Ritos a Dionísio: Os Mistérios de Eleusis

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“…absorto em Deus, já não forma senão Um com Ele, como um centro que coincide com outro centro (…) tal modo de visão é difícil de descrever a outro (…) Isto é sem dúvida o significado da proibição que se faz nos Mistérios, vedando que se revele os segredos dos mesmos aos que não foram iniciados. Como se quer que o divino seja inefável, prescreve-se que não se fale disso ao que não haja tido a ventura de vê-lo”. (Plotino, Sexta Enneada)

Introdução

Os “mistérios” se apresentavam, na Antiguidade, como verdadeiros festivais, oportunidades de encontro e peregrinação, para os quais acorriam pessoas de lugares distantes em busca de auto-conhecimento. Encontravam-se consigo mesmos, com os demais, com o universo, a natureza, as divindades. Remontam às antigas Escolas de Mistérios do Egito, organizadas por Tutmós III, avô de Akenaton, há cerca de 3.300 anos. Tinham lugar em Luxor e Karnak, depois em Alexandria e dali expandiram-se para a Grécia, a Itália, Oriente Médio, o mundo da época.

A palavra “mistério” origina-se do grego Mysthes, plural Mysthai, reunindo um conjunto de significados a partir de objetos a simbolizar, em aproximação ao “insondável, indizível, inaudível, intocável”, portanto, “misterioso”. Essencialmente, o mysthes se refere à impossibilidade de abarcar a Vida e a Morte, a abrangência do que significa nascer e morrer, o que é, por que, para que e assim por diante.

Portanto, pessoas interessadas nas questões decisivas para a compreensão de si mesmas, das relações com os demais, o mundo, a natureza, o universo, acorriam a determinados lugares onde lhes era oferecida a oportunidade de adentrarem os Mysthai. Dependendo do lugar, portanto, da cultura do contexto, constelavam-se mitos, formas de apresentação mais ou menos dramáticas, crenças, situações, enfim, toda uma ambientação destinada a tocar fundo na emoção dos iniciandos. Pode-se, assim, afirmar, que a operacionalização global dos Mysthai delineava-se como verdadeiras Iniciações.

Ada D. Albrecht, pesquisadora dos Mistérios levados a efeito em Eleusis, na Grécia Antiga, afirma que “os Eleusinos sabiam da intransmissibilidade desse estado de consciência, e assim o chamado “voto de silêncio” era condição sine qua non para lograr a participação nos Mistérios” (1994,p.12). E mais adiante, relata o depoimento deixado por viajantes: …”viram uma luz gigantesca, que partia de Eleusis, e uma caravana de trinta mil homens aproximadamente, que cantavam em coro o nome sagrado de Iachos, o deus eleusino – Baco” (…) “Iachos, deus máximo de Eleusis, junto com a deusa Deméter e sua filha Koré – Perséfone” (Idem, 12-13): tal era a constelação mitológica envolvida na essência dos Mistérios de Eleusis.

Dionysos: a criança no peito

Na citada obra de Ada Albrecht, situamos a origem de Dionysos como fenícia: Iachos significaria “a criança no peito”. Se o alinhamos a Baco, o “deus da divina ebriedade”, situado na geografia de Eleusis, torna-se possível aproximar Iachos a Dionysos, pois a ebriedade eleusina tinha caráter de Sabedoria ou estado de EPOPTEIA, estado de consciência possível de contactar o Saber, o Divino.

Simbolicamente, “a criança no peito” poderia ser aproximada a Deméter. “Longínquas tradições orientais costumam falar-nos da sabedoria do olho e da sabedoria do coração, insistindo em chamar a esta última de verdadeira sabedoria, isto é, a que se torna experiência viva para a alma, além de mera especulação teorética, discursiva, não doadora de nenhuma vivência espiritual” (obra cit. P.14).

