Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo XI (1ª Parte)

Mitologia e História Grega – Sua relação com o Ritual Maçônico

Na primeira parte deste trabalho, identificamos a importante posição que os escritos de Platão tem no Ritual Emulação. Por mais significativo que seja este aspecto, existe outra influência importante em nosso ritual. É a importância que a história e a mitologia grega desempenham como pano de fundo para o nosso ritual e falas.

Entendendo que o filohelenismo era uma constante ao longo do século XIX na Europa e, especificamente, (a partir de nossa perspectiva) – na Inglaterra, seria estranho se a história e mitologia grega não tivessem sido tecidas em nosso Ritual.

O que vamos fazer agora é investigar brevemente alguns amplos temas históricos e mitológicos gregos que são facilmente aparentes no Ritual Emulação.

A Importância do Número 9

Você e eu estamos conscientes de que certos números têm importância significativa em nossa cultura maçônica em particular. Alguns exemplos são:

  • O número 3: Existem três graus na Maçonaria Simbólica, três batidas pertencentes a cada grau, 3 oficiais principais em uma loja.
  • O número 4: Há quatro virtudes cardeais, 4 pontos cardeais em uma loja.
  • O número 7: Há os sete dias da criação, 7 dias da semana, 7 Artes Liberais e Ciências, 7 membros que fazem uma loja perfeita.

O número 9 tem seu próprio significado peculiar que está diretamente ligado à mitologia grega. Antes de avançar mais, vamos parar para relembrar o contexto em que o número 9 aparece no ritual maçônico.

Esse número tem significado apenas para o cargo de Grão-Mestre. Quando saudamos o Grão-Mestre, nós o fazemos com um sinal conhecido como Grandes Honras e o fazemos por 9 vezes. No colar do Grão-Mestre, aparecem 9 links. A questão é: como explicar isso?

A primeira coisa que podemos notar é o significado especial que tem o número 9 na mitologia grega. O número 9 aparece com tanta regularidade que não podemos descartar isso somente como uma coincidência. Aqui estão alguns exemplos:

  • Na mitologia grega, o cosmos (o universo) é medido em altura e profundidade por uma explicação muito interessante: se fôssemos jogar uma bigorna para fora no espaço habitado pelos deuses antigos, seriam necessários nove dias para chegar à Terra.
  • Esta mesma bigorna levaria outros 9 dias para cair da terra até a casa de Hades – senhor do Submundo.
  • Por nove dias e nove noites, Leto experimentou a gama de dores do parto (tendo ficado grávida ao deus Zeus).
  • Quando Mnemósine subsequentemente deu à luz, sua prole foram as 9 Musas.
  • Com o tempo, estas 9 Musas se juntaram em uma competição contra 9 “irmãs estúpidas” que elas venceram.
  • Os Mistérios de Deméter exigiam que as mulheres se abstivessem de relações sexuais com seus maridos durante 9 noites.
  • Smyrna – (tendo sido descoberto que enganava seu pai e tendo tido relações sexuais com ele), vagou em exílio durante 9 meses.
  • A criatura mítica conhecida como a Hidra tinha nove cabeças.

A lista acima é (para os fins deste exemplo) – apenas um instantâneo.

No pressuposto de que a cultura grega antiga está no cerne dos rituais maçônicos modernos, é possível que o motivo para o número 9 ter um significado especial para o cargo de Grão-Mestre, pode estar no fato de que, como o Grão-Mestre se senta na Cadeira do Rei Salomão (que era muito conhecido pela sua sabedoria) recorda uma alusão ao deus grego Zeus (que é o Pai da Sabedoria).

“Mas, para Calliope a mais velha das Musas e sua próxima irmã Urania eles se referem àqueles que passam a vida em filosofia e honram o exercício do que deve a sua inspiração a essas deusas; entre as Musas são aqueles que se ocupam dos céus e toda a história da existência divina e humana, e seu tema é o melhor de todos eles.”  Platão, Fedro/259/Hamilton

Segundo o mito, Zeus deu à luz Atena (a deusa da Sabedoria) através de sua cabeça. Tendo dado à luz a ela dessa maneira muito incomum, ele se tornou o Pai da Sabedoria. No entanto – há mais uma reviravolta na história.

