Seis Séculos de Ritual Maçônico – 3ª Parte

Indícios de Três Graus

Os primeiros indícios de terceiro grau aparecem em documentos como os que eu tenho falado – principalmente documentos que foram escritos como memorandos para os homens a quem pertenciam. Mas nós temos que utilizar exposições também, exposições impressas para o lucro, ou ofensa, e nós temos algumas indicações úteis do terceiro grau muito antes dele realmente aparecer na prática. E assim, começamos com um dos melhores, um adorável pequeno texto, uma única folha de papel conhecida como o Manuscrito Trinity College, Dublin, datado de 1711, encontrado entre os papéis de um médico irlandês famoso e cientista, Sir Thomas Molyneux. Este documento tem como cabeçalho uma espécie de “Triplo Tau”, e debaixo dele as palavras “Sob nada menos que uma penalidade”. Isto é seguido por um conjunto de onze perguntas e respostas e sabemos imediatamente que algo está errado! Já temos três conjuntos perfeitos de quinze perguntas, então onze perguntas deve ser ou má memória ou cópia ruim – algo está errado! As perguntas são perfeitamente normais, apenas não há o suficiente delas. Em seguida, após as onze perguntas seria de se esperar que o escritor desse uma descrição de toda ou parte da cerimônia, mas, em vez disso, ele dá uma espécie de catálogo de palavras e sinais da Maçonaria.

Ele dá este sinal (AM demonstrado) para o AM com a palavra B.

Ele dá “toques e sinais” como o sinal para o “companheiro”, com a palavra ‘J ………’. O “sinal de Mestre é a espinha” e para ele (ou seja, o MM) o escritor dá a pior descrição do mundo dos cinco pontos de perfeição. (Parece claro que nem o autor desta peça nem o escritor do Manuscrito Sloane, jamais ouviram falar dos Pontos de Companheirismo, ou sabia como descrevê-los.) Aqui, como eu demonstro, estão as palavras exatas, nem mais nem menos:

“Aperte o Mestre pela espinha, coloque o seu joelho entre os dele, e diga Matchpin.”

Isso, Irmãos, é a nossa segunda versão da palavra do terceiro grau. Começamos com ‘Mahabyn’, e agora ‘Matchpin’, horrivelmente degradada. Deixe-me dizer agora, alto e claro, ninguém sabe qual era a palavra correta. Era provavelmente hebraico originalmente, mas todas as primeiras versões estão degradadas. Deveríamos trabalhar para trás, traduzindo do Inglês, mas não podemos ter certeza de que nossas palavras inglesas estão corretas. Então, aqui no Manuscrito Trinity College, Dublin, temos, pela primeira vez, um documento que tem segredos separados para três graus distintos; o aprendiz, o companheiro e o mestre. Não é prova de três graus na prática, mas mostra que alguém estava brincando com essa ideia em 1711.

A próxima peça de prova sobre esse tema vem da primeira exposição impressa e publicada para entretenimento ou por despeito em um jornal de Londres, The Flying Post. O texto é conhecido como um “Telhamento de Maçom”. Por esta época, 1723, o catecismo era muito mais longo e o texto continha várias peças de rima, todas interessantes, mas apenas uma de particular importância para o meu propósito presente e aqui está ela:

“Um Maçom iniciado eu fui, B∴ e J∴ eu vi; Um companheiro que eu fui jurado mais raro, e conheço a Pedra Bruta, Polida e o Esquadro: Eu sei a parte do Mestre muito bem, tão honesta Mohabin você dirá”.

Observem, Irmãos, ainda existem dois pilares para a AM, e mais uma vez alguém está dividindo os segredos maçônicos em três partes para três categorias diferentes de Maçons. A ideia de três graus está no ar. Nós ainda estamos procurando atas, mas elas não chegaram ainda. Em seguida, temos outro documento de valor inestimável, datado de 1726, o Manuscrito Graham, um texto fascinante que começa com um catecismo de cerca de trinta perguntas e respostas, seguido por uma coleção de lendas, principalmente sobre personagens bíblicos, cada história com uma espécie de distorção Maçônica no seu relato. Uma lenda conta como três filhos foram ao túmulo do pai deles tentar, se pudessem, encontrar alguma coisa sobre ele para levá-los até o segredo de virtude que este famoso pregador tinha. Eles abriram a sepultura nada encontrando, exceto o corpo morto quase totalmente consumido. Agarrando um dele, ele se soltou de junta a junta até o pulso até o cotovelo, assim eles ergueram o corpo morto e o sustentaram colocando pé com pé, joelho com joelho, peito com peito, rosto com rosto e a mão nas costas e pediram socorro, ó pai… então alguém disse aqui há ainda medula nesse osso, e o segundo disse, apenas osso seco e o terceiro disse que cheirava mal, assim eles concordaram em dar-lhe um nome que é conhecido da Maçonaria até hoje…

Esta é a primeira história de uma elevação em um contexto maçônico, aparentemente, um fragmento da lenda de Hiram, mas o velho cavalheiro na sepultura era o Pai Noé, e não Hiram Abif.

