Os Grandes Ensinamentos da Maçonaria – Capítulo IV

Bússola - Cartografia - InfoEscola

A teoria maçônica sobre uma vida correta

Não há como o homem evitar as forças da natureza, seja para o bem ou para o mal. Você pode levantar a vela de seu barco, mas isso não afeta o vento. Quando singrar o solo com seu arado, não ouvirá os gritos de dor da terra. O homem pode enviar suas mensagens sem fio através do espaço, mas isso não muda a estrutura da atmosfera. Um homem não tem muita escolha nas suas relações com a natureza. Se ele despenca de um telhado ele imediatamente cai na terra, qualquer que seja sua opinião sobre a  gravidade. O sol brilha, a noite escurece, as estações se sucedem, a chuva cai, o oceano se move através de suas marés, mas o desejo do homem não tem nada a ver com tudo isto. Já o relacionamento do homem com seus pares é muito diferente. Ele pode feri-los ou ajudá-los, abençoá-los ou amaldiçoá-los. Suas ações podem mudar o destino do outro: o que ele faz pode ser uma questão de vida ou morte. E tudo o que ele faz para e com os seus semelhantes é em grande parte uma escolha sua, pois ele pode optar por agir ou não agir, pensar ou não pensar, falar ou não falar, ele pode escolher qual atitude tomar quando sabe que seus pensamentos, palavras ou ações irão influenciá-los muito, de uma forma ou de outra. Essa regra também vale para o relacionamento do homem com si mesmo: sua personalidade é fruto de seus pensamentos e atos, para o bem ou para o mal, e pensamentos e atos que são de sua própria escolha, ele é o responsável, são eles uma parte do seu modo de ser. Todas as maneiras em que o homem se afeta, ou que homens afetam uns aos outros, abrangem a essência da moral, da qual a ética é a ciência.

A Maçonaria tem sua própria interpretação dos princípios da moralidade. Ela tem seus próprios ideais da conduta humana. Por suas próprias razões enfatiza certos deveres, e incentiva certos ideais. A fim de auxiliar os homens a agirem de uma determinada maneira ela reforça sobre eles certas influências e se esforça para neutralizar outras que possam se opor a seus propósitos. Ela sabe como o homem deve ser, como a sociedade de uma forma geral deve ser, e se dedica totalmente a esse objetivo. A Ética Maçônica é filosoficamente estudada desse ponto de vista particular, à luz dos princípios e ideais maçônicos, e em nome de propósitos maçônicos. É o estudo de como a ética auxilia a Maçonaria e de como a  Maçonaria auxilia a ética. Tal estudo está fortemente presente em toda literatura que trata da Arte Real, em sua filosofia, em seus ensinamentos, em seu ritual e suas tradições, porque a Maçonaria é acima de todas as outras coisas uma instituição moralista, que se esforça para tornar real na terra um ideal definido de conduta, tanto pessoal como pública. É lamentável que nenhum estudioso maçônico moderno ainda tentou fazer um estudo cuidadoso da história e da literatura maçônicas, a fim de construir um Sistema de Ética Maçônica, da mesma forma que inúmeros outros estudiosos construíram sistemas de ética cristã, ou ética chinesa , ou judia, etc.

A maioria dos homens sabe tão pouco de ciência moral como sabe de qualquer outra ciência, e suas concepções de “certo” e “errado” são, portanto, muitas vezes sem valor, como suas concepções de astronomia ou física. Da tradição, da igreja, ou por ouvir dizer, sem nunca submeter a uma análise criteriosa o que lhes foi passado, aceitaram se submeter a um rígido código de moral. Este código é composto, em sua maior parte, de duas diferentes listas de ações: uma do que é permitido; a outra do que é proibido. Sempre que surge a pergunta, se eu agir assim será bom ou ruim? eles tratam da questão através de suas “listas” e mandam agir em conformidade a elas. Um homem diz a si mesmo: Será que faço uma aposta na Mega-sena da Virada? Devo enviar dinheiro para os Missionários que estão no Congo? Devo contar esta mentira para o meu próximo? Será que devo começar a fumar? Se apostas estiverem na lista de coisas erradas, então jogar na Mega-sena será pecado. Se doações para os Missionários que estão no Congo estiverem na lista de coisas certas, então não tem problema algum. E assim vai.

