Sobre os Símbolos e a Simbólica

Todos os seres e coisas expressam uma realidade oculta neles mesmos, que pertence a uma ordem superior, à qual manifestam, e são o símbolo de um mundo mais amplo, mais realmente universal, que qualquer enfoque particular ou literal, por mais rico que este seja. Na verdade, a vida inteira não é mais que a manifestação de um gesto, a solidificação de uma Palavra, que contemporaneamente cristalizou um código simbólico. Esse é o livro da vida e do universo, no qual está escrito nosso nome e o de todos os seres e coisas, e os distintos planos em que convivem e se expressam, comunicando-se perpetuamente, inter-relacionando-se através de gestos e símbolos. A trama inteira do cosmos é, na verdade, um símbolo que cada uma de suas partes expressa à sua maneira.

E se toda a manifestação é simbólica e o universo uma linguagem, um código de signos, nós somos também símbolos e conhecemos e nos relacionamos através deles. Tudo passa então a ser significativo e cada coisa está representando outra de ordem misteriosa e superior à qual deve a vida, sua razão de ser[1]. Então os símbolos estão vivos e emitem suas mensagens, e interagindo uns com os outros também recebem e retransmitem inumeráveis sinais e constituem grupos, conjuntos, sinais ou estruturas dos quais são partes. Os indefinidos códigos simbólicos estão manifestando um só modelo universal, a arquitetura da terra e do céu, enquadrada nos limites do espaço e do tempo.

Os símbolos são, pois, inevitáveis, consubstanciais ao ser humano. E eles, como os gestos, geram os limites em que nos encontramos, promovendo todas as ações, não só as que aconteceram e as futuras, mas também as do presente, as do agora. Se com a linguagem se pode nomear todas as coisas, todas as coisas estão implícitas na linguagem. Se o numerável tiver signo, nesse signo está toda a possibilidade do numerável. Graças ao símbolo revelamos a nós mesmos, pois em virtude deste se forma a inteligência, cria-se nosso discernimento e se ordena a conduta. Pode-se dizer que ele é a cristalização de uma forma mental, de uma ideia arquetípica, de uma imagem. E ao mesmo tempo seu limite; o que possibilita o retorno ao ilimitado através do corpo simbólico, que permite assim as correspondentes transposições analógicas entre um plano de realidade e outro, facultando o conhecimento do ser universal nos distintos campos ou mundos de sua manifestação, já que expressa o desconhecido por sua aparência sensível e conhecida.

O símbolo configura continuamente o preexistente, estabelece uma perpétua conexão conosco e uma vinculação constante com o cosmos, do qual é solidário. O gesto simbólico, ou o rito cósmico, é a permanente possibilidade da reciclagem do ser e da cadeia dos mundos. É revelador, sempre dá a conhecer algo. Tem também poderes transformadores. Por seu intermédio algo abstrato se concretiza, e inversamente algo concreto se abstrai. É ambivalente, pois é aquilo que ele expressa e simultaneamente o expresso. Sua função mediadora constitui um ponto de conexão onde se produz a transição entre duas realidades, participando de ambas: como sujeito dinâmico, ou como objeto estático.

Sua função intermediária como sujeito, poderia ser representada geometricamente com a vertical, que percorre duas direções: ascendente-descendente-ascendente. E a sua função como um objeto estático poderia ser ilustrada com a horizontal, que é um reflexo da força vertical no plano da realidade sensível na qual aquela se expressa. E onde também sua ambivalência ocorre, gerando assim as leis da simetria, a esquerda e a direita no cosmos.

Esta polarização está presente em tudo o que é assinalado pelo espaço e pelo tempo, e se refere ao passado e ao futuro, ao passivo e ao ativo, à concentração e à expansão, à atração e à repulsão, e à toda dualidade complementar de opostos que possibilita a ordem e o equilíbrio cósmico, e que o símbolo testemunha sem fazer exclusões.

A simpatia, ou a sintonização de uma onda ou vibração rítmica comum, faz com que duas coisas se correspondam, pois o similar atrai o similar e se une a ele. A atração produz a complementaridade e a fecundação, a divisão adota a ruptura e a expulsão. Para que duas coisas se atraiam mutuamente é necessário que haja em uma parte da outra, e nesta algo daquela.

