Seis Séculos de Ritual Maçônico – 1ª Parte

Irmãos, muitos de vocês sabem que eu viajo grandes distâncias no decurso das minhas funções de conferencista e quanto mais eu viajo, mais atônito eu fico ao ver quantos Irmãos acreditam, muito sinceramente, que o nosso ritual maçônico veio direto do céu, diretamente nas mãos do rei Salomão. Todos eles estão bastante certos de que era em inglês, é claro, porque essa é a única língua que eles falam lá em cima. Eles estão igualmente certos de que tudo foi gravado em duas tábuas de pedra, de modo que, Deus perdoe, nenhuma única palavra seja jamais alterada; e a maioria deles acredita que o rei Salomão, em sua própria loja, praticava o mesmo ritual que eles praticam nas deles.

Mas, não foi nada disso, e tentarei esboçar para vocês a história do nosso ritual desde seus primórdios até o ponto em que foi praticamente padronizado em 1813; mas vocês devem se lembrar, enquanto eu estou escrevendo sobre o ritual inglês também estou lhes dando a história de seu próprio ritual. Uma coisa será incomum sobre este artigo. Hoje vocês não vão receber nenhum conto de fadas. Cada palavra que eu escrever será baseada em documentos que podem ser provados: e nas raras ocasiões em que, apesar de ter os documentos, ainda não conseguimos a prova completa e perfeita, direi alto e em bom som “Nós achamos…” ou “Nós acreditamos…”. Então vocês saberão que estamos, por assim dizer, em terreno incerto, mas eu lhes darei o melhor que sabemos. E uma vez que uma conversa desse tipo deve ter um ponto de partida adequado, deixe-me começar por dizer que a Maçonaria não começou no Egito, ou na Palestina, ou na Grécia ou em Roma.

Início da Organização Mercantil dos Pedreiros

Tudo começou em Londres, Inglaterra, no ano de 1356, uma data muito importante, e ela começou como o resultado de uma boa e antiga grande briga acontecendo em Londres entre os canteiros, os homens que cortavam a pedra, e os pedreiros assentadores e alinhadores, os homens que realmente construíam as paredes. Os detalhes exatos da briga não são conhecidos, mas, como resultado desta briga, 12 mestres pedreiros qualificados, com alguns homens famosos entre eles, foram diante do prefeito e vereadores em Guildhall, em Londres, e, com a permissão oficial, elaboraram um simples código de regras da atividade.

As palavras de abertura desse documento, que ainda sobrevive, dizem que esses homens tinham se reunido, porque sua atividade nunca havia sido regulamentada na forma como outras atividades tinham sido. Então, aqui, neste documento, temos uma garantia oficial de que esta foi a primeira tentativa de algum tipo de organização da atividade para os pedreiros e, à medida que continuamos a ler o documento, a primeira regra que eles elaboraram dá uma pista sobre a disputa de demarcação de que eu falava. Eles estabeleceram “Que cada homem do comércio pode trabalhar em qualquer trabalho relacionado com a atividade se ele estiver perfeitamente qualificado e formado na mesma”. Irmãos, esta era a sabedoria de Salomão! Se você soubesse o trabalho, você poderia fazer o trabalho, e ninguém poderia impedi-lo! Se nós pelo menos tivéssemos aquele senso muito comum hoje em dia na Inglaterra, quanto melhor nós seríamos.

A organização que foi criada na época tornou-se, no prazo de 20 anos, a London Masons Company, a primeira guilda de pedreiros e um dos ancestrais diretos de nossa Maçonaria de hoje. Este foi o verdadeiro começo. Agora, a London Masons Company não era uma loja; era uma guilda profissional e eu deveria gastar muito tempo tentando explicar como as lojas começaram, um problema difícil porque não temos registros da fundação efetiva das lojas operativas iniciais.