Outra lenda se refere a “Bazalliel”, o artesão maravilhoso que construiu o Templo móvel e a Arca da Aliança para os israelitas durante a sua peregrinação pelo deserto. A história diz que perto da morte, Bazalliel pediu que uma lápide fosse erguida sobre seu túmulo, com uma inscrição “de acordo com seu desserviço” e que foi feito da seguinte forma:

“Aqui jaz a flor de maçonaria superior de muitos outros companheiros a um rei e dois príncipes um irmão. Aqui jaz o coração que todos os segredos conseguia esconder. Aqui jaz a língua que jamais revelou.”

As duas últimas linhas não poderiam ter sido mais aptas se elas tivessem sido escritas especialmente para Hiram Abif; elas são praticamente um resumo da lenda de Hiram.

No catecismo, uma resposta fala daqueles que. . . obtiveram uma Voz tripla através de iniciação, elevação e exaltação e conformado por 3 lojas diferentes…

“Iniciado, elevado e exaltado” é bastante claro. “Três lojas diferentes” significa os três graus separados, três cerimônias separadas. Não há dúvida de que tudo isso é uma referência a três graus em prática. Mas ainda queremos atas e nós não as temos. E eu sinto muito dizer-lhes, que as primeiras atas em que temos registro de um terceiro grau, por mais fascinantes e interessantes que elas sejam, referem-se a uma cerimônia que nunca aconteceu em uma loja; ela ocorreu no interior de uma Sociedade Musical de Londres. É uma linda história e é isso que você vai receber agora.

Em dezembro de 1724, houve uma pequena reunião agradável de loja na Taverna Queen’s Head, em Hollis Street, no Strand, cerca de trezentos metros do nosso atual Freemason’s Hall, a sede da Maçonaria na Inglaterra. Pessoas agradáveis; o melhor da sociedade musical, arquitetônica e cultural de Londres eram membros desta loja. Na noite especial em que eu estou interessado, Sua Graça, o duque de Richmond era o Mestre da Loja. Devo acrescentar que a Sua Graça, o Duque de Richmond também era o Grão-Mestre da época, e você pode chamá-lo de ‘pessoa agradável’. É verdade que ele era descendente de um bastardo real, mas hoje em dia até mesmo os bastardos reais são contados como pessoas agradáveis. Um par de meses depois, sete dos membros dessa loja e um irmão que eles tinham tomado emprestado de outra loja decidiram que queriam fundar uma sociedade musical e arquitetural.

Eles deram a ela um título Latino de um quilômetro de comprimento – Philo Musicae et Architecturae Societas Apollini – que traduzindo, “A Sociedade Apolínea Para os Amantes da Música e Arquitetura” e elaboraram um livro de regras incrivelmente bonito. Cada palavra dele escrita à mão. Parece que o impressor mais magnífico o tinha impresso e decorado.

Agora, essas pessoas estavam muito interessadas em sua Maçonaria e para sua sociedade musical, eles elaboraram um código incomum de regras. Por exemplo, uma regra era que cada um dos fundadores deveria ter seu próprio brasão de armas estampados em cores nas páginas de abertura do livro de atas. Quantas lojas vocês conhecem, em que cada fundador tem o seu próprio brasão de armas? Isso lhes dá uma ideia do tipo de garotos que eles eram. Eles amavam a sua Maçonaria e eles fizeram outra regra, de que qualquer um poderia vir às suas palestras arquiteturais ou às suas noites musicais – os melhores condutores eram membros da sociedade – qualquer pessoa poderia vir, mas se ele não era um Maçom, ele tinha que ser iniciado Maçom antes que eles o deixassem entrar; e porque eles estavam tão interessados sobre o status Maçônico de seus membros, eles mantiveram notas biográficas maçônicas de cada membro quando ele ingressou. É a partir dessas notas que podemos ver o que realmente aconteceu. Eu poderia falar sobre eles a noite toda, mas para os nossos propósitos atuais, precisamos somente seguir a carreira de um dos seus membros, Charles Cotton.