Suas nove filhas naturais são as Musas. Essas musas controlam as Artes, através das quais a humanidade dá expressão eloquente à sua história, poesia, dança e drama. Em essência, as Musas englobam todos os estilos de expressão artística que nos dão habilidades de persuasão eloquente.

As 9 Musas são:

  1. Euterpe que rege a expressão da poesia de existência lírica, divina e humana;
  2. Calíope que rege a expressão da poesia heroica;
  3. Polyhymnla que rege a expressão da poesia divina (hinos);
  4. Thalia que rege a expressão da poesia da comédia;
  5. Erato que rege a expressão da poesia do amor;
  6. Clio que rege a expressão da história;
  7. Melpomene que rege a expressão da tragédia;
  8. Terpsícore que rege a expressão da dança coral;
  9. Urânia que rege a expressão de estudos astronômicos.

Cada uma das 5 primeiras irmãs supervisiona elementos da expressão poética. As 4 irmãs restantes supervisionam aspectos da expressão artística que não são classificados como poéticas.

De sua própria maneira, podemos sugerir que a razão pela qual o Grande Mestre é homenageado 9 vezes, é simbólica em sinal de que em sua pessoa é levada a expressão das artes da persuasão eloquente.

Atenas, Esparta e Corinto

Desde a noite de minha iniciação, eu sempre fiquei intrigado com as características que cada um dos três principais dignitários representa. O Venerável Mestre, como chefe da Loja senta na cadeira do Rei Salomão e representa a Sabedoria. Mas, como podemos explicar as características da força (Primeiro Vigilante) e beleza (Segundo Vigilante)?

Em um contexto maçônico, é através da combinação dos três oficiais que a loja é governada e que atinge a propriedade da estabilidade. O que eu sempre achei intrigante é o conceito de que o bom-governo de uma loja é alcançado pela operação das três características que representam os Principais Oficiais – Sabedoria (Venerável Mestre), Força (Primeiro Vigilante) e Beleza (Segundo Vigilante). Eu comecei a procurar pistas. As respostas a estas pistas (como as minhas meias pretas com listras brancas) estavam bem em baixo do meu nariz.

Supondo que eu estava certo e os autores do Ritual de Emulação tomaram como base a história grega, a mitologia grega e os escritos de Platão, a resposta deveria estar bem à minha frente para que eu visse (uma vez eu tinha conseguido trabalhá-la).

As três principais cidades do mundo grego eram Atenas, Esparta e Corinto. Sabemos que Atenas sempre foi o símbolo da sabedoria. Atenas é até mesmo o nome da deusa da sabedoria – Atena. Esparta tinha reputação por sua força, seu poder, a sua disciplina. Devido a esses fatores que destacam a sua característica de força, ela conseguiu o sucesso sobre Atenas na Guerra do Peloponeso. Por último, temos Corinto. No mundo grego, Corinto era conhecida por duas coisas – luxo e beleza. Suas exportações mais importantes eram seus perfumes e vasos. Da mesma forma que Esparta lutou contra Atenas utilizando forças terrestres, no momento mesmo, Corinto era inimigo de Atenas sobre os mares. Nestas circunstâncias, temos um triângulo composto pelas principais cidades da Grécia antiga: Atenas, Esparta e Corinto.

“Diz-se que os Corintos foram os primeiros a alterar o design dos navios … e de ter construído as primeiras trirremes na Grécia … e Corinto … os Corintos com a sua cidade situada no istmo, estavam sempre envolvidos no comércio desde os primeiros tempos … … Corinto era poderosa através de afluência, como os antigos poetas confirmam ao chama-la ‘rica’.” Todas as citações são de Tucídides, A Guerra do Peloponeso 13. Trad. Lattimore

Estabilidade na região era uma questão de reunir esses três poderes. De muitas formas, isso é uma alusão à composição grega do ser humano individual – um ideal que era composto por uma pessoa de sabedoria, assim como uma pessoa que mostrava não só a força física, mas também mental.