Estas situações se dão em distintos níveis de profundidade e planos de relação. E é necessário que exista afinidade para que a harmonia rítmica se produza. Deste modo se requer que a disposição ou a forma dos entes associados se corresponda para que se dê a conjunção harmônica. Isto quer dizer que estejam “desenhados” de tal ou qual maneira para que o acoplamento seja possível; que estejam invertidos uns quanto aos outros. Tal o passivo e o ativo (a taça e o líquido que a enche), o côncavo e o convexo (a matriz e aquilo que se plasma nela).

A analogia é a relação entre um objeto e outro objeto, entre um plano e outro plano, que vibram na mesma frequência. Tem-se dito que a analogia é correspondência rítmica. E o símbolo é a unidade analógica entre um plano e outro plano, ou entre um objeto e outro. Também pode-se dizer que ele é o mensageiro de uma energia-força, que lhe dá forma, e que atua magicamente através dele.

De fato, todas as formas se reduzem a escassas estruturas primárias, que estão na base prototípica de qualquer manifestação. Este conjunto de módulos e imagens se acha também simbolizado ordenadamente pelas representações geométricas em correlação com o denário numeral, as quais, conjuntamente, tornam possíveis todas as construções matemáticas[2]. No código da linguagem alfabética-fonética, as letras e as sílabas têm essa mesma função sintetizadora-geradora, seja olhando do ponto de vista da manifestação verbal para suas origens, ou contrariamente, desde sua fonte original para sua solidificação ou concreção em palavras ou orações. O símbolo, ao sintetizar em si todas as possibilidades expressivas, está manifestando em nossa ordem sensível e sucessiva a simultaneidade do conhecimento, que se traduz na pluralidade de seus significados. A analogia é uma lógica fundamentada nos mecanismos de associação. O universo é uma malha de estruturas interdependentes, incessantemente relacionadas umas com as outras. Estímulos e respostas que, por sua vez, têm que gerar novas respostas.

Também os povos em sua história realizam esta constante esquemática comunicando-se pelo intercâmbio e pela guerra. E este fluxo e refluxo forma parte da estrutura do mundo. Duas correntes, telúrica e cósmica, que são a própria tessitura do universo, que ao se atraírem, unem-se, e ao se expelirem, rechaçam-se, opondo-se, para voltar a juntar-se em uma associação que materializa a possibilidade e a continuidade da vida, assegurando sua difusão; já que estas correntes se buscam simultaneamente, pois cada uma delas tem em sua constituição duas partes que, ao se oporem, complementam e, inversamente, um núcleo que ao se refletir, polariza.

É graças à cadência inefável da linguagem simbólica, e sua reiteração ritual, que se geram os códigos e se repete o modelo cósmico presente em cada uma de suas partes constitutivas, pois elas pertencem ao corpo simbólico e reiteram o arquétipo de que têm que derivar todos os modelos possíveis. Da arquitetura do cosmos às arquiteturas particulares e, contrariamente, das arquiteturas particulares à arquitetura cósmica. Esta é a maneira viva e permanente do que, expressando-se a si mesmo, manifesta a lei em que se criam, transformam e conservam os seres e as coisas. Em uma metamorfose constante, que não vai nem vem, pois constitui um circuito perpétuo, um todo contínuo, que se regenera conjuntamente com o nascimento diário do sol, e que se revela coetaneamente com o tempo.