Nos registros da Sociedade Musical lemos que em 22 de dezembro de 1724 “Charles Cotton Esq.” foi iniciado um Maçom pelo dito Grão-Mestre [isto é, a Sua Graça, o Duque de Richmond] na Loja na Queen’s Head. Não poderia ser mais regular do que isso. Em seguida, em 18 de fevereiro de 1725 “… antes que fundássemos esta Sociedade uma Loja foi realizada… a fim de iniciar Charles Cotton Esq.”. . . e porque foi no dia em que a sociedade foi fundada, não podemos ter certeza se Cotton foi elevado na Loja ou na Sociedade Musical. Três meses depois, em 12 de maio de 1725 o “Irmão Charles Cotton Esq. e o Ir .’. Papillion Ball foram regularmente exaltados a Mestres”.

Agora temos a data da iniciação de Cotton, sua elevação e sua exaltação; não há dúvida de que ele recebeu três graus. Mas, Mestres regularmente exaltados – Não! Não poderia ter sido mais irregular! Esta era uma Sociedade Musical – não uma loja! Mas eu lhes disse que eles eram pessoas agradáveis, e eles tinham alguns visitantes ilustres. Em primeiro lugar, o Grande Primeiro Vigilante veio vê-los. Em seguida, o Grande Segundo Vigilante. E então, eles receberam uma carta desagradável do Grande Secretário e, em 1727, a sociedade desapareceu. Nada resta agora, exceto o seu livro de atas na Biblioteca Britânica. Se você alguma vez for a Londres e visitar o Freemason’s Hall, você verá um fac-símile maravilhoso daquele livro. Vale a pena uma viagem a Londres apenas para vê-lo. E este é o registro dos primeiros terceiros graus. Eu gostaria que pudéssemos produzir uma novidade mais respeitável, mas esta foi a primeira.

Devo dizer-lhes, Irmãos, que Gould, o grande historiador maçônico acreditou, toda a sua vida, que este era o mais antigo terceiro grau de que havia qualquer registro. Mas, pouco antes de morrer, ele escreveu um artigo brilhante nas Transações da Quatuor Coronati Lodge, e ele mudou de ideia. Ele disse: “Não, as atas estão abertas à interpretação ampla, e não devemos aceitar isso como um registro de terceiro grau.” Francamente, eu não acredito que ele provou seu caso, e sobre este ponto me atrevo a discutir com Gould. Observem-me cuidadosamente, Irmãos, porque eu posso ser atingido por um raio neste momento. Ninguém discute com Gould! Mas eu discuto isso porque no prazo de dez meses a partir desta data, temos provas irrefutáveis de terceiro grau na prática. Como vocês poderiam esperar, benditos sejam, elas vêm da Escócia.

A Loja Dumbarton Kilwinning, agora no. 18 no registo da Grande Loja da Escócia foi fundada em janeiro de 1726. Na reunião de fundação havia o Mestre, com sete mestres maçons, seis companheiros e três aprendizes; alguns deles eram maçons operativos, alguns não operativos. Dois meses depois, em março de 1726, nós temos esta ata:

“Gabriel Porterfield, que apareceu na reunião de janeiro como um Companheiro, foi admitido por unanimidade e exaltado como Mestre da Fraternidade e renovou seu juramento e pagou suas taxas de admissão.”

Agora, observem Irmãos, aqui estava um escocês, que começou em janeiro como Companheiro, um companheiro fundador de uma nova Loja. Então, ele veio em março, e renovou seu juramento, o que significa que ele passou por outra cerimônia; e ele deu sua taxa de admissão, o que significa que ele pagou por ela. Irmãos, se um escocês pagou por isso você apostar sua vida que ele conseguiu! Não há dúvida sobre isso. E há o mais antigo registro 100 por cento dourado de um terceiro grau. Dois anos depois, em dezembro de 1728, outra nova Loja, Greenock Kilwinning, em sua primeira reunião, prescrevia taxas separadas para a iniciação, elevação e exaltação.

Continua…

Autor: Harry Carr
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Notas

Harry Carr foi Past Master e Secretário por muito tempo da Quatuor Coronati Lodge No. 2076, CE, que é conhecida como a “Primeira Loja de Pesquisas Maçônicas”.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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