Indagações Filosóficas Sobre o Rito Maçônico

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O Rito Maçônico

O rito é da essência do ato. A conclusão se baseia na assertiva aristotélica de que a matéria, antes de se apresentar como tal no mundo dos sentidos percorreriam as três fases: – potência, ato e ação.

A potência, para Aristóteles seria o projeto da matéria, sem a presença do sujeito idealizador. Aqui Aristóteles toma de empréstimo o conceito de Platão. O ato seria a definição da ideia que, com a inoculação (enteléquia – forma imanente), resultaria na ação ou no ser perceptível (a matéria).

Os mestres, entretanto, não se preocuparam em questionar a realidade subjacente ao ato de existir e a trama ritualística desse engenho criativo. Levando em conta a afirmação de Hermes Trismegisto de que o que está em cima é o mesmo que está em baixo (monismo) podemos supor que a investigação acerca dos fenômenos e das coisas equivale a mergulhar na intimidade da matéria até o plano em que desapareçam as variáveis de massa e peso, embora se tenha certeza de que o nada é uma ficção e não tem qualquer significado, devendo existir a antimatéria, cuja configuração é certamente feita pelo processo ritualístico, ou seja, a dinâmica de vetores harmoniosamente sincronizados e programadores do ato da existência dos seres. O rito, ao invés de práxis meramente formalista ou reverencial, assume na Maçonaria, face ao caráter marcadamente especulativo da Instituição, eficácia transmutativa da estrutura do espaço.

Está demonstrado cientificamente que as radiações das partículas elementares induzem a preexistência de uma usina de ideias atrás da natureza perceptível, a prática de uma textura ritualística poderá, em sentido inverso – do sensível para o transcendental, gerar mutações na estrutura íntima dos corpos, potencializando-os a assumir novas feições morfológicas na sistematização do seu comportamento, condutas e teorias.

O rito, assim conjecturado, é instrumento eficaz de teorização e mutação da vida a suas manifestações físicas, sociais e transcendentais. É a hipótese fascinante de o homem mudar os rumos de sua gênese e escatologia. O exercício do rito será, como nas transmutações físico-químicas, o veículo catalisador capaz de influir e plasmar o homem e o cosmo do futuro para se alcançar a desejada harmonia e unificação da humanidade com a dissipação da miséria e das hostilidades e uma programação social e científica primorosa.

Conceituação Filosófica

Para verificarmos a exuberância das linhas geométricas ou ontométricas do rito na elaboração da matéria, vamos reciclar em retrospecto as diversas teorias cosmogônicas, físicas e filosóficas que marcaram essa grandiosa pesquisa através dos tempos.

Os números abstratos de Pitágoras, o átomo de Demócrito, as enteléquias de Platão, as mônadas de Leibniz, o apriorístico de Kant, as nebulosas de La Place, a física teocêntrica de Newton, permitiram cogitações sobre um mundo paralelo mascarado pelo invólucro da existência visível e sensível. O radical positivismo de Auguste Comte resolve enterrar essas divagações chamadas metafísicas na obra grito de sua autoria, formulando a sua chamada lei dos três estados, segundo a qual “o pensamento humano passara pelo estado teológico”, em que por agentes sobrenaturais se explicavam as anomalias aparentes do universo.

Maçonaria

É comum o espanto dos profanos ante tantos desenhos, símbolos, alegorias e instrumentos estranhos que se ostentam às suas vistas.

Ao neófito, durante e após a cerimônia de iniciação, tudo se lhe apresenta intrincado, fantástico e extravagante. Mas, é certo também que velhos maçons se habituam a essa gama de alegorias e símbolos e se acomodam com explicações triviais que lhe são passadas por outros maçons de pouca sensibilidade especulativa, que praticam o rito de modo imitativo e não enfrentam meditações sobre a complexidade do acervo de conhecimentos que a Maçonaria pode oferecer.

A loja maçônica expõe, por seus símbolos, alegorias e instrumentos, aspectos de uma realidade cultural que não guarda afinidades com o que se passa na mentalidade profana hodierna.

A mística maçônica induz um exo-esoterismo em que se unifica o homem e sua história, o criador e a criação, o tempo e o espaço, a vida e o ser, o corpo e a alma, o abstrato e o concreto.

A essência dos graus se prende, acima de tudo, a conclamações ritualísticas no sentido de conscientizar o maçom de sua origem e destinação histórica e simultaneamente convocá-lo à prática de sua preparação interior para o êxito da jornada de pacificação da sociedade humana. A Maçonaria portanto, encampa um esoterismo por via do desdobramento da razão, representando o processo ritualístico como de discernimento racional da vida e do ser por meio das técnicas da auto-descoberta e decifração do enigma cósmico.