Mas é necessário, para que esta ordem horizontal indefinida de multiplicação, morte e retorno, tenha sentido, que exista alguma inter-relação em profundidade volumétrica, a qual se representa no plano horizontal pela vertical, como símbolo de outro plano ou mundo, o que chega a constituir um sistema de coordenadas que nos dá conta do alto e do baixo –para equilibrar desta forma a imagem fugaz do devir, fazendo-a significativa e hierarquizando-a–, completando assim o enquadramento onde as coisas se buscam a si mesmas, em seus distintos planos de existência e modos de realidade e onde se conjugam com outras que a sua vez imitam a mesma estrutura. É esta interação a que dá lugar ao espaço tridimensional, que se apresenta como um sólido, produto das tensões e dos ritmos internos, do entrecruzamento multidimensional das coordenadas, que criam um sistema coerente, uma rede ou um quadriculado, que é a base a partir da qual se possibilitam as formas e a substância em que elas aparecem manifestadas. Esta ordem é um delicado equilíbrio permanentemente instável, que se refere uma e outra vez a si mesma, sendo sua identidade a afirmação de seu ser na temática “vida, morte, ressurreição”, configurando um ciclo ou roda, que volta para suas origens depois de realizar um percurso completo. Constitui, pois, um entrecruzamento vertical-horizontal de dois planos ou energias simultâneas, que se reciclam indefinidamente, como uma roda dentro de outra roda, ou como o símbolo plano da cruz de braços iguais inscrita em uma circunferência. Mas para que este projeto ficasse assegurado era indispensável que uma coisa fosse o símbolo e outra o simbolizado. Que o valor de um e de outro fosse determinado não só por sua correspondência harmônica, mas também pela situação de primazia que faz com que um simbolize o outro, e não o contrário, apesar da analogia que os faz solidários, mas invertidos, enquanto que um reflete a energia do outro, reconvertendo-a, e a difunde fazendo-a inteligível.

No simbolismo, o de ordem menor está simbolizando o maior, e não o inverso. A roda simboliza o movimento universal, e não este movimento se encontra simbolizando a uma roda específica, individualizada. Uma imagem ou um modelo do cosmos, simbolizam ao universo e não é este universo o símbolo de um modelo ou imagem particular; assim, quer se trate do modelo da roda, ou o da cruz tridimensional, ou o da árvore da vida sefirótica. O mesmo quando se diz que uma pessoa nascida sob o influxo zodiacal de Leão está relacionada com o sol, não se diz que Leão, e menos o sol, são os símbolos de tal ou qual pessoa concreta. Sem esta condição, o símbolo nada simbolizaria e não teria razão de ser, e a simbólica seria uma mera constatação de formas aparentadas. É a revelação de um alto segredo cognitivo, manifestado por uma forma inteligível, o que caracteriza uma transmissão de energias ordenadora, que faz possível, por outra parte, o fluir de seu discurso existencial.

A regeneração é a possibilidade de que tudo seja sempre novo e agora, de que a existência seja real e não um vago teatro de sombras indetermináveis e flutuantes. O símbolo é o ponto de contato entre a realidade que ele cristaliza e a roupagem formal com o que se veste para fazê-lo. Esta vestimenta tem que ser agradável e correlativa com a ideia que expressa, para que esta possa ser compreendida na verdade. Então manifestará cabalmente a energia-força que o conformou e poderá transmiti-la no contexto adequado, que ele mesmo condicionará, pela atualização de sua potência. Inversamente se pode dizer que esta energia inteligente transcende ao símbolo considerado como mero objeto estático, ou suporte de conhecimento. E sendo assim, ele nos permite passar por seu intermédio de um plano de consciência a outro, constituindo-nos em protagonistas do conhecimento, vale dizer, do ser, já que existe uma identidade entre o que se é e o que se conhece. Atualizam-se, então, as potências imanentes do símbolo, e a ideia-força do simbolizado se compreende em todo seu esplendor, já que foi manifestada adequadamente. Através da identificação com o símbolo e com o conhecimento paulatino nascido da reiteração ritual e revivificante de sua energia acontece o simbolizado, que esteve oculto na estrutura simbólica, e que esta não deixou nunca de expressar. Toda linguagem inclui uma metalinguagem, e na verdade não haveria linguagem sem metalinguagem ou translinguagem. A translinguagem metafísica se expressa pelo modelo do universo, ou plano da criação. Quer dizer, a níveis inteligíveis e sensíveis, em razão de que a linguagem e o físico existem para este fim, constituindo códigos simbólicos de manifestação e revelação.