Este procedimento funciona de forma satisfatória até que o homem entre em conflito com um código totalmente diferente. Veja este exemplo: Um francês, que seja supostamente um cristão também, verifica que beber vinho é permitido em código moral. Um metodista americano, por outro lado, constata que o vinho está entre as coisas mais violentamente proibidos por seu código. Quem está com a razão? O francês pode apelar para o que diz o Novo Testamento: assim o Metodista pode beber o vinho. O francês pode dizer, a minha igreja há muito tempo decidiu esta questão; o Metodista pode responder, a minha também decidiu a questão. Se o francês argumenta que beber vinho é tradição entre seus pares, o Metodista pode retrucar, usando a tradição entre os seus para uma conclusão oposta. Está claro que esta simples “lista” ou um sistema de código de moral é algo que perde valor já que é usado pelo o homem de acordo com a sua conveniência.

Isso não é nada mais que a milenar busca pela conquista do trono de autoridade no que concerne à moral. Quando um homem estiver em dúvida, sem saber se determinada ação é certa ou errada, a quem ele deve apresentar seu problema em busca de uma solução moral? Na opinião do escritor, não pode haver apenas uma resposta. A experiência humana, individual e de costumes, é a autoridade final na moral. Se um homem faz algo que fere o seu próprio corpo; ou desnecessariamente destrói algo de valor humano; ou fere outro de alguma forma; ou deliberadamente se faz infeliz ou torna outras pessoas infelizes, este homem está errado.

Errado é tudo o que fere a vida humana, ou destrói a felicidade humana; correto é aquilo que ajuda a vida humana, e tende a manter ou aumentar a felicidade humana.

Só há uma maneira de aprender o que é que fere ou ajuda, e é pela experiência que se aprende, e sempre que alguém não tiver certeza sobre o que a experiência tem a dizer, ele então é obrigado a fazer uma experiência moral. e sempre que não se tem certeza que a experiência tem que dizer que ele é obrigado a fazer uma análise moral. Atos não são intrinsecamente certos ou errados, mas de acordo com os seus efeitos são prejudiciais ou úteis. O propósito de se viver corretamente não quer dizer apenas se submeter a algum código, ou simplesmente prestar obediência a alguma autoridade, mas sim permitir que um homem viva de forma rica, saudável, feliz. Um homem sábio pode, portanto, às vezes, fazer algo que não seja aprovado por outros, mas o homem que faz algo que sua própria experiência mostra ser prejudicial é um tolo.

Isso não significa que um homem pode confiar, com segurança, apenas em sua própria experiência: muito pelo contrário, às vezes a experiência de um homem é tão exígua que dela não se pode tirar nenhum valor. Outros têm vivido mais tempo ou mais rica do que ele, ou com mais sabedoria, e ele pode escutar seus conselhos. Nesse caso ele deve escutar os conselhos daqueles mais velhos que já acumularam anos de experiências. Outros, em virtude de algum treinamento especial, podem compreender melhor os efeitos de um determinada ação, e, consequentemente, têm o direito de fazer suas escolhas, como um médico tem o direito de prescrever os remédios que considera mais eficazes. Também não pode um homem ousar colocar sua experiência pessoal contra a experiência de uma nação, ou de um povo, sendo um exemplo a época da escravidão, quando os senhores de terra achavam que aquele sistema era muito bom para eles mesmos e para seus escravos, ao passo que a experiência dos Estados Unidos, a nação, provou ser a escravidão uma maldição para todos. Mas, se o indivíduo pode confiar em sua própria experiência, ou deve submeter-se a experiência maior e mais sábia do seu povo, é a vivência humana que, em última análise, aprova ou condena qualquer conduta.

