mesmo que essa teoria tenha alguma probabilidade, estaria longe de esclarecer algumas obscuridades da história da arquitetura medieval, como o autor sugere que seria o caso. Intercâmbios de influência não eram incomuns, mas as obras de escolas locais apresentam uma individualidade demasiadamente marcada para tornar possível que elas poderiam dever muito (ou nada) para a influência de qualquer guilda central.

Na página 175 da mesma obra, Gould se refere a George Edmund Street, dizendo que uma teoria como a dos Comacines “parece-me ser totalmente errônea”; Wyatt Papworth dizendo que “acredito que elas nunca existiram”; e nas páginas anteriores imprime um longo trecho do Dr. Milman com a mesma finalidade.

Parece-me que esta oposição é uma reação a um exagero do argumento Comacine. Leader Scott não reclama para eles que eles mesmos tenham estabelecido a civilização europeia ou fundado a arquitetura gótica (como Dr. Newton parece fazê-lo, e que é certamente um erro), ou que a fundação de todos os estilos arquitetônicos medievais eram obra deles; ela sustenta apenas que dentro e ao redor do Lago de Como existiu por muito tempo uma guilda de arquitetos e, até essa guilda são mapeadas muitas influências; a sua influência em vários países, ela sugere a título de teorias experimentais cautelosas, e nunca se cansa de advertir seus leitores de que ela está tateando na escuridão; e que ela acredita que a história desta guilda Comacine pode ser rastreada até uma época muito antiga, e pode estar muito provavelmente ligada à história dos collegia romanos.

II. OS COMACINES E A MAÇONARIA

Nós, os maçons deixamos a muito de ser movidos pelo desejo vulgar de reivindicar para a nossa Fraternidade uma antiguidade impossível, como se ela tivesse sido organizada por Adão no Jardim do Éden, ou, como um irmão expressou, se difundiu através do espaço antes que Deus tivesse criado o mundo. A Maçonaria é antiga o suficiente como ela é, e bastante honrada, não exigindo que a embelezemos com uma linhagem fabulosa. Sabemos que ela surgiu de forma gradual, como tudo em nosso mundo humano, um pouco aqui e um pouco ali, e que não foi mais milagrosa no passado do que é agora. Ao mesmo tempo, estamos interessados em observar o crescimento e a prosperidade de organizações semelhantes a ela, ou profética dela, onde e quando elas possam surgir.

O uso da cooperação e da fraternidade, o emprego do dispositivo de sigilo e lealdade a objetivos acima dos do presente; a contemplação de tais esforços de nossos esforçados companheiros, trabalhando nos crepúsculos da vida é sempre uma inspiração e ajudam para definir os ideais da nossa própria Maçonaria escondidos nos recessos de nossas almas. É a partir desse ponto de vista, eu acredito, que devemos olhar para a história do Comacines; eu não pude me convencer de que eles eram, de qualquer uso preciso da palavra, Maçons, ou que a nossa própria Fraternidade tenha tido alguma, a não ser as ligações mais tênues e históricas em geral com as lojas destes antigos mestres.

A história da nossa Ordem se confunde com a história da arquitetura, de forma que qualquer nova luz sobre esta última nos ajuda a melhor compreender a evolução da primeira e, neste sentido, e no sentido definido acima, a história do Comacines tem valor para nós, mas não como abrangendo um capítulo na história verídica conhecida da Maçonaria. A guilda Comacine era em muitos aspectos, semelhante às guildas maçônicas que vieram depois, e que serviram de raízes das quais a Maçonaria Simbólica, em última análise desenvolveu-se, mas ver na guilda Comacine a mãe imediata da guilda maçônica não é possível, me parece, a menos que devamos confiar muito para a imaginação ou estejamos dispostos a esticar a palavra “Maçonaria”, para significar mais do que deveria.

