Em direção ao senso crítico

Durante os últimos oito anos, com a intensificação da comunicação e compartilhamento de textos na internet, em revistas e programas de televisão, o interesse da comunidade pelos assuntos da Maçonaria aumentou. Frequentemente, pessoas não pertencentes à Ordem desejam saber mais sobre a mesma e leem alguns livros, pesquisam em sites especializados, assistem a reportagens do Discovery, National Geographic e History Channel, sem obterem uma resposta satisfatória sobre o que é a Maçonaria e qual a sua finalidade.
 
Isso me faz lembrar o dilema das definições e o fato jocoso – repetido mil por articulistas – sobre aquela pergunta feita ao professor de Filosofia, Jules Lachelier. A narrativa tem origem na introdução do Curso Moderno de Filosofia de Denis Huisman e André Vergez: por ocasião de sua aula inaugural em Toulouse, ao ser perguntado sobre “o que é a Filosofia”, Jules Lachelier, para estupefação dos seus alunos, respondeu com apenas duas palavras: “não sei”. Huisman e Vergez contam que toda a cidade de Toulouse zombou do brilhante professor vindo de Paris, que nem sequer sabia o que era a disciplina que estava encarregado de ensinar. Entretanto, a resposta de Lachelier teve um sentido muito profundo, ou seja – a Filosofia não é matéria de conhecimento. Noutras disciplinas existe algo para ser ministrado de modo racional – seja numa sequência lógica de proposições e teoremas (como no caso da Matemática) ou no conjunto de fatos e fenômenos físicos e biológicos. Mas, a Filosofia requer do pensador (e do estudante sério) uma maneira própria de ver e tentar “explicar ” a realidade, ou seja: uma orientação cognitiva (visão de mundo) que abranja seus valores existenciais e normativos, suas emoções e sua ética.
 
Caso semelhante se dá com a Maçonaria que também não obteve, até os dias de hoje, uma definição unânime por parte das inteligências mais privilegiadas da humanidade. Se alguém, não iniciado em nossos mistérios, perguntasse “o que é Maçonaria? ”, qual de nós assumiria a responsabilidade de defini-la? Para a estupefação desse interlocutor, seríamos obrigados a responder apenas com aquelas palavras mágicas de Lachelier: “não sei”.
 
Se alguém desejar saber o que é a Engenharia, recorrerá aos dicionários que definem: “engenharia é o conjunto de atividades que vão da concepção e do planejamento até a responsabilidade pela construção e controle dos equipamentos de uma instalação técnica ou industrial”. Um estudante, ao preparar-se para o vestibular, já possui uma noção do que é a universidade e a faculdade de sua escolha (engenharia, por exemplo). Mas, o candidato à iniciação Maçônica nada sabe sobre a Ordem; apenas espera-se que ele venha a descobrir alguma coisa nos graus aos quais tiver acesso durante sua vida na organização. Os dicionários, as enciclopédias, os sites da internet, livros e programas de televisão, apenas darão a entender, sem clareza, que Maçonaria é “uma sociedade cujo objetivo principal é desenvolver o relacionamento fraterno, a filantropia e outras particularidades de que somente os maçons têm conhecimento”.
 
Por esta e muitas outras razões, pode-se dizer que a Maçonaria é apenas semelhante a uma escola no sentido comum da palavra, pois uma descrição de Maçonaria, para ser mais exata, teria de estabelecer limites e fixar, sem margem para ambiguidades, todos os seus conteúdos. Todavia, em se tratando de ordens iniciáticas, tais conteúdos precisam ser vivenciados em sua significação mais profunda.
 
O estudo da origem e evolução da palavra Maçonaria nos remete ao ofício de alvanel (aquele que trabalha com pedra – “mason” em inglês ou “maçon” em francês, cujo significado é pedreiro). Mas, esta explicação também não define “o que é a Maçonaria” – apenas faz analogia entre alguns de nossos métodos especulativos com o ofício de quem lavra a pedra irregular para assentá-la à regularidade de uma construção. Desde os primórdios da Maçonaria moderna (refiro-me às duas primeiras décadas do século dezoito) as Lojas acolheram pessoas outras que não apenas os pedreiros de ofício. O operário (daí a palavra operativo) que se ocupa das obras de pedra e de alvenaria pode pertencer à Ordem, mas nem todos os pedreiros-livres são necessariamente pedreiros de profissão. 
 
Outra tentativa de definição muito apreciada – e constantemente copiada – é que situa a Maçonaria como “uma associação de homens sábios que, mediante recíproca estima, confiança e amizade, vivem em perfeita igualdade, estimulando-se uns aos outros na prática das virtudes”. Este é, todavia, apenas um dos aspectos de nossa Ordem, sem contar que as congregações religiosas também foram criadas para agregar homens sábios e virtuosos, objetivando uma vida igualitária nos laços de confiança. Também nelas busca-se o apreço recíproco e emulam-se uns aos outros no exercício do bem, da excelência moral e da conduta digna. As ordens monásticas enquadram-se na referida descrição sem, no entanto, constituírem uma “Maçonaria”. Apesar de o aperfeiçoamento moral pertencer, de modo precípuo, ao domínio onde se situam o Direito, as religiões e as ciências que versam sobre os valores norteadores das relações e conduta humanas, a Maçonaria tem, como veremos, um papel peculiar. 
 
