Ensaio Sobre as Origens dos Rituais e dos Graus Simbólicos – 5ª Parte

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Duas questões sobre o ritual. A palavra não aparece em nenhum dos estatutos e regulamentos das Grandes Lojas. Parece resultar daí a natureza dos “eventos” maçônicos descritos nos relatos fornecidos pelas “revelações”. Quanto à “coisa” ritual, isto é, à recitação das cerimônias, parece ter sido codificada no final do século XVIII, pelo menos na França.

A maior dificuldade encontrada no estudo dos rituais provém do fato que, até 1858, a sua impressão era proibida, e, portanto, todos eles são manuscritos, sem data e sem origem. A única edição impressa antes desta data foi a do Régulateur Maçon (1801) reproduzindo exatamente os rituais para o Rito Francês estabelecidos pelo Grande Oriente em 1782, mas que era desconhecida por este. A partir de 1800, uma série de “Thuileur”[13], que, do ponto de vista maçônico, era ilegal, apareceu sob a assinatura de maçons frequentemente proeminentes. Reconheçamos também que nenhum estudo “científico” da ritualística maçônica jamais foi realizado e que sua abordagem permanece delicada.

A abertura e fechamento da Loja só foram estabelecidos entre 1742 e 1760, e primeiramente na França. O Venerável Mestre da loja, e cujo título foi emprestado da Ordem dos Beneditinos, se fazia avisar pelos Vigilantes que ela iria ser aberta. Só ele estava coberto e retirava o chapéu na abertura, e, em seguida, o colocava de volta. Mas o “Trahi” de 1745 traz duas gravuras onde todos os assistentes estão cobertos. Então vinha a recitação do catecismo pelos oficiais. Em 1730, à pergunta “Sois maçom?”, o Vigilante respondia: “Me consideram como tal” seguido de “Onde se encontra o Primeiro Vigilante? Qual é o seu dever?”. E assim por diante, para cada um dos cargos. Os visitantes eram “telhados” (o termo parece já existir na época), duas vezes: antes de entrar e, em seguida, na Loja antes de ocupar o seu lugar. A presença de um profano, mesmo na sala dos passos perdidos, era relatada pela fórmula “chove”.

Na Inglaterra, no final do século, a reunião era interrompida por refrescos, anunciados por qualquer um dos vigilantes que deitava a coluneta no seu lugar, como já foi mencionado. O “trabalho” cessava, bebidas eram servidas, bem como, às vezes, a refeição. Em seguida, os “trabalhos” eram reiniciados com o erguimento da coluna. Não parece que naquele tempo a França conhecia este procedimento, substituído – pode-se dizer que com vantagens – pelas Lojas de Mesa e seu ritual particular. A partir de 1786, os trabalhos não tinham início sem que os Vigilantes tivessem pedido aos irmãos as palavras, sinais e toques. Também nesta data foi introduzida a leitura do traçado dos trabalhos anteriores e a adoção das observações do irmão Orador, um oficial que a Inglaterra ignora até hoje. O fechamento da Loja logo foi ritualizado como a abertura, porque numa se fazia a Cadeia de União – encontrada, pela primeira vez, em 1744 – e, na outra, se separavam sob o “Chant des apprentis”[14] que veio das Constituições de Anderson. Em 1760, “… no final de cada verso cantado, eles se juntavam as mãos cruzadas para formar uma cadeia, sacudindo-as para cima e para baixo, enquanto batiam com força a sola do pé no chão, o que causava surpresa para os de fora.”

Catecismo, benemerência e recepções eram a maior parte da atividade das Lojas. Mas, durante muito tempo, o banquete era ainda mais importante. Em 1750, foi instituída a leitura da história da Maçonaria, retomando um costume dos antigos operativos. A imaginação desenfreada e entusiasmada, ajudada pela proliferação anormal de Altos Graus, trazia alegria aos corações. Se formos admitir, a rigor, que o famoso discurso de Ramsay (1737) afirmando a influência dos cruzados sobre a origem da Ordem e sobre o desenvolvimento de seu simbolismo, tenha fornecido uma tese plausível para esta história (Émile Mâle demonstra a sua incontestável contribuição no domínio da arte), ficamos loucos diante de Deus instalando sua Loja pessoal, para si mesmo, antes mesmo de Adão constituir a dele para ser, sem dúvida, “o Centro da União”.

Ao contrário, o que não pode ser negado é a influência que as surpreendentes divagações dos Altos Graus do Escocismo em plena evolução tiveram no desenvolvimento da liturgia dos três graus simbólicos, em particular nas duas recepções – Aprendizes e Mestres – dois psicodramas que devem ser examinados em suas vicissitudes.

Em que os especulativos do século XVIII transformaram as recepções simples de Aprendiz das Lojas operativas e as também despojadas dos “Maçons Aceitos” do século XVII?