Desta forma, Iachos simboliza esta criança no peito da Grande Mãe Deméter; Dionysos seria a força de ser oculta no coração do ser humano e que pode despertar para a verdadeira sabedoria, se guiado por outros que já o conseguiram: os guias iniciáticos. Em Eleusis, duas famílias se destacaram: os Eumólpidas e os Kerikes. Os primeiros encarregavam-se dos cultos: Eumolpes teria recebido sua função da própria Deméter, que lhe confiara os segredos do culto. Diodoro de Sicília afirmou que os eumólpidas derivavam dos sacerdotes egípcios. Na verdade, encontram-se semelhanças entre os cultos a Ísis e os eleusinos, a Deméter.

Os Kerikes eram encarregados de apresentar os objetos sagrados, os “hieros“. O hierokeris, ou Heraldo, proclamava os Mistérios, devendo para isso ter uma voz potente. Parece que os kerikes derivam em última análise do Heraldo Divino: Hermes (Ibidem, p.72). Daí também serem chamados de Hierofantes, os que desvelam o sagrado. Portanto, muito mais que uma “bela voz” para dar início aos mysthai, estavam envolvidos no ofício sagrado de recitar “palavras de poder”, em sua correta inflexão, remontando aos “Sama Veda”, conhecimentos do canto, dos mantras, invocando a presença dos deuses. Os hierokeryx custodiavam os objetos sagrados.

Havia ainda sacerdotisas em grau bastante elevado, como as hierofantidas, dedicadas ao serviço das deusas mãe e filha; e as panageys, espécie de monjas, também chamadas de “abelhas”, cuja função nos mistérios é pouco conhecida – uma vez que pouco mencionadas, devido aos votos secretos. Finalmente, citam-se também os “iachogogos“, que acompanhavam a estátua de Dionysos, desde Atenas até Eleusis, nas peregrinações; os “hidranos“, encarregados da purificação dos fiéis e os “daduchos“, dos fiéis comuns.

A partir das escavações feitas em Eleusis, Picard pode demonstrar suas origens cretenses; baseado principalmente no hall de Iniciação do famoso Telesterion eleusino, análogo as construções cretenses. Afora tais especulações, nada se tem de concreto, nem objetos, nem outras provas dos ritos dionisíacos ali levados a efeito. Pergunta-se Ada Albrecht: “Como havemos de apreender o esoterismo do mito eleusino? Como culto agrário, tão somente? As sagradas epopteias de seus misthay, simples euforias subministradas por fungos alucinógenos? (…) Eleusis, de qualquer modo, parece significar “el lugar del arribo feliz”, vocábulo ao qual se lhe relaciona com outro de significado ainda mais preclaro: ELYSON, o “reino do sagrado, do bendito”. Neste lugar, o ser humano chegou a um cume de desvelação espiritual apenas pressentido por nós” (pp.18-19).

As origens de Eleusis são baseadas em conjeturas, porém não o seu final: reconstruída e ampliada nos tempos de Solon, depois de Pisístrato e Pericles; dizimada pelo Cristianismo, teve seu fim definitivo com Juliano o apóstata, no terceiro século de nossa era; Teodósio, em fins do séc. IV, proibiu os cultos aos mistérios. No séc. V, a área foi usada como cemitério. Tudo o que resta desses cultos e mitos está espalhado pela literatura greco-romana como depoimentos de viajantes que por ali passavam e o pouco que os iniciandos comunicaram boca a ouvido, daquilo que podiam afirmar, sem ferir seus votos.

Hino a Deméter (fragmentos da Ilíada, de Homero)