Conhecer é apreender aquilo que se conhece. É realizar uma síntese, de tal forma que a união do sujeito e o objeto do conhecimento seja o conhecer. Que o que conhece, seja idêntico à coisa conhecida. Trata-se então de uma conjunção de opostos, graças à qual se produz o conhecimento. Esta união complementar é a mesma que se obtém em e pelo amor, produzida também pela atração de oposições que se conjugam e que dessa forma recriam a unidade originária –qualquer seja o nível em que aconteça–, estabilizando o equilíbrio geral, além do particular. É por meio da unidade e sua irradiação que se atualiza perenemente o ato criativo. Isso se pode ver em qualquer código, série, agrupamento ou estrutura. Repete-se um esquema no qual estão implícitas suas modalidades de desenvolvimento e conservação, e também seu próprio fim através da multiplicação de suas possibilidades. Até que estas se sintetizem novamente no essencial, para então voltar a difundir-se, e passar novo hálito ao ritmo vital. A unidade é o símbolo mais alto de todos, o símbolo por excelência, porque leva em si a potencialidade do simbolizável. O princípio ontológico é a razão de ser do símbolo; e a unidade, sua manifestação simbólica. O Ser, Ele mesmo, mesmo sendo incriado, é a origem da emanação que dará lugar à concreção material.

Reiterando o ato criativo, que nasce da pureza indiferenciada, sem mescla, do qual não é nem um polo nem outro, mas sim o que é em si mesmo, regeneramo-nos e ao universo, constituindo o homem no símbolo central, do único, que é o mesmo que dizer do ser, do amor, ou do conhecimento.

Compreendendo a identidade entre o ser universal, o todo e o si mesmo, a total manifestação dos princípios nos apresenta como uma revelação. Chega-se então a conhecer a unidade do ser, que é igual ao si mesmo, sem divisão nem extensão de nenhum tipo, motivo pelo que não pode ter par. Entretanto, essa realidade que a nível cósmico é a mais alta, não é mais que um ponto afirmado nas possibilidades infinitas do não ser. Por isso o ser é um ponto na infinitude do não ser (ou do supracósmico, ou do supra-ser ou do hipertheos realmente incondicionado) e inversamente o não ser é um ponto presente em tudo o que é. A unidade atua como símbolo e conecta à unidade aritmética (que será geradora da série numérica) com a unidade metafísica, que também pode ser sinalizada com o zero aritmético.

Isto, caso se considere o símbolo como o que realmente é, ou seja aquilo que possibilita qualquer manifestação, até levando-a a sua instância mais alta, quer dizer, a de considerar simbólica à própria triunidade de princípios universais que constituem o ser. Pois tanto o ser como o símbolo expressam-se primeiro como princípios e, em seguida, em três níveis no discurso da manifestação. O mesmo acontece com a unidade, que pode ser conhecida em três graus, e também em seu princípio.

Outra coisa é o que acontece na sociedade atual, que considera o símbolo, no melhor dos casos, a nível de alegoria. Ainda que, às vezes, nem sequer leve em conta sua forma literal, mas a desconsidere de plano pelo próprio fato de ser “simbólica”, tendo em vista que entenda ser este fato tal como uma fraude, como a substituição daquilo realmente é e que, por isso, não pode ser [real]. E, portanto, esse signo ou símbolo tem que ser uma falsificação e uma suposição arbitrária. Ou pelo menos uma invenção, quando não uma fábula. Com o mito acontece o mesmo, até o extremo de que, ao se chamar alguém mitômano, seria uma forma educada de lhe dizer que é um mentiroso.

É claro que esta confusão e esta ignorância, por razões cíclicas, são próprias do homem contemporâneo, que é o expoente mais nítido da estultícia generalizada, que vem incubando-se há muito tempo.

