O uso do pergaminho e o pecado original – Parte I

adao-e-eva

I – Introdução

Para nós, cristãos, os 27 livros do Novo Testamento constituem o fundamento e a chave da nossa Escritura Sagrada. Durante o primeiro século, no tempo em que Jesus exerceu o Seu ministério – e mesmo bastante depois –, o papiro era o material de escrita mais correntemente utilizado em todo o Médio Oriente, Egito, Ásia Menor, etc. A partir dos séculos III-IV começou a generalizar-se o uso do pergaminho. Que alterações é que esta mudança acarretou?

Vejamos o que nos dizem dois especialistas neotestamentários altamente reputados a nível internacional, Kurt Aland e Barbara Aland:

“Um manuscrito [em pergaminho] que contivesse um conjunto de escritos do Novo Testamento em formato médio, com cerca de 200-250 fólios de aproximadamente 25x19cm, exigia, pelo menos, as peles de cinquenta a sessenta carneiros ou caprinos” (Aland & Aland 1989, 77)

Ou seja, cada exemplar – e um só – do Novo Testamento, em pergaminho, exigia o sacrifício sangrento de um rebanho completo de animais… As cópias circulavam às centenas – uma autêntica matança açougueira, que durou séculos. Que significado podemos extrair desta constatação aterradora?

II – Cristo e a Escritura judaica

Recapitulemos um pouco a história da transmissão neotestamentária.

No tempo de Cristo ainda não havia Novo Testamento, como facilmente se compreende: quando Ele faz referência à Escritura, trata-se evidentemente da Escritura judaica, que os cristãos mais tarde começaram a designar por “Antigo Testamento” a fim de a distinguir da nova Escritura, exclusivamente cristã, que aliás só começou a ganhar forma como um todo autoritativo bastante tarde: por exemplo o corpus dos quatro Evangelhos só ficou estabelecido nos finais do século II, embora o corpus paulino (as epístolas de Paulo, das quais sete não são autênticas) tivesse sido reconhecido mais cedo; as chamadas “Epístolas Católicas” (a de Tiago, as  duas de Pedro, as três de João e a de Judas) só foram reconhecidas no seu conjunto no século IV, e o Apocalipse permaneceu num limbo duvidoso durante vários séculos (Aland & Aland 1989, 167).

A Escritura judaica é constituída por três grupos de livros: a Torah (a “Lei”, que compreendia os cinco livros do Pentateuco: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), os Nevi’im (os “Profetas”, ou “Livros Proféticos”, como por exemplo Isaías, Ezequiel, Daniel, etc.) e os Khetuvim (os “Escritos”, como por exemplo os Salmos, o Cântico dos Cânticos, o Eclesiastes, etc.).

Eram estes venerandos textos – sobretudo os dois primeiros, “a Lei e os Profetas” –, que Jesus lia no Templo e nas sinagogas, e comentava, para ensinar os Seus ouvintes, como vemos por exemplo em Lucas 4, 15-22 e noutros passos do Novo Testamento[1].

III – Interpretação oculta da Escritura

Quando, após a morte e a ressurreição de Cristo, os dois discípulos que se dirigiam a Emaús O encontraram na estrada e não O reconheceram, foram comentando com o “desconhecido”, durante o caminho, a morte de “Jesus de Nazaré”, referindo-se-Lhe como “um profeta poderoso em obra e em palavra”. Nesse episódio se relata como Jesus, em vida, “interpretava as Escrituras” (Lucas 24, 27), e como “abria [o sentido] das Escrituras” (Lucas 24, 32). Ou seja, Jesus em diversas ocasiões tomou como ponto de partida, para as Suas prédicas, a “hermenêutica” que fazia desta ou daquela passagem das Escrituras judaicas, o que equivalia de certo modo à atividade do me-turgem-an, com a diferença de que este era um “leitor-intérprete” profissional, que, no Templo e nas sinagogas, traduzia para aramaico, e interpretava em voz alta, o texto hebraico lido pelo sacerdote durante as respectivas liturgias.

