Mitos maçônicos: O “Dia do Maçom”

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O dia 20 de agosto, ao contrário do que muitos pensam, não é o autêntico e histórico Dia do Maçom. Poderia ser qualquer outra coisa se considerássemos (ou soubéssemos) que a Igreja católica comemora, no 20 de agosto, a morte de São Bernardo de Claraval, o possível provável primeiro Grão-Mestre dos Templários. No 20 de agosto comemora-se também a morte dos papas Pio VII e Pio X; é também o dia do papeleiro, dia do vizinho, o aniversário da cidade de São Bernardo do Campo e do município de Albufeira em Portugal. Por último, e não menos importante, 20 de agosto de 1969 foi a data em que os Beatles se reuniram, pela última vez em estúdio, para finalizarem o álbum Abbey Road.

Ouvi dizer que em 1994, durante a reunião anual dos Grão-Mestres das Grandes Lojas da América do Norte, foi aprovada a data de 22 de fevereiro como Dia Internacional do Maçom… isso porque em 22 de fevereiro de 1732 nascera George Washington, expoente da independência dos Estados Unidos e criador do sistema de Grandes Lojas estaduais na América. No ano seguinte, o GOB aderiu a essa ideia (Decreto Nº 003, de 10 de fevereiro) e passou a comemorar o Dia Internacional do Maçom em 22 de fevereiro. Mas o famigerado 20 de agosto prevaleceu.

Por que?

É uma longa história que teve início com um equívoco cometido por José Maria da Silva Paranhos[1] ao interpretar incorretamente as datações maçônicas. A relação entre o calendário oficial (Era Vulgar) e o cômputo dos dias adotado pela antiga Maçonaria (Anno Lucis) foi desconsiderada pelo Visconde. A patusca desordem teria parado nessa “cronologia” se infundadas decisões não viessem se somar às já anteriormente cometidas.

SOBRE OS CALENDÁRIOS

No século dezenove a Maçonaria adotava oficialmente o ano da Verdadeira Luz ‒ Anno Lucis ou Year of Light ‒ conforme a crença de que o mundo fora criado em 4000 a.C. ou que nesta auspiciosa data a Luz Verdadeira fora conferida a Adão. Dessa forma, nossos Irmãos contavam os meses e dias de acordo com o calendário “da natureza”, começando o ano em Nissan (nome do mês judaico) que marca a primavera no hemisfério norte e outono no sul[2]. No calendário judaico, os meses podem ter 29, 30 ou 31 dias dependendo da lua nova. Por isso as festas judaicas são móveis: Korban, Pesach, Shavuot, Rosh Hashanah, Yom Kippur, Hanukkah, etc. Pela mesma tradição, a Páscoa católica é celebrada no primeiro domingo seguinte à primeira lua cheia eclesiástica que ocorre, entre nós, no equinócio de outono (março/abril); o Corpus Christi vem 60 dias depois da Páscoa e assim por diante.

SOBRE AS DATAS

Entre os dias 17 de junho e 25 de outubro de 1822 foram realizadas dezenove sessões no Grande Oriente Brazílico (assim era o nome, com ‘z’). Entre essas sessões, a do VIGÉSIMO DIA DO 6º MÊS DA VERDADEIRA LUZ DE 5822, ou seja – no dia 9 de setembro de 1822. O sexto mês da Verdadeira Luz, a contar de Nissan, é Elal. Já o ano 5822 é a soma de 4000 Anno Lucis ao ano civil 1822. Nessa célebre sessão de 9 de setembro de 1822 (vigésimo dia do 6º mês da verdadeira luz de 5822) os Irmãos do Grande Oriente, sem terem tomado conhecimento do que acontecera em São Paulo dois dias antes (7 de setembro), atenderam à moção do Irmão Joaquim Gonçalves Ledo[3] e proclamaram, em Loja, a Independência, cuja legalização iriam submeter e atribuir a D. Pedro[4].