Vale um exemplo: no universo tudo é sexuado. Esta verdade, evidente por si mesma, entretanto, é apresentada ao contemporâneo como uma extraordinária novidade no pensamento humano, um grande descobrimento moderno, fruto das investigações científicas dos sexólogos, intérpretes e analistas, e uma conquista dos movimentos sexuais de distintas vertentes. O uso “correto”, ou “livre”, do sexo, parece ser um dos postulados axiomáticos desta sociedade progressista. Visualiza-se o sexo como algo que o homem não conhecia a respeito de si mesmo ou do mundo. Um tema no qual não havia reparado completamente até nossos dias. Como se não tivéssemos estado sempre nus debaixo de nossas roupas, ou como se a natureza tivesse ocultado este fato de alguma forma. O mais ridículo neste caso é que, além disso, esta “descoberta” não se refere ao cosmos em sua totalidade, todo ele sexuado –ou diferenciado em um par de opostos que se atraem ou se repelem– mas considera que só o ser humano “conquistou” este direito. Pois supõe que os próprios animais fazem apenas um uso limitado da genitalidade, enquanto que os vegetais virtualmente não a possuem e no reino mineral é nula. Tudo isto referido só ao plano mais estritamente material, pois é óbvio que se ignora a presença real dos mundos sutis, e não se tem nem ideia da existência dos arquétipos. Esta visão antropomórfica do sexo, como atributo pessoal do ser humano, que as demais criaturas pareceriam ter apenas, além disso[3], se vê agravada pelo fato de que o sexuado, para a mentalidade progressista, não excede o erótico-genital. E seu desconhecimento a respeito é tal, que se acredita que a realização sexual é em si mesmo um fim, tão avançado e moderno como a moda. Uma panaceia universal aprovada com certificado, inventada recentemente pela ciência, para a tranquilidade e o conforto psíquico dos cidadãos[4].

Portanto, quando dizemos que o universo é sexuado, com segurança que estamos nos referindo a outra coisa do que vulgarmente se entende por isso. Estamos afirmando, como o têm feito todas as tradições, que na criação, na vida, há sempre pressente duas correntes cósmicas de energia. E que cada uma delas representa um sexo, uma polaridade, que a genitalidade humana também manifesta em inumeráveis seres e coisas. Unanimemente, a antiguidade outorgou à sexualidade e seus mistérios uma importância fundamental. A tal ponto, que se considera a energia sexual não só como geradora, mas também como regeneradora. Como o suporte e o impulso que permite a realização e o conhecimento. Posto que utilizando sua polaridade – que é a mesma dualidade de todas as coisas – se pretende a união (onde a oposição não existe), compreendendo-a como um meio de realização, de transmutação, que vai do mais grosseiro ao mais sutil, empregando-se muitas formas “práticas” para se chegar a este objetivo.

Por outra parte, e voltando ao tema, diremos que é impossível definir o símbolo, pois ele e a criação perene não toleram limites conhecidos em seu desenvolvimento linear e quantitativo. Sendo o símbolo o suporte do Conhecimento, suas possibilidades são ilimitadas. Ele é em si mesmo sua própria definição, posto que sua função é seu ser. É sempre idêntico a si, e mutável com as mudanças dos seres individualizados, das formas e dos estilos que o refletem. O acha presente em todas as tradições, porque se encontra na trama da vida, da manifestação e do homem. Este último é muito mais e muito menos do que ele atualmente imagina. Muito mais em profundidade, no sentido vertical do não formal, muito menos quanto a suas indefinidas possibilidades horizontais de mutação que ele e as formas personalizam[5]. E o mesmo acontece com sua concepção da vida, sua visão do mundo, e sua compreensão do símbolo.

Dissemos que o símbolo é o ponto de conexão entre uma vertical e uma horizontal de energia, como a figura do esquadro, ou da letra grega gama, e participa de ambas as naturezas. Nós também afirmamos que o poder vertical é ao mesmo tempo descendente e ascendente, porque ele vai do simbolizado ao símbolo e deste ao simbolizado, como um moto-perpétuo. Além disso, que a energia horizontal se difunde e se irradia indefinidamente gerando seu próprio plano, ou campo de ação. Devemos acrescentar que o sentido ascendente ou descendente que damos a esta energia, não só se manifesta em função do caminho de ida ou vinda vertical que percorre, como também é “benéfica” ou “maléfica” – por assim dizer. Benéfica enquanto o símbolo é tal, e como tal é compreendido, ou seja, quando normalmente desempenha a sua mediação; maléfica se ele é considerado apenas como uma convenção arbitrária, ou uma mera invenção humana, e por isso é levado, motivo pelo qual não é revelador de nenhum outro nível que não seja o psiquismo do homem. Neste último caso, a degradação do símbolo seria um evento muito perturbador, que só a compreensão e a vivificação do simbolismo podem equilibrar. Isto também estaria representado pela figura da cruz, em que os braços horizontais formam o campo ou plano de manifestação do símbolo, e os braços superior e inferior estariam expressando sua energia ascendente-descendente, ou benéfica-maléfica, respectivamente.