Convém recordar que a partir do século VI a. C., e coincidindo com as décadas do “exílio na Babilônia”, o aramaico substituiu pouco a pouco o hebraico entre os judeus, na linguagem falada e no uso corrente. O povo deixara de falar e entender o hebraico, que ficou apenas como lingua sagrada da Escritura. Daí a necessidade do intérprete: durante a liturgia os textos sagrados eram lidos em hebraico, e ao lado encontrava-se o tal me-turgem-an que traduzia em voz alta para aramaico e interpretava o respectivo texto. Esta atividade chamava-se targum, palavra aramaica que significa “tradução” ou “interpretação”; o me-turgem-an (“leitor-intérprete”, palavra que tem a mesma raiz de targum) não se limitava a traduzir e a dar uma interpretação mais ou menos moral ou mesmo alegórica: o targum visava também e sobretudo explicitar o sentido oculto da Escritura.

Embora os targums escritos começassem a aparecer gradualmente durante os primeiros séculos da era cristã (período talmúdico), só o targum oral fazia autoridade. O reconhecimento oficial do “Targum” escrito ocorreu apenas a partir do século V d. C.

IV – A transmissão oral, de Mestre a discípulo

Portanto, a tradição oral estava muito enraizada, e isto ocorria não só nas Escolas sacerdotais mas também, e sobretudo, nas Escolas mistéricas: a transmissão de boca a ouvido, ou de mestre a discípulo, era a regra; em certos casos era mesmo rigorosamente vedada qualquer passagem a escrito dos ensinamentos que o Mestre proferia.

Durante os três anos do ministério de Cristo e durante cerca de vinte anos após a Sua morte e ressurreição essa regra manteve-se: não há notícia de Cristo ter deixado algum texto doutrinário, e nem sequer lhe foi atribuído nenhum por algum discípulo mais zeloso, como era normal acontecer em diversas escolas místicas ou filosóficas desse tempo, em que falsos apógrafos circulavam em nome do mestre ou do fundador sem que ninguém se chocasse com isso – era uma maneira de conferir autoridade ao escrito e ao mesmo tempo de prestar homenagem ao mestre ou fundador. Como aliás aconteceu, por exemplo, com a Escola de Paulo: das 14 epístolas que compõem o corpus paulino do Novo Testamento, sete são autênticas, mas as outras sete foram redigidas por discípulos mais ou menos tardios, o que não obstou a que a sua autoria fosse atribuída a Paulo.

Isto significa que até bastante tarde se respeitou o conhecimento de que o Ensinamento de Jesus era destinado à transmissão oral, o que é característico duma Escola iniciática, portanto se aparecesse qualquer escrito “assinado” por Jesus, seria repudiado como espúrio para não dizer blasfemo. Os primeiros escritos cristãos que chegaram até nós, as epístolas de Paulo, apenas começaram a circular a partir do ano 50 d. C., e mesmo esses textos não são “tratados doutrinários” no sentido técnico do termo, mas meras cartas que Paulo ia endereçando às diferentes comunidades cristãs com reflexões sobre a sua experiência pessoal (e a sua interpretação) a respeito do Mistério Crístico, na sequência da Iniciação mistérica a que fora submetido – a famosa “conversão na estrada de Damasco”.

Só na segunda metade do século primeiro é que as Escolas de Mistérios Cristãos sentiram necessidade de fixar por escrito um certo conjunto de alegorizações ritualísticas, tomando como base “os atos e os ditos” de Jesus – a chamada “literatura evangélica” que surgiu por essa altura. Daí o fato de Max Heindel (1865-1919) e Rudolf Steiner (1861-1925) referirem que os quatro Evangelhos canônicos são Rituais de Iniciação de quatro diferentes Escolas de Mistérios.

