Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo V

Platão, uma breve biografia

Embora os escritos de Platão sejam vastos e girem em torno de pouco menos de 1.800 páginas em uma edição de Trabalhos Completos, nosso conhecimento do próprio homem talvez não seja tão abrangente. Ainda assim, se tivermos uma compreensão das principais influências em sua vida e seus efeitos sobre os seus escritos, isso nos ajudará a compreender sua contribuição para o nosso Ritual ainda mais.

Primeiros Anos

Platão nasceu por volta do ano 428 ou 427 a.C. em Atenas, em uma família aristocrática de alguma influência nos assuntos políticos.

Sabemos que o nome de seu pai era Ariston e que o nome de sua mãe era Perictone. Em geral, a história tem prestado pouca atenção ao pobre Ariston. Na verdade, o sobrinho de Platão (Speusippus) foi um passo além na marginalização total do significado de Ariston na vida de Platão, afirmando que o deus Apolo era o pai de Platão, e não como algumas pessoas erroneamente afirmavam – Ariston.

Em contraste, os antecedentes de Perictone são muito mais desenvolvidos. Uma fonte antiga enfatiza que Perictone tinha fama de ter tanto um belo rosto quanto um corpo incrivelmente atraente.

O irmão de Perictone chamava-se Cármides. Este Cármides é o personagem central do diálogo de Platão de mesmo nome – um diálogo que trata especificamente do estudo da Virtude Cardeal da temperança.

Platão também tinha dois irmãos, cujos nomes eram Glaucus e Adeimantes. Estes dois irmãos aparecem como personagens principais da República.

Ariston morreu quando Platão ainda era muito jovem e a bela Perictone se casou novamente. O resultado de seu novo casamento foi o nascimento de Antífone um meio-irmão de Platão.

Platão também tinha uma irmã chamada Petone. Quando Platão faleceu, foi o filho de Petone – Speusippus quem (juntamente com outro membro da Academia chamado Xenócrates) assumiu a liderança da Academia, que tinha sido originalmente fundada por Platão. Foi nessa época que Speusippus começou a divulgar a versão da concepção de Platão, por Perictone através do deus Apolo.

Seu Nome

Durante séculos, tem havido um debate sobre seu verdadeiro nome. Desde os tempos antigos, havia argumentos de que “Platão” simplesmente pode não ter sido seu verdadeiro nome! Uma das principais fontes que temos da vida de Platão nos chegou a partir de uma biografia escrita no século III d.C. por um romano chamado Diógenes Laertius. Tendo em mente que Laertius viveu cerca de 600 anos depois de Platão, ele compôs uma biografia de Platão (entre outros filósofos), baseando seus “fatos” em histórias que corriam durante sua própria vida ou que tinham sido transmitidas pela tradição. Laertius alega que o verdadeiro nome de Platão era Aristócles – o nome de seu avô paterno cujo nome ele recebeu. Presumindo-se por um momento que este seja o caso, por que nós o conhecemos pelo nome de Platão?

Laertius sugeriu que Platão era realmente seu apelido, mas ao longo do tempo e, por convenção, o nome pegou. A raiz grega do nome Platão é platon e significa alguma coisa parecida como “Largura”. Laertius nos fornece as três variações tradicionais da história sobre como surgiu o apelido. A primeira é que Platão tinha ombros largos. A segunda era que ele tinha uma testa larga, enquanto que a última foi em homenagem à largura de sua eloquência.

Os comentaristas modernos estão longe de serem convencidos pelas alegações de Laertius.

Um aspecto que podemos ter em mente é que “Platão” era um nome muito comum nos séculos IV a V a.C. em Atenas. Na mesma linha, o nome grego de Jesus (ou a sua forma aramaica Yehoshua) era um nome muito comum no primeiro século d.C. na Palestina. Independentemente da forma como olhamos para ele, Platão é o nome que temos ao longo dos séculos para conhecer o homem, e seria pedante para nós, depois de todo esse tempo começar a chamá-lo de Aristócles (… só com base na palavra de Laertius).

