Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo II (2ª Parte)

Resultado de imagem para os stuarts na inglaterraTriple portrait of Charles I, King of England, Scotland and Ireland from three angles (1635-36)

A Reforma

Até a Reforma Inglesa sob Henrique VIII (1491 -1547), o panorama religioso oficial das Ilhas Britânicas era predominantemente católico romano. Desde a conversão de Agostinho de Hipona a teologia católica romana havia sido impregnada com o pensamento platônico, mas durante o período de 300 anos antes da Reforma, a teologia católica romana tinha assumido uma característica muito distinta. Ela tinha adaptado sua teologia à filosofia de um grego que fora uma época estudante de Platão. O nome deste grego era Aristóteles e a forma como seus ensinamentos foram adotados (e adaptados) como a base da teologia católica romana medieval é conhecido hoje pelo termo Movimento Escolástico.

O defensor mais importante desta tendência em direção a Aristóteles foi um prior dominicano conhecido como Tomás de Aquino (c.1225 – 1274). A sua Summa Teológica (ou Resumo de Teologia) foi o veículo que deu a expressão mais convincente de uma fusão de pensamento aristotélico com a teologia católica romana.

Para os fins desta discussão, não há sentido em ampliar mais a investigação sobre esta questão, além de ter em mente que a força com que a revolução protestante se desenvolveu não se tratou apenas de um protesto relacionado com a venda de indulgências, nem foi apenas sobre a disputa quanto à salvação da alma somente ser alcançada por boas obras ou pela ação da graça de Deus.

O primeiro movimento protestante de grande sucesso aconteceu sob a liderança de um monge agostiniano católico e acadêmico chamado Martinho Lutero (1483-1546). O “Protesto” do movimento era fundamentalmente uma forte reação contra os resultados da prática dos 300 anos anteriores na adoção e adaptação da filosofia de Aristóteles à teologia católica romana.

Aqui há algo a considerar … Se há algo que marque a tendência filosófica do protestantismo, é a rejeição total da filosofia de Aristóteles e a re-adoção da filosofia de Platão dentro do corpo do pensamento protestante.

Podemos reafirmar o princípio de outra maneira para dar-lhe mais clareza. Enquanto o catolicismo romano (durante o período medieval) adotou a filosofia de Aristóteles na formulação de sua teologia, o movimento protestante trabalhou na direção oposta. Ele conscientemente adotou novamente a filosofia de Platão como a base da teologia protestante.

Será que este processo mostra alguma evidência em um contexto maçônico? Sem sombra de dúvida.

A única diferença é que em um contexto maçônico, este processo continuou em resposta a tensões políticas, ao invés de tensões religiosas. Mais especificamente, o processo continuou em resposta às tensões entre os escoceses e ingleses quanto ao direito de um homem  – o Rei James II (1633-1701)  – de governar a Inglaterra e a Escócia.

Porque ele era o segundo rei da Inglaterra a ser chamado James, mas o sétimo rei da Escócia com esse nome, seu título é geralmente representado como James II / VII).

Protestante de nascimento, James II / VII converteu-se ao Catolicismo Romano por volta do ano de 1668.

Esta conversão conseguiu evoluir de uma expressão de  espiritualidade pessoal para uma crise internacional, envolvendo uma série de cortes europeias no cataclismo que se seguiu. Até o momento em que todas estas tensões internacionais tinham sido resolvidas, nenhum católico romano era autorizado a se tornar Rei da Inglaterra e nenhum rei da Inglaterra era autorizado a se casar com uma católica romana.

Em sua própria maneira, a conversão de James também foi o catalisador que sustentava a própria reinvenção dramática que a Maçonaria realizou no início de 1700.

As Eras Jacobina e Hanoveriana

Os meandros das manobras políticas nos 150 anos seguintes à Reforma Inglesa podem ser constatados em qualquer livro confiável de história Inglesa. O aspecto que é de particular interesse para a história Maçônica refere-se a James II/VII da Inglaterra e as consequências de sua conversão ao catolicismo romano.