V – Primeira fase dos livros de papiro: os “rolos”

Como se disse há pouco, o papiro era o material de escrita preferencialmente utilizado nessa época e na vasta área geográfica abrangida pelo Império Romano.

Os manuscritos cristãos de que temos notícia, do primeiro e do segundo séculos, redigidos em grego e dos quais – ou dalguns dos quais – chegaram fragmentos até nós, são escritos em papiro.

A planta do papiro era abundantemente cultivada no delta do Nilo, mas também em outras regiões do Médio Oriente. É uma planta herbácea aquática cujos caules, encorpados e de seção rudemente triangular, chegam a ter uma grossura de 6 cm e podem alcançar uma altura de cerca de 5 a 6 metros. Os caules, depois de divididos em seções, eram cortados longitudinalmente, com instrumentos afiados, para produzir tiras que se colocavam lado a lado a fim de formar uma finíssima camada de “papel” com as fibras correndo paralelamente. Sobre essa camada colocava-se outra, cujas fibras ficavam a formar ângulo reto com as da primeira, e ambas eram umedecidas e pressionadas com um peso de modo que a “cola” da própria seiva unia as duas finíssimas folhas, que, depois de secas ao sol, formavam uma única e resistente folha de “papel”.

Os livros resultantes, caligrafados pelos escribas, ou copistas, tinham a forma de rolos, com uma altura variável (25-30 cm) e um comprimento que podia atingir os 9 metros. O nome deriva dos dois suportes cilíndricos de madeira, em forma de rolo, em cada extremidade da extensa folha, o que permitia enrolar e desenrolar num sentido ou noutro. Depois do livro pronto e enrolado, era facilmente transportável.

Toda a literatura da época, inclusive a literatura judaica vulgar, era escrita sobre papiro, exceto a Escritura sagrada dos judeus, redigida em hebraico, que a tradição exigia que fosse escrita sobre pele de vitelo… (Aland & Aland 1989, 75 e 102). A quem deseje informar-se sobre o retrocesso que isto significa (sacrifício do novilho, ou bezerro), convida-se a leitura atenta dos seguintes trechos do Conceito Rosacruz do Cosmos : cap. XIII – “Em Direção à Bíblia” (Heindel 1998, 246-253), e cap. XIV – “Análise Oculta do Gênesis” – “Javé e a Sua Missão” (Heindel 1998, 263-265).

Os 96 manuscritos papiráceos dos escritos do Novo Testamento que chegaram até nós são na esmagadora maioria fragmentários, ou, se algum deles abrange algum dos livros neotestamentários do princípio ao fim, não deixa de apresentar lacunas em diversos pontos. Somente o papiro classificado como p72, do século III ou IV, contém por inteiro as duas epístolas de Pedro e a epístola de Judas.

Destes 96 papiros o mais antigo é o fragmento p52, com duas passagens do capítulo 18 do Evangelho de João, e que os especialistas calculam que pode ser datado entre o ano 100 e o ano 125, ou seja, trata-se duma cópia valiosa, muito próxima do original, que se supõe ter sido escrito nos anos 90 do primeiro século (Ehrman & Holmes 2001, 3-18).

VI – Segunda fase dos livros de papiro: os “códices”

Uma novidade da literatura cristã é que todos estes manuscritos papiráceos (exceto quatro) não pertencem a rolos, mas sim a códices, incluindo o fragmento mais antigo, o tal do ano 100-125. Que quer isto dizer? Vimos que o “rolo” era o formato usual do livro desse tempo; os cristãos introduziram a novidade de cortar as folhas de papiro em cadernos de fólios retangulares, encadernando-os em formato de livro protegido por duas capas, tal como os livros de hoje. Além disso introduziram também o hábito de escrever dos dois lados da mesma folha, ao contrário do que sucedia com os “rolos”. É a estes livros de papiro que se dá o nome de “códices” (Aland & Aland 1989, 75-76).