A Deméter, de formosa cabeleira, veneranda deusa, começo a cantar; a ela e a sua filha raptada por Aidoneo(…) enquanto brincava com as filhas do Oceano, e colhia flores, rosas, açafrão, formosas violetas, jacintos e aquele narciso que a Terra produziu tão admiravelmente (…) pela vontade de Zeus para enganar a donzela e comprazer a Hades(…) Cem capuchos brotaram de sua raiz, e ao espargir-se o suavíssimo odor, sorriam o alto céu e a terra inteira, e a salobra água do mar. Ela estendeu admirada os braços para colher o formoso brinquedo; mas então a terra abriu-se…e surgiu o soberano Polidegmon, filho famoso de Cronos …arrebatando-a no seu carro de ouro levou-a chorando e gritando(…) mas nenhum dos mortais ouviu sua voz, somente a filha de Perseu, a de ternos pensamentos, desde sua caverna, Hécate, a de luzente diadema- e o Sol soberano, filho de Hiperion, quando a donzela invocava seu pai(…) Foi sua mãe que ouviu-lhe a voz, sentindo nesta aguda dor que transpassava o coração, jogou seu manto sobre os ombros e saiu pressurosa a indagar por terra e por mar; mas ninguém quis revelar-lhe a verdade. Durante nove dias vagou pela terra. Quando a décima Aurora resplandeceu, Hécate a encontrou, com a tocha na mão, para dar a notícia. Ambas dirigem-se com tochas acesas até o Sol, que saúda a filha de Rea e conta que Hades a raptou para torná-la sua esposa. Oferecendo sua carruagem, Deméter segue até a morada de Celeo, rei da perfumada Eleusis. Aflita, ela senta-se no poço Partenius, a sombra de uma oliveira, onde vem buscar água Calidici, Clisidice, Demo a amável e Calitoe, a maior delas, todas filhas de Celeo Eleusinida e se estabelece um diálogo entre elas (…) Encheram de água seus vasos e regressaram a casa, contaram a sua mãe o que ouviram e viram e ela mandou buscar Deméter, oferecendo-lhe imenso salário. Voltaram e encontrando Deméter, a conduziram a mansão de Celeo, aluno de Zeus e a deidade nada falou, não quis sentar nem descobriu sua cabeça com o manto que a cobria. Até que Yambe, a de castos pensamentos, apresentou-lhe uma grande cadeira, coberta de manto branco. Então a deusa senta e retira o véu consumida pela solidão da filha. Yambe falava e contava anedotas até fazer a deusa rir. Metanira lhe traz um copo de vinho, e Deméter diz não ter licença para beber. Preparam então uma mistura em beberagem, que a deusa aceita em conformidade aos ritos (aqui se perde um fragmento do texto de Homero)* e Metanira começou a dizer: Salve mulher, pois teus pais não são vis e sim nobres; o pudor e a graça brilham em teus olhos(…)cria minha criança que os imortais me deram tardiamente(…)Ao que Deméter responde: “Salve tu também, e que os deuses te cumulem de bens. Com gosto criarei teu filho e que o hipotamno (erva para beberagens mágicas) nunca lhe cause dano, pois sei um remédio contra o funesto sortilégio (hilótomo, antídoto formado por ervas do bosque)“.

O texto da Ilíada termina dizendo que Deméter criou o filho de Metanira com ambrosia, pois não o sustentavam os seios maternos. A criança cresceu sob os cuidados da deusa, porém um dia Metanira espia o leito da deusa e esta a amaldiçoa, exigindo para ela um templo, onde deverá ensinar os mistérios aos eleusinos. Assim, Deméter reina no templo onde se originam os Mistérios de Eleusis.

Segundo Mircea Eliade, em sua obra acerca das Iniciações Místicas (1986, 187 ss.), o mito de Deméter *** já era conhecido dos inúmeros peregrinos que acorriam a Eleusis para a Iniciação. Com tochas na mão, iniciava-se a primeira fase, quando reviviam o rapto de Perséfone e a buscavam pelos arredores. Então, ouviam a voz do Heraldo, anunciando os Mistérios e se aproximavam do Telesterion para serem preparados para a iniciação. Aristóteles já afirmava que o mysthes conhecia o mito, porém tinha que fazer alguns gestos e olhar os objetos a ele apresentados. O que se seguia ninguém sabe, afirma Eliade, pois no Hino a Deméter lemos que “um grande pavor aos deuses lhes contém a voz” e o coro de Edipo Rei afirma que os Eumolpidas chaveavam com ouro a língua dos mortais.

