Quem foi Hipólito da Costa?

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Filho do militar alferes Félix José da Costa Furtado de Mendonça e de Ana Josefa Pereira, Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça nasceu no dia 13 de agosto de 1774, em Colônia do Sacramento. Na época, o povoado estava sob o domínio da Coroa Portuguesa mas, tempos depois, passou a pertencer à Espanha e atualmente é uma cidade do Uruguai.

Hipólito era o primogênito da família e teve dois irmãos: Felício Joaquim, um padre brilhante, e José Saturnino, senador do império. Passou a infância entre criadores e lavradores nos campos do sul, onde teve seus primeiros ensinamentos, inclusive noções de latim ensinadas pelo tio, o Padre Pedro Pereira Fernandes de Mesquita.

Sempre consciente da importância do estudo na vida do filho, Félix José enviou Hipólito para estudar em Portugal onde o jovem se inscreveu em três cursos superiores na Universidade de Coimbra. Ele se formou em Filosofia aos 22 anos, em Direito aos 23 e em Letras aos 24 anos. Em Coimbra, Hipólito recebeu o impacto da profunda reforma universitária, realizada pelo Marquês de Pombal e por Verney. Após três meses de formado, em pleno reinado de D. Maria I, foi nomeado por D. Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de Linhares e Ministro da Rainha, para uma missão nos Estados Unidos.

Hipólito chegou à Filadélfia, após 59 dias de viagem de navio, em 13 de dezembro de 1798. Viveria durante dois anos num país completamente diferente do seu, recebendo em cheio o impacto das ideias maçônicas provenientes da França e da Inglaterra, nos recém-libertos Estados Unidos. Frequentou os meios profanos e maçônicos da Filadélfia. Segundo consta, foi iniciado maçom no dia 12 de março de 1799 na loja George Washington nº 59, aos 25 anos de idade.

A missão de Hipólito nos Estados Unidos tinha algo de secreto, pois foi enviado por Portugal para observar as novas técnicas implantadas pela nova república nas Américas e conseguir, no México, o inseto cochonilha para levá-lo a Portugal. Já naquela época, a cochonilha era utilizada na fabricação de corante alimentício e  têxtil, com alto valor agregado. Hipólito iria burlar a vigilância da alfândega espanhola que proibia, terminantemente, a exportação de tais itens.

Quanto aos Estados Unidos, Hipólito teria que apresentar relatórios sobre os seguintes assuntos: o cultivo de tabaco, arroz, cana de açúcar, como também a produção de minérios, a pesca da baleia e outras indústrias ou projetos de engenharia, especialmente os de hidráulica, navegação dos rios e de máquinas desconhecidas na Europa e que pudessem ser utilizados na economia portuguesa.

Em 1º de janeiro de 1799, Hipólito foi apresentado ao Presidente John Adams, apreciando a simplicidade com que esse tratava as pessoas, tão diferente da etiqueta da monarquia portuguesa. Um diplomata espanhol também apresentou Hipólito a Thomas Jefferson, tendo, inclusive, jantado ambos na casa deste, na Filadélfia.  O seu círculo de relações políticas incluíam, ainda, as relações oficiais com Timothy Pickering, secretário de Estado; Oliver Walcott, que sucedeu Alexander Hamilton, como secretário do Tesouro americano. Relacionou-se também, com vários emigrados franceses, pois existiam mais de 2.500 naquela época na Filadélfia, fugidos primeiramente do Terror e posteriormente de Napoleão Bonaparte, entre os quais um Colbert, descendente de Jean-Baptiste Colbert, ministro de Luís XIV; com Lefébure de Cheverus, futuro bispo de Boston e mais Olive e Mourque. Mecenas Dourado, um dos biógrafos de Hipólito, chega a afirmar que esse último francês teria apresentado Hipólito à Arte Real em Filadélfia, pois Mourque era filho da Viúva.