Minha própria teoria, que será elaborada passo a passo, à medida que prosseguem esses capítulos, é que a Maçonaria estritamente chamada originou-se na Inglaterra e só na Inglaterra é que ela teve o seu surgimento gradual entre as guildas que cresceram com a arquitetura gótica; que o germe de moralismo, religião e cerimonialismo naquelas guildas, mudando para encontrar-se em um ambiente favorável, superou o elemento operativo nas lojas século XVII até que se tornou totalmente especulativa; que neste momento de transição, novos elementos foram introduzidos a partir de certas fontes ocultas e que essa evolução culminou finalmente em 1717 com a fundação da Grande Loja Mãe em Londres, a partir do qual toda a Maçonaria moderna derivou-se posteriormente. Não tenho sido capaz de satisfazer-me, apesar de ter sido tentado, que a nossa Maçonaria nos tenha sido dada pelos mestres Comacine.

A própria Leader Scott, cujo conhecimento da Maçonaria era ainda menor do que sua opinião sobre ela, foi muito cuidadosa em não confundir a Maçonaria de hoje com o que chamou de maneira pouco rigorosa (muito vagamente, pode-se pensar) de “Maçonaria” da guilda Comacine. O trecho em que ela se expressa é quase sempre citado apena transcrevê-lo inteiro, não só como mostrar sua própria teoria das duas, mas também revelando sua lamentável falta de conhecimento do que existe hoje. O trecho citado começa na página 16 de seu livro:

“Desde que comecei a escrever este capítulo, um acaso curioso trouxe às minhas mãos um antigo livro italiano sobre as instituições, ritos e cerimônias da Ordem dos Maçons. Naturalmente, o escritor anônimo começa com Adoniram, o arquiteto do Templo de Salomão, que tinha tantos operários a pagar que, não sendo capaz de distingui-los pelo nome, dividiu-os em três classes diferentes: noviços, operatori e magistri, e a cada classe deu um conjunto de sinais secretos e senhas, para que a partir delas os seus salários pudessem ser facilmente fixados e a impostura evitada. É interessante saber que, precisamente as mesmas divisões e classes existentes nos Collegia Romanos e na Guilda Comacine – e que, como no tempo de Salomão, os grandes símbolos da ordem eram o nó infinito ou nó de Salomão, e o “Leão de Judá.

Nosso autor continua, para contar sobre o segundo nascimento da Maçonaria, em seu significado atual inteiramente espiritual, e ele dá a Oliver Cromwell, entre todas as pessoas, o crédito por esta ressurreição. Os ritos e cerimônias que ele descreve são os maiores tecidos da superstição medieval, brincadeira de criança, juramentos de gelar o sangue e misteriosos segredos, sem nada para esconder que possa ser imaginado. Todos os sinais da Maçonaria, sem um fiapo de realidade; cada coisa moral mascarada sob um aspecto arquitetônico, e que o ‘Templo feitos sem as mãos’, que é simbolizado por uma loja maçônica nestes dias. Mas, o ponto significativo é que todos esses nomes e emblemas maçônicos apontam para algo real que existiu em algum tempo do passado, e no que diz respeito à organização e nomenclatura, encontramos a coisa toda na sua forma vital e real na guilda Comacine. Nosso italiano desconhecido que revela todos os segredos maçônicos, nos diz que cada loja tem três divisões, uma para os iniciantes, um para o Operatori ou irmãos trabalhadores, e uma para os mestres. Agora, sempre que encontramos o Comacines no trabalho, encontramos a organização tríplice de schola ou escola para os noviços, laborerium para o Operatori, e Opera ou Fabbrica para os Mestres da Administração.

O anônimo nos diz que há um Gran Maestro ou arco-magister na cabeça da ordem inteira, um Capo Maestro ou Mestre-chefe na cabeça de cada loja. Cada loja precisa, além disso, ter dois ou quatro Soprastanti, um tesoureiro e um secretário-geral, além de contabilistas. Este é precisamente o que nós encontramos na organização das lojas Comacine. À medida que as seguimos através dos séculos, veremos que aparecem em cidade após cidade, primeiro totalmente reveladas pelos livros dos tesoureiros e os próprios Soprastanti em Siena, Florença e Milão.