Outro argumento que Laertius levantou é de que em sua juventude, Platão foi um pintor, um poeta, e também um dramaturgo. Estas alegações podem ser mais confiáveis. Se lermos seus diálogos, logo fica evidente como os textos em si assumem uma forma dramática, juntamente com um elenco de personagens (e até mesmo indicações de palco). A prosa de Platão é, por vezes, poética e faz bom uso dos jogos de palavra gregas em nítida distinção com os escritos de Aristóteles nos quais os principais escritos são pouco mais que “anotações de aulas”.

A Era da Guerra do Peloponeso

A época de seu nascimento e início da vida coincide com um período da história grega conhecido como a Guerra do Peloponeso. Estas guerras foram uma série de hostilidades travadas pelos fortes e disciplinados espartanos contra Atenas. O significado militar de travar estas guerras destinava-se a por fim às tentativas cada vez maiores de Atenas de construir um império.

Há, no entanto, uma outra perspectiva.

Por enquanto, tudo o que precisamos ter em mente é que os atenienses eram descendentes de um grupo cultural conhecido como o Jônios. Os costumes, tradições e dialetos eram muito diferentes dos espartanos. Espartanos eram descendentes de um grupo cultural conhecido como o Dórios. Então, na verdade, essas hostilidades pode muito bem ter sido marcado por crenças na superioridade racial e cultural de um sobre o outro.

Retornaremos a uma discussão mais detalhada das culturas Jônica, Dórica e Coríntia um pouco mais tarde. Nesse ínterim, tudo o que nós precisamos ter em mente é que, num contexto maçônico, a coluna do Venerável Mestre (que representa a sabedoria), é conhecida como a coluna jônica, enquanto que a coluna do Primeiro Vigilante (que representa a força), é conhecida como a coluna Dórica.

As Guerras do Peloponeso duraram de 431 a.C. até 404 a.C. – um período de 27 anos e terminou com a derrota total de Atenas por Esparta. Colocando Platão neste contexto, ele nasceu cerca de quatro anos depois do início da guerra e era um jovem adulto de aproximadamente 23 ou 24 anos, quando ela acabou. O resultado dessas guerras foi uma influência significativa sobre o seu pensamento – tanto político quanto mítico – e sua importância para o desenvolvimento do seu mito da Atlântida é algo que afeta a Maçonaria a partir de uma perspectiva filosófica e será discutido no post-scriptum a este livro.

Aproximadamente com a idade de 20 anos (c. 408 a.C.), tornou-se discípulo de Sócrates e manteve-se dedicado a ele nos últimos 10 ou 11 anos – até a execução de Sócrates em 399 a.C. Apesar da forte ligação de Platão com o homem (assim como sua filosofia), é um dos aspectos muito peculiares da história que ele não era um membro do grupo em companhia de Sócrates no momento de sua morte. (Na manhã de execução de Sócrates, Platão estava em casa, doente na cama).

Enquanto Platão estava doente, presente com Sócrates naquela manhã estavam pelo menos 15 pessoas (incluindo Xantipa – esposa de Sócrates), além de um grupo anônimo de “outros”, incluindo o filho sem nome de Sócrates que se sentou no colo de Xantipa.

Na verdade, nem Xantipa, nem o filho de Sócrates estiveram presentes em seu momento final. Sócrates providenciou isso organizando através de Crito que ela fosse levada à sua casa pois ela estava “chorando histericamente”.

Meio da vida

Após a execução, Platão decidiu aprofundar seus próprios estudos filosóficos. Ele fez isso viajando muito (por vários anos) em todo o Mediterrâneo. Laertius afirma que durante esta época, ele absorveu os ensinamentos das três principais escolas de pensamento – a de Euclides, a de um matemático chamado Teodoro em Cirene e acima de tudo – a de Pitágoras no sul da Itália.

