A Interpretação e o Entendimento dos Símbolos – 2ª Parte

As-duas-colunas.-Louça-La-Rochelle

2- Simbologia

Os símbolos, aliados às metáforas e a prática da analogia, sempre foram utilizados na transmissão de informações e mensagens, principalmente aquelas que são consideradas religiosas ou até mesmo esotéricas. Assim foi com o cristianismo ao longo de sua evolução, e também com a imensa maioria das religiões que existem na atualidade ou que já existiram.

Uma cerimônia religiosa ou ritual é um exemplo prático da riqueza representada pelos símbolos, bem como da sua utilização, assunto a que fazemos referência neste trabalho.

(…) A cerimônia religiosa desempenha um papel importante em todas as religiões (…) invoca-se ou louva-se um deus ou vários deuses, ou ainda manifesta-se gratidão a ele ou a eles. Tais cerimônias religiosas, ou ritos, tendem a seguir um padrão bem distinto, ou ritual (…)” (HELLERN, op. cit., p. 25).

Ao analisarmos o conjunto das cerimônias pertencentes e próprias de uma religião, qualquer que seja ela, conhecido também como culto ou liturgia, encontraremos aí o maior número das representações simbólicas desta mesma religião:

(…) A palavra culto (do verbo latino colere ‘cultivar’) é empregada em geral para significar ‘adoração’, mas na ciência das religiões é um termo coletivo que designa todas as formas de rito religioso (…)” (Idem).

O objetivo do culto é procurar promover ou mesmo estabelecer um contato efetivo entre o fiel, a pessoa que crê, e o sagrado, o divino, o sobrenatural, enfim um contato com Deus ou ainda com os deuses cultuados. Neste ponto é que reside a sua maior representação simbólica. A prática dos cultos costuma ser efetivada em locais que também são considerados dotados e revestidos por um profundo valor simbólico, como os templos, as mesquitas, as igrejas e as sinagogas. Procurar explicitar e analisar as causas do surgimento das religiões e do misticismo entre os homens, neste trabalho, seria uma realização com certeza de extrema importância e utilidade. Porém, acabaríamos por certo fugindo ao objetivo central e principal deste trabalho que se apresenta como sendo o de procurar estudar e entender a forma de utilização e também a utilidade dos símbolos e da linguagem simbólica.

Cabe-nos também aqui procurar destacar que a Ordem Maçônica, ou simplesmente Maçonaria, não é todavia e muito menos pode vir a ser encarada como uma religião. Nem mesmo pode ser considerada um sociedade dogmática. A Maçonaria, porém, utiliza-se em seus diversos rituais e em sua simbologia própria, de influência de muitas outras religiões e seitas que existiram ou ainda existem no mundo. Esse aspecto em particular da Ordem Maçônica, já foi também afirmado por José Castellani em diversas oportunidades:

(…) Embora a Maçonaria não seja uma religião e nem seja uma ordem mística, ela utiliza, em seus rituais, na sua simbologia e na sua estrutura filosófica e doutrinária, os padrões místicos de diversas seitas, associações e civilizações antigas, principalmente os relativos às religiões e às ordens iniciáticas de cunho religioso daqueles povos que representaram o alvorecer das civilizações e que se concentravam, desde o século V a. C., em torno dos rios Tigre e Eufrates e do Mar Mediterrâneo. (…) [A Maçonaria] nascida em sua forma moderna, nas asas das aspirações liberais e libertárias dos povos subjugados pelo poder real absoluto e pelos privilégios do clero, ela, também, é liberal e libertária, evolutiva e adaptável às épocas, racional e democrática. Para armar todavia, a sua doutrina moral, ela buscou o simbolismo nascido da mística de civilizações perdidas na noite dos tempos; e o simbolismo, fonte de espiritualidade oculta, será, sempre, por mais que a cibernética e a materialidade dominem o mundo, uma LUZ no caminho da humanidade (…)” (CASTELLANI: 1996. p.92)

