Rosacrucianismo

Resultado de imagem para rosacruz wallpaper

Dos símbolos iniciáticos que mais excitam a imaginação, o da Rosa-Cruz é, sem dúvida, o mais surpreendente. Seja pela expressão de uma imagem da natureza (uma rosa) unida ao geométrico quaternário (uma cruz); seja pelas interpretações de “espírito” (rosa) unido à “matéria” (cruz), ou da analogia com o esquadro e o compasso, fato é que da comunicação latente nessas imagens surgiram variados entendimentos sobre os rosa-cruzes.

Um deles, ainda presente em nossos dias, é a confusão entre Rosa-Cruz Maçônica e outras Ordens iniciáticas que ostentam os mesmos nome e símbolo. Esse equívoco, bastante comum e próprio do proselitismo, resulta da incompreensão do Grau Rosa-Cruz contido nas preleções superiores da Maçonaria.

O Grau de “Cavaleiro Rosa-cruz”, correspondente ao 18º do Rito Escocês Antigo e Aceito (também existente noutros Ritos), difere das práticas contemplativas e da devoção relacionada ao conceito de divindade – elementos fundamentais do Rosacrucianismo de outras Ordens – não inclui, portanto, a filosofia ou os ensinamentos privativos de outras Ordens.

Além disso, os maçons inseriram na alegoria do Grau a figura do pelicano que alimenta sua ninhada com o sangue do próprio peito dilacerado pelo bico, emocionante alusão ao homem que se sacrifica pelo bem dos seus irmãos.

O Rosacrucianismo na Maçonaria é marcado pelas narrativas bíblicas que remontam ao período de 539 a.C. até 515 a.C., ultrapassa o Antigo Testamento para além da tradição cristã e suas conotações históricas. O Capítulo Rosa-Cruz tem como pano de fundo o pensamento hebraico e a sabedoria cavaleiresca (isto é, o imaginário e as narrativas de cavalaria do século XIII) formadores da identidade histórica e religiosa das nações do Ocidente.

As demais organizações do Rosacrucianismo seguem, na maioria dos casos, uma provável tradição dos antigos egípcios, o misticismo, elementos da gnose de Alexandria e o simbolismo alquímico interpretado à luz da transmutação mental. A transformação da humanidade para melhor é igualmente a meta comum de todos os agrupamentos associados ao Rosacrucianismo: um mundo novo onde homens e mulheres possam viver em liberdade, mais conscientes, mais responsáveis e, por conseguinte, mais felizes e poderosos.

OS INVISÍVEIS DO SÉCULO DEZESSETE 

O movimento Rosa-Cruz desencadeado nas duas primeiras décadas do século XVII foi concebido por pessoas (ou pessoa) de pensamento iluminado, intelectuais de genial entendimento sobre questões sociais, políticas, científicas e religiosas da época.

Três publicações sucessivas, na forma de manifestos, apareceram na cidade alemã de Kassel, a partir de 1614: “Fama Fraternitatis Roseae Crucis oder Die Bruderschaft des Ordens der Rosencreutz” (Notícia da Fraternidade da Rosa e da Cruz ou Irmandade da Ordem dos RosaCruzes) seguida da “Confessio Fraternitatis oder Bekenntnis der Societät und Bruderschaft Rosencreutz ” (Confissão da Sociedade e da Fraternidade Rosa Cruz) em 1615 e da “Chymische Hochzeit Christiani Rosencreutz anno MCDLIX” (Casamento Químico de Christian Rosencreutz ano MCDLIX) em 1616.

Na Alemanha, a suspeita de autoria caiu sobre Johann Valentin Andreae (1586-1654) jovem de uma família de Würtemberg envolvida com a reforma luterana. Outros pesquisadores atribuem a autoria a Francis Bacon. Esta hipótese parece ser a mais plausível embora também não possa ser comprovada.

Mas foi na França que o movimento Rosa-Cruz teve maior impacto. Numa manhã do outono de 1623, Paris acordou surpreendida por cartazes que anunciavam a chegada de uma enigmática irmandade. A tribuna escolhida não poderia ser melhor: a Pont Neuf, construída sobre o local onde, trezentos anos antes, Jacques de Molay, último Grão-Mestre dos Templários, fora queimado numa fogueira. Aponte era o lugar preferido dos artistas de rua e populares. Não houve quem não tomasse conhecimento do anúncio:

Nós, deputados do Colégio Principal dos Irmãos da Rosa-Cruz, estamos, visíveis e invisíveis, sediados nesta cidade pela graça do Altíssimo, para o qual se voltam os corações dos justos. Ensinamos e demonstramos sem a necessidade de livros, falamos toda espécie de linguagem do país onde estamos, com o objetivo de tirar os homens, nossos semelhantes, de erro e da morte”.

E os “invisíveis” convidavam os interessados a juntarem-se à fraternidade, com a ressalva:

(…) os que nos procurarem por mera curiosidade, jamais nos encontrarão… mas, se seu desejo for autêntico, nós os encontraremos e nos faremos reconhecer”.

Os analfabetos se contentaram com as especulações truncadas de alguns aventureiros: “deputados de uma corporação… homens invisíveis… falar em línguas… vencer a morte…” Ofertas tentadoras! Quem não desejava tornar-se invisível e bisbilhotar todos os recantos da cidade, entender todas as línguas e se tornar imortal?

Enquanto isso, os responsáveis pelos cartazes permaneciam ocultos numa espessa nuvem de mistério. Quando muito, os textos velavam com as iniciais C.R+C. o nome emblemático de Christian Rosencreutz, mítico fundador da Ordem.