Clemente de Alexandria (Proteptico, II, 21, 2) legou-nos a fórmula falada pelo mysthes: “Jejuei, bebi o kykeon, recebi a cesta e manipulei os objetos devolvendo-os à cesta”. O kykeon era uma mescla de cevada, água e pólen, a mesma oferecida por Metanira a Deméter. Logo vinha a representação da descida aos infernos, em busca de Perséfone.**** Eliade mostra as raízes gregas para Iniciação (telesisthai=ser iniciado) e inferno (teleuthan=morrer), pois a descida ao Hades significava a morte e todo o grego sabia disto. “Morrer é ser iniciado”, já dizia Platão. Receber a cesta significava tornar-se um mysthes e destapar os objetos era descer aos infernos. Manipular os objetos era ser adotado pela deusa e poder seguir os epopteia, tornar-se um epoptes, “o que vê” (iluminar-se).

Segundo Walter Otto (The meaning of the eleusian mysteries) não cabe dúvida respeito à natureza milagrosa do acontecimento: tanto a espiga de trigo que amadurece sob as bênçãos de Deméter, quanto os vinhedos em honra a Dionysos representam em Eleusis a transformação iniciática. Diz Mircea Eliade que “pecaríamos em ingenuidade se quiséssemos oferecer em poucas linhas o que aconteceu durante mais de um século nos Mistérios Eleusinos. Pois eles são a herança, como o dionisianismo e o orfismo, de crenças e ritos enormemente arcaicos. Nenhum dos cultos iniciáticos pode ser considerado redutivamente como criação grega. Suas raízes fundam-se nas profundidades da proto-história.

Tradições cretenses, asiáticas, trácias foram recuperadas e integradas – Eleusis tornou-se o centro dessa tradição. Descende de rituais agrários de morte e ressurreição de deuses ligados a natureza e a sociedades matriarcais arcaicas. As experiências do iniciando têm natureza de transmutação, de transcender a condição humana e alcançar um modo transcendente de viver. Apuleio relata que ao iniciar-se nos Mistérios de Ísis acercou-se do reino da morte com o fim de renascer espiritualmente. Os rituais de Osíris e Ísis se fazem presentes em Eleusis, tanto quanto o da Grande Mãe frígia. Salustio refere que os iniciandos frígios eram alimentados com leite, como recém-nascidos. Os textos de Mitra estão impregnados da gnoses hermética; seus rituais incluíam a morte simbólica do iniciando, que deitava numa tumba “nascendo pela segunda vez, para a verdadeira vida”. Trata-se sempre de uma regeneração espiritual, essa palingenesia que envolve mudança radical do regime existencial do iniciando. Afirma Eliade: “A divinização do homem não era em absoluto uma fantasia extravagante para o mundo antigo tardio” (Op. Cit. P. 192). Cícero escreveu: “Sabe-te pois que és um deus” (De Republ. VI, 17).

Os Mistérios Menores

Adentrando um pouco mais na profundidade dos Mistérios Eleusinos, Ada Albrecht apresenta-os em dois blocos ritualísticos: os menores e os maiores. Os mistérios menores eram requisito para os maiores. Aconteciam uma vez por ano, no início da primavera, o anthesterion, em homenagem a Ártemis, a deusa virgem irmã de Apolo. Eram cerimônias de purificação, as margens do Ilisio. Katerine Kanta, na obra “Eleusis” afirma que havia no grande prédio dedicado a Ártemis, templos a Deméter e a Perséfone. A finalidade destes lugares era oferecer aos neófitos oportunidade para jejuar, como sinal de purificação – requisito para a vivência de sua união com a divindade. O Mahabarata hindu predica que arroz, leite, coalhada e mel são os alimentos que preparam o candidato ao moksha, equivalente a epopteia dos gregos.

