O amor filosófico e o puro prazer

Filosofia - E.E. "João XXIII": O amor filosófico e o puro prazer

Segundo Platão, o amor é a busca da beleza, da elevação em todos os níveis, o que não exclui a dimensão do corpo. No entanto, será que essa concepção ainda faz sentido em tempos de exagerado culto à coisificação do prazer?

Parece estranho e contraditório falar do amor filosófico em uma época desapaixonada, como esta em que vivemos. Na verdade, esta nossa época carece tanto de sentimento quanto de razão, pois ela pretende ser apenas a encarnação de um tempo hedonista, extravagante, dominado pelos sentidos.

Conforme Platão (427 a.C. – 347 a.C.), o amor é a busca da beleza. Embora tenha início da realidade física, deve alcançar a sua forma universal, não permanecendo prisioneiro da matéria. É lugar comum confundir o amor platônico com o amor não correspondido ou desprovido de interesse sexual. Na realidade, o filósofo não exclui o amor carnal, porém o vê como um primeiro degrau que pode levar a outros mais elevados.

As várias faces de Eros revelam-se nos discursos que ilustram O Banquete, obra-prima da literatura ocidental. O livro narra um encontro na casa do poeta Agáton[1], do qual tomam parte Sócrates, Fedro, Alcebíades e outras figuras atenienses. O encontro tem como objetivo comemorar a premiação de uma peça teatral do anfitrião, e os presentes escolheram Eros como tema inspirador dos discursos da noite.

No prólogo do livro, utilizando-se de um artifício literário, o narrador esclarece que não tomou parte, propriamente, daqueles acontecimentos, mas ouviu detalhes da sua história em colóquio com outro personagem. Após os convivas concordarem que deviam beber com moderação, pois haviam se excedido na noite anterior, dá-se então início aos discursos sobre o amor.

No relato de Pausânias aparecem duas formas de amor, geradas por Afrodite, deusa grega da fecundidade e da beleza. Afrodite tem dupla face, ou, de acordo com os estudiosos da mitologia, são duas Afrodites: a Celestial, filha de Urano; e a Popular, filha de Zeus e Dione.

Aristófanes[2], personagem conhecido entre os atenienses pela sua dramaturgia, defende que o amor é a busca da outra metade que se perdeu por castigo dos deuses. Havia no mundo três tipos de seres humanos: um formado só de duplos elementos masculinos, outro só de duplos femininos e por último um misto de elementos masculino e feminino. Esta era uma figura andrógina. Os seres duplos transgrediram a ordenação dos deuses e foram divididos ao meio. Por isso, o amor é a busca da outra metade que se perdera, o que revela a incompletude humana.

Como acontece em outras narrativas platônicas, Sócrates surge como o personagem que realiza a síntese das ideias e sentimentos do autor. N’O banquete ele inspira-se em Diotima de Mantineia[3], sacerdotisa do amor, para ilustrar o seu discurso. Não se sabe ao certo se ela é uma criação de Platão ou personagem da mitologia, mas deste entrelaçamento surgem as mais belas páginas da literatura grega.

Eros é aí descrito como um daimon, intermediário entre os homens e as coisas divinas.

“Ao gênio cabe interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses; de uns, as súplicas e os sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos, ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. (…) E esses gênios, é certo, são muitos e diversos, e um deles é justamente o Amor.”

Rumo ao amor essencial

Na escalada rumo ao amor essencial, outros estágios se fazem necessários. Do amor às formas físicas belas à própria beleza, independente da forma. Há ainda o amor ao conhecimento e às boas práticas, o que pode ser interpretado como uma adesão aos princípios éticos. A sacerdotisa Diotima associa o amor à imortalidade e afirma, no diálogo com Sócrates, que o amor é o “desejo de procriação no belo”.

Apesar da visão fulgurante contida nessa narrativa, o idealismo platônico deprecia o corpo e o mundo real. Ele concebe os seres humanos como se estes fossem anjos caídos em um mundo degradado.

A dívida da Filosofia para com Sócrates/ Platão é enorme. Para Sócrates, especialmente, o diálogo levava ao conhecimento da verdade. Ele contava com um método próprio para analisar os variados assuntos que lhe eram apresentados: a dialética (arte do diálogo), que se juntava a outro artifício intelectual criado por ele, a maiêutica (parto das ideias).

A razão socrática, contudo, é acusada de servir à repressão dos instintos. Nietzsche postulou a questão de uma racionalidade repressiva ao observar que esta está a serviço da ordem e da moral, que representa uma coerção ao indivíduo autônomo. A moral, de acordo com as suas palavras, transforma-se em “instrumento do instinto de rebanho.” Como se pode ver, a razão tornou-se má conselheira, e um veículo da repressão aos instintos mais verdadeiros.

De outra forma, Freud concluiu que o embate do indivíduo com a sociedade é irreconciliável. A isso ele chamou de “mal estar da civilização.” A razão que foi construída a partir dos gregos quer guiar o mundo conflagrado onde habitamos. Este mundo não tem governo. Mas não existe outro onde possamos viver, a não ser o mundo da desrazão. Pode-se argumentar que a razão, seja ela grega ou moderna, é sempre repressora: é da sua natureza, se assim se pode dizer.