Quando a conversão de James foi exposta, seu irmão, o rei Charles II, opôs-se publicamente, e certificou-se de que os filhos de James fossem educados como protestantes. A natureza humana é raramente tão previsível quanto, por vezes, acreditamos. Neste caso, quem teria previsto que Charles II – em seu leito de morte, em 1685 – teria se convertido, ele mesmo, à fé católica? Não é difícil ver que a situação geral era espinhosa de alguns pontos de vista. As tensões eram altas entre os seguidores da Igreja da Inglaterra, bem como aqueles fora dela. Dito isto, nem a Igreja da Inglaterra estava isenta de seu próprio elemento “protestante”. Havia grupos dentro da igreja que se opunham firmemente ao que a Igreja da Inglaterra estabelecia, e que esta não tinha ido suficientemente longe em se distanciar do catolicismo romano. Esses grupos, cada um com seu próprio “protesto” específico, eram conhecidos coletivamente como “dissidentes”, e deste grupo, possivelmente um dos mais famosos foi o movimento puritano.

Um dos pontos que a maioria das facções dissidentes sustentavam em comum era a sua oposição à estrutura estabelecida na Igreja da Inglaterra de usar bispos. Na sua perspectiva, a instituição dos bispos era muito próxima ao paradigma católico romano. Havia ainda muitas áreas na Escócia que se opunham à instituição dos bispos. Nesses casos, sua objeção era politicamente motivada, e como religião e política muitas vezes andam de mãos dadas, eles viam os bispos como uma extensão indesejada da mão política inglesa nos assuntos escoceses.

Durante esse período, os católicos romanos estavam sujeitos a puniççoes por se oporem à Igreja da Inglaterra, mas este não foi o fim dela … A Igreja da Inglaterra estabelecida aplicava a mesma punição contra seus próprios dissidentes. Neste ambiente, James II/VII nadou contra a corrente ao emitir o que ficou conhecido como a Declaração de Indulgência em 1687. Esta Declaração oferecia a todos os seus súditos liberdade de consciência ao expressar suas crenças religiosas. A Declaração abriu caminho para os católicos romanos cultuar como católicos, os dissidentes como dissidentes e os seguidores da Igreja da Inglaterra como anglicanos – sem medo ou preconceito.

Esta legislação controversa, (bem como outras medidas que James II/VII instituiu) – o colocou em oposição direta com alguns protestantes ricos e politicamente conectados. Para eles, a única opção passou a ser arquitetar um plano para o seu afastamento do trono da Inglaterra. Isso eles alcançaram oferecendo o trono da Inglaterra ao genro de James II/VII – um holandês e protestante conhecido como Guilherme de Orange (1650-1702). Quando James II/VII fugiu para a França em Dezembro de 1688, esta “fuga” foi tratada como sua “abdicação” oficial. Na queda de dominós que se seguiu, o trono passou para Guilherme, que reinou como William III na Inglaterra e  William II na Escócia a partir de 1689. Morrendo em 1702, ele reinou por 21 anos.

Por mais tenso que esses tempos tenham sido para o ingleses, eles só foram agravados por uma tensão crescente entre os escoceses e ingleses sobre a matéria da conspiração através da qual William III chegou ao seu trono. Muitos escoceses, (embora se opondo ao catolicismo romano e a tudo que ele representava), tinham maior oposição à forma como os ingleses haviam conspirado para remover James II/VII. James II/VII era seu legítimo Rei da Escócia.

Por mais doloroso que essa ferida tenha sido para eles, o sal que os ingleses tinham consciente e propositadamente aplicado a ela foi igualmente desagradável. Os ingleses haviam oferecido o trono para uma pessoa que não era nem nascida nas Ilhas Britânicas.

Eles haviam oferecido a um holandês – e este holandês em particular se opunha avidamente aos franceses. Sua oposição colocou uma dificuldade adicional. Como os franceses eram aliados dos escoceses, estes estavam determinados a demonstrar a sua lealdade para com seus aliados franceses. Neste ambiente político e religioso complicado, é mais provável que muitos escoceses (leais a James II/VII) usaram a amplas linhas de comunicação, disponíveis na rede de lojas operativas existentes em todo o país, para planejar o retorno dos seu legítimo rei Stuart escocês – James II/VII. O próximo projeto (em ordem de prioridade) era a deposição do estrangeiro holandês – Rei William III/II.