Resumidamente, as guildas eram organizações urbanas muito favorecidas pelas cidades porque elas ajudavam na gestão dos assuntos municipais. Em Londres, por exemplo, a partir de 1376 em diante, cada uma das atividades profissionais elegeu dois representantes, que se tornaram membros do Conselho Comum, todos juntos formando o governo da cidade. Mas a atividade de pedreiros não se prestava à organização da cidade. A maior parte do seu trabalho principal era fora das cidades – os castelos, as abadias, mosteiros, as obras de defesa, os trabalhos realmente grandes de construção eram sempre muito longe das cidades. E acreditamos que era nesses lugares, onde não havia nenhum outro tipo de organização profissional, que os pedreiros, que estavam envolvidos nesses trabalhos por anos a fio, organizaram-se em lojas, imitando as guildas, de modo que eles tinham alguma forma de autogoverno no trabalho, enquanto estavam longe de todas as outras formas de controle da atividade.

A primeira informação efetiva sobre lojas nos chegam de uma coleção de documentos que conhecemos como ‘Antigas Obrigações’ ou as Constituições Manuscritas da maçonaria, uma coleção maravilhosa. Elas começam com Manuscrito Regius 1390; o próximo, o Manuscrito Cooke é datado de 1410 e temos 130 versões destes documentos direto até o século XVIII.

A versão mais antiga, o Manuscrito Regius, está em verso rimado e difere, em vários aspectos dos outros textos, mas, em sua forma geral e conteúdo deles são todos muito parecidos. Eles começam com uma oração de abertura, Cristã e trinitária, e, em seguida, eles prosseguem com uma história do ofício, começando nos tempos bíblicos e em terras bíblicas, e traçam a origem do ofício e sua disseminação por toda a Europa, até que chegou à França e foi então levado através do canal e, finalmente, estabeleceu-se na Inglaterra. História incrivelmente ruim; qualquer professor de história cairia morto se fosse desafiado a prová-la; mas os pedreiros acreditaram. Esta foi a sua garantia de respeitabilidade como um antigo ofício.

Em seguida, após a história, encontramos os regulamentos, as Obrigações efetivas, para mestres, companheiros e aprendizes, incluindo várias regras de caráter puramente moral, e isso é tudo. Ocasionalmente, o nome de um dos personagens muda, ou a formulação de um regulamento será um pouco alterada, mas todos seguem o mesmo padrão geral.

Além dessas três seções principais, a oração, a história e as Obrigações, na maioria deles encontramos algumas palavras que indicam o início da cerimônia maçônica. Devo acrescentar que não podemos encontrar todas as informações em um único documento; mas quando os estudamos como uma coleção,  é possível reconstruir o esboço da cerimônia de admissão daqueles dias, a primeira cerimônia de admissão no ofício.

Sabemos que a cerimônia, tal como era, começava com uma oração de abertura e, em seguida, havia uma “leitura” da história. (Muitos documentos posteriores se referem a esta “leitura”.) Naqueles dias, 99 pedreiros em 100 não sabiam ler, e acreditamos, portanto, que eles selecionavam seções específicas da história que eles memorizavam e recitavam de memória. Ler todo o texto, mesmo que soubessem ler, teria levado tempo demais. Assim, a segunda parte da cerimônia era a “leitura”.

Então, encontramos uma instrução, que aparece regularmente em praticamente todos os documentos, geralmente em latim, e ela diz: “Então um dos anciãos segura um livro (às vezes “o livro”, por vezes, a “Bíblia”, e às vezes a “Bíblia Sagrada”) e ele ou eles que devem ser admitidos colocarão sua mão sobre ele, e as seguintes Obrigações serão lidas.” Nessa posição os regulamentos eram lidos para o candidato e ele fazia o juramento, um simples juramento de fidelidade ao rei, ao mestre e ao ofício (maçonaria), de que ele obedeceria aos regulamentos e nunca levaria vergonha à maçonaria. Este foi uma derivação direta do juramento da guilda, que era, provavelmente, a única forma que eles conheciam; sem frescuras, sem penalidades, um simples juramento de fidelidade ao rei, ao empregador (o mestre) e à atividade.