Os encarregados desses jejuns eram os mistagogos, sob a supervisão do hierofante. Também eram prescritos banhos ritualísticos, provavelmente no próprio Ilisio, assim como o Ganges e o Jordão servem até hoje como purificação para hindus e cristãos. Havia a entoação de hinos sagrados, sacrifícios as deusas e cerimônias em recordação ao deus Dionysos. Ainda que determinados estudiosos neguem a presença de Dionysos nos Mistérios eleusinos, Ada Albrecht considera de capital importância a inclusão desse deus em tais mistérios. “Sua presença metafísica dá sentido ao conjunto das peças ritualísticas dos mistérios eleusinos”. Veremos mais adiante como a invocação a Iachos era de fundamental importância para dar início aos Mistérios Maiores.

Os Graus Iniciáticos e os Mistérios Maiores

Segundo Teon de Smirna, os Mistérios Eleusinos compreendiam cinco graus: purificação, comunhão mística, Epopteia, coroação, comunhão divina. Plutarco narra a iniciação de Demetrio Polioirketes desde a purificação até os epopteia, mas isso não fundamenta a possibilidade de que houvessem somente três graus. De fato, os assim chamados Triptolemos, baseados nas teoria s gregas dos números, mostram sempre agrupamentos de três blocos ritualísticos. Ada Albrecht, após acurado estudo, agrupou em nove (três vezes o três) as cerimônias dos Mistérios Maiores, inclusive com as datas: iniciavam no dia 15 do mês boedromion até o dia 23, assim distribuídas:

  • dia 15 do boedromion: Agyrmos, reunião. Proclamação;
  • dia 16: Elasis ou Helade Mysthai: “Ao mar, ó iniciados!”;
  • dia 17: Hiereia Deuro: Sacrifício das vítimas;
  • dia 18: Epidauria ou Asclepia;
  • dia 19: Iachos ou Pampa, procissão;
  • dia 20: Telete (mysteriodites Nychtes);
  • dia 21: Epopteia;
  • dia 22: Plemochoai;
  • dia 23: Epistrofe.

Primeiro dia: Agyrmos, proclamação

Aqueles purificados de toda contaminação (moral) cujas almas se acham conscientes de não haver cometido atos diabólicos, que tem vivido moral e justamente, cujas mãos se encontram limpas (de pecado)…podem participar dos mistérios eleusinos e participar da epopteia.

Tal era a proclamação. Os espandódoros, descendentes dos clãs dos Eumólpidas e dos Kerikes, disseminavam-se pelas cercanias, fazendo a proclamação, não excluindo ninguém, nem mulheres, nem escravos nem sequer crianças: era a trégua divina, em que todos eram cidadãos com a possibilidade de vira abrigar a Criança no Peito, Dionysos em seus corações. O divino Iachos, a alma ressurrecta, habitaria a alma dos mortais, divinizando-a.

Segundo dia: Helade, Mysthai! Ao Mar, ó Iniciados!

Filósofos e homens do povo, mulheres, crianças, músicos, imperadores e imperatrizes, todos se igualavam nas fileiras, guiados pelos mistagogos, carregando um cordeiro nos braços, enquanto o hierofante os instava: Helade, Mysthai! O sacrifício dos animais deveria se dar sob adequados rituais e palavras, arrastando em seu sangue as impurezas que porventura pudessem macular os sagrados mistérios. Ensinamentos eram passados pelos mistagogos aos iniciandos pois, assim como o sangue dos cordeiros possuíam o dom da purificação, também a água do mar purificaria os pecados dos neófitos e era esta a primeira das transformações para a grande transmutação dos mistérios. Durante nove dias fariam estas abluções na água do mar, nove dias como Deméter peregrinou pela terra em busca da verdade sobre o rapto de Koré. Nos hinos órficos, o Theon Agnesma Megiston, o Oceano, é o Grande Purificador dos Deuses, uma gigantesca pia batismal onde o profano se torna sagrado.

Terceiro dia: Hiereia Deuro, sacrifício da vítima

Não é certo se neste grau o iniciando apresentava as deusas seu cordeiro sacrificado no dia anterior, ou se ele mesmo se apresentava como vítima a ser transformada em sagrado ofício. Parece ser, contudo, este o simbolismo de terceiro dia, uma vez que o número três é o da manifestação, o fruto da união do Céu (Koré) com a Terra (Hades). Há depoimentos, também, de que nestes ritos terceiros, agradeciam os iniciandos pelos bens que possuíam e imploravam proteção aos habitantes da terra.