Hipólito escreveu um diário durante sua estada na América do Norte, extremamente minucioso, porém, jamais tocou no assunto sobre sua iniciação em 12 de março de 1799 na Loja George Washington. Teve, talvez, receio da Inquisição que perseguia os pedreiros-livres em Portugal e que haveria de ter, no futuro, consequências funestas sobre sua vida. Hipólito José da Costa teria pedido demissão da respectiva Loja pouco tempo depois. Os arquivos referentes ao ano de 1799 daquela Loja não mais podem ser consultados pois, lamentavelmente, um incêndio os destruiu em 1819. Os relatos de Hipólito e Coustos são peças clássicas da maçonaria universal no tocante à perseguição da Inquisição sobre os maçons nos primórdios do século XIX. Abundam, contudo, diversas citações sobre a “Framaçonaria”, como Hipólito a chamava. Em uma de suas citações, ele relata:

“A 1º de agosto, conversei com um português da Ilha da Madeira que, perseguido por ser framaçom, fugiu para a América, aí se estabelecendo. Quando chegou ao porto de Nova Iorque, onde não conhecia ninguém e a precipitação com que fugira, não lhe deu lugar nem a trazer uma carta de recomendação, arvorou uma bandeira branca com estas letras azuis – Azilum querimus -, pelo que quase todos os pedreiros-livres de Nova Iorque foram a seu bordo, recebendo-o depois e tratando-o com aquela hospitalidade que caracteriza esta sociedade”.

Numa outra, relata:

“… em 11 de setembro, visitei Bunker Hill, onde se deu a primeira batalha na Revolução da América e aí achei uma pirâmide com as armas dos pedreiros-livres em cima, e com a inscrição que devia ser erigida pela loje dos pedreiros-livres, em memória do general Dr. Joseph Warren”.

Hipólito retornou a Portugal no final de 1800. Lá, D. Rodrigo de Souza, que era ligado ao partido inglês, tinha fundado a Casa Literária do Arco do Cego, uma tipografia que, suprimida em 7 de dezembro de 1801, foi incorporada à Imprensa Régia. Hipólito, como diretor literário nomeado da Imprensa Régia, decidia o que seria publicado, revisava os textos e publicava artigos diversos.

Em abril de 1802, D. Rodrigo, então ministro da Marinha e Ultramar, mandou-o a Londres para comprar livros destinados à Biblioteca Pública e máquinas para a Imprensa Régia. A ida a Londres também possuía outro objetivo: estabelecer contato e reconhecimento da Maçonaria inglesa no tocante à sua congênere portuguesa.

Dos contatos com os principais próceres da Maçonaria portuguesa e sendo um homem acatado pela suas posição e cultura, Hipólito apareceu, em 12 de maio de 1802, às portas da Premier Grande Loja e foi recebido como plenipotenciário de quatro lojas portuguesas que desejavam erigir uma Grande Loja Nacional em perfeita amizade com a Grande Loja dos Modernos.

Sabe-se que os contatos de Hipólito lograram êxito, sendo o fato confirmado por William Preston, seu contemporâneo, colega de loja e autor da obra clássica “Ilustrações da Maçonaria” (Illustrations of Masonry, 1812). As intrigas em Portugal, por causa de sua viagem a Londres, campeavam soltas. Avisado de que seria preso se regressasse a Portugal, Hipólito fez ouvidos moucos. Assim aconteceu no final de junho de 1802, ao regressar a Lisboa. Prendeu-o José Anastácio Lopes Cardoso, corregedor de crime da Corte, o qual tinha instruções de Pina Manique, chefe de polícia, no sentido de procurar insígnias ou papéis que comprometessem o brasileiro. Colocado em segredo na cadeia do Limoeiro, nela permaneceu seis meses, sendo, depois, transferido para os cárceres da inquisição, de onde seria arrancado, depois de três anos, pela Maçonaria, com a compra de guardas e a intervenção dos Irmãos José Liberato e Ferrão.

Ao sair da prisão, Hipólito refugiou-se na casa do Irmão Barradas e no convento de São Vicente de Fora, para ser, depois, entregue aos cuidados dos Irmãos Rodrigo Pinto Guedes e José Aleixo Falcão. Somente depois de um ano, em 1805, é que conseguiria escapar para o Alentejo, como criado do Irmão desembargador Fillipe Ferreira. Posteriormente alcançou a Espanha, dirigindo-se, depois, à Inglaterra, onde viveu 18 anos até a sua morte, em 1823. Lá radicado, exerceu as funções de professor, tradutor, jornalista, impressor, além de ativista político e maçônico.