No símbolo específico da roda cósmica, imagem e modelo da criação, um eixo fixo constitui um centro que irradia sua energia para o exterior, difundindo-se em proporção direta ao quadrado das distâncias. Na concentração, ou retorno ao centro interior da periferia, a energia percorre inversamente esse quadrado das distâncias. Uma e outra energia são exatamente proporcionais entre si e ambas coexistem permanentemente. A primeira expressa a vontade da expansão indefinida, e a outra, a contração necessária a toda manifestação. Se a primeira fosse o fluir das emanações até seu próprio limite, esse limite estaria imposto pela contração da segunda e sua atração para o centro arquetípico[6]. Estas duas energias seriam representadas geometricamente por duas espirais, uma evolutiva e a outra involutiva. Tem-se em conta que são simultâneas, e que constituem a estrutura do ovo do mundo, sendo elas a expressão simbólica dos princípios dos quais este ovo primitivo deriva.

Convém deste modo fazer uma distinção entre os símbolos naturais e os símbolos específicos da Ciência Sagrada, ou tão somente Ciência. Estes últimos são os portadores sintéticos, conscientes e didáticos, de um conhecimento ou verdade, e nos foram transmitidos através do próprio homem[7].

Isto posto, estivemos vendo que toda expressão ou manifestação é por si mesma simbólica. Sem que isto deixe de ser certo em nenhum momento, convém esclarecer que há determinados jogos de símbolos, mitos e ritos –que por outra parte se dão em distintas formas em todas as tradições– que foram especificamente cunhados como veículos do conhecimento pelos sábios e os inspirados dos inumeráveis povos. Estes gestos rituais, revelados pelos deuses aos mortais, incluem o ensino de uma cosmogonia e a possibilidade de compreender novos mundos, ou novos estados do ser, que constituem a verdadeira realidade do que é o homem e o universo. Esta possibilidade sempre é ensinada; o ser humano em seu estado ordinário não a conhece, nem pode realizá-la por si só, ainda que o queira, e necessita sempre de um espelho onde se olhar e se reconhecer, e da palavra que o resgate do mundo dos mortos, ou dos ignorantes, e lhe insufle a possibilidade de uma nova vida, de encarnar o homem novo. Esse espelho é, em primeira instância, o exercício da simbólica, que têm que ser aprendida e ensinada, para se obter um imprescindível estado de virgindade. Posteriormente, essa mesma simbólica é ordenadora, e quem a transmite também a conhece porque, outrossim, a ensinou. Esta cadeia iniciática tradicional nos faz remontar à origem, tanto a histórica quanto a atemporal, ao final do que nos encontramos sempre com a mesma pergunta: quem?[8]. Quem os revelou aos sábios e aos homens? Segundo a tradição, sua origem é não humana, por ser supracósmica. De fato, todos os povos coincidem na fonte mítica, produzida na noite da história, além do tempo. Ademais é unânime a ideia de um deus civilizador e ordenador, ou a de um herói liberador e instrutor. Os símbolos precisam ser ensinados, para que haja uma compreensão real das forças que concentram. A energia que permanece oculta no símbolo em estado potencial, requer ser ativada. Mediante o rito da aprendizagem, do estudo e da meditação, se desperta para o símbolo e este opera. A relação é mútua. A energia-força que este expressa vem a nós, e nós a projetamos sobre ele, estimulando sua própria essência. Evoca-se então, além disso, a energia de todos os que conheceram, compreenderam e irradiaram o símbolo. E essa mesma entidade, ou estrutura arquetípica, atualiza os princípios universais, fazendo com que estes vertam-se em nós e nós participemos deles, graças à identificação com o símbolo e à mediação simbólica, reativada por uma exegese ritualística, que é aquela que com o passar do fio da história manteve viva a possibilidade da regeneração ou, o que dá no mesmo, a que faz factível que tudo sempre seja novo e verdadeiro.

