Ensaio Sobre as Origens dos Rituais e dos Graus Simbólicos – 2ª Parte

As Confrarias de ofício existentes desde a alta Idade Média, encarregavam-se de organizar a profissão, de proteger seus membros e ajudá-los em caso de necessidade. Esses construtores deixaram muitos vestígios, alguns dos quais datam do século XI. Desde meados do século XIV, até o início do XVIII, é possível acompanhar a sua evolução sem interrupções significativas. Nenhuma justificativa permite dizer, de acordo com uma lenda que ainda prevalece, que eles descendem dos Colégios Romanos, ou, mais tarde, dos Comacini, filiação refutada até mesmo pelo homem que a sugeriu. Trata-se aqui apenas das associações britânicas, relacionadas, ainda que superficialmente, à maçonaria especulativa. Não há nenhum vestígio na França de algo que se assemelhe ao que aconteceu do outro lado do Canal da Mancha. A Irmandade de entalhadores de pedra e pedreiros de Estrasburgo, chamada de Steinmezten, não deixou de atrair a atenção. Ela agrupou os trabalhadores do território alemão ocidental em 1459 e deixou a chamada Carta de Ratisbonne, que regulava as relações de membros da Associação no exercício da sua profissão, tanto entre si quanto como com seus empregadores. Uma alteração feita em 1628 permitia “aos homens piedosos” integrá-las. Não sabemos nada mais sobre a atividade interna da Associação.

Os canteiros de obras, quer religiosas quer civis, foram muito importantes e tinham um número considerável de trabalhadores. Daí a necessidade de uma busca pela própria natureza das coisas. Eram quatro categorias de trabalhadores – diaristas, aprendizes, aprendizes “aceitos”, companheiros – todos sob a direção de um empreiteiro, o que significava um ou dois vigilantes para ajudar. Este sistema não ficou solidamente estabelecido até o final do século XVI. Cada canteiro instalava uma “Loja”[8], que servia também de oficina (embora as pedras fossem esculpidas no local de sua extração), refeitório ou sala de estar, onde discutiam os acontecimentos do dia e todo mundo recebia as instruções relativas à sua tarefa. A Loja era uma unidade com as suas próprias regras, estabelecidas em conjunto entre o gerente de projeto, a assembleia ou alguém que tivesse sido colocado no comando. Muitas vezes ela mudava de um canteiro para outro, embora tivesse a obrigação de concluir o que havia sido empreitado. A falta de dinheiro frequentemente interrompia os trabalhos, levando ao deslocamento do canteiro e à dispersão parcial dos membros da Loja. A vida coletiva que isso implicava, a ajuda mútua que os trabalhadores mantinham, a responsabilidade do mais hábil ensinar ao menos hábil, despertava sentimentos de solidariedade que eram rapidamente transformados em verdadeira fraternidade.

Os costumes instaurados tinham força de lei e eram uniformes, embora diferentes em detalhes. Eles regulamentavam o uso e posse de ferramentas, as condições de trabalho, os benefícios em espécie concedidos além do salário. Os diaristas, recrutados no local e quase sempre por requisição, permaneciam fora da Loja. Os aprendizes, sob contrato, submetiam-se a um estágio probatório ao final do qual ou eram rejeitados – e voltavam a ser diaristas – ou admitidos, sempre como aprendizes, mas, ainda assim, deviam pagar sua admissão, que era concretizada por uma recepção. Esta, muito simples, era realizada a portas fechadas, pelo Mestre da Loja, diante dos companheiros e aprendizes antes admitidos. A admissão incluía a primeira leitura das regras que regiam a profissão, o juramento que obrigava o aprendiz “registrado” como “aceito” ao mais absoluto segredo, a comunicação de uma “palavra”, a “palavra do pedreiro”, sussurrada em seguida junto com os presentes, e se apresentava cada um dos sinais de reconhecimento, sendo concluída com um banquete. Textos sugerem que, antes ou durante a refeição era feito uma espécie de “trote” ou intimidação com o recém-admitido. Isso acontecerá com os operativos até por volta de 1710 e critica-se Desaguliers por tê-lo suprimido por julgá-lo incompatível com a dignidade das pessoas “aceitas”.

O Manuscrito no 1 na Grande Loja da Inglaterra, datado de 1583, dá o procedimento do juramento:

“… um dos antigos toma o Livro e aquele ou aqueles que prestam o juramento[9] colocam suas mãos sobre ele, e os preceitos são lidos.”

O livro em questão não é especificado. O termo é ambíguo e há dúvidas quanto à sua identidade, Bíblia ou Regulamento da profissão, mas mais provavelmente este último. A primeira referência inequívoca à presença da Bíblia ocorre um século mais tarde, em 1685, no manuscrito Colne no 1. Em nenhum lugar, nem nas atas mais antigas da Grande Loja de Edimburgo, que remonta a 1598, nem nas da Loja Saint Mary’s Chapel, de 1599, nem nas da Loja-Mãe Kilwining no 0, de 1642, consta que havia uma Bíblia no material da Loja. Isto é confirmado pelos textos das lojas mais recentes que permaneceram operativas, como a Aldwick (1701), a Swalwell (1725), etc. A primeira menção existente da compra de uma Bíblia, acompanhada por dois livros de canções, está contida em uma ordem emitida em 1766 pela Loja-Mãe de Kilwining, embora a proposta para aquisição já houvesse sido feita em 1726, 1744, 1749, mantendo-se sem resposta. E embora Prichard a mencione em sua revelação de 1730, apenas na década de 1750-1760 seu uso se tornará generalizado. Na França, ela era muitas vezes substituída pelos Evangelhos. O Recueil Précieux da maçonaria adonhiramita, de Guillemain Saint Victor, de 1781, afirma que “… o juramento é pronunciado com a mão direita sobre o Evangelho”, enquanto um manuscrito do final do século XVIII traz “…sobre os Santos Evangelhos”. O Grande Oriente, nos Rituais do Rito francês, estabelecidos em 1782, não manteve esta condição, e os juramentos são prestados sobre o Livro das Constituições.