E é sobre estas bases que uma pessoa culta tem o luxo de desenvolver as artes e de apreciar não apenas a beleza física, mas a beleza que acompanha as belas artes, a poesia, o teatro e a prosa. E é sobre estas bases que cultura civilizada humana social pode desenvolver e florescer.

Em nosso ritual, o Segundo Vigilante, que representa a característica humana de beleza é instruído durante a sua Instalação a usar eloquência persuasiva; é o Segundo Vigilante, como modelo da cultura cortês, que convida os visitantes da loja ao banquete após a reunião da loja; é o Segundo Vigilante, enquanto modelo de hospitalidade e de etiqueta social, quem propõe um brinde aos visitantes da loja durante o jantar; e é o Segundo Vigilante enquanto modelo de humor culto, quem injeta descontração no jantar.

Se esses indícios não foram suficientes, havia uma parte ainda mais poderosa das provas que sustenta a teoria.

Fizemos menção anteriormente, de passagem, à descendência cultural dos atenienses e espartanos. Os atenienses eram descendentes de uma raça conhecida como jônios, enquanto os espartanos eram descendentes de um grupo étnico distinto conhecido como o dórios.

Compreendendo isso, é simplesmente óbvio que deveríamos usar a Coluna Jônica para representar a Sabedoria (Atenas), a Coluna Dórica para representar a Força (Esparta) e a Coluna Coríntia para representar Beleza (Corinto).

Aquelas meias pretas com listras brancas foram encontradas novamente.

O Uso do Malhete

Nos protocolos para direção de uma loja, um Venerável Mestre tem ao seu lado um malhete. Este malhete é o símbolo da sua autoridade para governar a sua loja. Ele mantém o controle desse malhete em todos os momentos, exceto quando um oficial Instalador (de grau superior) comparece à sua loja e precisa sentar-se na cadeira do Venerável Mestre para conduzir uma parte da Cerimônia.

Neste caso, o procedimento é o seguinte: o Venerável Mestre entregará ao Instalador o seu malhete e usará palavras que indicam que este gesto cerimonial transfere a autoridade sobre a loja para o Oficial Instalador.

À primeira vista este aspecto da cerimônia pode parecer ser qualquer coisa, menos de origem grega antiga, mas na realidade é uma cerimônia que se parece com uma das primeiras peças da literatura ocidental – Odisseia de Homero:

“Peisenor, o arauto, past-master por experiência de conduta pública coloca nas mãos dele (Telêmaco) o malhete que lhe dava o direito de falar.”  Homero, A Odisseia, Livro II – Traduções de TE Lawrence (Lawrence da Arábia)

O Símbolo da Romã

Nas culturas onde a romã é cultivada, o fruto é usado frequentemente como um símbolo de abundância, exuberância e riqueza. Nosso ritual (quando se refere ao fruto) usa o mesmo simbolismo. Havia fileiras de romãzeiras que adornavam os capitéis dos pilares existentes ao longo do Templo de Salomão.

Conforme notamos, os autores do Ritual de Emulação era bem versados nas escrituras sagradas e na literatura grega e eram perfeitamente capazes de mesclar as duas. No caso em destaque, onde a romã aparece na mitologia grega, ela não aparece como um símbolo de abundância.

Ela aparece como um símbolo de morte, quase da mesma maneira que a “maçã” (ou mais exatamente – o fruto proibido) que Eva deu a Adão e que o trouxe para a humanidade – a mortalidade. No mito grego, o sentimento é idêntico apenas com um pequeno toque de inversão de papéis.