Certas ações são sempre, e em qualquer lugar, realizadas para ferir e causar danos. Enganar deliberadamente o outro infelizmente acontece tanto na China quanto na América, era assim no passado, e ainda o é nos dias de hoje; assim como os maus hábitos da gula e da intemperança que destroem a saúde, como também a extravagância, a preguiça, a crueldade, etc. Não se pode conceber qualquer condição social em que os homens não iriam encontrar essas coisas para provocar infelicidade. Essas decisões, frutos da experiência humana, tornam-se cristalizadas em princípios que  ninguém questiona, e estes princípios, tomados em conjunto, formam um sistema de moralidade.  Mas, mesmo assim, todos esses princípios são estabelecidos na experiência humana e nas decisões dela originadas. Caso a natureza do homem sofra alguma mudança misteriosa, e a gula torne a vida dos homens mais alegre, fortificante e rica, ela então se tornaria algo bom e não mais ruim.

A grande maioria dos problemas morais, no entanto, não têm sido, e nunca podem ser, estabelecidos definitivamente; sempre a pessoa, na medida em que as coisas acontecem, deve decidir por si mesmo o caminho a seguir.  Fumar é prejudicial? Alguns médicos dizem que é, e há outros que são eles próprios fumantes; alguns homens parecem poder fumar e continuarem livres de qualquer tipo de problema de saúde, apenas desfrutando do prazer que isso lhes traz; os outros já têm dores de cabeça e noites de insônia depois de alguns charutos: em todo caso, o indivíduo deve decidir por si mesmo, e, contanto que a questão continue a ser uma questão estritamente de experiência pessoal, ele não tem o direito de decidir por outro. A submissão a um tradicional código de posturas não é suficiente para definir um homem como sendo alguém de princípios e caráter;  o homem forte, do ponto de vista moral, é aquele que, quando decide pela experiência, permanece em sua decisão, embora essa escolha possa se opor a muitos interesses egoístas e interferir em muitos desejos secretos.

O teste da experiência é igualmente válido quando aplicado às questões mais religiosas e idealistas da conduta humana: auto sacrifícios, heroísmos, martírios, estes, como os assuntos mais banais da vida cotidiana, são aprovados ou condenados de acordo com o que fazem a favor ou contra vida humana. As milhares de pessoas que foram embora para as Cruzadas se consideravam com poderes conferidos diretamente por Deus, mas hoje em dia um julgamento mais sensato, embora admire o elemento de heroísmo nos Cruzados, condena a iniciativa como um todo como tendo sido uma inútil, e dispendiosa, amostra de fanatismo. Isso é para exemplificar que os ideais, aspirações, heroísmos, auto sacrifícios, e todos os outros atos semelhantes e objetivos não são, em si mais “justos” do que os outros tipos de comportamentos mais comuns, e que eles devem ser julgados “certos” ou “errados” apenas em função das condições em que são feitas e as consequências que deles resultam.

Esta análise sobre a conduta moral é de grande importância para nós em nossos períodos de descanso e reflexão, já que na maioria das vezes um homem não pode parar para “filosofar” sobre isso, muitas vezes ele não pode mesmo parar para pesar as probabilidades, e ponderar as causas, enquanto cumpre as tarefas do seu dia, pois geralmente as decisões devem ser tomadas na hora, e muitas vezes elas são tomadas de forma inconsciente, como um ato instintivo. A única coisa que determina um homem em todas essas decisões é a sua “natureza” moral, e essa natureza é um sistema de hábitos, reações, julgamentos, emoções, etc, que já está fixo no homem, que foi construído a partir de toda a sua experiência passada. Um bom homem é aquele que tem o passado tão vívido em sua memória que ele habitualmente age apenas de modo a proporcionar felicidade para si e para os outros (a palavra “feliz” aqui é usada em seu sentido mais amplo possível). Ele pode ter feito antes, e também fazer agora, algo que ele sabe que é errado, mas sua “natureza”, o viés constante da sua vontade, é para realizar coisas boas visando o bem-estar das pessoas. Um homem mau é aquele cuja natureza é tal que ele instintivamente faz coisas que machucam os outros ou a si mesmo, embora ele possa muitas vezes ser capaz de atos de ternura, auto sacrifícios, ou alguma atitude nobre momentânea.