Temos que ver agora as relações entre símbolo, mito e rito, e devemos então afirmar que esses vocábulos designam de distinta maneira uma coisa em três formas operativas. Diz-nos Mircea Eliade que: “O mito é a explicação e a justificação da irrealidade da existência”. Ele constitui um eixo fixo que articula o que constantemente acontece, o perecível, o ilusório. É uma verdade tangível, um “modelo exemplar”, periodicamente encarnado pela comunidade, ou por alguns de seus membros, e possibilita a regeneração coletiva estabilizando a ordem necessária para o desenvolvimento. Ele expressa as origens e a renovação da vida, harmonizando e assegurando a continuidade dos povos. Os mitos da criação do universo e os trabalhos dos heróis são o testemunho revelado de uma possibilidade diferente, da realidade do além, ao nível da compreensão do homem. São eles os que, ao transmitir este conhecimento, outorgam à vida um sentido coerente e a enriquecem com a opção salvadora da realização espiritual. O mito é necessário. É um motor vivo e constante na vida das sociedades. Ele nucleia as tradições orais e consagra os valores do coletivo e do individual. Promove as ações e educa os homens ao lhes ensinar o que não poderiam saber se não fosse por seu intermédio. Os mitos são para esses homens toda a realidade e toda a verdade, e a dura existência cotidiana ocupa frente a eles um lugar secundário ou derivado, como as sombras com respeito à luz.

Deve-se também sublinhar a carga emotiva do mito e a ressonância imediata que encontra no homem. Do mesmo modo, não tem que passar-se por alto sua função mnemotécnica, pois a “lembrança” é uma força constitutiva da vida e sempre a antiguidade considerou a memória como uma deidade. Em uma concepção onde o universo é um conjunto de partes solidárias, indissolúveis e inter-relacionadas, o cosmos também tem mente e memória. Os períodos de “sono” no universo, correspondem aos momentos de esquecimento dos povos, na sua desintegração. O mito faz com que estes despertem e se produza a reintegração e a “lembrança”. No homem acontece o mesmo, e graças ao mito, liberamo-nos do tempo relativo e ordinário, e retornamos a outro tempo, onde tudo é verdade, a um momento sem duração cronológica, a um estado “mítico” original, perfeitamente experimentável, no qual as coisas e as concepções cotidianas passam a ser completamente outras coisas e outras concepções, pois o ângulo de visão foi alterado pelo conhecimento do supra-histórico e do sobre-humano.

É importante destacar que a forma normal de transmitir um mito é através da poesia[9] e sua recitação rítmica reiterativa, a que junto com o gesto e com o movimento configura e encena a estrutura do rito. Trata-se de dar expressão aos grandes ritmos cósmicos e naturais que se transferem aos acontecimentos e aos personagens no tempo de uma história, em um estado particular. Esta cosmogonia repete magicamente a situação original, tornando o presente efetivo, atual e renovador, por obra do poder concentrado da energia do mito e sua ritualização.

A etimologia da palavra “rito” provém do latim ritus, que significa cerimônia religiosa. Deriva da raiz sânscrita rt, que conforma o nomeritli: ida, marcha, encaminhar-se, adiantar ou progredir, uso, etc., e também a voz Rita: ordem. Tratar-se-ia, pois, de um uso ou andar ordenado, tal qual a marcha dos dias, e especialmente das cerimônias no tempo circular do calendário ritual, e sua cristalização ou atualização no espaço do templo, ou casa cultual.

Devemos deixar bem estabelecido que quando nos referimos aqui às cerimônias religiosas, fazemo-lo no sentido mais amplo do termo. Por um lado, estas cerimônias jamais foram “religiosas” no sentido que se atribui hoje em dia ao termo, e tampouco “cerimônias”, como as que vulgarmente conhecemos. Os ritos de fecundação, de regeneração e de iniciação, não têm nenhuma relação com o devoto-ortodoxo, piedoso-sentimental, moral-justo, ou com a solenidade afetada, características que são próprias da sociedade contemporânea e que constituem um derivado disforme das virtudes do sagrado, do heroico e do metafísico. Por outra parte insistimos em que a compreensão moderna do que é uma cerimônia, acha-se vinculada a ideias assépticas relativas ao laicismo, à comemoração, ou à pompa exterior, quando não são atividades supostamente mágico-fenomênicas, que não excedem o nível literal. Toma a forma cerimoniosa como um fim em si mesmo, ou como uma comédia antiquada, ou um fato mecânico-institucional de corte digno.

