Anais do Colégio Invisível – IX – A Tradição Platônica

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IX

A Tradição Platônica

Espera-se que a visão de um cosmos ordenado em hierarquias e unido por amor esteja perto da realidade das coisas. Na revista Lapis Nº 3, David Fideler descreveu a mecânica espiritual de tal universo e sua celebração na arte do Renascimento. Essa visão é a essência da tradição platônica. Como veremos, provê tanto de uma estrutura metafísica para a filosofia, como de pautas para uma vida cívica e pessoal.

A metafísica platônica tem como premissa a existência de um “mundo de Formas” que é a matriz de onde surge o mundo material. Estas Formas, longe de serem imaginárias, são mais reais do que aquilo que a maioria das pessoas toma, equivocadamente, por realidade. Poderíamos chamá-las de arquétipos: trata-se de coisas como a Unidade, a Justiça, a Bondade e a Beleza, que vemos debilmente refletidas no que conhecemos dessas qualidades.

Conforme foi se desenvolvendo a tradição platônica, as Formas foram identificadas com os deuses e deusas da religião pagã. Para os neoplatônicos, os seres pessoais que as pessoas adoram são na realidade as Formas com as quais sentem um parentesco natural. Entre estes e a matéria se estende uma cadeia de seres intermediários – semideuses, espíritos, etc. – que também participam de Formas causais e têm um papel no governo do mundo. O cosmos inteiro é uma hierarquia, suspensa de modo piramidal do Uno e suas emanações arquetípicas.

Como sabemos isso? Outro princípio platônico é que o semelhante é conhecido pelo semelhante. Para conhecer a matéria deve-se ter um corpo físico. Para conhecer as coisas imateriais, deve-se ter uma alma. Para conhecer as Formas, deve-se ter um intelecto superior que seja semelhante a elas. Assim, o indivíduo é um microcosmos do todo.

Mas, na maioria de nós, estes órgãos de Conhecimento não estão totalmente desenvolvidos. A maior parte do que conhecemos nos chega através dos sentidos e é distorcida por nossas opiniões; assim, só temos uma vaga noção do que é. O conhecimento superior e mais exato começa com a mente, e continua até o ponto de ter uma percepção direta das Formas através do intelecto impessoal. Quem empreende esta viagem de desenvolvimento pessoal é um filósofo: “um amante da Sabedoria”.

O Mito da Caverna de Platão (República, Livro 7) descreve o que acontece com as pessoas que têm êxito no desenvolvimento destes graus superiores de percepção. Os seres humanos se parecem aos prisioneiros em uma caverna, forçados a ficar sentados olhando um muro.  Por trás deles estão os operadores do sistema da caverna, que utilizam a luz de uma fogueira e figuras recortáveis para projetar um jogo de sombras sobre a parede, que os prisioneiros vêm com apaixonado interesse, já que é tudo o que conhecem. É tal qual uma exibição cinematográfica. De repente, um prisioneiro vira a cabeça, e vê para sua surpresa que o jogo de sombras não é de verdade, mas apenas criado pelos operadores. Consegue escapar dos grilhões que o prendem  e descobre o caminho para o exterior da caverna, onde fica encantado por estar em um mundo infinitamente mais maravilhoso que o que conhecia. Aqui se encontra com os originais do jogo de sombras: pessoas reais, árvores, montanhas, estrelas, etc. Em toda sua gloriosa forma e cor. O filósofo, – pois é isso que ele é agora – sente compaixão por seus velhos amigos, ainda trancafiados na caverna, e anseia dissipar sua ilusão. Regressa para contar a eles sua descoberta. Mas, longe de lhe dar as boas-vindas, soltarem-se e escaparem para o mundo real, recebem sua informação com incredulidade, chacotas e ódio. Não podem suportar que alguém pretenda saber mais que eles.

Foi isso que descobriu Sócrates, mestre de Platão, quando um jurado ateniense o condenou a morrer envenenado com cicuta, em 399 a. C.; e a filósofa Hipátia, quando São Cirilo, bispo de Alexandria, incitou uma turba a esquartejá-la, em 415. Estes mártires marcam o ocaso e a longa decadência da tradição original platônica. Quando a Academia de Platão foi fechada pelo Imperador Justiniano em 529, havia durado mais que qualquer instituição educacional conhecida.