Há dois tipos de segredos: aqueles que decorrem da profissão e que o aprendiz vai descobrindo aos poucos à medida em que se qualifica profissionalmente e aqueles que consistem dos meios e sinais de reconhecimento, especialmente da “palavra” do maçom. Os primeiros diziam respeito ao talhe bem preciso da pedra, assentamento de blocos, construção de arcos, abóbadas, cúpulas, etc. Eram diferentes da geometria pura utilizada pelos companheiros para preparar desenhos e planos. Os maçons “aceitos” não tinham o que fazer com tais ensinamentos e, assim, seus elementos foram se perdendo pouco a pouco. No início do século XVIII, os “especulativos aceitos” haviam conservado apenas alguns fragmentos desses segredos que “ganharam uma nova roupagem”, sendo atribuído a eles um significado moral ou simbólico extraído de toda a massa de ciência estranha que inundava a Europa. Os segredos operativos não deixaram nenhum vestígio de conhecimento especulativo de caráter esotérico.

A “Palavra do Maçom” continuou a intrigar os historiadores ingleses da maçonaria. O uso de uma “palavra” é muito antigo, uma vez que ela é encontrada nas tradições egípcias, hebraicas e mesmo védicas; na Idade Média, os homens do Ofício se reconheciam por ela. É de origem escocesa e não há certeza de que existissem nas Lojas “aceitas” inglesas, no primeiro quarto do século XVIII, fora da região de fronteira com a Escócia. Sua presença é garantida pelos “operativos aceitos” das Lojas Saint Mary’s Chapel, Aïtksonhaven, Dunblanc, etc. a partir do século XVI.

Vimos que a comunicação era um dos elementos essenciais na Recepção de Aprendizes. Era única para todos os membros. Com o tempo, ela emigrou para a Inglaterra devido à troca ininterrupta de trabalhadores entre os dois países. Os “aceitos” a desdobraram, talvez para distinguir-se dos operativos. Eles criaram uma (ou conservaram a existente) para os aprendizes, uma para os companheiros, e mais tarde, tendo se tornado especulativos, uma para os mestres. Este desvio da “palavra” de origem escocesa, que, lembramos, não tinha em si qualquer valor esotérico, gerou, a partir dos anos 1735-1740, toda uma série de palavras ditas “sagradas”, criadas pelos inúmeros graus que vieram em seguida e que constituíram o que chamamos de Escocismo. O modo de reconhecimento foi transformado em um símbolo, de uma “verdade perdida”, ou de uma “palavra perdida”, juntando-se assim às famosas fórmulas orais encontradas nos contos de fadas, cujo poder misterioso abre todas as portas. Em 1753, o virulento propagador irlandês da maçonaria dita “dos Antigos”, Laurense Dermott, a definiu como “a medula[10] da Maçonaria.”

A maçonaria operativa conhecia apenas dois graus, além de uma função, a do Mestre de Loja, que era escolhido por seus companheiros, pelo menos até 1710. A presença do Templo de Salomão na lenda da Ordem faz parte dos enigmas não resolvidos. Das 150 versões de manuscritos já mencionadas, apenas dois falam disso: o Regius (1390), poema em versos, e o Cooke, mais explícito do que o seu antecessor e a mais antiga referência aos “Deveres Operativos”. Narra brevemente a história do ofício da maçonaria, assumindo parcialmente o que é dito na Bíblia. Dá um papel muito mais importante à Torre de Babel e a Nimrod do que a Salomão e seu Templo. São 76 linhas de texto contra 28, e menciona os dois pilares sobre os quais foram gravadas as sete artes liberais de Ciências e Artes (das quais, entre parênteses, encontramos vestígios no grau 30 do Rito Escocês). Dois pilares dos quais um não poderia brilhar e outro ficar sob sombras, a fim de protegerem o precioso conhecimento da época da destruição ou da vingança de Deus.

É apenas no início de 1700 que eles retornam timidamente nos raríssimos “Antigos Deveres”[11] ainda em uso, mas logo desaparecem em benefício das duas colunas de Salomão. No mesmo período, no registro da Grande Loja de Edimburgo, à pergunta: “… onde existiu a primeira loja?”, responde-se “… no pórtico do Templo de Salomão.” Pouco antes de 1700, a Grande Loja de York menciona as festas celebradas na inauguração do famoso Templo e a morte de Hiram, seu arquiteto, sem qualquer menção ao seu assassinato. Dez anos depois, o Manuscrito Dumfries no 4 dá às duas colunas tiradas da sombra um sentido religioso cristão que será retomado posteriormente.

Então, por que Salomão? E por que depois de um silêncio que durou 300 anos?

A causa que provocou este efeito terá sido o fato de que, em 1665, Jacob Jéhu Leon, um judeu espanhol, exibiu em Londres um modelo muito bonito do Templo de Salomão, que atraiu enorme atenção (a exposição continuou com o mesmo sucesso até 1765, ou seja, um século depois)? Ou seria a publicação, em 1688, de um livro “Le Temple de Salomon spiritualisé”, do escritor anabatista John Bunyan, autor conhecido e respeitável?

Continua…

Autor: André Dore
Tradução: S. K. Jerez

Notas

[8] – Não esqueçamos que Loja significa Alojamento (N.T.)

[9] – O texto original diz obrigação (N.T.)

[10] – No sentido de “coluna mestra”, “coração” etc. (N.T.)

[11] – Old Charges, no original (N.T.)

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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