3 – Condições para o entendimento dos Símbolos

Sobre a interpretação e o correto entendimento dos símbolos, bem como dos próprios ritos ou rituais, quer sejam eles religiosos ou mesmo filosóficos, Fernando Pessoa teceu algumas poucas, mas mesmo assim muito importantes considerações. Cabe, no entanto ressaltar, antes de qualquer outra consideração, que Fernando Pessoa é um dos mais importantes escritores da língua portuguesa de todo o século XX. Segundo ele próprio, que por diversas vezes claramente destacou, nunca pertenceu a Maçonaria, apesar de nutrir por esta instituição um profundo respeito, consideração e apreço. Em um artigo jornalístico, intitulado “Associações Secretas: Análise Serena e Minuciosa a Um Projeto de Lei Apresentado ao Parlamento”, e publicado no Diário de Lisboa no início do ano de 1935, Fernando Pessoa faz uma defesa e uma apologia muito bem fundamentada da Maçonaria e dos direitos do homem. Porém ele procura enfatizar de maneira bastante clara a sua condição de não maçom, destacando as dificuldades advindas de tal condição. Ele destaca as barreiras e limitações naturais que são encontradas por aqueles que não pertencem à Ordem Maçônica, para pesquisar sobre os seus conteúdos e os seus muitos mistérios:

(…) Não sou maçom, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não sou, porém, anti-maçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçônica (…) assunto muito belo, mas muito difícil, sobretudo para quem o estuda de fora (…)” (PESSOA, 1935, passim).

Fernando Pessoa em uma nota preliminar ao seu livro “Mensagem”, disponibilizado no site da Loja São Paulo nº 43 (http://www.lojasaopaulo43.com.br/referencias.php), nos coloca aquelas que seriam consideradas como as cinco condições básicas ou qualidades necessárias para a mais perfeita interpretação e compreensão dos símbolos:

O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.” (PESSOA: 2003, passim)

Estas cinco condições ou qualidades fundamentais ao entendimento dos símbolos e da linguagem simbólica e que são expostas, listadas e qualificadas por Fernando Pessoa, seriam as seguintes:

  • Simpatia;
  • Intuição;
  • Inteligência;
  • Compreensão;
  • Graça ou Revelação.

Simpatia

Em primeiro lugar, por simpatia, devemos entender e procurar compreender a afinidade e a atração natural que sentimos pelo símbolo que nos é apresentado. Parece-nos óbvio que somente um símbolo que promova uma atração para o interprete e que lhe pareça simpático, poderá transmitir alguma mensagem que lhe sirva como um ensinamento.

Como uma das muitas provas desta colocação, apresentamos o caso que é representado pela “Cruz Suástica”, que foi usada como um símbolo, dístico e emblema pela Alemanha Nazista, hoje a suástica nos representa apenas o ódio e a intolerância racial. Tornou-se um símbolo emblemático e odioso do totalitarismo e da opressão, mesmo que alguns estudiosos e escritores tentem destacar o seu original ou inicial significado simbólico de progresso. Causa-nos estranheza o fato de que alguns escritores, mesmo aqueles que são maçons, tenham tentado constantemente, mesmo que de maneira inconsciente reabilitar a suástica.

Dentro ainda da análise deste conceito de simpatia e em relação a Ordem Maçônica, podemos, como um exemplo simples, rapidamente analisar o significado do Esquadro e do Compasso justapostos e aquilo que a nós representam. Apenas não iremos no entanto procurar considerar ou nos aprofundarmos muito na análise dos significados que representam cada um destes instrumentos operativos de maneira distinta.

Para qualquer maçom, e até mesmo para aqueles que da Maçonaria não façam parte, mas que assim mesmo possuam sobre ela algum parco conhecimento, o Esquadro e o Compasso quando justapostos ou entrelaçados passam a significar, e acabam por representar praticamente, a própria Instituição da Maçonaria:

(…) O símbolo da Maçonaria remete aos instrumentos dos trabalhadores que, na Idade Média dominavam as técnicas de construção em pedra: O COMPASSO, que desenha círculos perfeitos, representa a busca da perfeição pelo homem; A letra G, no centro de tudo, vem de GOD, ‘Deus’ em inglês. Para os maçons, é Ele o Grande Arquiteto do Universo; O ESQUADRO, que forma ângulos retos, lembra que o homem deve levar uma vida igualmente reta: ética e Honesta (…)” (SUPERINTERESSANTE, 2001, p.39)

