Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo VI

República de Platão – sua relevância para a Maçonaria

Anteriormente, quando expliquei como tinha topado acidentalmente com seções destacadas da República que se relacionavam diretamente com o ritual maçônico, a única coisa que imediatamente ficou evidente para mim, foi que me pareceu que nosso ritual era uma condensação magistral do tema principal da obra de Platão, A República.

Então, qual é o tema principal de A República? Qual é a sua premissa? A República propõe que, para que você e eu para levemos uma vida feliz e plena, precisamos levar vidas que sejam intrinsecamente morais. É isso.

O termo grego que Platão para moral é dikaiosune.

Os primeiros tradutores de A República, como Jowett, Rieu e Grube, traduziram dikaiosune como “justiça”. Tradutores modernos, tais como Waterfield e Reeve reconhecem que a palavra grega está mais próxima em significado de “correção ética” ou, mais especificamente, “moralidade”.

O argumento levantado em A República é que a moralidade é definida como um alinhamento de nosso pensamento, nossos sentimentos e nosso comportamento. Especificamente – quando o que pensamos, o que sentimos e o que fazemos não estão em conflito entre si, mas estão em perfeita harmonia e concórdia, é nesses momentos expressos de nossas vidas que nos aproximamos de nosso objetivo de assimilar nossas vidas a Deus.

A República não é uma obra de teoria política, mas uma alegoria do espírito humano individual.” W.K.C. Guthrie, citado por Robin Waterfield na Introdução à sua tradução da República, pg. xvii.

A finalidade de Platão em A República, então, é fornecer uma espécie de teoria de campo unificado, na qual todos os elementos que tornam a vida humana boa são agrupados em uma visão de eterna união, ordem e estabilidade… Seu propósito era levar seus leitores a mudar suas vidas; realizar a busca de assimilação a Deus.” Robin Waterfield na Introdução à sua tradução de A República, pg. xxi.

Então, a primeira coisa que precisamos notar é isso – A República é um estudo detalhado do conceito de moralidade e a definição clássica de Maçonaria é sempre dada como “um sistema peculiar de moralidade”. A particularidade não é o tipo de moralidade, mas o sistema ou método pelo qual a moralidade é ensinada. Dentro da Maçonaria, nosso sistema de moralidade é ensinado através de um processo chamado ritual. Tendo compreendido esta premissa geral, a questão lógica da tradução a ser colocada é esta – como vamos realmente nos educar para nos tornarmos morais?

O corpo de A República fornece a resposta a esta pergunta. Felizmente, ele o faz de uma forma que eu e você (enquanto maçons) não teremos qualquer dificuldade em compreender. A razão para isto é que tudo – dentro do nosso ritual suporta isso.

Permitam-me enfatizar este ponto – tudo – suporta isso. Platão recomenda que os reis-filósofos precisam se submeter a um curso de educação que tem como principal meta o treinamento da mente para atingir dois objetivos distintos. O primeiro é pensar com clareza, enquanto que o segundo é agir de uma maneira que esteja de acordo com o princípio grego de excelência. A palavra grega para excelência é “arete” e, tradicionalmente, ela é traduzida em inglês como a palavra que comumente reconhecemos como virtude.

O primeiro curso na educação de um rei-filósofo proposto por Platão – (a saber, aquele do treinamento da mente para pensar com clareza), era um curso de assuntos com os quais estamos familiarizados. Nós nos referimos aos temas deste curso como artes e ciências liberais.

O segundo curso na educação de um rei-filósofo – (aquele que lida com o treinamento da mente para agir em consonância com o princípio da excelência), ele dividiu em quatro campos distintos. Estes campos são: Prudência, Fortaleza, Temperança e Justiça. Discutiremos cada um deles separadamente, mas no momento, podemos definir esses termos com uma linguagem mais moderna, referindo-nos a eles como senso comum (ao invés de Prudência), equilíbrio de vida (ao invés de Temperança), pensamento calmo (ao invés de Fortaleza) e agir de forma adequada para a situação (ao invés de Justiça).

Embora os elementos desses princípios possam ter existido de alguma forma antes de Platão, este tem o mérito de ser a primeira pessoa na cultura ocidental a sintetizá-los em um todo estruturado, coerente e lógico.

Neste ponto inicial de nossa análise, (somente por uma questão de simplicidade), reduzirei todo o nosso Ritual para dizer que ele é uma destilação dos princípios de A República – ou seja, que nosso Ritual é um sistema peculiar de ensino de moralidade que usa como o seu arcabouço, dois estudos primários – aqueles das Artes Liberais e Ciências, e também as Quatro Virtudes Cardeais. Seu objetivo ao fazer isso é desenvolver em um candidato à entrada na Maçonaria os atributos intelectuais e de caráter necessários em um rei-filósofo.

Em seu nível mais básico, este é um ponto muito conveniente para começar; então, vamos iniciar nossa discussão revelando a ligação fundamental entre o conceito de Platão do filósofo-rei e o Venerável Mestre de nossa loja.

Continua…

Autor: Stephen Michalak
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo VI

  1. Rafael Santos da silva disse:

    Muito boa a explicação para quem é um profano como eu que respeito a maçonaria a maior riqueza é a sabedoria eu fico admirando com toda a sabedoria que os maçons têm um potencial que esta diante de todos nós mais que poucos conseguem ver e praticar sem os ensinamentos maçons obrigado e sou grato desde já pela atenção espero receber mais alguns ensinamentos

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