Em Londres, participou de várias lojas maçônicas. Tanto assim que em 1807 foi membro da Loja das Nove Musas e, em março de 1808, ingressou na Loja Antiquity, cujo Venerável Mestre era o Duque de Sussex. Chegou a ser Mestre Adjunto (Deputy Master) em 1812/1813 quando o duque era Venerável, ou seja, na ausência do duque presidia as sessões. Consta, ainda, ter sido um dos fundadores da Loja Royal Invernes, em 1814.

Foi muito chegado ao Duque de Leicester e amicíssimo de Augustus Frederick, Duque de Sussex, um dos filhos de Jorge III, primeiro Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra, desde sua criação em 1813 até 1843, quando veio a falecer. O duque, que conhecera Hipólito nas primeiras andanças maçônicas dele por Londres, passou uma temporada em Lisboa, já que por ali andou semi-exilado para esquecer os seus casamentos morganáticos. O duque de Sussex, quando retornou à Inglaterra em 1813, foi nomeado Grão-Mestre Adjunto dos Modernos, sucedendo seu irmão – o Príncipe de Gales – como Grão-Mestre dos Modernos. Por ocasião da fusão, tornou-se como Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra, tendo seu irmão – o Duque de Kent, grão-mestre dos Antigos – como Grão-Mestre Adjunto.

Após a derrota de Napoleão, a monarquia inglesa unificou sua maçonaria para melhor dominar o mundo de então. O duque de Sussex exerceu imensa influência sobre os destinos da maçonaria em seu tempo de grão-mestrado e teve, como seu secretário particular, o ‘nosso’ Hipólito que também participou ativamente, até a sua morte em 1823, de todos os mais íntimos segredos da fusão maçônica de 1813. Foi, também, membro da Loja de Promulgação (dos novos rituais) em 1809/1811, da Loja de Reconciliação 1813/1816, do Corpo de Mestres Instalados que existia na Grande Loja dos Antigos, mas inexistente nos Modernos. As mais recentes pesquisas maçônicas inglesas descobriram manuscritos de Hipólito sobre a elaboração dos novos rituais que resultaram na união das duas Grandes Lojas rivais.

Hipólito era tão íntimo do Duque de Sussex que chegou a ser nomeado por ele, Secretário para Assuntos Estrangeiros da Freemanson’s Hall, Presidente do Conselho de Finanças da Grande Loja de 1813 até a sua morte em 1823 e Grão-Mestre Provincial de Ruthland, apesar da inexistência de lojas nessa província. O duque foi padrinho de seu casamento em 1817 e liderou uma petição para a construção de um monumento em sua homenagem a ser construído na Igreja de Hurley, em Maidenhead. Hipólito era membro ativo do Royal Arch e acredita-se que tenha sido exaltado numa loja ligada aos Antigos. Assim, quando o duque foi instalado como First Grand Principal em 1810, Hipólito era um dos dois nomeados para examiná-lo no Royal Arch. Em 1819, o Supremo Conselho de França para o REAA conferiu, por patente, o grau 33 para ele e o duque.

John Hammil chega a dizer que

“H.J. da Costa, um homem de grande importância na história da Independência e da cultura do Brasil, e como se descobriu recentemente, de não menos importância no desenvolvimento de nossos rituais imediatamente antes e depois da União de 1813.” (AQC, 92:50).

Seu exílio em Londres não o fez esquecer o Brasil e a luta pela Independência, antes pelo contrário, acirrou o seu fervor de luta, tanto assim que a sua mais importante obra, todavia, foi a criação, em 1808, do CORREIO BRASILIENSE, ou ARMAZÉM LITERÁRIO, cuja publicação só seria interrompida em 1823 e que chegou a ter uma tiragem de 1000 exemplares em média. Este jornal não foi, apenas, o primeiro órgão da imprensa brasileira, ainda que publicado no Exterior, mas, principalmente, o mais completo veículo de informação e análise da situação política e social de Portugal e do Brasil, naquela época, com a preconização de uma verdadeira reforma de base para o nosso país. Bateu-se pela necessidade da construção de uma rede de estradas, pela utilização de matérias primas na fabricação de manufaturas – proporcionando formação e expansão do mercado interno – pela abolição da escravatura, pela transferência da Capital do país para o interior, perto de onde hoje se situa Brasília, e pela adoção de uma política imigratória, que aproveitasse, de preferência, artesãos e técnicos, ao invés da mão-de-obra não qualificada.