Diz-se ainda que a Maçonaria “é um sistema de moral, velado por alegorias e ilustrado por símbolos” – descrição superficial de um dos múltiplos aspectos que constituem o complexo sistema iniciático. O simbolismo é parte desse sistema consistindo na prática de lançar juntas (syn+bálein) duas coisas que, por analogia ou relação de semelhança, despertam a compreensão de outra realidade. Mas, em Maçonaria, que realidade é essa?
 
O método iniciático utiliza o símbolo como recurso psicológico e não como fim em si mesmo; interessa-se pelos efeitos e não pela definição acadêmica. Noutras palavras: é possível alguém ser um expert em simbolismo sem estar apto a compreender a outra realidade e, menos ainda, a responder sobre “o que é a Maçonaria”. Além disso, um sistema (conforme expresso na “definição” apresentada) consiste num conjunto de elementos organizados que fundamenta determinada ciência e fornece explicação para uma grande quantidade de fatos. Isso, evidentemente, não se aplica à Maçonaria, pois, como membros da Ordem, não pretendemos fundamentar esta ou aquela ciência; nem nos arvoramos em explicar uma universalidade de fatos. 
 

A Maçonaria tem uma doutrina?  

No sentido de uma transmissão coerente de ideias fundamentais e princípios, SIM. Mas, se entendermos doutrina como as crenças, dogmas ou uma fé transmitida mediante uma espécie de catecismo, NÃO. 
 
Dogma é opinião, crença e compromisso com uma noção qualquer; a fé consiste em entregar-se à palavra revelada ou “no firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem”, segundo a carta de Paulo aos hebreus (11:1). Entre os maçons, sem prejuízo da religião que cada um possa professar, há uma maneira de julgar os fatos individuais e sociais. Trata-se de uma “técnica” não descrita em manuais, mas assimilada mediante a REFLEXÃO.
 
Entendemos por reflexão o ponto de partida e o processo inteiro por meio do qual as operações que nossa consciência realiza (dentro de si e sobre as ideias que recebeu do mundo exterior) produzem outras ideias que a simples realidade não pode fornecer. Não obstante essa uniformidade “técnica”, a cada maçom é dada a prerrogativa de, no transcorrer de suas experiências, desenvolverem suas próprias teorias sem, no entanto, impô-la aos demais.
 
Este aspecto da “técnica” maçônica – progredindo do senso comum para o senso crítico – distingue nossa atividade da especulação religiosa e do sectarismo político. Senso comum é o conhecimento mediano compartilhado pela maioria das pessoas. Embora concebido a partir de alguns significados válidos, o senso comum é frequentemente impregnado de incoerências e fragmentações. No decorrer da expansão da consciência que a iniciação lhe propicia, o maçom abandona, paulatinamente, as noções facciosas, os preconceitos e o raciocínio falacioso, obrigando-se a contestar todo movimento ou intenção que simule a veracidade. Mediante o senso crítico, o iniciado evolui em direção à superação das concepções ingênuas e artificiais elaboradas pela ideologia dominante.
 
A Maçonaria promove o desenvolvimento desse senso crítico. Longe de ser algo que censura, deprecia e desaprova, o senso crítico consiste na capacidade de examinar, avaliar e julgar com sabedoria e independência . Nessa empreitada, e a partir de sua admissão na Ordem, a atividade do maçom é caracterizada pelos seguintes questionamentos: 
 
  • a crítica de si próprio; 
  • a crítica de seu papel na sociedade; 
  • a compreensão do mundo natural; 
  • a percepção do significado das relações sociais; 
  • a capacidade de, uma vez iniciado, reconhecer e tomar para si as possibilidades de transformação (“alquimia mental”).
Este é o grande diferencial da Maçonaria, o algo mais – o verdadeiro Segredo – que resulta numa compreensão do mundo e das possibilidades de transformação pessoal e social. A figura do Rei Salomão no simbolismo maçônico ilustra o senso crítico como estágio superior do poder e realeza. Diz a Bíblia que Deus apareceu a Salomão em sonhos, dizendo-lhe: 
 
– Pede o que queres que eu te dê. 
 
E Salomão respondeu:
– Sou apenas um menino pequeno; não sei como sair, nem como entrar; dai, pois, ao vosso servo um coração entendido para julgar, para que prudentemente eu possa discernir entre bem e mal. 
 
E disse Deus:
– Porquanto pediste discernimento e o que é justo, e não suplicaste para ti muitos dias de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, eis que faço segundo tuas palavras: dou-te um coração sábio e discernimento. 
 
O diálogo entre a divindade e o rei – Arte Real – expressa a aspiração ao senso crítico e a conquista da “técnica” que o iniciado realiza dentro de si e sobre as ideias que recebe do mundo, produzindo ideias novas e superiores que a simples realidade não pode fornecer. Isto, apesar de não definir, é a Maçonaria. 
 
Autor: José Maurício Guimarães
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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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