Durante o primeiro e o segundo século os textos cristãos – incluso a literatura gnóstica de que temos magníficos exemplares nos códices achados em Nag Hammadi – eram exclusivamente escritos em papiro, um elemento vegetal. Esta fase coincide sensivelmente com a fase esotérica em que as comunidades jesuânicas, ainda próximas das Doutrinas e dos Atos do Mestre, transmitiam um ensinamento iniciático.

VII – A “exoterização” dos Ensinamentos Crísticos

Pouco a pouco, porém, foi-se dando aquilo a que um certo número de especialistas bíblicos laicos convencionou chamar a “corrupção ortodoxa”, ou seja, certas comunidades adulteraram os Ensinamentos num sentido exotérico, a fim de os impor em oposição vantajosa aos “mitos” do paganismo, dando origem à Cristologia perfilhada pela Grande Igreja (por exemplo Jesus de Nazaré igual a Deus, nascimento virginal de Jesus por obra do Espírito Santo, ressurreição de Cristo “em corpo”, etc.). Essa Cristologia acabaria por se impor definitivamente no século IV com o apoio de Constantino, tomando conta do poder global religioso e destruindo com uma ferocidade sanguinária tudo quando fosse esotérico, mistérico e/ou iniciático, sob o anátema geral de “heresias” (Ehrman 1996, passim).

Esta terrível fase cresceu sensivelmente paralela com a grande expansão do uso do pergaminho.

Consideremos o seguinte quadro:

MANUSCRITOS GREGOS DO NOVO TESTAMENTO

(Descobertos até 2001, e devidamente classificados e catalogados)

Data prox. Em papiro Em pergaminho
 
 Século II 2
 Ano 200 4
 Séc. III 29 3
 Séc. IV 22 16
 Séc. V 10 44
 Séc. VI 11 61
 Séc. VII 13 33
 Séc. VIII 5 33
 Séc. IX 70
 Séc. X 146
 Séc. XI 441
 Séc. XII 588

Este quadro poderia prolongar-se até ao século XVI, com a definitiva ausência do papiro e a crescente quantidade de manuscritos em pergaminho, datáveis até esse século, que foram sendo descobertos e catalogados. Com a invenção da imprensa no século XV e o uso generalizado do papel, o pergaminho caiu em desuso. O papel, que havia sido descoberto pelos chineses no século I d. C., espalhou-se no mundo ocidental através dos árabes e começou a ganhar popularidade sobretudo a partir do século XII, embora se conheça pelo menos um manuscrito do Novo Testamento, em papel, do século IX.

Atualmente os especialistas já conseguiram catalogar cerca de 5.400 manuscritos de textos do Novo Testamento, em papiro, pergaminho e papel: destes 5.400, cerca de 1.300 são em papel.

VIII – O papiro e o pergaminho: primeiras conclusões

Associando estas informações com o exame do quadro anterior (e no que diz respeito apenas ao Novo Testamento), podemos extrair, para já, as seguintes conclusões:

1 – O papiro, que foi o grande material de escrita nos primeiros séculos do Cristianismo, deixou de se usar definitivamente no século VIII;

2 – O pergaminho, que começou a ser usado, ainda que esporadicamente, no século III, impôs-se definitivamente a partir do século IV, destronando o papiro em poucos séculos e duma forma irreversível;

3 – O papiro, extraído do reino vegetal, serviu de veículo transmissor dos textos sagrados (mistéricos) durante os dois ou três séculos iniciais do Cristianismo, quando preponderavam ainda as comunidades cristãs iniciáticas ; por sua vez o papel, igualmente extraído do casto reino vegetal, passou a ser utilizado a partir do arranque dos grandes movimentos espirituais, o templarismo esotérico, os franciscanos Spirituali, a teosofia de Jacob Böhme e correntes derivadas, o Rosacrucismo do Renascimento – e até aos nossos dias, em que o “esoterismo cristão” ganha cada vez mais força e expansionismo;