Por sua própria admissão, os escritos de Platão foram a principal influência que levou Agostinho de Hipona a se tornar um cristão. Ele escreveu sobre essas influências em duas grandes obras que a maioria de nós terá ouvido falar (… mesmo que apenas de passagem). São as Confissões e a Cidade de Deus. Devido à sua dívida para com Platão, Agostinho fez uma série de menções biográficas relatando a vida de Platão em Confissões e Cidade de Deus, entre elas:

“Percebendo, porém, que nem seu gênio nem o treinamento socrático era adequado para desenvolver um sistema perfeito de filosofia, ele viajou para longe e extensamente para onde quer que houvesse alguma esperança de ganhar algum acréscimo valioso para o conhecimento. Assim, no Egito, ele dominou a lei que lá era estimada. Dali ele foi para a baixa Itália, famosa pela Escola Pitagórica e lá ele se abeberou com sucesso com eminentes professores de tudo o que estava então em voga na filosofia italiana.”

Anteriormente, quando discutimos a Reforma, argumentamos que foi Agostinho de Hipona, quem tinha introduzido a filosofia platônica na teologia cristã. A influência de Platão aparece através dos escritos filosóficos e teológicos de Agostinho.

Platão na Sicília

Foi por volta de 388 a.C. que Platão visitou a Sicília pela primeira vez e observou os resultados do governo tirânico de um déspota conhecido como Dionísio I (c 432-367 a.C.). Dionísio tinha atingido o seu alto cargo através de alguns sucessos militares em impedir os avanços de Cartago pelo controle da Sicília.

Embora ele fosse incapaz de manter um nível constante de sucesso contra os cartagineses ao longo de sua vida, ele foi capaz de manter a autoridade total sobre os gregos da Sicília até sua morte. Se sua morte foi resultado de causas naturais ou assassinato é algo até hoje contestado por historiadores.

A única coisa importante que emergiu dessa visita à Sicília foi Platão ter-se encontrado com um jovem chamado Dion – filho de uma das esposas de Dionísio I. Atraído pela filosofia de Platão, Dion convidou-o para voltar à Sicília, 20 anos após a primeira visita de Platão. O objetivo de Dion neste convite foi permitir a Platão a oportunidade de colocar em prática o seu ideal de um rei-filósofo governante, treinando Dionísio II (filho de Dionísio I) para se tornar um líder ideológico. Este filho tinha assumido o trono após a morte de seu pai em 367 a.C.

Mas, por mais que Platão esperasse que isso viesse a ser uma aplicação bem sucedida de seus princípios do filósofo-rei, em bem pouco tempo, ficou óbvio para ele que esta tentativa seria pouco menos que desastrosa. Segundo seu relato dos acontecimentos na Carta VII, Platão afirma que Dionísio II tinha ciúmes, o tempo todo, da amizade íntima entre Platão e Dion. Era um ciúme que se colocava no caminho de Platão no desenvolvimento de uma disposição filosófica em Dionísio II. Desenvolver uma disposição filosófica era fundamental na concepção de Platão para o líder ideológico. O plano de Dionísio II para acabar com a amizade entre Platão e Dion foi quase maquiavélico. Dionísio II enviou Dion ao exílio com base em falsas acusações. As tentativas de Platão para colocar em prática os princípios da República se desmoronaram rapidamente. Tudo o que restava a fazer era, para Platão, convencer Dionísio II a deixá-lo regressar a Atenas. Ele fez isso convencendo Dionísio II, que seu foco seria melhor costurado lidando com outra ameaça emergente dos cartagineses contra a Sicília.

Voltando a Atenas, derrotado em suas tentativas de transformar Dionísio II em um governante-filósofo, as circunstâncias se tornaram um outro ponto decisivo em sua vida. Mais tarde, ele refletia:

“Se ele tivesse realmente unido a filosofia e o poder político na mesma pessoa, ele poderia ter dado uma luz para o mundo inteiro, tanto grego quanto bárbaro …”

Com o tempo, porém, Platão voltou à Sicília para continuar a sua experiência em uma aplicação prática de seus princípios de liderança com Dionísio II.

Na Sétima Carta de Platão, ele registra que Dion o tinha incitado a voltar para a Sicília, alegando que tinha recebido relatórios de que Dionísio II tinha “mudado de foco” e se tornado entusiasmado com a aplicação das ideias de Platão ao governo da ilha. Platão afirma que ele resistiu aos primeiros dois convites. O terceiro concurso foi encenado de maneira tão elaborada que a recusa era quase impossível.