Damos a esta cerimônia o nome de Iniciação, mas ao longo de décadas ela tem servido como entrada ou recepção, não como iniciação. A palavra “iniciação” fez a sua aparição timidamente em 1801, no prefácio do “Régulateur Maçon” e apenas no caderno do Venerável, que reproduzia às escondidas do Grande Oriente e sob seu selo, os rituais do Rito Francês em sete graus e quatro ordens que ele havia estabelecido em 1786. Teria sido devido ao trabalho intitulado “Recherches sur les initiations anciennes et modernes” [15], publicado em 1781 pelo Irmão Jean Baptiste Claude Robin, membro da loja “Les Neuf Soeurs” do Oriente de Paris, e divulgado durante uma sessão memorável relatada por Dixemerie? Não se pode tomar ao pé da letra a frase “…os verdadeiros iniciados” encontrada em itálico (pág. 7 e 12) no texto de um panfleto anônimo publicado em Haia, em 1745, chamado “Le Tonneau jetté ou réflexions sur la prétendue découverte de l’Ordre des Francs-Maçons” [16] refutando a “l’Ordre des Francs-Maçons Trahi“, do abade Perau. Também é sintomático que a Convenção da Philalethes organizada em 1785-1787 pela Loja “Les Amis Réunis“, do Oriente de Paris, dedicada ao estudo da “ciência maçônica”, suas origens e seus objetivos, em nenhum momento tenha considerado uma pesquisa sobre as iniciações ou uma eventual reaproximação com os antigos “mistérios”. Só uma intervenção, feita pelo Irmão Westerholdt na sessão de 19 de abril de 1785, faz menção à sua “…alta antiguidade” e acrescenta: “… a Maçonaria, tendo uma analogia perfeita com as iniciações”. Mas este estímulo não trouxe nenhuma reação por parte de uma plateia composta pelos maçons mais proeminentes e os mais cultos de toda a Europa. De qualquer forma, a palavra “iniciação” só se tornou oficial, maçonicamente falando, em 1826 (Art. 217 da Constituição do Grande Oriente de França).

Quando houve “iniciação” no sentido iniciático do termo? O máximo que se pode ser sugerir é que foi ao longo da década de 1780, após tentativas de codificação de rituais, feitas em primeiro lugar pelo Grande Oriente da França, em 1786, e também pelas Convenções de Lyon, em 1778, e de Wilhemsbad, em 1782, para o Rito Escocês Retificado.

Certamente havia “iniciação” antes desta última data. Mas isso só afetou os círculos de Lyon, cujo misticismo declarado era expresso sob a forma maçônica. Desde 1767, Willermoz e seus seguidores dedicaram, através de um sincretismo que combinou os sistemas de Saint Martin e Martinès de Pasqually, a implantar estranhas cerimônias ao mesmo tempo religiosas e mágicas, destinadas a devolver ao homem decaído a sua pureza original. Uma carta enviada a João Batista Willermoz por seu irmão Pierre Jacques, datada de 1768 e preservada em Lyon pela coleção W. 5471, diz “… queremos iniciá-lo na a hora certa”, mostrando que havia “iniciação”. Elas não eram restritas só aos Altos Graus, reservados para uma elite cuidadosamente escolhida e, portanto, muito pequena. Um documento altamente secreto, acessível a poucos eleitos, “L’Instruction des Grands Profès[17] último grau do Regime Retificado de Lyon, de 1778, publicado recentemente em um trabalho de Antoine Faivre sobre a obra de Le Forestier, confirma este fato (Lyon – Coleção W. 5475). Este tipo de cerimônias, deixando de fora aquelas muito diferentes, referem-se aos três graus simbólicos. No entanto, a seriedade e o rigor próprios da execução da cerimônia de Iniciação dos Altos Graus – rigor tornado necessário por seu lado mágico – leva a se pensar que ela contribuiu para fortalecer e estabilizar a liturgia das recepções de Aprendiz, Companheiro e Mestre, destinadas mais tarde a se tornarem iniciações.

O aspecto esotérico do ensinamento ministrado nas oficinas de vocação superior, dedicadas à busca do desconhecido e do secretismo que isso envolvia, necessariamente levou à sacralização do ritual em todas as suas modalidades. Ocorreu insidiosamente, poderíamos dizer pouco a pouco, e, assim, instaura o caráter “iniciático” das recepções dos três graus simbólicos. Mas então surge a pergunta: que tipo de iniciação?

Não há nada que o homem tenha criado que não seja em resposta a uma necessidade profunda de seu consciente e, mais ainda, de seu inconsciente. A universalidade no tempo e no espaço dos impulsos que o movem, ilustra o conceito de arquétipos inerentes a toda a espécie. Parece que estes últimos se impõem às várias formas de vida animal. A repetição contínua de atitudes, gestos, torna-se uma linguagem que se transforma, sem que percebam, em códigos especiais para cada um deles. No ser humano, o surgimento da palavra ocorreu pelo controle da voz, e o pensamento que se seguiu levou-o a uma tomada de consciência do mundo e de seus inúmeros perigos; a reflexão analógica e as práticas mágicas que disso resultarão, farão com que se unam. A eficácia destas últimas repousava sobre uma execução rigorosa do seu gestual. Nascia a ritualística, com seus rituais de todos os tipos. Sob múltiplas formas, ela tem continuado a se desenvolver, tanto nas relações sociais quanto no que se refere às abordagens do mundo não-manifestado, substância do “sagrado”.

A morte e o desaparecimento que ela implica deverão aparecer como o maior perigo a que o homem poderia ser submetido, daí sua ansiedade, a recusa de aceitar, e a esperança de sobrevivência em um além diferente. Portanto, a morte era apenas uma passagem que leva a um renascimento neste mundo não manifestado, mas pressentido, e que era domínio do sagrado. Uma passagem, como a do nascimento à vida, da infância para a adolescência, desta última para a masculinidade pelo exercício da sexualidade, tudo sacralizado durante cerimônias rituais. Sendo o rito a única forma de acessar a estes diferentes níveis de ser, todas as civilizações, da mais primitiva à mais sofisticada, sabiam, e ainda sabem, que estas práticas são mantidas em segredo porque espera-se que tragam um poder considerável para aqueles que são seu objeto.

Continua…

Autor: André Dore
Tradução: S. K. Jerez

Notas

[13] – Telhador

[14] – Cântico dos aprendizes

[15] – Pesquisas sobre as iniciações antigas e modernas (N.T.)

[16] – O tonel entornado ou reflexões sobre a alegada descoberta da Ordem dos maçons (N.T.)

[17] – A Instrução dos Grande Professos

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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