4 – Quando a dogmatologia exotérica da Grande Igreja se impôs, a partir do século IV e durante toda a Alta Idade Média (Dark Ages: séculos V a XI), prosseguindo com as perseguições da Igreja aos Cátaros, a criação da Inquisição no século XIII e todos os criminosos desmandos da História eclesiástica, incluindo a ambição papal de exercer domínio e poderio sobre príncipes e imperadores, dando origem a guerras que ensanguentaram a Europa durante vários séculos, até à Reforma (século XV), o material utilizado para a propagação exotérica do Novo Testamento foi o pergaminho, extraído das peles de animais (como por exemplo o bode) caracterizados por um corpo de desejos de vibrações baixas e grosseiras.

5 – Entre os séculos IV e XVII, por conseguinte, em que a intolerância religiosa da Igreja se exteriorizou através de violentas polêmicas, aniquilações, guerras, cruzadas sanguinárias, inquisições e campanhas anti-“heréticas” de diversa índole, o derramamento de sangue humano resultante dessa conduta foi acompanhado, paralelamente, pelo derramamento de sangue animal com a finalidade de se multiplicarem cópias em pergaminho das Escrituras cristãs.

Continua…

Autor: Antônio de Macedo

Nota

[1] – Há um passo no Evangelho de João que parece dar a entender que Jesus era um iletrado, ao referir que Jesus, ensinando no Templo, suscitou a admiração dos judeus que se interrogavam: “Como é que este sabe de letras (gr. grammata oîden), sem tê-las aprendido?” (João 7, 14-15). O instrutor rosacruciano Edmundo Teixeira (1922-1994), no seu Curso de Cristianismo Esotérico (vol. 3, lição n.º 51) esclarece: “Os de Jerusalém (hierosolimitanos) tinham a certeza que Jesus não havia cursado a Escola Rabínica, para assim conhecer as Escrituras. Acontece que os fariseus representavam o ensino predominante, externo e público, mas os Essênios, além do preparo exotérico, tinham a sabedoria esotérica, que a sua tradição conservava em manuscritos secretos“. Ora, Jesus fora educado pelos Essênios, conforme lemos no Conceito Rosa-cruz do Cosmos : “Jesus foi educado pelos Essênios e alcançou um elevado grau de desenvolvimento espiritual durante os trinta anos em que usou o seu corpo” (Heindel 1998, 299).

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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2 respostas para O uso do pergaminho e o pecado original – Parte I