No Correio Braziliense, vergastava não só os erros e abusos da administração portuguesa na sua maior colônia como também em Portugal. Atacava com veemência a corrupção que grassava entre aqueles que dirigiam o Império Português, com exceção de uma só pessoa: D. João VI. Essa exceção e a carta que o Duque de Sussex mandou ao monarca português serviram para criar uma aura de simpatia do Rei para com seu súdito no exílio.

Apesar disso, o Correio Braziliense teve uma fase em que entrava no Brasil como se fosse contrabando, e era vendido na loja do comerciante inglês J. J. Dodsworth, um dos ascendentes de Henrique Dodsworth, prefeito do Rio de Janeiro em 1945.       Graças à saga do Correio Braziliense, Hipólito passou à História como “O PATRIARCA DA IMPRENSA BRASILEIRA” e habita a memória nacional como uma de suas mais luzentes figuras.

As três obras maçônicas raríssimas de Hipólito da Costa – “Cartas sobre a Framaçonaria”, “Narrativa da Perseguição de Hippolyto Joseph da Costa Pereira Furtado de Mendonça, Natural da Colônia de Sacramento, no Rio da Prata, prezo e processado em Lisboa pelo pretenso crime de Framaçon ou Pedreiro-Livre” e “Esboço para a História dos Artífices Dionisíacos” – foram traduzidas por João Nery Guimarães e serão editadas brevemente pelo Grande Oriente do Brasil numa edição comemorativa sobre o grande brasileiro.

Hipólito da Costa morreu em 1823, depois de ser convidado para ser cônsul do Império Brasileiro em Londres. Só em meados do século XX foi reconhecido como o primeiro jornalista brasileiro.

Em 1955, Gastão Nothmann, a pedido do biógrafo de Hipólito, Carlos Rizzini, descobriu o túmulo de Hipólito na Igreja de St. Mary, na paróquia de Hurley, Berkshire, perto de Londres e onde existem duas lápides. Uma com os seguintes dizeres da autoria do duque de Sussex e mandada colocar pelo próprio:

“À sagrada memória do Comendador Hipólito José da Costa que faleceu no dia 11 de setembro de 1823 com a idade de 46 anos. Um homem distinto pelo vigor de sua inteligência e seu conhecimento na ciência e na literatura quanto pela integridade de suas maneiras e caráter. Descendia de uma nobre família no Brasil, e neste país residiu nos últimos 18 anos, durante os quais produziu numerosos e valiosos escritos que difundiu entre os habitantes desse vasto Império pelo gosto de úteis conhecimentos, com amor pelas artes que embelezam a vida e amor pelas liberdades constitucionais fundadas na obediência às leis salutares e nos princípios de mútua benevolência e boa vontade. Um amigo que conhecia e admirava suas virtudes e que as registra para o bem da posteridade.”

A outra, dos familiares:

“Sob esta lápide estão depositados os restos do corpo do Comendador Hipólito José da Costa, Encarregado dos Negócios do Imperador do Brasil, que faleceu no dia 11 de setembro de 1823, com a idade de 46 anos.”

Em 2001, seus restos mortais foram transladados para o Brasil e, hoje, se encontram no Museu da Imprensa, em Brasília.

Autor:Danilo Nunes Martins do Nascimento
Aprendiz Maçom
ARLS¨Vigilantes de Taubaté¨ – Nº 3056 – GOSP/GOB

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para Quem foi Hipólito da Costa?

  1. Maria Helena Agarie disse:

    ADOREI LER A BIOGRAFIA DE HIPÓLITO.Muito esclarecedor seu trabalho e integridade com a ordem.Foi uma pessoa muito perspicaz, versátil e inteligente.Soube como ninguém ministrar as peripécias da vida. Teve critérios ao associar-se a amigos. Isso eu chamo de Visão Peculiar.

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