Naquele tempo, a distância entre o Ipiranga (São Paulo) e o Rio de Janeiro era de aproximadamente 7 a 10 dias, a cavalo. Mas as notícias vinham nos lombos de simples mulas. Portanto, a proclamação da Independência, intelectualmente articulada dentro do Grande Oriente e o vibrante discurso do Irmão Gonçalves Ledo, fazendo sentir a necessidade da Independência, aconteceu no dia 9 de setembro, quando o “grito” já havia sido dado às margens plácidas do Ipiranga. Gonçalves Ledo e os demais Irmãos só tomaram conhecimento disso mais tarde.

SOBRE A CARTA

Conta-nos o padre Belchior[5], em carta de 1896, que no dia 7 de setembro de 1822, o Príncipe D. Pedro mandou-o ler em voz alta as cartas trazidas de Portugal. Ali mesmo, do Ipiranga às margens plácidas, tremendo de raiva, D. Pedro arrancou das mãos do padre os papéis e, amarrotando-os, pisou-os sobre a relva.

“D. Pedro – diz textualmente a carta ‒ caminhou alguns passos, silenciosamente, acompanhado por mim, Cordeiro, Bregaro e outros, em direção aos nossos animais, que se achavam à beira da estrada. De repente estacou-se, já no meio da estrada, dizendo-me: ‒ Padre Belchior, eles o querem e terão a sua conta. As Cortes me perseguem, chamam-me, com desprezo, de rapazinho e brasileiro. Pois verão agora o quanto vale um rapazinho. De hoje em diante estão quebradas nossas relações: nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal! E arrancando do chapéu o laço azul e branco, decretado pela Corte como símbolo na nação portuguesa, atirou-o ao chão, dizendo: ‒ Laços fora, soldados! Viva a independência, a liberdade, a separação do Brasil. E – prossegue o padre Belchior – “galopou, seguido de seu séquito, em direção a São Paulo (…) mal apeara da besta, D. Pedro ordenou ao seu ajudante de ordens que fosse às pressas ao ourives Lessa e mandasse fazer um dístico em ouro, com as palavras “Independência ou Morte”, para ser colocado no braço, por um laço de fita verde e amarela.”[6]

AS DATAS SEGUNDO MÁRIO BEHRING

Cem anos mais tarde, o Grande Oriente do Brasil tornou público e oficial o Ato que mostrava ser o 7 de Setembro correspondente ao 20º dia do VI mês. No Ato de 1922, o então Grão-Mestre Geral do GOB, Irmão Mário Behring, visando dirimir dúvidas sobre a relação das datas do calendário oficial e o cômputo dos dias adotado pela Maçonaria, compilou os principais eventos do calendário usado na época da Independência, quando o ano maçônico começara em Nissan, finais de março. Eis alguns excertos na grafia da época:

“(…) 5º – Iniciação do Principe Regente como maçon, na Loja “Commercio e Artes” a 2 de Agosto de 1822, da E.: V.:, 13 do V mez do anno de 5822, da V.: L.:, donde resultou sua mais intima ligação com a Independencia, como se verifica do seu manifesto de 6 do mesmo mez; 6º – O grito de Independencia ou Morte, dado pelo Principe Regente nas margens do Ypiranga, 7 de Setembro de 1822, da E.: V.:, 18 do VI mez do ano de 5822, da V.: L.:, e proclamação da Independencia votada nas sessões do Grande Oriente do Brasil a 9 e 12 de setembro do mesmo mez e por editaes do Senado e da Camara do Rio de Janeiro, de 21 do dicto mez e anno; 7º – Finalmente, a posse do Principe Regente como Grão Mestre da Maçonaria no Brasil, a proclamação do Imperio e a aclamação do Principe a Imperador Constitucional do Brasil e seu Defensor Perpetuo, a 4 de outubro de 1822, da E.: V.:, 14 do VII mez do anno de 5822, da V.: L.:, e designação do dia 12 do mesmo mez (22-VII-5822) para se tornar publico e official esse acto”… (conforme José Castellani em “Do Pó dos Arquivos” ‒ Editora CopyMarket, 2000.) Nota-se, entretanto, que Mário Behring registrou o 7 de setembro de 1822 como sendo o 18º dia ao invés de 20º.