Não existe, portanto um símbolo que se apresente de uma maneira mais simpática aos maçons e também não existe um que seja também, tão mais representativo da Ordem Maçônica do que este representado pelo Esquadro e pelo Compasso quando se encontram entrelaçados. O símbolo que é formado por esta imagem, representa a medida justa que deve ser característica de todas as ações dos maçons e dos seus corpos regulares, lembra-os que não podem se afastar da justiça e da retidão determinados pelos seus profundos princípios. E mesmo com o decorrer do tempo, “de todos os símbolos dos Painéis primitivos e dos atuais, o mais forte, o mais consciente, ainda é o Esquadro e o Compasso entrelaçados. Cada um desses símbolos possui vida própria, inclusive com vida anterior ao advento da Maçonaria que nós conhecemos como Operativa. Todavia unidos, formando um terceiro símbolo, um poderoso Emblema que embora tenha tido vida anterior à Maçonaria, tornou-se um símbolo maçônico por excelência em todos os Ritos. (…) (KAPFENBERGER FILHO, 2001, p. 7-8)

Devemos também ter a consciência de que o significado que procuramos enxergar e encontrar em um símbolo, enquanto maçons, é justamente e necessariamente o seu sentido e representações maçônicos. Procuramos encontrar e enxergar e absorver a sua mensagem e significados éticos e morais, absorvendo aquilo que não for possível e claramente perceptível dos seus ensinamentos.

Intuição

Podemos compreender por intuição a ocorrência da percepção clara das verdades, sem que, no entanto seja perceptível a intermediação e a utilização do raciocínio. A intuição seria como que a primeira impressão, mais do que um palpite ou impressão, ela se apresenta como sendo uma certeza inconsciente, a imagem que nos marca em definitivo e a representação que nos é causada por um símbolo. Esta impressão é primeiro formada pela simpatia que nos é despertada por este símbolo.

A Intuição da forma como é vista pela filosofia, torna-se um dos sentidos mais importantes dentro do Estudo Maçônico, principalmente na interpretação dos símbolos (…)” (CAMPANHA, op. cit., p.38)

Inteligência

A terceira das condições ou qualidades para se obtenha a perfeita compreensão e o entendimento dos símbolos, apresentada por Fernando Pessoa, trata-se pois da inteligência. Compreendida como uma condição ou qualidade que atua conjuntamente e correlacionando-se de maneira análoga com as demais condições anteriormente citadas, a inteligência se apresenta como um fator considerado fundamental e essencial para a compreensão dos símbolos, das metáforas e das analogias que nos são colocadas constantemente dentro dos ensinamentos maçônicos:

A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; (…) Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado. (…)”(PESSOA, 2003, passim)

Cabe-nos ressaltar, porém, que a inteligência atua de uma maneira paralela à razão, sendo que com esta chega a ser confundida. Sabemos da importância que é atribuída à razão pelos maçons, pois dentro da Ordem Maçônica, a razão deve acabar por se sobrepor ao misticismo.

A simpatia é um sentimento importante para despertar o interesse e por lançar nossos olhares sobre o símbolo, a intuição nos faz ver além da imagem representada pelo símbolo, nos fazendo buscar seus mais profundos significados e fazendo-o revelar a sua mensagem oculta. Por fim, a inteligência nos faz relacionar todos estes significados e mensagens com os outros que já foram, em momentos anteriores decodificados e assimilados. A inteligência sintetiza as informações recebidas, procurando compreendê-las de uma maneira que seja profunda e integral.

Compreensão

É a qualidade representada pela inteligência que nos encaminha para a compreensão que é a quarta condição ou qualidade necessária para a interpretação dos símbolos e a assimilação da linguagem simbólica. A compreensão pode ser também considerada como o entendimento completo, praticamente a perfeita e a total absorção e a fixação da mensagem e os significados que nos são transmitidos pelo símbolo.

“(…) Por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo.(…) Assim, certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes. (…)”(Idem, op. cit.)

Ao decodificar e compreender a mensagem transmitida pelo símbolo, o intérprete deve sintetiza-la e passar a procurar nela o seu íntimo e pessoal significado e representação.