“Assim, embora não haja prova certa de que o Comacines foram a verdadeira matéria de que surgiu pseudo maçonaria de hoje, podemos pelo menos admitir que eles eram uma ligação entre os Collegia clássicos e todas as outras guildas de arte e comércio da Idade Média.”

As analogias entre as duas, brevemente referidas neste trecho citado, podem ser expandidas. Os Comacines tinham lojas, Grão-mestres, segredos (eles mantinham um livro secreto chamado L’Arcano Magistero), usavam aventais, mantinham um tronco, faziam caridade, possuíam meios de identificação, e empregavam muito simbolismo de que alguns itens são familiares para nós, como nó de Salomão, o Leão de Judá, os dois grandes pilares de “J” e “B”; esquadro, compassos, pavimento mosaico, etc. Também havia certa graduação entre eles, semelhantes aos nossos graus, embora eu não tenha conseguido descobrir qualquer prova de uma iniciação. O Irmão Ravenscroft, com quem se evita sempre discordar e que continua suas pesquisas neste campo, pode estar certo em pensar que algumas antigas tradições maçônicas, particularmente, as que tinham a ver com o Templo de Salomão foram preservadas e transmitidas a nós desde a antiguidade pelos Comacines. É uma teoria fascinante para as quais futuras descobertas podem trazer provas mais convincentes; mas parece-me, se eu puder mais uma vez expressar uma opinião particular, que dois fatos contradizem fortemente essa teoria: um é que essas tradições, pelo menos a maioria delas, sempre foram preservadas nas Escrituras e, portanto, disponíveis a qualquer momento, e, o que é mais importante, não havia nenhuma ligação conhecida entre a guilda Comacine, que realizava seu próprio trabalho na Itália, onde o Gótico nunca se estabeleceu, e as guildas entre as quais o Gótico cresceu.

Toda a questão Comacine, até onde se refira à Maçonaria, assim parece, permanece no ar, ou, se se prefere a figura, sobre os joelhos dos deuses. Isto significa que há muito trabalho ainda a ser feito pelos estudantes de hoje, que se encontram em um reino encantado, se voltarem suas atenções para a arquitetura medieval e sua história.

Autor: H.L. Haywood
Tradução: José Filardo

LIVROS CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE ARTIGO

Construtores de catedrais, Leader Scott (Sra. Lucy Baxter).; The Comacines, W. Ravenscroft. A New Encyclopedia of Freemasonry, Vol. I, A. E. Waite. ; A Concise History of Freemasonry, R.F.Gould. ; A Critical Inquiry Into the Condition of the Conventual Builders and Their Relation to Secular Guilds, George F. Fort. ; From Schola to Cathedral, G. Baldwin Brown. ; Lombardic Architecture: Its Origin, Development and Derivatives, G.T. Rivoira. ; History of Italian Architecture, Ricci. ; I Maestri Comacine, Prof. Merzario. ; Handbook of Architecture, James Fergusson. ; Historical Essay on Architecture, Thomas Hope. ; Sacred and Legendary Art, Mrs. Jameson. ; Renaissance of Art: Fine Arts, John Addington Symonds ; A History of Latin Christianity, Milman, A.Q.C. V. p. 229, A.Q.C. XII, p. 124, ; Mackey’s Revised History of Freemasonry, Clegg, ch. 60. ; Guilds of Florence, Staley. ; Memorials of German Gothic Architecture, Moller. Medieval Architecture, Porter. ; Ecclesiastical History, Ancient and Modern, J.L. Mosheim. ; Dictionary of Architecture, C.L. Stieglitz. ; Encyclopedia of Freemasonry, Mackey, Vol. I, p.161. ; A History of Architecture in Italy, C. A. Cummings.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para A Maçonaria e os Mestres Comacinos

  1. Diogo disse:

    Obrigado por sua contribuição.
    Auxilia muito em meus estudos.
    Vos agradeço…

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