O Aumento de Salário

É do conhecimento de todos que os procedimentos a serem observados para o aumento de salário dos Aprendizes e Companheiros estão previstos nos Artigos 27 a 30 do Regulamento Geral da GLMMG.

À parte o conteúdo formal e os passos a serem seguidos, um ponto que merece reflexão envolve o aperfeiçoamento e o merecimento dos obreiros participantes nesse permanente processo sucessório que caracteriza o funcionamento de uma Loja. Sucessório no sentido de que à condição de Aprendiz se sucede a de Companheiro, em seguida à de Mestre, e, na vida da Loja, ao preenchimento dos cargos que permitam a sua continuidade, como sempre bem lembrado pelo nosso valoroso irmão Sérgio Quirino. É a competência do manejo desse processo que contribui para o fortalecimento e reconhecimento da qualidade dos obreiros e perpetuação da Ordem.

Todos os fatores de avaliação envolvidos são de extrema importância e nenhum deve ser desprezado: interstício, assiduidade, trabalhos apresentados, comprometimento, conduta irrepreensível, conhecimentos inerentes ao Grau e outros de mérito a critério da direção da Loja.

À luz da regulamentação, compete às Lojas observar o cumprimento das exigências, que não podem descurar da obrigação de ministrar as “instruções constantes dos rituais”, conforme inicialmente descrito no Art. 27: “Aos Aprendizes e Companheiros, deve a Loja ministrar, no mínimo, as instruções constantes dos rituais, de maneira a despertar-lhes o interesse para o estudo e a prática dos princípios e da filosofia maçônica e prepará-los para o aumento de salário”.

Entretanto, como forma de apoio e para suprir necessidades complementares de aprendizagem e estudos funcionam, nas dependências da GLMMG, dois excelentes fóruns representados pela Escola Maçônica “Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida”, criada pelo Decreto nº 1.537, de 25.08.03, e pela Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda, na forma do Decreto do Grão Mestrado nº 1.713, de 08.11.07. A Escola Maçônica tem o objetivo de “promover e instituir a revitalização de instruções e aprendizagem aos moldes da padronização ritualística”. Por sua vez, a Loja de Pesquisas se dedica a estudos, pesquisas e apresentação de trabalhos maçônicos.

Nesse sentido, fica bem claro que temos critérios definidos e os meios para preparação do candidato e que viabilizam a votação em sessão de Câmara do Meio para o aumento de salário pretendido e posterior homologação do Grão-Mestrado.

Sabemos que aumento de salário não é o cumprimento de tabela e sim consequência de um processo de aperfeiçoamento, de busca de práticas e conhecimentos, de revisão de comportamentos e atitudes que farão do iniciado uma pessoa melhor, mais evoluída e mais nobre.

Portanto, o aumento de salário se constitui contrapartida de resultados apresentados e em efetivo reconhecimento pelos Mestres do progresso efetuado pelo candidato, em termos de aprimoramento moral e espiritual, até que possa atingir a plenitude maçônica, auferir seus benefícios e assumir novos desafios.

No que se refere aos trabalhos apresentados pelos Aprendizes para a Elevação e dos Companheiros para a Exaltação, alguns conceitos de avaliação merecem reflexões periódicas.

Atualmente, com as novas tecnologias de busca e pesquisa oferecidas pela Internet, torna-se difícil imaginar que os trabalhos a serem apresentados em Loja fiquem restritos a consultas de fontes primárias como livros ou enciclopédias. Sobre qualquer tema é possível obter-se informações apenas digitando uma palavra no Google. Centenas de páginas se abrem, inclusive de livros de qualidade, que podem ser baixados e consultados.

Registre-se, ainda, que centenas de Lojas Brasil afora disponibilizam trabalhos em sites e blogs, sendo que alguns podem ser acessados por qualquer pessoa indistintamente. Assim, a internet é uma ferramenta de pesquisa reconhecida pelos educadores e não há retrocesso nessa tendência, apesar das críticas que lhe são feitas.

No caso específico da GLMMG, temos ainda o privilégio de ter à disposição uma biblioteca bem servida, localizada no 2º andar de seu prédio.