Graça ou Revelação

Condição ou qualidade esta que, em sua opinião, é a que possui uma maior e mais profunda dificuldade para a sua definição e a sua completa compreensão. A Graça, que é esta quinta condição acaba possuindo uma das mais dispersas e complexas possibilidades concretas de entendimento e assimilação imediata. Sua ação sobre a compreensão dos significados das mensagens, a representação e o ensinamento dos símbolos para aqueles que seriam os seus interpretes, pode ocasionar aquilo a que muitos denominam simplesmente de “insight”. Esta intervenção ou atuação do “Superior Incógnito”, do “Ser Supremo”, do “Grande Arquiteto do Universo”, enfim, a intervenção de Deus ou dos deuses, poderia e pode ser simplesmente chamada de Revelação.

De nada adiantaria ao ser humano possuir a simpatia por um símbolo, conseguir adquirir capacidades para enxergar através deste, conseguir ver além das suas formas e dos seus contornos com o uso da intuição, possuir a inteligência necessária para analisá-lo, a capacidade exigida e necessária para compreendê-lo e as habilidades para sintetizar os seus conteúdos, de nada adiantaria todos esses dons e qualidades se não lhe for revelado pelo Grande Arquiteto do Universo um íntimo e pessoal significado para este símbolo.

Um exemplo prático que poderíamos usar para ilustrar de maneira mais clara e objetiva esta quinta condição ou qualidade, seria o significado atribuído à Estrela de Davi para os judeus, e aquele atribuído à Cruz para os cristãos. Estes símbolos revelam significados religiosos e íntimos que transcendem a simples compreensão humana, que não poderiam jamais ser traçados em papel ou outro material que fosse.

O sentimento sagrado, esotérico, pessoal e intimo que estes símbolos transmitem aos fiéis destas religiões não podem ser simplesmente dissecados e compreendidos pela razão humana. São sentimentos que teriam sido colocados por Deus diretamente no coração e na alma de cada ser humano.

Sem a atuação e a manifestação desse Dom divino jamais se compreenderia o significado de um símbolo com toda a magnitude esotérica e mística que ele poderia representar. Portanto, o seu significado seria incompleto.

4 – Conclusões

A Ordem Maçônica, atuando como uma autêntica escola provedora dos mais profundos ensinamentos éticos e morais, necessita, como nenhuma outra instituição, procurar continuadamente afirmar, reafirmar e principalmente procurar repassar os seus diversos princípios aos seus membros e também à sociedade em que ela se insere. Devido as suas origens corporativas, desde os mais remotos tempos, a Maçonaria procurou sempre traçar paralelos e estabelecer analogias entre os seus princípios morais e ensinamentos éticos, utilizando-se como base os instrumentos laborais dos pedreiros medievais.

“(…) Embora não haja documentação que o comprove, deve-se admitir que os Maçons Operativos, os franco-maçons, usavam seus instrumentos de trabalho como símbolos de sua profissão, pois caso contrário não se teria esse simbolismo na Maçonaria Moderna. A existência desse simbolismo é a mais evidente demonstração de que houve na Inglaterra, contatos diretos entre os Maçons Modernos e os franco-maçons profissionais, e demorados o suficiente para que essa transmissão se consolidasse (…).” (PETERS, 2003, passim)

Ambrósio Peters, nos coloca ainda aqueles que seriam considerados os símbolos principais e essenciais a existência da atual Maçonaria Especulativa (Simbólica). Cabe destacar também que são destes símbolos que os Maçons metaforicamente retiram os princípios básicos e os seus principais ensinamentos éticos e morais:

“(…)O trabalho dos franco-maçons, limitava-se aos canteiros de obras e à construção em si. Os instrumentos que eles usavam eram o esquadro, o compasso e a régua para determinar a forma exata das pedras a serem lavradas, o maço e o cinzel, para dar-lhes a forma adequada, e o nível e o prumo, para assentá-las com perfeição nos lugares previstos na estrutura da obra. Eram, portanto três diferentes grupos de instrumentos, cada qual representando uma etapa da obra, a saber: a medição ou a determinação do formato das pedras, o desbastamento das pedras para dar-lhes a forma adequada e finalmente a aplicação das peças lavradas na construção do edifício.