Deste ponto em diante, o juramento torna-se o coração e medula, o centro crucial de toda cerimônia maçônica. O manuscrito Regius, que é a primeira das versões a sobreviver, enfatiza isso e vale a pena citá-lo. Após a leitura das Obrigações no Manuscrito Regius, temos estas palavras:

“E todos os pontos a partir daqui A todos eles, ele deve ser jurado, E todos jurarão o mesmo juramento Dos maçons, estejam eles dispostos, estejam eles relutantes.”

Quer eles gostassem ou não, só havia uma chave que abriria a porta para a maçonaria e esta era o juramento do maçom. A importância que o Regius atribui a ele, encontramos repetidas vezes, não com as mesmas palavras, mas a ênfase ainda está lá. O juramento ou obrigação é a chave para a cerimônia de admissão.

Assim, descrevi a vocês a cerimônia mais primitiva e agora eu posso justificar o título do meu trabalho, Seis Séculos de Ritual Maçônico. Temos 1356 como a data do início da organização de atividade de maçonaria, e cerca de 1390 as primeiras evidências que indicam uma cerimônia de admissão. Dividam a diferença. Em algum lugar entre essas duas datas foi quando tudo começou. Isso é quase exatamente 600 anos de história provável e podemos provar cada estágio de nosso desenvolvimento a partir de então.

A maçonaria, a arte da construção começou há muitos milhares de anos antes disso, mas, para os fins dos antecedentes da nossa própria Maçonaria, só podemos voltar à linha direta de história que pode ser provada, e que é 1356, quando ela realmente começou na Grã-Bretanha.

E agora há outro ponto que precisa ser mencionado antes de eu ir mais longe. Tenho vindo falando de uma época em que havia apenas um grau. Os documentos não dizem que há apenas um grau, eles simplesmente indicam apenas uma cerimônia, nunca mais do que uma. Mas eu acredito que ela não pode ter sido para o aprendiz; ela deve ter sido para o companheiro, o homem que estava totalmente treinado. As Antigas Obrigações não dizem isso, mas há ampla evidência externa da qual tiramos essa conclusão. Temos muitas ações e decisões judiciais que mostram que nos anos 1400 um aprendiz era uma propriedade, um ativo, de seu mestre. Um aprendiz era uma peça de equipamento, que pertencia a seu mestre. Ele podia ser comprado e vendido quase da mesma maneira que o mestre compraria e venderia um cavalo ou uma vaca e, sob tais condições, é impossível que um aprendiz tivesse qualquer status na loja. Isso veio muito mais tarde. Então, se é que podemos voltar no tempo ao momento em que havia apenas um grau, ele deve ter sido para o pedreiro totalmente treinado, o companheiro.

Quase 150 anos se passariam antes que as autoridades e o parlamento começassem a perceber que talvez um aprendiz fosse realmente um ser humano também. No início dos anos 1500, temos na Inglaterra uma coleção inteira de estatutos de trabalho, leis trabalhistas começam a reconhecer o status dos aprendizes, e por volta dessa época começamos a encontrar evidências de mais um grau.

De 1598 em diante, temos atas de duas Lojas escocesas que estavam praticando dois graus. Eu voltarei a isso mais tarde. Antes daquela data, não há nenhuma evidência sobre graus, exceto, talvez, em um documento inglês, o manuscrito Harleian nº 2054, datado de cerca de 1650, mas acredita-se ser uma cópia de um texto do final dos anos 1500, agora perdido.

Continua…

Autor: Harry Carr
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Notas

Harry Carr foi Past Master e Secretário por muito tempo da Quatuor Coronati Lodge No. 2076, CE, que é conhecida como a “Primeira Loja de Pesquisas Maçônicas.”.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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