O amor e o prazer em nosso tempo

O amor da nossa época pretende ser puro prazer; deve encerrar-se aí onde teve início, no próprio corpo. Ele torna-se dejeto logo após o gozo. Mas, de toda forma, isso não deve ser considerado apenas negativamente, levando-se em conta que se trata de um tempo em que o amor às pessoas foi substituído pelo amor às coisas.

Seria uma tarefa inglória comparar a antiguidade clássica com a modernidade[4]. A própria modernidade já se diferencia de si mesma em diversos aspectos. Apesar disso, a filosofia e o amor platônicos transcendem as barreiras do tempo. Não faltam contestadores da sua filosofia, contudo, todos estão de acordo com uma verdade inequívoca: Platão foi um pensador de gênio.

No Fedro ele mostra que o exagerado apetite dos prazeres corporais e das coisas materiais não levam a bom termo. E, como acontece em outras ocasiões, ele cria ou serve-se da narrativa de um mito para ilustrar o seu pensamento.

No mito da “parelha alada”, o cavalo de mau gênio representa a concupiscência – o vício, a cobiça e as práticas sexuais exacerbadas. Na sua corrida indômita, ele desvia-se do caminho reto, levando junto o cocheiro e o outro cavalo. Nessa alegoria, o cocheiro representa o intelecto, que oscila entre os impulsos antagônicos dos dois cavalos: um obediente, que simboliza a coragem; o outro, rebelde, que guia-se pela extravagância dos sentidos.

Na concepção dos gregos antigos, o amor não devia tornar-se prisioneiro do corpo, mas elevar-se gradativamente, até o cimo, onde havia as essências absolutas: a verdade, o belo, o bem.

Essa passagem do corpo ao espírito é a expressão da dialética ascendente de Platão. Na parte inferior havia o mundo das sombras, produtor de ilusões, e os objetos sensíveis. No outro extremo, o mundo inteligível. Todo processo de conhecimento dá-se em uma ascensão do mundo obscuro, das sombras, ao luminoso mundo das ideias.

O corpo paira sobre a moral do seu tempo. Inventa uma nova erótica, elege os seus novos parceiros: as academias que redefinem as suas formas, os sex shops que coisificam o seu prazer, a moda que veste, o marketing que o alimenta com produtos miraculosos

Tudo o que a nossa época deseja é poder celebrar as conquistas pontificadas pela ciência, pelas tecnologias, pelo conhecimento emancipador da modernidade. Evidentemente, as ditas conquistas se fazem acompanhar de uma libertação espiritual e moral sem precedentes. O indivíduo contemporâneo não quer saber de enigmas, ele aspira a uma vida material que preencha todos os mistérios, todas as faltas. E a libertação moral a que chegou serve bem ao seu plano de realização dos desejos, tomando como centro de tudo o próprio corpo. É aí que se dá a encenação do seu teatro.

Até já se imaginou que as coisas se resolvessem em um cenário político, mas as utopias se dissiparam. A política teve a sua fase erótica, motivadora dos desejos revolucionários. A sedução política do corpo deu lugar a uma celebração do puro prazer sem reivindicações. Tudo já se encontra aí, em abundância. Contudo, é o corpo que dita as regras do jogo. Ele diz se está ou não satisfeito. E a presunção de que seria massacrado pela exploração capitalista, felizmente, não chegou a termo, pois, como o próprio capitalismo, ele também sofreu as suas metamorfoses.

O corpo paira sobre a moral do seu tempo. Inventa uma nova erótica, elege os seus novos parceiros: as academias que redefinem as suas formas, os sex shops que coisificam o seu prazer, a moda que veste, o marketing que o alimenta com produtos miraculosos. Não se pode negar a sedução do vestir, mas ele quer desnudar-se.

E tudo então retorna ao templo sagrado do corpo que ama, antes de mais nada, a si mesmo. Venceu o cavalo de mau gênio. É ele que dirige a parelha alada, obcecado pelo prazer, o sexo, o consumo e a matéria.

Na alegoria platônica que ilustra os dias atuais, o cocheiro (intelecto) perdeu o controle do seu carro. O corpo flana em uma fauna de prazeres, enquanto a razão desce as escarpas.

Autor: Márcio Salgado

Fonte: Revista Filosofia

* Marcio Salgado é escritor, pesquisador, doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ).

Notas

[1]Poeta ateniense, Agáton (447 a.C.- 401 a.C.) aparece em obras de Aristóteles (Anteu), Aristófanes (As Convocadas) e Platão (O Banquete).

[2] – Embora tenhamos poucas informações sobre a vida do dramaturgo Aristófanes (448/447 a.C. – 385-380 a.C.), sabe-se que ele foi um grande mestre da comédia antiga, autor de diversas peças com sátiras políticas e sociais, sendo uma de suas mais conhecidas Assembleia de Mulheres.

[3] – Escreve Zygmunt Bauman no livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Zahar, 2004, pg. 21): “No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantineia ressaltou para Sócrates, com a sincera aprovação deste, que ‘o amor não se dirige ao belo, como você pensa: dirige-se à geração e ao nascimento do belo’. (…) Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é, enfim, à transcendência”.

[4] – O sociólogo britânico Anthony Giddens escreveu uma obra interessante para se pensar o amor, a sexualidade e a intimidade no mundo moderno: A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas (Unesp, 2000)

Referências Bibliográficas

Platão. O Banquete. In: Platão/Diálogos. Tradução e notas: José Cavalcante de Souza. 5ª Edição. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 32-101 (Os pensadores).
_______. Fedro. Tradução: Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2007.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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