Quarto dia: Epidauria

Fica difícil o entendimento da introdução das festas a Epidauro em meio a rituais destinados as deusas Mãe e Filha. Talvez a explicação resida no fato de que , quando o próprio Epidauro apresentou-se como neófito aos grandes mistérios, ele tenha chegado com um retardo, justamente neste quarto dia, agora, então, a ele dedicado. De algum modo, ele foi inserido entre os deuses transmutadores, que intercedem pela transformação dos neófitos, através de sua ressurreição, ou renascimento. Supõe-se, também, que este tenha sido um dia de descanso, pois encontra-se justamente no meio dos Mistérios maiores, necessitando os iniciandos de uma pausa em seus jejuns e abstinências.

Quinto dia: Pompa, procissão

Este era o dia que marcava o regresso dos Hiera de Atenas de volta a Eleusis. A caravana era formada por incontáveis peregrinos, coroados de mirto e já com as vestes ritualísticas. O centro da procissão era a figura do deus Iachos, ladeado pelos Iachogogos, os Hieras e as sacerdotisas da Deusa Mãe. Depois iam os oficias de estado, os mystai e as carroças com tudo o que seria necessário ser utilizado em Eleusis. Havia gestos e cantos a serem manifestos durante a procissão, onde o nome de Iachos era repetidamente pronunciado. Determinadas paradas, como junto a fonte de Kalikoro, onde Deméter havia também se refrescado em seus nove dias de busca. Tudo era simbolizado, significado e reverenciado. O preparo às epopteias havia já iniciado e era mister levar a bom termo.

Sexto dia: Telete

Para a maioria dos antigos filósofos, a união do ser humano com Deus era o cume da sabedoria. A célebre noite do dia 20 do boedromion era dedicada às virtudes purificativas da alma que contempla a Inteligência. Era, pois, uma concentração em estados superiores de consciência, frutos dos jejuns e cerimoniais que precederam . Nesta noite, algo se mostrava aos neófitos, algo era dito e algo se consagrava. A bebida de cevada, mel e pólen estava preparada e, através dela, se revivia o sofrimento de Deméter, se chorava pela deusa e a catarse era purificadora. Teria havido alguma representação, alguma dramatização, mas tudo isso é hipotético. Os depoimentos de quem teria de longe visto alguma figura se movendo, algum tipo de “aparição milagrosa”, como que apresentando Perséfone de volta ao seio da Grande Mãe. Contudo, não foi dado a nenhum historiador, nenhum arqueólogo, nenhum narrador, desvendar o que, quem, como se dava a dramatização. Sabe-se, porém, que se dava.

Os Hiera

Os hiera eram os objetos sagrados, guardados em cestas especiais atadas com fitas vermelhas, que na noite do dia 20 seriam levadas custodiadas pelos hierofantidas até o Eleusinon de Atenas. Porém, Ada Albrecht discorda que os Hiera fossem apenas objetos, chamando a atenção para o simbolismo aí implicado: os ovos, como gênese da vida; a serpente e o lingam ou falo, pai da fecundidade e os grãos, da mesma forma, frutos da comunhão. Contudo, deve ter havido algo mais além do que o olho do misthes podia ver, como objeto cotidiano. “A metamorfose espiritual dos mysthai se operava em planos supraconscientes, onde os elementos materiais apenas se figuravam“, afirma a autora (op.cit., p. 107). Dependeria das capacidades perceptivas do iniciando ir além dos cinco elementos apresentados no fundo quer dos kalathos (canastas pequenas) quer dos cistes (canastas grandes).