Com relação aos trabalhos, entendo que o desafio maior é para os avaliadores (Vigilantes, Secretário, Orador e outros que possam auxiliar), pois a simples apresentação de uma prancha escrita não atende de imediato. O importante é verificar a forma de apresentação, a familiaridade do apresentador com o tema pesquisado, o desembaraço e facilidade de leitura de termos mais rebuscados, sem demonstração de falta de domínio do conteúdo e desconhecimento de normas básicas de redação e elaboração de textos.

Muito dessa sensibilidade pode ser desenvolvida prestando-se atenção a todos os detalhes que envolvem uma apresentação de sucesso, e essa comprovação pode ser sentida na vibração e entusiasmo com que um trabalho é apresentado, onde o candidato demonstre que assimilou os conhecimentos e efetivamente os compartilha com os irmãos. É importante que se sinta um clima contagiante, que prenda a atenção dos ouvintes, atestando que o tema mexeu com o candidato e provocou uma transformação em sua vida e aumentou sua compreensão sobre a Maçonaria e seus objetivos.

Entretanto, a melhoria permanente da performance dos Aprendizes e Companheiros, com a apresentação de trabalhos com qualidade cada vez melhor, depende precipuamente da gestão da Loja nesse mister, não deixando de lado a preocupação com o crescimento dos obreiros e a imagem dela mesma. É preciso que fique claro que falhas ou erros de conteúdo nas peças de arquitetura são de responsabilidade precípua dos gestores da Loja e o sucesso da apresentação é um fruto colhido por todos.

E aqui reforçamos o argumento meus Irmãos, e isso é muito importante, o êxito do trabalho, no aspecto do conteúdo, é da estrita responsabilidade da Loja, que não pode lavar as mãos quanto a erros conceituais por falta de supervisão dos responsáveis.

É indispensável que reconheçamos que temos algumas fraquezas quando se trata de matéria que envolvam a vida intelectual e por isso devemos investir nessa seara e não nos deixarmos cair no confortável “circuito do elogio mútuo”, elogiando qualquer trabalho apresentado, na estratégia de evitarem-se atritos, a crítica que incomoda ou preocupação de criar desafetos, ou visando a sustentar pose de irmão simpático e camarada ou mesmo a insegurança de demonstrar desconhecimento do tema tratado, à míngua de capacidade de compreender o que seja um argumento ou uma análise mais elaborada de forma a enriquecer uma apresentação.

Por outro lado, manter postura de silêncio sepulcral e semblante de poucos amigos ou apenas resmungar com o irmão ao lado, às vezes com ar de desdém, acenando negativamente com a cabeça, depõe contra a Loja, em especial quando o irmão próximo é também um Aprendiz ou Companheiro em fase de aperfeiçoamento. Isso para não falar do desagradável exemplo daqueles que conversam em voz alta com o irmão do lado sobre outros assuntos, consultam as mensagens em celulares, leem outra publicação, ou ficam a sinalizar para o adiantado da hora ou, literalmente, dormem durante as apresentações, em franca atitude de desrespeito ao esforço que o irmão empregou para elaboração do trabalho.

É notório que temos irmãos com grandes conhecimentos, reputados como grandes sábios e que preferem o conforto do silêncio, não compartilhando suas informações e experiências em momento tão importante para a Loja. É sempre bom lembrar que o Mestre deve ensinar o que sabe e aprender o que ignora. Para esses é oportuno ter em mente uma citação de Sócrates: “O grande segredo para a plenitude é muito simples: compartilhar”. E ainda vale o lembrete de George Bernard Shaw: “Ninguém fofoca sobre as virtudes dos outros.” Enfim, todos são observados e os bons e maus exemplos sempre têm suas consequências.

Assim, precisamos aprimorar algumas habilidades de modo a dar o devido valor ao acompanhamento e supervisão dos trabalhos exigidos para o aumento de salário, para que sejam, a cada vez, mais consistentes e motivadores de uma caminhada rica em aprendizado para os obreiros e instrumento auxiliar do Maçom para cumprir a sua função de construtor social.