O segredo da existência não é, para a Maçonaria, alheio à substância racional e, se o fosse, novamente cairíamos nos angustiosos dualismos que aviltaram e vêm aviltando o pensamento humano, contra os quais os clássicos da meditação egípcia, persa, indiana e eleática se insurgiram. A Maçonaria em seu esoterismo procura racionalizar todo o trabalho da consciência individual, aprimorando as suas faculdades na aquisição dos estados elevados de comunicação com os níveis transcendentais de toda a criação Aprendemos a compreender o homem no seu todo orgânico-social, através de uma constante convocação para a luta contra todos os desequilíbrios da harmonia cósmica e social.

O Deus Maçônico

Para os maçons que acham que o Deus maçônico tem cores teológicas, fica aqui a narrativa do incomparável Fernando Pessoa em carta que escreveu a Deolfo Casais Monteiro:

Pergunta-se se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, sutilizando-se até se chegar a um Ente Superior, que presumivelmente criou esse mundo. Pode ser que haja outros entes, igualmente supremos, que tenham criado outros universos, e que esses universos coexistem com o nosso, interpenetradamente ou não. Por essas razões, e ainda outras, a Ordem Externa do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita a expressão “Deus”, dadas as suas implicações teológicas e populares e prefere dizer “Grande Arquiteto do Universo”, expressão que deixa em branco o problema de se ele é criador ou Governador do Mundo.”

A Palavra “Bode

A palavra “bode” pode muito bem ser ligada à teoria maravilhosa da árvore da sabedoria, a que se referem os místicos do Oriente. Essa sabedoria foi chamada de Bodhi (árvore) do conhecimento gradual em direção ao Absoluto. Os sete planos do ser, consoante indicado pelos místicos do Oriente eram denominados “lokas” que guardam afinidades inegáveis com a nossa “Câmara de Reflexões”.

O livro dos Preceitos Áureos dos Indus descreve cenas da travessia do rio da existência, onde fica clara a sobrevivência do espírito após a morte do corpo físico…

Conclusão

Se a conclusão inarredável é que a Maçonaria procura mostrar aos seus adeptos os caminhos que podem levá-lo à busca da perfeição; que esse caminho passa necessariamente pela prática do rito, que enfim é a essência da instituição; que a instituição não tem doutrina e muito menos dogmas, dando inteira liberdade de pesquisa aos seus iniciados, vemos, com toda certeza que o resultado esperado é que na encenação do “teatro da vida” que fazemos diuturnamente conseguimos alterar o estado de nossa consciência.

Quando a luz do interior, que tem papel de suma importância nos misticismos, começa a ser despertada no maçom, sempre há uma alteração no seu estágio de consciência e ele evolui. Todas as práticas espirituais levam ao mesmo ponto místico final: são apenas caminhos diferentes que levam ao topo de mesma montanha. Será que entre o estado de consciência do maçom, do samadhi, dos indus, do yogue, ou das várias religiões ou filosofias tem a mesma equivalência?

Acreditamos que no seu objetivo final, a resposta é positiva, mas na prática de como percorrer os caminhos é que reside a substancial diferença.

O iniciado deve saber que na Maçonaria inexiste pregação e doutrinação relacionadas com a ética baseada no medo convencional e na moralidade da culpa, que diz faça assim e ele vai fazer. Ao contrário é uma disciplina mental baseada na compreensão fraterna e moral, evitando as vibrações que produzem estados mentais destrutivos, como a cobiça, o ódio, a atitude condenatória de ciúmes e invejas.

Na Maçonaria inexiste o espírito de concentração, semelhante a outra filosofia ou religião, existe a constante preocupação da ritualística, que encaminha o homem ao aprimoramento moral e espiritual.

Quando atinge o ápice da pirâmide e se assemelha a águia bicéfala, que estando no presente pode ver o passado e auscultar o futuro, ele se realiza espiritualmente e sua convicção é a de que é uma partícula do Grande Arquiteto do Universo, ou seja, o “homem templo”. Neste estágio estará quase alcançando o objetivo máximo da instituição, que é investir no homem por ele mesmo, para que estando próximo da condição de saber de onde veio, porque veio e para onde vai, tenha plena consciência de que está integrado harmonicamente à majestosa sinfonia cósmica universal, e será então feliz.

Autor: Janir Adir Moreira
Grão Mestre Ad-Vitam   –  GLMMG

 

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para Indagações Filosóficas Sobre o Rito Maçônico

  1. Johnk626 disse:

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    Curtir

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