Um homem age conforme sua natureza. Tal fato é reconhecido na descrição da conversa que Jesus teve com Nicodemos a quem o Mestre disse que ele deveria em primeiro lugar “nascer novamente”.  Esta frase passou para a teologia como a doutrina da “regeneração”, ou “novo nascimento”, e é uma doutrina saudável, pois muitos homens são tão arraigado à maldade que toda a sua natureza deve ser mudada radicalmente antes que eles possam ser confiáveis para viver em harmonia e felicidade com os seus companheiros.

Esta doutrina do “novo nascimento” parece estar no cerne do grande drama maçônico de Hiram Abif. Os intérpretes maçônicos têm divergido muito entre si quanto ao significado dessa parábola viva, mas quase todos têm em comum a crença de que, de alguma forma significa que, para ser um justo e verdadeiro irmão um homem deve “nascer de novo”, de modo que sua natureza seja alterada para agir em uníssono com um mundo novo. Como isso pode sr feito? É um dos pontos onde os princípios morais se fundem na religião, para quase todas as religiões têm-se adotado a necessidade da criação de uma nova natureza no homem, e todas elas procuram fazê-lo, conclamando o poder divino para auxiliar o indivíduo. A Maçonaria está em harmonia com a religião, pois ela também recorre a oração, para a busca da vontade de Deus. Ela também faz uso dos poderes de fraternidade, de raciocínio, de ritual, e de tudo que a Ordem nos proporciona. Toda a cerimônia é em si uma tentativa de criar uma nova natureza no candidato, e é também, por outro ponto de vista, um símbolo das influências do mundo que têm poderes regenerativos; essas influências, é claro, são inúmeras, e muitas delas não têm ligação direta com a religião, como, por exemplo, o carinho por um dos pais, a educação, o infortúnio, etc., qualquer um dos quais pode, em determinadas circunstâncias, provocar uma mudança profunda na natureza moral de qualquer indivíduo.

O que foi dito da vida moral do indivíduo pode-se dizer, em algum grau ou outro, da sociedade em geral. Como é julgada uma grande instituição social? Pela experiência social; por sua influência na vida da comunidade. Se alguma instituição, no entanto há muito estabelecida, por mais que seja considerada, começa a causar infelicidade entre os homens, a discórdia, a agitação, a pobreza, ou então que, essa instituição, embora esteja funcionando de acordo com as leis do país, torne-se perversa, aí então todos os homens de bem tornar-se-ão seus inimigos. Seja qual for a força social estabelecida contra o bem-estar de homens e mulheres, esta força é perversa, embora use o próprio nome da moralidade; seja qual for a força social que contribua para o bem-estar da sociedade, esta força é boa, mesmo que seja nova como a manhã. Se uma instituição é antiga, ou religiosa, ou de acordo com as leis, tal fato deve ser considerado, mas com cuidado, pois apenas isso não deixa claro quais são as influências dessa instituição, quais são suas atividades entre os homens. Por esta razão é que existe uma moralidade social. É o estudo das forças sociais, à luz dos seus resultados e efeitos na comunidade; é a avaliação moral das instituições sociais. É a proteção das forças que trabalham para o bem comum, e o combate àquelas que atentam contra a vida.

Sempre, a moralidade é para o bem dos homens e mulheres; ela existe para que possamos viver nossas vidas em plenitude. Cada homem vive em uma comunidade onde age e desempenha um papel, onde ele é influenciado por outras pessoas e por si mesmo, e onde ele influencia os outros. Sua própria natureza é um feixe de energias e influências do qual a felicidade depende. Para adaptarem-se uns aos outros, para assim aprenderem a governar a si mesmos, e assim ajustarem a vida para as forças da natureza, a fim de que a vida pode ser plena, rica, feliz, esse é o objetivo dos princípios morais. Esse também é o objetivo da Maçonaria, para o qual existe essa grande instituição, a fim de que os homens possam viver felizes juntos e, a fim de que a vida humana, individual ou social, possa sempre produzir as mais altas e nobres atitudes.

Continua…

Autor: H. L. Haywood
Tradução: Luiz Marcelo Viegas
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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para Os Grandes Ensinamentos da Maçonaria – Capítulo IV

  1. Bom dia,gostei muito dessa matéria..

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