Cada trabalhador tinha para sua tarefa, instrumentos apropriados que indicavam a especialidade de cada um. Os Mestres mediam e transmitiam suas instruções aos aprendizes, estes executavam as instruções dos Mestres, e os Companheiros aplicavam os trabalhos dos aprendizes na estrutura da obra (…)” (Idem)

Possivelmente a linguagem simbólica utilizada pela Maçonaria, na atualidade somente encontre paralelos significativos, se comparada, com aquela que é utilizada ainda nos dias de hoje pela Igreja Católica. A igreja Católica que talvez seja ainda a única outra instituição que na atualidade ainda faça uso de símbolos e metáforas para poder ministrar os seus ensinamentos, conforme nos foi afirmado por Nicola Aslan (ASLAN, 2000, p.5).

Como já colocamos neste trabalho, o significado de um símbolo, é íntimo e pessoal para cada pessoa ou intérprete. A interpretação dos símbolos depende da formação de cada pessoa ou ainda da maneira como estas qualidades que aqui procuramos retratar, se manifestam em cada um individualmente. Tais afirmações encontram respaldo nas afirmações de Luís Roberto Campanha, quando fez referência ao chileno Moisés Mussa Battal:

“(…) As escolas filosóficas caracterizam-se por serem criadas por um mentor intelectual, possuem um sistema ideológico, verifica-se nela uma certa uniformidade de pensamento e ação, desenvolvem seu trabalho em torno do ser, do conhecer e do valer, atuam nas áreas da metafísica e da ciência, assumem aspectos esotéricos e exotéricos.

A Escola Maçônica difere em alguns aspectos das escolas filosóficas, pois não foi fundada por um pensador, seu sistema ideológico não é fixo, se adapta às evoluções do mundo e da cultura, sua doutrina e prática não são ortodoxas, pois o Símbolo permite uma interpretação ampla e variada, fundamenta suas preocupações nos problemas do ser, do saber e do valer, não exige obediência cega a ela dando a todos a liberdade de pensamento.

A Maçonaria, mais que uma escola filosófica, é uma escola que permite o livre exame, a crítica, a dúvida metódica, a aceitação de postulados, ainda que superficiais, no intuito de melhorar a condição humana, individual e coletiva (…)” (CAMPANHA, op. cit., p.34-35).

Porém, Theobaldo Varoli Filho, em seu livro “Simbologia e Simbolismo da Maçonaria”, nos coloca algumas posições contrárias e contraditórias a despeito desta última afirmação. O principal ponto seria a questão da liberdade de opinião como recurso para a livre interpretação dos Símbolos Maçônicos, nos colocando que dentro da Maçonaria, devemos ao interpretar um Símbolo Maçônico, sempre procurar analisá-lo justamente do ponto de vista maçônico. A Maçonaria nos coloca algumas tradições, princípios e significados gerais que devem ser sempre respeitados, caso contrario desvirtuaríamos os objetivos da Sublime Ordem.

(…) A Loja Maçônica não é lugar de psicanálise, onde cada um interpreta os Símbolos como lhe aprouver. Esta é a resposta que damos aos que afirmam que os Símbolos Maçônicos são livremente interpretados subjetivamente e livremente, isto é, licenciosamente (…) É importante assinalar que o Símbolo Maçônico é sempre ideológico e não simplesmente ideográfico.

O símbolo Maçônico se distingue por sua universalidade e como expressão de ideias pacificamente aceitas pela humanidade civilizada. Por conseguinte, o maçom não deve ‘particularizar’ o Símbolo a seu gosto. Todo Símbolo Maçônico é de comunicação nos âmbitos da Sublime Instituição, ainda que, por motivos históricos, não seja originário da Maçonaria, mas de tradições morais profanas. Assim o Maçom licencioso prejudica a comunicação iniciatória universal. É Obreiro pernicioso e vaidoso, ainda que invoque a liberdade de opinião a seu favor, a sua falsa maneira de defender-se e de impor as suas inventivas pessoais.