Dionísio II enviou uma trirreme a Atenas, com instruções para buscar Platão. Ao encontrar-se com Platão o embaixador lhe deu uma carta pessoal de Dionísio II, assegurando-lhe que caso ele aceitasse o convite, todos os assuntos relativos à Dion seriam resolvidos para sua satisfação. Mas, havia uma cláusula adicional… A cláusula dizia que se Platão recusasse, Dion sofreria as consequências. Podemos esperar que a natureza ameaçadora do “convite” provavelmente teria sido uma indicação a Platão de uma previsão de missão fracassada, apesar de sua decisão de ir.

Na chegada à corte de Siracusa, Platão foi mordaz sobre as “noções filosóficas de segunda mão” e “ideias de segunda mão” que ocupavam a mente de Dionísio II. Em particular, Dionísio II havia escrito um tratado explicando as ideias filosóficas que Platão lhe havia ensinado. Platão ficou furioso. Ele argumentou firmemente que isso nada mais era que uma expressão de vaidade pessoal de Dionísio II. O que realmente deixou Platão furioso foi que, em sua apresentação, o livro de Dionísio II se colocava como uma tentativa de expressar a verdade. Platão retornou a Atenas, para nunca mais visitar a Sicília.

“Talvez essas pessoas que criaram iniciações religiosas não estejam tão longe da marca, e todo o tempo, tem havido um significado oculto sob a alegação de que quem entrar no próximo mundo leigo e ignorante estará atolado na lama, mas quem chega lá purificado e iluminado habitará entre os deuses. Você sabe quantos envolvidos nas iniciações dizem ‘Muitos carregam o emblema, mas os devotos são poucos’. Bem, em minha opinião esses devotos são simplesmente aqueles que viveram a vida filosófica da maneira certa.” Platão: Fédon: (69 c-d)

A Academia

De volta a Atenas, Platão fundou a famosa Academia. Muitas vezes pensamos na Academia como um edifício. A Academia não era um edifício, mas sim um simples bosque de árvores onde os discípulos de Platão se sentavam e discutiam assuntos de interesse filosófico. Em muitos aspectos, ficou evidente que a rede de Lojas que existe em todo o mundo se baseia nos princípios da Academia original. Mais ou menos nesta época, ficou claro que Platão também era membro de uma misteriosa fraternidade. Sua identidade é desconhecida. Em sua Vida de Dion, Plutarco escreve:

“Um dos companheiros de Dion era um homem chamado Callippus, um ateniense que, segundo Platão, tinha sido um amigo íntimo dele, (não como um colega estudante de filosofia), mas aconteceu dele ser iniciado em alguns dos mistérios e estava, portanto, regularmente em sua companhia.”

Embora Platão não tenha expressamente escrito qualquer coisa a respeito de sua participação em qualquer misteriosa Fraternidade – (que era provavelmente a fraternidade pertencente aos Mistérios de Elêusis), ele sugere em República que a adesão a tal fraternidade pode envolver condições de silêncio.

“Ajuda em nosso entendimento, se nos lembrarmos de que “mistério” deriva de uma palavra grega que significa – ‘lábios cerrados’.

… É melhor ficar calado, e se for absolutamente necessário falar, transformá-los em segredos esotéricos, contados ao menor número de pessoas possível.”

No que diz respeito aos discípulos que frequentavam a Academia, Laertius enumera alguns, incluindo Speusippus (seu sobrinho, co-executor de sua vontade e co-sucessor na Presidência da Academia), Xenócrates e Aristóteles (tutor de Alexandre, o Grande), mas também os nomes de duas mulheres – Lasthenea de Mantineia e Axiothia de Phlius (que, ele observa, chegavam até a vestir roupas masculinas).

A morte de Platão

Ele morreu com a idade de 81 anos, e foi sepultado nos bosques da Academia. Laertius observa que a lápide foi inscrita com o seguinte epigrama:

Aqui, o primeiro de todos os homens famosos por pura justiça

E virtude moral, Aristócles jaz:

E se aqui houvesse vivido um verdadeiro sábio,

Este homem seria ainda mais sábio; grande demais para inveja.

Continua…

Autor: Stephen Michalak
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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