Sétimo dia: Epopteia

Diz-se que a Filosofia é filha do assombro diante de questões como: de onde venho, quem sou, para onde vou…Um em um milhão consegue encontrar o caminho e a saída, como raros são os individuados, que atingiram o Mistério da união com o Si-Mesmo. Este sétimo dia era a oportunidade para que o mysthes encontrasse a si mesmo, fosse um com a Criança Divina. Em outras palavras, Epopteia era a vitória sobre o Ego, a total entrega ao contato com os deuses, Iachos, Deméter, Koré. Alguns fazem a elucubração de que Deméter adentrava o Telesterion onde copularia com Iachos. Outros fazem aproximações entre a trina divindade; Iachos, Deméter e Perséfone fariam seu encontro no Telesterion, frente aos iniciados. A simbologia é clara: os deuses se manifestam aos Mysthai, sendo Epopteia realmente a vinculação com as divindades, o reconhecimento de sagrado em si mesmo. Finalizava-se a cerimônia com as palavras “Pax, Konkx” (Basta, finalizado), ao que todos responderiam “amen“, uma espécie de reafirmação espiritual de que houvera participação.

Oitavo dia: Plemochoai

Grande significado encerravam os vasos (plemochoai) que continham certo líquido que era “derramado abundantemente” em direção a Leste e a Oeste – simbolizando nascimento e morte. Ao mesmo tempo, segundo Hipólito, era pronunciada a palavra hay-kie, (flui, derrama-te). Segundo Proclo, a primeira palavra era pronunciada em direção ao céu e a segunda em direção á terra, não se sabe ao certo se com isso simbolizavam a união pai-mãe, deuses-homens… Isto é tudo o que se sabe a respeito do oitavo dia.

Nono dia: Epistrofe

Não existem referências seguras sobre o retorno do deus Iachos a Atenas. Em grupos pequenos, regressavam os peregrinos a cidade mais central, encerrando assim o mês do boedromion, tão pleno de significação para o mundo grego da época. Eleusis voltava a velar-se em seus mistérios, enquanto despedia os visitantes, agora renascidos, levando consigo as experiências de vinculação com as divindades.

Marcel Detienne, em seu livro “Dionysos a céu aberto”, nos fala de um deus que é viajante, em sua barca amarela ou no dorso dos golfinhos, e por ser viajante, é um deus estranho aos lugares onde chega, estrangeiro que chega e parte, como em Eleusis, para onde é conduzida sua figura em procissão e de onde deverá partir ao décimo dia, após presidir os Mistérios. O autor fala também das homologias entre Dionysos e Deméter, referentes aos mistérios de Eleusis. Dionysos ***** como um deus “orthos” (correto), e que promove correção, transforma as bebidas ácidas anteriores aos seus cultos em vinho de sabor agradável e efeitos transcendentes; Deméter, que auxilia a correção da postura, pois preside aos que andam para baixo (deprimidos) a ficarem eretos e a olharem a vida de frente. Tais eram as devidas transformações e correções que ocorriam nos diferentes rituais, tanto a Iachos-Dionysos, quanto a Demeter-Perséfone, durante os nove dias iniciáticos do mês boedromion.

Ensaio de Conclusão

Obviamente, este é um tema que não se conclui. Servimo-nos de Robert Graves, em sua obra “Os dois nascimentos de Dionysos“, na qual ele ensaia uma aproximação do deus duas vezes nascido, único deus masculino a tomar parte nos mistérios de Eleusis – à deusa das colheitas Deméter, que espalhou ao mundo os segredos de plantar e colher trigo. O autor defende a hipótese de que o “soma” bebido pelos neófitos, nas iniciações eleusinas, era feito do mesmo fungo do original soma védico, afirmando, finalmente que “os deuses alimentam-se de fungos”. Da mesma forma como o grão de trigo desce as profundezas, num processo de transformação de morte-renascimento (simbolizando a mitologia da descida de Koré ao Hades e a sua volta aos braços da Grande Mãe) – assim também Dionysos preside aos ritos de morte e renascimento dos mysthai de Eleusis, sendo o ápice destes ritos a Epopteia devida a ingestão da mesma bebida que Deméter tomara num dos nove dias de busca da verdade sobre o desaparecimento de Perséfone.