Se o cosmos for a fixação de um gesto, ou a solidificação da inflexão de um som, ou a dança de um bailarino supracósmico, é, portanto, um rito primitivo que se acha implícito em todo o manifestado. A reiteração deste rito é uma perene atualização desse fato efetuada a nível sensível. Exige por isso o conhecimento do evento cosmogônico original para que seja “verdadeira”, no sentido de que obtenha adequadamente seus propósitos. Ou se precisa para isto, ao menos, uma disposição tal de ânimo, que torne possível paulatinamente esse conhecimento e sua complementar realização efetiva. O rito é liberador; ao imitar conscientemente e com a devida disposição harmônica o ritmo da estrutura cósmica, permite-nos sair dela por seu intermédio, encontrando assim a possibilidade de transcendê-la ao vivenciá-la, e compreendê-la no coração. Esta liberação não é nenhum “milagre”, pois verdadeiramente a estrutura cósmica é nada mais –e nada menos– que um suporte do incriado, e o homem um simples estrangeiro, como exilado nesta terra. Este é um fato normal, tal qual o retorno a nossa autêntica casa, ou a nossas origens não humanas. E o rito iniciático, uma via ordenada para efetuá-lo[10].

Na realidade, a vida mesma é o maior dos ritos. Uma cerimônia permanente, o rito por excelência, onde a perfeição finita de cada símbolo ou gesto esconde e contém uma perfeição infinita. Neste enquadramento, a vida é uma simbólica, e seu conhecimento constitui a ciência dos ritmos e dos símbolos. E é através da ciência dos símbolos, quer dizer, por meio do conhecimento da simbólica, que se realiza a passagem do cósmico ao supracósmico, do criado ao incriado, do humano ao não humano.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[1]Deve haver, portanto, um parentesco, uma relação mútua entre estas duas coisas para que uma possa simbolizar a outra. Sobretudo quando se tem em conta que a de ordem menor deve sua forma à de ordem secreta, à qual expressa.

[2]Nas civilizações que utilizavam o 5, 10 ou 20 como base de sua numerologia.

[3]A sociedade moderna não só tem uma visão antropomórfica a respeito deste tema, mas também o derrama sobre todas as coisas. Começando por sua concepção de Deus. Tudo o “humaniza”, e projeta em tudo sua psicologia, supondo ainda que o homem universal, é como ele um progressista ocidental do século XX, um hipotético homem “científico”. A concepção do mundo contemporânea é antropomórfica e psicologista e, para terminar, presume ser objetiva.

[4]A supervalorização do erótico-genital impede de ver no comportamento humano as inumeráveis formas de penetração e recepção.

[5]Às quais a tradição bramânica e a budista designam com o nome de roda das reencarnações.

[6]No mundo do homem, que depende da atmosfera, esse papel lhe corresponde à gravitação –graças à qual o sangue não escapa pelos poros– que comprime e solidifica o criado.

[7]Fazendo a ressalva de que este não os inventou, e que não se trata de uma simples convenção, como seria o caso das modernas técnicas da comunicação, notação ou sinalização, ou o uso que faz delas a publicidade, a ciência, e também sua utilização pelas políticas a qualquer nível de sugestão que seja ou com qualquer finalidade.

[8]Esta é também a última pergunta da cabala hebraica: mi?

[9]Hoje mesmo em dia, os mitos profanos se propagam através da canção.

[10]Para dar só um exemplo dos indefinidos possíveis, diremos que o rito da dança –no qual as coreografias cosmogônicas circulares são unânimes– assegura um meio de transformação e transfiguração espiritual, para aquele que compreendeu seu significado e sua natureza, em relação com o conhecimento de si mesmo e do universo.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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2 respostas para Sobre os Símbolos e a Simbólica

  1. Mauricelio Araújo Lima disse:

    Que a luz do Espírito Santo nos conduza à eternidade.

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