Novamente reforçando a reflexão, as Lojas não podem descuidar do papel de guardiãs dos valores e de inspiradoras na caminhada dos Obreiros, cabendo exercer acompanhamento efetivo da preparação dos Aprendizes e Companheiros na elaboração dos trabalhos necessários ao processo de aumento de salário, revisando-os com antecedência para evitar-se erros, desvio de foco, mistura de conceitos, confusão com Rituais ultrapassados ou já revogados, etc. Não obstante em muitas Lojas essa tarefa ficar a cargo dos Vigilantes, tem-se notícias de que algumas reforçam o acompanhamento com a indicação de mentores para orientar nesse mister.

Cabe aos irmãos que supervisionam os trabalhos observarem as características de alguns deles, com vistas a identificar plágios decorrentes de cópia integral de artigos da internet, reprodução de trabalhos feito por outros, aqueles reconhecidos como colcha de retalhos (Ctrl+C e Ctrl+V de várias fontes), sem nexo, fazendo lembrar um psitacídeo grafocrata.

No aspecto do conteúdo, recomenda-se verificar a observância às orientações contidas nas instruções de cada Grau, de forma a se evitar mistura de ritos e citações que já foram objeto de modificações e / ou revisão pela GLMMG, usos e costumes, etc., a não ser que se trate de um trabalho comparativo. Por isso a importância da citação das fontes de pesquisa com os devidos créditos dos autores originais.

E o pior dos cenários, sobre os quais se ouve aqui e acolá, é a da situação de irmão de Oriente bem distante, que delega a outro com maior tempo disponível ou facilidade de pesquisa que faça o trabalho, o que vem na contra-mão a todos os princípios defendidos pela Maçonaria. Será que isso acontece? Existe a figura do “ghostwriter” na Maçonaria?

Nessa perspectiva, recomendamos uma reflexão sobre o Título II, Artigos 36 a 39, da Lei Complementar nº 002/2005, alterada pela de nº 03/2005, de 10.12.05, conhecida como “Código de Delitos e de Processo Penal Maçônico”.

Por derradeiro, preliminarmente à discussão e aprovação do pedido de aumento de salário em Câmara do Meio, vale sempre o dispositivo contido no art. 29 do Regulamento Geral, relativo ao exame do solicitante quanto aos sinais, toques e palavras, atestando “o conhecimento maçônico que o habilite a fazer jus ao grau pleiteado”, aqui com o reforço do telhamento e domínio da entrada ritualística.

No que se refere à gestão dos procedimentos, torna-se importante o agendamento da apresentação dos trabalhos, com sua inclusão na pauta do dia, mediante contato do Venerável Mestre com o Secretário. Em caso de mais de uma apresentação na mesma sessão, deve o Venerável administrar o tempo para que um trabalho não prejudique outro previsto para o mesmo dia e seja possível que a palavra circule nas colunas, possibilitando comentários que possam agregar valor e enriquecer os conhecimentos de todos.

Ademais, para compor a história da Loja e manter uma biblioteca organizada, os trabalhos apresentados devem ser reunidos em arquivos eletrônicos, que ocupam apenas espaço virtual e possam ser acessados por todos, nos respectivos Graus, através de senhas nos sites mantidos pelas Lojas.

Finalmente, agradecendo o convite formulado pelo Venerável Mestre José Maurício Guimarães, para compor esta Mesa Redonda da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda, peço a compreensão dos irmãos no sentido de que vejam este trabalho como uma reflexão para estimular o debate. Que fique bem claro que os exemplos mais contundentes que usamos são fictícios e qualquer semelhança que possa porventura ocorrer com nossa realidade é pura coincidência, se é que algumas situações sejam realmente embaraçosas. Mas, estamos certos de que não se aplicam aos casos de nossas Lojas em particular. Muito obrigado!

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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R$10,00

Nota

Este trabalho foi apresentado em 08/05/14, na 3ª Mesa Redonda da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati Pedro Campos de Miranda, com o tema: O Processo para o “Aumento de Salário”.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para O Aumento de Salário

  1. Arnaldo Alves Hessel- MI - Oriente de Pinheiro Machado - RS disse:

    Gostei do trabalho, sintético, didático e não conclusivo; incentivando a busca constante, diuturnamente. TFA.

    Curtido por 1 pessoa

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