Poder-se-ia estabelecer uma analogia com o processo de individuação, em suas etapas de separação (análise) e reunião (síntese), pelo encontro com o Si Mesmo. Jung estabeleceu relações com o processo alquímico “solve et coagula“, completando-se a obra pela Coniunctio, o hieros gamos, a mesma união com a divindade, fruto da Epopteia eleusina.

Finalmente, voltamos a citar Mircea Eliade, que afirma que “a transmutação ontológica do iniciado se verifica sobretudo na existência após a morte” (op. Cit. P. 192. (…) A Iniciação era, pois, a maneira de obter um status ontológico sobre-humano, mais ou menos divino e de assegurar-se a sobrevivência post-mortem, senão já a imortalidade” (idem ibidem).

Reza o Hino a Deméter: “Ditoso o homem que, vivendo na terra, viu tais coisas! Quem não conheceu as sagradas orgias e quem nelas tomou parte, não terão sobre a morte igual destino”. E Píndaro cantou: “Ditoso aquele que viu isto antes de baixar à terra. Conhece o termino da vida, conhece também o começo”. E Sófocles encerra: “Oh três vezes ditosos os mortais que, depois de contemplarem estes mistérios, partam a morada de Hades: somente eles poderão ali viver; para os demais, tudo será sofrimento”.

Questões Finais

* Seria apenas uma infeliz coincidência que, na Ilíada de Homero, um dos fragmentos do Hino a Deméter, justamente o que se refere aos ritos eleusinos, tenha sido perdido?

** Deméter deveria constelar os saberes da Grande Mãe das sociedades agrárias matriarcais no que se refere ao “hilótomo” (antídoto formado por ervas do bosque) – usado contra os funestos sortilégios do “hipotamno” (erva para beberagens mágicas)?

*** Deméter tem o mérito de haver legado ao Ocidente os saberes construídos pelas sociedades arcaicas. Não seria um reducionismo ingênuo considerar a deusa como vulnerável, motivada por uma necessidade de participar do mundo dos homens e por isso mesmo criando os Mistérios? A sua verdadeira motivação não teria sido justamente legar ao Ocidente Mistérios já conhecidos muito anteriormente? Sua necessidade básica não teria sido, então, recuperar o verdadeiro Dionysos?

**** Da mesma forma, Perséfone adquire status como peça chave no simbolismo dos “hiera” (objetos sagrados) contidos nas canastas e manipulados pelos iniciandos. A deusa filha representa os grãos que descem ao Hades (Morte) e renascem no tempo da colheita (Vida).

***** Finalmente, Dionysos, um deus redutivamente ligado a bacanais desenfreadas, a beberagens e desvarios; surge na constelação mitológica de Eleusis como o deus que promove correção no modo de vida do iniciando, transformando a acidez das bebidas em vinho suave, promotor também da Epopteia (iluminação). Analogamente, poderíamos citar o Cristo, quando diz: “O meu jugo é manso e o meu peso é leve”. E, para terminar, o Mistério da “trans-substanciação” da água em vinho (sangue do Cristo) e do trigo em pão (corpo de Cristo), na missa – um ritual legado pelos rituais mitraicos…

Autora: Terezinha M. Vargas Flores

Doutora em Psicologia

Referências Bibliográficas

ALBRECHT, Ada Dolores, Los Misterios de Eleusis. Buenos Aires: Editorial Hastinapura, 1994.DETIENNE, Marcel, Dioniso a Céu Aberto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986.ELIADE, Mircea, Iniciaciones Misticas. Espanha: Taurus Ediciones S/A, 1986. GRAVES, Robert, Los Dos Nacimientos de Dioniso. Barcelona: Biblioteca Breve, 1984. JUNG, C. Gustav, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis (RJ): Ed. Vozes, 2000.RUBY, Paulo, As Faces do Humano: estudos de tipologia junguiana e psicossomática, S.Paulo: Oficina de Textos, 1998.TORO, Rolando, Biodanza, S.Paulo: Ed. Olavobrás/EPB, 2002.

* Apresentado no Congresso da Associação Junguiana do Brasil, Belo Horizonte, 6~9 de setembro de 2000.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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