Num contexto mais amplo, os partidários escoceses de James II/VII, que eram conhecidos como jacobitas (do latim Jacobus significando James), estavam interessados ​​em restaurar o trono aos descendentes da dinastia Stuart (de quem James II/VII era representante). Novamente por  extensão, a causa jacobita (como ficou conhecida) era para alguns clãs das Terras Altas, (… nem um pouco surpreendente) algo que tratava não só sobre religião. Sua motivação era também política. A causa jacobita se tornou o seu chamado às armas contra um clã Presbiteriano conhecido como os Campbells de Argyll, cujo exercício de poder era a aquisição de territórios pertencentes a outros clãs nas terras altas da Escócia.

Dizer que a política da época era fluida, confusa e não restrita a determinados territórios ou fronteiras culturais ou linguísticas específicas é um eufemismo.

Foi nesta altura dos acontecimentos políticos que agora apareceu a língua de chama azul.

Em 1701, James II/VII morreu e seu filho – James Francis Edward Stuart (1688 -1766) foi imediatamente reconhecido como James III da Inglaterra e James VIII da Escócia, por uma série de cortes europeias, incluindo a própria corte papal. Estas cortes (tinham incidentalmente) todos sido politicamente alinhadas em não reconhecer William III/II como o sucessor legítimo e legal de James II/VII.

James Francis Edward Stuart – um católico, era visto como o maior orgulho e esperança da renovação intensificada da Causa Jacobita.

Aqui estava o problema central – no mesmo ano em que o seu nascimento ocorreu, foi aprovada a legislação que proibia um católico romano de subir ao Trono. Como resultado, o Trono passou para Anne (cunhada de William II/III). Ela era elegível por direito sendo seu parente mais próximo vivo e tendo sido educada como protestante.

Uma das mais notáveis realizações ​​políticas do seu reinado foi o Ato de União (1707), através do qual a Inglaterra e a Escócia se uniram formando a Grã-Bretanha. Quando ela morreu sem filhos em 1714, o Trono passou para um segundo primo de Anne, que era conhecido pelo título de Eleitor de Hanover.

Ele era um protestante e nesta época – um alemão. Seu nome era George Louis (1660-1727) e em 1714 foi coroado como rei George I da Grã-Bretanha.

O ano seguinte testemunhou o início de uma série de sucessivas batalhas em nome da Causa Jacobita que continuaram até 1746 com a derrota dos escoceses na Batalha de Culloden. Depois desta batalha, a causa jacobita perdeu seu forte impulso e subsequentemente entrou em declínio.

O objetivo deste Resumo da história escocesa/inglesa depois da revolução protestante é lançar as bases para os eventos que ocorreram pouco depois. Estes eventos mudaram a maneira como a Maçonaria seria – a partir de então – reconhecida. Uma das mudanças mais significativas ocorreu apenas dois anos após a primeira rebelião jacobita de 1715.

Foi a fundação da Primeira Grande Loja da Inglaterra, em 24 de junho de 1717.

Em alguns aspectos, os eventos que levaram à formação da Primeira Grande Loja da Inglaterra podem ser vistos como uma manobra política muito calculada e astuta. Empregando uma perspectiva moderna, poderíamos até dizer que a partir de uma perspectiva de marketing, foi uma manobra muito inteligente. Ela foi uma manobra que usou um pastor presbiteriano escocês (que também era maçom) para reescrever sua própria história natural maçônica da Escócia seguindo instruções de seus próprios superiores maçônicos ingleses. Com intenção consciente, a versão da história maçônica que ele escreveu distanciou-se da Causa Escocesa/Católica/Jacobita, e alinhou-se plenamente com a Casa de Hanover Alemã e Protestante.

O homem por trás de tudo isso era alguém que na história Maçônica parece tocar o “segundo violino” para os verdadeiros “músicos” por trás da formação da Primeira Grande Loja da Inglaterra, mas com o tempo a história pode reavaliar a sua contribuição de ponta para a Ordem.

Seu nome era Reverendo Dr. James Anderson.

Continua…

Autor: Stephen Michalak
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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