O rei e a Inquisição ficaram imobilizados diante dessa figura, pois Christian Rosencreutz era um nome cristão; havia uma rosa e a salvífica imponência da cruz. A quem pegar? – “onde estaria o Diabo?

As instruções de Gabriel Naudé à França (1623), a pedido do Rei Louis XIII, apontaram vestígios do protestantismo no movimento dos invisíveis. Havia entre os luteranos um grupo independente que adotava certo grau de misticismo – os pietistas. Essa corrente buscava a salvação tanto na Bíblia quanto nos textos de Jacob Boehme e Sebastian Franck. Quanto ao secreto símbolo – uma cruz e uma rosa concêntricas – Martin Lutero já havia sugerido, como distintivo da Reforma, uma rosa de cinco pétalas com uma cruz no centro.

AS VIAGENS

Os manifestos Rosa-Cruzes estão repletos de enigmas e obscuro simbolismo cuja interpretação demanda o estudo das condições históricas da época e de “chaves” só conhecidas pelos leitores aos quais os textos se destinavam.

Através de uma análise elementar, identificamos as seguintes “chaves”:

  • A lenda egípcia da peregrinação de Ísis e a ressurreição de Osíris;
  • Estágios da Arte Real relativos à morte, reencontro e ressurreição de um mestre;
  • O arquétipo da viagem representado nas “circumambulações iniciáticas”;
  • O arquétipo do casamento sagrado ou hierosgamos;
  • Princípios da restauração do cristianismo original inspirado na Reforma Protestante;
  • O encontro do Ocidente com o conhecimento Islâmico;
  • Reminiscências da Ordem do Templo e do assassinato de seu último Grão-Mestre, Jacques de Molay.

Essas viagens fundamentavam a esperada reorganização da Ordem (os Cavaleiros de Cristo e outras ordens militares da Idade Média) após o desaparecimento dos Cavaleiros Templários em 1314.

Os Manifestos fazem referência ao ano de 1604, quando o Imperator descobriu o túmulo de C.R+C. numa edificação de sete lados, constantemente iluminada por lâmpadas inextinguíveis. Na parede que obstruía a entrada estava escrito: “post 120 annos patebo” (após 120 anos serei encontrado). No centro da construção havia um altar com a inscrição: “A C.R+C. hoc universi compendium unius mih sepulcrum feci” (a Christian Rosencreutz, compêndio único do universo, fiz este túmulo). Em volta de um primeiro círculo, lia-se “Jesus mihi omnia” (Jesus é tudo para mim); no círculo do meio, quatro figuras com as inscrições: “Nequaquam Vaccum” (em parte alguma o vácuo); “Legis Jugum” (o jugo da lei); “Libertas Evangelii” (a liberdade do Evangelho); “Dei Gloria Intacta” (a Glória de Deus é inatacável), todas elas expressões cristãs, tanto Templárias quanto da predileção reformista.

René Descartes, na primeira parte do Discurso do Método, conta a revelação que teve, em novembro de 1619, sobre os alicerces de uma nova ciência. Após servir à instrução militar na Holanda, Descartes viajou pela Dinamarca e Alemanha, e voltou à França em 1622, onde a leitura dos manifestos Rosa-Cruzes e a popularidade dos cartazes espalhados por Paris, levaram-no a se interessar pelo assunto. Colocou de lado a mixórdia ocultista que rondava a questão e prosseguiu em suas investigações guiadas pela razão.

Descartes procurou os Rosa-Cruzes por todos os lugares, mas suas buscas, segundo ele mesmo disse, foram infrutíferas. Contudo, a “moral provisória” que ele adotou no Discurso do Método – um conjunto de quatro intrigantes regras – pode ser considerada uma justificativa (ou escapatória) do seu silêncio e das tais “buscas infrutíferas”:

  • Regra nº1 – uma ampliação da consciência sobre a ordem do mundo;
  • Regra nº2 – uma reflexão moral que visa a adaptação a essa ordem;
  • Regra nº3 – o respeito às autoridades constituídas, seja pelo critério da maioria, seja pela tradição;
  • Regra nº4 – o caráter instrumental dessas investigações, tendo como objetivo o estudo constante e o bem viver.

Pode parecer muito simples e… ao mesmo tempo astuto; uma reflexão atenta sobre esses quatro pilares da “moral provisória” de Descartes revelam o puro Rosacrucianismo conforme o que permanece ministrado no vasto universo daquela primitiva sociedade invisível.

CONCLUSÃO

Sobre o Rosacrucianismo, a única “conspiração” que existe – e há de perdurar – é a viagem constante em busca do conhecimento, a jornada do espírito de fraternidade, a defesa da liberdade individual e da dignidade humana. E a esperança daqueles que se empenham no estudo da natureza humana e da realidade que os cerca, até que seja alcançada a Mansão dos Invisíveis, a união dos opostos cantada no Antigo Testamento através dos versos do Rei Salomão:

Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales”… “Jardim fechado és tu, minha irmã, esposa minha, manancial fechado, fonte selada.” (Cântico dos Cânticos 2:1 e 4:12).

Autor:José Maurício Guimarães

Autor: Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com

Uma consideração sobre “Rosacrucianismo”

  1. Tema profundo. Muitas interpretações especialmente para aqueles IIr. que fazem parte da AMORC. Tema motivador para buscarmos informações para que cresçamos na Arte Real. Entendo a Ordem Rosa Cruz como Escola Iniciática , co-irmã . Gostei muito . O Ponto Dentro do Círculo disserta de forma clara alguns aspetos sobre o Rosacrucianismo. Elemento motivador para busca…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.