CONSUMAÇÃO DO ERRO

Apesar da cronologia enfeixada por Mário Behring, o Irmão Osvaldo Teixeira, da Loja “Acácia Itajaiense” de Santa Catarina, encaminhou, de boa-fé, uma proposta à reunião da Confederação das Grandes Lojas realizada em Belém entre os dias 17 e 22 de junho de 1957, sugerindo o dia 20 de agosto como Dia do Maçom “por ter sido a data da proclamação da independência dentro de um templo maçônico“. Equivocou-se, e os presentes à reunião da Confederação (que hoje é a CMSB), desconhecendo o Ato do então Grão-Mestre do GOB ‒ e posterior fundador das Grandes Lojas, Irmão Mário Behring ‒ aceitaram, na febre do entusiasmo e também de boa-fé, a velha e canhestra interpretação de José Maria da Silva Paranhos. Acertaram quanto ao mês (Ab/Elal), mas erraram quadraticamente quanto ao vigésimo dia. Num ímpeto de desatenção, esqueceram que Nissan não começa em 1º de março, mas no equinócio de outono (entre nós 20/23 de março, conforme a lua). Mas quantos gostam de estudar? Por falta de bom assessoramento, ficou consagrado o erro de vinte dias, pelos motivos assim demonstrados.

HOJE

As potências brasileiras se conformaram com o 20 de agosto, data que não coincide com os fatos históricos. Sei que estas considerações poderiam provocar polêmicas intermináveis, mas este não é o meu propósito. Há equívocos muito maiores e relevantes para serem corrigidos e eu, por amor à minha pele, evitarei falar deles[7]. Mesmo assim aceitarei de bom grado quaisquer correções que os estudiosos me enviarem, desde que fundamentadas em fatos históricos e/ou documentos.

Na prática só existem dois caminhos a seguir: a coragem e a modesta altivez de corrigir o erro e definirmos uma data coerente para a celebração do dia do Maçom, ou deixar tudo como está “neste que é o melhor dos mundos possíveis”, como afirmava Voltaire. Afinal de contas, o que vale mais? O “uso do cachimbo que fez a boca torta” nesses últimos 58 anos, ou a transmissão da verdade histórica de quase duzentos anos para as futuras gerações?

Se nalguma ocasião for convencionada a outra data, que comemoremos as duas ‒ a certa e a errada ‒ pois sempre haverá espaço suficiente para discursos, ágapes e fotografias neste mundo de Deus.

Autor: José Maurício Guimarães

Notas

[1] – José Maria da Silva Paranhos (o pai), Visconde do Rio Branco e Grão Mestre do GOB, tinha apenas 3 anos de idade quando foi proclamada a Independência.

[2] – É no mês da primavera, Nissan, que se celebra a festa de Pessach (palavra hebraica que significa “passar além”, Páscoa), o êxodo dos judeus do Egito. Os meses do calendário judaico são I Nissan, II Iyar, III Sivan, IV Tamuz, V Ab, VI Elal, VII Tisri, VIII Cheshvan, IX Kislêv, X Tebeth, XI Shebat, XII Adar.

[3] – Primeiro Vigilante, empunhando o primeiro o malhete na ausência do Grão-Mestre José Bonifácio de Andrada e Silva.

[4] – Prefiro simplificar, pois na realidade, os fatos se deram entre os meses Ab e Elal. Mas o cálculo ficaria muito mais complicado!, seria exigir demais de maçons que estavam mais interessados em política profana e disputas pelo poder do que em qualquer outra coisa.

[5] – O padre Belchior Pinheiro de Oliveira, mineiro de Diamantina, foi grande amigo e possivelmente confessor de D. Pedro.

[6] – O verde “das matas”, o amarelo “do ouro”, o azul “do céu”, etc., são meras interpretações poéticas para a educação cívica das crianças. Na verdade o verde é a cor da Casa de Bragança, herdeira de Avis (D. Pedro I), sendo o amarelo a Casa dos Habsburgos, da qual Leopoldina, esposa de D. Pedro I, era filha. O azul salpicado de estrelas com o arco de metal inclinado, refere-se à esfera armilar dos navegantes portugueses.

[7] – … propter propriam cutem amare, salvo melhor latim, “o amor pela própria pele”.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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