Os últimos filósofos da Academia Ateniense encontraram refúgio na corte da Pérsia. Dali em adiante a tradição platônica teve uma existência subterrânea. Ainda que em sua forma original o platonismo seja incompatível com qualquer das três religiões abraâmicas, sagazes adaptadores tiveram êxito adicionando seus elementos a cada uma delas, dando origem à Cabala, à teosofia cristã e ao sufismo. Este estado de coisas é responsável pelo termo “Colégio Invisível”, cujos lapsos ocasionais na visibilidade nos aparecem como outras tantas descidas para dentro da caverna, por parte de uma escassa, mas ininterrupta, cadeia de filósofos.

Sócrates deu a conhecer a Platão e a outros jovens atenienses a noção subversiva de questionar crenças e opiniões aceitas. Usava uma indagatória racional, não tanto para chegar à verdade – isso seria pedir demais – mas para dissipar a ilusão. Ensinou aos seus estudantes, e forçou seus oponentes, a admitir sua ignorância, como prelúdio necessário à aquisição do conhecimento. Este é o resultado do famoso “método Socrático”. Mas quando Sócrates queria fazer uma exposição positiva de suas próprias convicções, não usava a dialética, mas o mito. O mito é um relato que personifica uma verdade superior utilizando símbolos para inflamar a imaginação e despertar a memória. Toda aprendizagem, para Sócrates e Platão, é simplesmente a lembrança do que nossas almas alguma vez souberam, mas esqueceram. Nós todos viemos de fora da caverna.

Uma filosofia prática segue imediatamente este sistema. Seu princípio deve ser a separação da alma do mundo material e sua reinstalação em seu próprio domínio. Mas ninguém embarcaria nessa difícil e frustrante viagem se não fosse induzido a ele por um irresistível desejo. O elemento erótico é uma parte essencial da educação platônica: tal como o amante é atraído para o amado, a alma é atraída para as Formas da Beleza e o Bem. O desejo carnal é o primeiro passo na escada de ascensão através de um cosmos saturado de desejo em cada uma de suas partes. Cada ser nele, começando pelo Uno, emana o estado seguinte de ser, amando-o como seu próprio filho e sendo amado por sua vez. Mas uma hierarquia sem amor se torna tirania, seja na pessoa, a família ou o estado.

Assim chegamos à irritante questão da política platônica. Hoje em dia Platão e Sócrates têm má fama por causa de suas opiniões antidemocráticas. Mas pelo menos podemos tentar entender porque não podiam pensar de outra maneira. Sua última realidade consistia no Uno e suas Formas emanadas (ou deuses) que dão existência e configuração a todo o  resto na longa cadeia descendente do ser. Eles pensavam que a sociedade humana devia ser um espelho disso. Deve haver um Uno – o monarca – e deve haver Formas – as leis e seus executores. Mas se a hierarquia política funciona, o monarca deve emular a Sabedoria do modelo, a sociedade deve estar tão ordenada como as estrelas em seu curso e os níveis da sociedade devem estar unidos por amor. Isso aconteceu alguma vez?

Não claramente. Uma razão é que a prescrição necessária nunca foi seguida: que os reis devem ser filósofos, e os filósofos, em conseqüência, devem ser reis. Platão preparou Dionísio, futuro rei de Siracusa na Sicília, para esse papel, e fracassou quando o jovem escapou de seu controle moral. O império Romano foi mais afortunado com seus imperadores filósofos Adriano, Marco Aurélio e Juliano. Mas um império é uma entidade grande demais para uma reforma platônica; a escala apropriada é aquela da cidade–estado. Na Florença do século XV, Cósimo de Medici e sua família se converteram gradualmente de banqueiros em filósofos sob a tutela de Gemistos Pleton e Marcílio Ficino, com magníficos resultados para as artes, mas com pouca vantagem para o povo.

Em Weimar, onde Johann Wolfgang von Goethe chegou a ser conselheiro e amigo do duque Carlos Gustavo (que governou de 1775 a 1828), pode-se dizer que um filósofo estava conduzindo, se não governando, o estado. Este e outros “absolutismos iluminados” do século XVIII e do princípio do XIX se aproximaram do ideal platônico como nenhum até então. Mas nunca foram o suficientemente próximos.