  1. Oiced Mocam disse:

    GÊNESIS é MITOLOGIA,
    As religiões defendem a criação de nosso universo, como uma ação Divina, uma graça nos dada pelos seus respectivos Deuses. Cada uma defende sua teoria, sua verdade; vamos nos concentrar na Criação Divina proposta na Bíblia, por ser a mais famosa e ser de fato, a base de todas as outras religiões que nós costumamos discutir. O cristianismo adota a Bíblia como fonte explicativa sobre a criação do homem. A Bíblia diz: “Disse Deus ‘faça-se a luz’ e fez-se a luz. E viu Deus que a luz era boa.” Como! Já não sabia? Não sabia que era algo bom? Por isso os céticos dizem “estamos frente a um criador ignorante dos efeitos de sua criação”.
    “No princípio, Deus criou os céus e a terra”.
    Assim começa a Bíblia, e o primeiro capítulo do Gênesis relata como Deus criou o mundo. Sem utilizar nenhum material pré existente, sem nenhum instrumento, Deus foi criando todas as coisas: os céus (?) e a terra, os animais e as plantas e onipotência de Deus (legal ele?): As coisas pequenas – ervas e insetos – e as grandes: o sol, a lua, os sistemas planetários, as nebulosas, os mares… O ser mais perfeito da criação visível é o homem e os seres vivos foram fabricados na linha de montagem do pai celeste dos hebreus.
    E Deus continua cuidando e governando tudo com Suas leis. E os micróbios, os vírus, as bactérias? Isso era bom? Quem foi que os fez? Pois bem. Sequer foram mencionados. Que linda é a Criação!!!. Quando você analisa o texto do Gênesis encontra tantos absurdos que dá pena. É quase uma piada, mas os crentes olham e deslumbrados, só veem as maravilhas de Deus. Se você, no entanto, resolver analisar mais seriamente os textos vai encontrar mais coisas para rir.
    Com essas palavras simples, mas fantásticas, começa o Gênesis, o livro da Bíblia (o primeiro livro da bíblia foi de Jó). A criação inteira levou 6 (seis) dias, mas o Universo é bilhões de anos mais velho, com estrelas novas que constantemente se formam. Terá sido um ser todo-poderoso e sobrenatural que criou (no primeiro dia Deus disse: “Haja luz”, antes do Sol criado no 4º dia. SOL CRIADO no QUARTO DIA???), e segundo seu desejo e vontade, o céu, a terra e depois o homem à sua semelhança?
    Há, por exemplo, um consenso entre os eruditos de que haja dois relatos distintos da criação, o primeiro oriundo da Fonte P (Fonte Sacerdotal) em ( (Gn 1:l2:4a) e o segundo, da Fonte J (Javista) em (Gn 2:4b-25). Os dois relatos da criação estão em contradição no que tange à ordem da criação e ao método de formação do homem.
    BÍBLIA E A TRADUÇÃO ERRADA
    Uma respeitada estudiosa do Velho Testamento acredita que a visão de Deus como criador de todas as coisas é falsa, e que a Bíblia foi traduzida erroneamente durante milhares de anos. Ellen van Wolde, da Universidade de Radboud, na Holanda, afirma que a primeira frase da Bíblia, “No começo, Deus criou o Céu e a Terra”, NÃO é uma tradução fiel do texto original, em hebreu. Wolde afirma ter realizado uma análise textual que sugere que os escritores da Bíblia não tinham a intenção de afirmar que Deus criou o mundo e que, de fato, a Terra já existia quando ele criou os humanos e os animais. A pesquisadora analisou os escritos originais do hebreu e colocou-os no contexto da Bíblia como um todo, e no contexto de outras histórias de criação da antiga Mesopotâmia.
    Segundo a pesquisadora, a palavra “bara”, que aparece na frase, não significa “criar”, e sim “separar”, no sentido espacial. Deste modo, o significado original da frase seria “No início, Deus separou o Céu e a Terra”.
    Wolde diz que sua análise mostra que o início da Bíblia não é o início dos tempos, e sim o início de uma narração. “A ideia da criação a partir do nada é um grande mal entendido”, diz a pesquisadora.
    As descobertas do estudo são bastante radicais, e ela afirma que espera que as conclusões levantem um debate religioso. Entretanto, ao contrário do que se possa acreditar, a pesquisadora é religiosa, e ficou pessoalmente incomodada pelas descobertas: “Me considero religiosa e o Criador era algo muito especial, como uma noção de confiança. Quero manter esta confiança”, diz. (Fonte acessada em 01/11/2017: [Telegraph] http://www.telegraph.co.uk/news/religion/6274502/God-is-not-the-Creator-claims-academic.html).
    Assim, estamos provavelmente presos agora em um erro de tradução. Este não é um começo auspicioso para uma tradução da Bíblia!. O problema intransponível surge quando os criacionistas insistem que nós, a humanidade, o Homo sapiens sapiens, fomos criados instantaneamente por um “Deus”.