Ainda, todo Símbolo Maçônico requer interpretação coerente, lógica, e inspiradora de lições morais. Dissemos ‘inspiradora’, porque iniciação é inspiração e não simples ensinamento ou pregação” (VAROLI FILHO, 2000, p.17-18).

Como maçons e como seres humanos, que buscamos a cada momento procurar melhorar os nossos conhecimentos e as nossas qualidades, possuímos também a profunda responsabilidade pelo crescimento da capacidade intelectual e maçônica, das virtudes morais e éticas dos nossos Irmãos de Ordem e da sociedade que formamos e a qual pertencemos. Sendo assim, desta maneira, nos vemos na constante obrigação e com o compromisso crescente de procurar divulgar e repassar os resultados de nossos estudos e pesquisas.

Quando da apresentação de nossos trabalhos, invariavelmente, devemos procurar provocar um debate que com certeza irá enriquecer mais ainda este trabalho, dando a ele novos pontos de vista e conclusões. Estas afirmações foram feitas por Luiz Roberto Campanha, em seus trabalho que já por diversas vezes citamos em partes deste artigo. Sobre as responsabilidades dos maçons para a construção, elevação e a conseqüente evolução da Maçonaria, ele nos cita o seguinte:

“(…) Infere-se daí que não apenas os Mestres podem ensinar. O Aprendiz e o Companheiro, ao apresentarem os resultados de suas pesquisas, tornam-se mestres e os Mestres devem, humildemente, como aprendizes, analisar a lição ministrada e com ela agregar fundamentos ao seu conhecimento. Só atinge o Grau de Mestre aquele que tem discípulos: ora seremos Mestres, ora Aprendizes.” (CAMPANHA, 2003, op. cit., p.40).

Não imaginamos uma citação melhor que esta para podermos encerrar este trabalho sobre a condições e qualidades para a perfeita interpretação e o entendimento dos símbolos e também do Estudo Maçônico. O saber Maçônico é uma construção de múltiplos materiais e de incontáveis mãos nos aproximando cada vez mais da Fonte da Verdadeira Luz.

Autor: Roberto Bondarik
ARLS Cavaleiros da Luz Nº 60 – GLP
Oriente de Cornélio Procópio-PR

Referências Bibliográficas

ASLAN, Nicola. O Simbolismo. In: O Fio de Prumo. Ponta Grossa, Ano 1, nº 5, Outubro de 2001, p.5-6;

BONDARIK, Roberto. Escolas do Pensamento Maçônico. In: A Trolha:

Coletânea 6. Londrina: A Trolha, 2003. p.141-151;

CAMPANHA, Luiz Roberto. A Filosofia e a Análise dos Símbolos. In: Caderno de Pesquisas 20. Londrina: A Trolha, 2003. p.33-40;

CARVALHO, Luis Nandim de. História da Maçonaria. Disponível em Acesso em 03 de Outubro de 2003;

CASTELLANI, José. O Rito Escocês Antigo e Aceito: História, Doutrina e Prática. 2ª ed, Londrina: A Trolha, 1996;

CHAUI, Marilena. Convite a Filosofia. 5ª ed. São Paulo: Ática, 1996. p.59-60;

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria: Seus Mistérios, Seus Ritos, Sua Filosofia e Sua História. São Paulo: Editora Pensamento, 1998,

GRANDE LOJA DO PARANÁ. Maçonaria: um informativo para quem não é maçom. Curitiba: Grande Loja do Paraná, 2000;

HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry; GAARDER, Jostein. O Livro das Religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000;

KAPFENBERGER FILHO, Francisco. Simbolismo. In: O Fio de Prumo. Ponta Grossa, Ano 1, nº 9, Março de 2001, p.7-8;

KOSHIBA, Luiz. História: origens, estruturas e processos. São Paulo: Atual, 2000

O QUE É E COMO SURGIU A MAÇONARIA. Super Interessante, São Paulo, Ano 15, nº3, p. 39, Março de 2001;

PESSOA, Fernando. “Associações Secretas: Análise Serena e Minuciosa a Um Projeto de Lei Apresentado ao Parlamento.” Acesso em 19 de Agosto de 2003.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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