A política platônica é antidemocrática porque, como a ordem cósmica, é regida de cima e não de baixo para benefício de todos. O verdadeiro conhecimento pertence ao filósofo, não às pessoas que nunca estiveram fora da caverna e que ainda estão escravizadas pelos seus sentidos e opiniões. Só o filósofo pode saber o que é melhor para o corpo político, pois só ele viu as coisas tal como são.

Afirmações como estas soam hoje tremendas e vazias. Há duas boas razões. A primeira porque vivemos 2.400 anos depois de Platão, em uma época de cinismo e cansaço do mundo, e não se teve notícia de qualquer sinal de um filósofo-rei. A própria filosofia ganhou uma má reputação depois que degenerou do “amor pela sabedoria” em escolas competitivas de pensamento, e, finalmente, em uma série de poses intelectuais de moda. No que se refere aos frutos da Sabedoria superior, vimos suficientes pessoas “espiritualmente avançadas” com evidentes pés-de-barro, e sabemos que eles também estão sujeitos, como o resto de nós, ao poder, ao dinheiro, ao sexo e ao medo. Imaginá-los dentro da política é uma perspectiva aterradora. Desconfiamos dos fascismos, e a república platônica, com seus marciais guardiães e rígidos controles, parece fascista. A democracia nos convenceu de que nós mesmos sabemos o que é melhor para o corpo político, e temos o direito de eleger líderes que executem nossas preferências.

Estas são algumas das bases da rejeição instintiva ao ideal político platônico – não obstante também estas bases estejam sujeitas à crítica. A segunda razão principal vem do cristianismo, que começou sendo anti–hierárquico e socialmente nivelador. O Jesus do Evangelho de Lucas, por exemplo, está sempre dando preferência àqueles que se acham no mais baixo da pirâmide (mulheres, leprosos, pobres, samaritanos, etc.) e prometendo uma inversão do status no Reino dos Céus. Isso está de acordo com a doutrina já mencionada, essencial à filosofia platônica: que todo homem e mulher é um microcosmos que não tem só um corpo mas também um alma imortal e a potencialidade de conhecer a Deus, ou ao Uno. Comparadas com esta herança comum, as distinções terrestres são irrelevantes e fundamentalmente injustas. Cada qual é filho de Deus, e portanto com igual direito a ter voz na comunidade.

Infelizmente, a democracia não funcionou dessa forma. Todos podemos ser filhos de Deus, mas a maior parte desses filhos é muito jovem e têm muito a aprender antes que possamos lhes confiar, sem risco, os perigosos “brinquedos” do governo. Rapidamente, e com as melhores intenções, elegerão um tirano que mande neles. Isso pode ser que não esteja óbvio no ocidente, a menos que se compreenda que os líderes eleitos não representam as pessoas que votaram neles, mas seus patrocinadores, que fazem o possível, através da propaganda, para que eles sejam eleitos. Os tiranos não são nossos bem intencionados candidatos presidenciais, mas as corporações multinacionais, os grupos de pressão com seus interesses particulares, as indústrias militares, de construção e de medicamentos, os banqueiros e especuladores, etc. Nenhuma dose de democracia cura a sociedade de tumores tão firmemente enraizados.

Estes são os operadores do sistema ilusório da caverna dos dias de hoje. É seu interesse manter uma maioria moderadamente próspera, satisfeita e muda. O espetáculo que é montado é na verdade uma bomba demolidora, que é suficiente para manter as mentes das pessoas totalmente ocupadas. Sob estas circunstâncias, é tolo esperar que a caverna seja conduzida segundo as linhas da República platônica, ou do Reino dos Céus. Estes são modelos que existem no mundo dos arquétipos, não na Terra. Mas não é necessário ser um grande Sábio ou místico para ter vislumbrado o mundo fora da caverna. O sérvio que verdadeiramente não odeia os bósnios e os croatas esteve lá: viu a Forma de sua humanidade comum. Também já o vislumbrou a pessoa que desliga a televisão enfastiado, rechaçando as imagens nas quais seus semelhantes são viciados. Algo foi avivado na memória que, ainda que se encontre profundamente enterrado, pode responder à verdade. Sim, sabemos algo disso, ou não estaríamos lendo este artigo se não soubéssemos. Estamos a caminho para a liberdade e temos o potencial de levar outros conosco, um por um.

Autor: Joscelyn Godwin
Tradução: S.K.Jerez

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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