Quando Deméter (Deusa do Grão e da Fertilidade), mãe de Perséfone entendeu que sua filha tinha sido raptada por Hades, que era o Senhor do Submundo, ela ficou tão triste que como resultado o mundo entrou em fome devido à sua intensa angústia. Nenhuma plantação crescia e a humanidade começou a passar fome. Ela pediu a Zeus para organizar a libertação de sua filha do Submundo. Então ela (como Orfeu) desceu ao Submundo e encontrou sua filha, que ficou tomada de felicidade ao ver a mãe. Deméter disse a Perséfone que Zeus tinha concordado em libertá-la do Submundo, sob a condição de que ela não tivesse comido coisa alguma. Perséfone vacilou, mas acabou dizendo a ela que tinha. Perséfone explicou que Hades a tinha presenteado com uma romã quando quando ele a tinha levado pela primeira vez até o Submundo. Quando ela resistiu, ele pediu a ela que provasse só um pouco da fruta. Contra sua vontade, ela o fez. Deméter chorou. Ao ter comido a romã, Perséfone tinha comido do fruto do Submundo e, portanto, já não podia retomar a sua vida anterior ao seu sequestro.

Com frequência, a Maçonaria é definida como um sistema de moralidade velada em alegorias e ilustrado por símbolos. Para aqueles que ouviram e conduziram o Ritual Emulação a candidatos nos primeiros anos do século XIX, as palavras e rubricas eram ricas em sutilezas de alegoria e simbolismo gregos.

Esperamos que possamos ser capazes de restaurar a compreensão da riqueza, majestade e poesia de Ritual para os membros da Maçonaria que vivem no Século XXI.

O Cajado dos Diáconos

Para um novo membro da Ordem, uma das realidades mais estranhas do trabalho ritual é assistir à conduta dos Primeiro e do Segundo Diácono e seus movimentos rituais solenes levando em suas mãos direitas o cajado que parecem notavelmente semelhantes a tacos de bilhar. Essas varas cerimoniais são chamados pelo termo antigo “cajado”.

Estes “cajados” têm um pedigree muito antigo – de fato sua genealogia vem desde os cultos dos mistérios da Grécia antiga. Um dos cultos de mistério mais importante era conhecido como os mistérios de Elêusis. Esses mistérios parecem ter tido alguma relação com o mito de Deméter e Perséfone. Uma das coisas que unem os dois é que Elêusis era entendido como sendo o lugar onde Deméter se sentou e chorou diante do sequestro de sua filha por Hades.

O que sabemos é que neste culto de mistério, havia oficiais que carregavam consigo um cajado ritual que atendia pelo nome de um thyrsos. Este thyrsos é mais comumente associado ao deus Hermes.

Na mitologia grega, Hermes detinha a principal distinção de ser o mensageiro dos deuses. Ele era o canal de comunicação não apenas entre os deuses, mas também entre os deuses e a humanidade em geral. Em sua mão direita ele segurava o thyrsos. O thyrsos parece ter tido uma série de usos, inclusive ser usado como arma, como instrumento mágico e, sobretudo, um instrumento pelo qual as almas eram conduzidas por Hermes ao Submundo.

Os paralelos entre o mito de Hermes e o ritual maçônico são facilmente perceptíveis. O principal papel dos Primeiro e Segundo diáconos está na capacidade de serem mensageiros. O Primeiro Diácono é o mensageiro entre o Venerável Mestre e o Primeiro Vigilante, enquanto que o Segundo Diácono é o mensageiro entre o Primeiro e o Segundo Vigilante. Durante a Cerimônia de Iniciação, o Segundo Diácono conduz o candidato em trabalho ritual. Durante as Cerimônias de Elevação (Segundo Grau) e Exaltação (Terceiro Grau), o Primeiro Diácono conduz o Candidato em todo o trabalho ritual.

Existe uma última correspondência que é merecedora de nossa atenção. No Grau de Mestre Maçom de Marca, o nome que é dado para o emblema dos cajados dos Primeiro e Segundo Diáconos é conhecido como um “mercúrio”.

Esta é uma indicação muito reveladora de que estamos no caminho certo. Mercúrio era o nome dado ao deus romano cujo homólogo grego era conhecido como Hermes.

Continua…

Autor: Stephen Michalak
Grande Instrutor Adjunto – Grande Loja do Sul da Austrália e Território do Norte
Tradução: José Antonio de Souza Filardo
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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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