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  2. Oiced Mocam disse:

    “Então o senhor Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente.”
    Esse é o relato da criação do Homem segundo o Capítulo 2, verso 7 do livro do Gênesis – segundo a versão moderna e a inglesa do rei James; e é o que os criacionistas fanáticos acreditam piamente.
    Se eles lessem o texto em hebraico – que, afinal, é o original – descobririam, em primeiro lugar, que o ato da Criação é atribuído a um certo Elohim – um termo plural que deveria ser traduzido, pelo menos, por “deuses” e não “Deus”.
    O texto Massorético hebraico de Gênesis 1: 1 refere-se a “Elohim” – uma palavra representando vários deuses. A forma única em hebraico é: “Eloah.” A aparente referência às divindades plural é reforçada pelo uso de “nós” e “nós” em Gênesis 1:26 e em outros versículos de Gênesis. Alguns sugerem que uma precisa tradução literal seria: “começo cheio os Deuses os céus e a terra .” (Fonte acessada em 15/02/2018: James Patrick Holding, “How Many “E”? em Elohim, será que a forma plural do nome de Deus indique politeísmo ?,” Ministério Apologetic Tekton, em:http://www.tektonics.org/)
    Em segundo lugar, ficariam sabendo que o verso também explica como “Adão” foi criado: “porque não havia um Adão para cultivar o solo”. Esses dois indícios são importantes e incertos a respeito de quem criou o homem e por quê.
    Naturalmente, existe outro problema no Gênesis 1:26-27, uma versão anterior da criação do homem. Primeiro, de acordo com a versão do rei James e outras, “Deus El disse: “Façamos o homem a nossa imagem, como nossa semelhança”; a seguir, a sugestão é executada:
    “Deus criou o homem a sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou”.
    Não é pra rir? “Deus disse”. Disse? E quem escutou? “Façamos à nossa” Nossa quem? Quantos deuses havia nessa época? Deus estava falando com quem? Quem estava com ele? Só rindo… Desculpem. Plagiando Julio César até posso dizer que: Li, Reli e Não Cri!
    O relato bíblico fica mais complicado na narrativa seguinte do Capítulo 2, “Adão” ficou só até Deus dar-lhe uma companheira feita de sua costela (o primeiro caso de clonagem antes, foi na suméria). No livro em que Deus explica como Ele fez tudo isso, em um capítulo Ele disse que criou Adão e Eva do pó ao mesmo tempo, mas em outro capítulo Ele disse que criou Adão primeiro, e depois criou a Eva de uma da costela que roubou de Adão. Se a mulher foi feita da costela, imaginem se fosse de filé! Dizem que depois Eva contava as costelas de Adão todos os dias para ter certeza de que não existia outra na parada. Existem várias lendas sobre a origem da mulher. Uma diz que Deus pôs o primeiro homem a dormir, inaugurando assim a anestesia geral, tirou uma de suas costelas e com ela fez a primeira mulher. E que a primeira provação de Eva foi cuidar de Adão e aguentar o seu mau humor enquanto ele convalescia da operação. Outra lenda diz que Deus fez a mulher primeiro, e caprichou nas suas formas, e aparou aqui e tirou dali, e com o que sobrou fez o homem só para não jogar barro fora. Isso causou confusão no vale da sombra da dúvida. Então Deus criou teólogos para resolver o problema.
    Enquanto os criacionistas acham difícil decidir qual é a versão dogmática, sine quo non, ainda existe o problema do pluralismo. A sugestão da lenda da criação do Homem vem de uma entidade plural que fala a uma audiência plural: “Façamos um Adão a nossa imagem, como nossa semelhança”.
    Os que acreditam na Bíblia devem se perguntar: o que está acontecendo? Iahweh/Elohim disse:
    “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda’”.
    Na Bíblia, o doador é Adão. Ele recebe “anestesia” geral e adormece. É feita uma incisão e retirada uma costela. A carne é puxada para fechar o corte e o paciente fica descansando e se recuperando. Infelizmente, a Bíblia não descreve os procedimentos feitos em Eva com silicone ou sem. Observe que a medicina naqueles tempos já era bem avançada!

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