A Origem da Alma – Capítulo 4 (1ª Parte)

Platão

Será abordada, neste capítulo, a metafísica de Platão[31]. Há intérpretes que consideram este o tema central do interesse platônico, até porque os diálogos posteriores à sua última viagem foram totalmente dedicados às questões da teoria do conhecimento bem como às questões do ser e do não-ser (CHAUÍ, p.219).

Para melhor compreender a metafísica platônica, deve-se buscar além dos seus diálogos escritos e remontar às suas “doutrinas-não-escritas”, expostas nas lições ministradas aos discípulos da Academia e compiladas sob o título Sobre o Bem (REALE, 1993, p.131).

As doutrinas-não-escritas de Platão foram proferidas somente na forma oral e delas temos notícias por meio dos testemunhos indiretos de seus discípulos. Em seus cursos Sobre o Bem, discorria sobre realidades últimas e supremas, ou seja, sobre os primeiros princípios, e estas realidades não podiam ser transmitidas senão mediante adequada preparação e rigorosas observações. O próprio Platão nos dá conta disso em sua Carta VII:

[…] O conhecimento dessas coisas não é de forma alguma transmissível como os outros conhecimentos, mas apenas após muitas discussões sobre tais coisas e após um período de vida em comum, quando, de modo imprevisto, como luz que se acende de simples fagulha, esse conhecimento nasce na alma e de si mesmo se alimenta. (grifo nosso)

E acrescenta:

Sobre estas coisas não há nenhum escrito meu, e nunca haverá. (PLATÃO apud Reale, 1993, p.135)

A Carta VII é, portanto, o testemunho de que Platão não deixaria nada por escrito sobre suas verdadeiras preocupações filosóficas:

Uma coisa posso afirmar com força, concernente a todos os que escreveram ou escreverão sobre o que é o objeto de minhas preocupações e que se declaram competentes sobre isso, seja porque ouviram falar de mim por outros, seja porque pretendem tê-lo descoberto por si mesmos: essa gente nada pode compreender sobre o assunto. Sobre isso {o objeto de minhas preocupações filosóficas}, não tenho nem terei jamais uma obra escrita” (PLATÃO apud Chauí, p.219). 

Em relação a não deixar nada por escrito “sobre estas coisas”, parece ter havido uma forte influência da disciplina pitagórica em seus ensinamentos. Pela forma como Platão admirava os pitagóricos e por estes terem sido essencialmente herméticos, nada escrevendo, Platão também não escreveria o que realmente pensava em termos metafísicos.

Os estudiosos Kirk, Raven e Schofield reconhecem que a metafísica de Platão está profundamente imbuída de ideias pitagóricas:[32] “O Fédon, por exemplo, recria eloquentemente uma autêntica mescla pitagórica de ensinamentos escatológicos sobre o destino da alma com uma prescrição ético-religiosa.” Confirmando esta opinião, os autores dizem que é feliz a sugestão do comentador Burnet ao afirmar que “o Fédon é, por assim dizer, dedicado à comunidade pitagórica de Fliunte”. Ainda, conforme os autores, “particularmente influente foi também a adesão às ideias numerológicas no Timeu, no Filebo e nas famosas, se bem que obscuras, “doutrinas não-escritas‟ ” (KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, p.224).

Ao realizar sua primeira viagem a Siracusa, na Magna Grécia, Platão, efetivamente, e conforme relatado na Carta VII, conheceu os jovens pitagóricos, ligando-se a eles por laços de amizade. Deu grande importância a seus ensinamentos referentes ao conceito de número, tanto que, anos mais tarde, ao fundar a Academia inscreveu em seu pórtico: “Aqui só entram os que amam a matemática” (CHAUÍ, p.212).

O ensinamento de Platão, assim como o dos pitagóricos, dividia-se em duas partes. Uma delas, traduzida em obras escritas, dirigia-se ao público em geral; a outra, não escrita, destinava-se exclusivamente à discussão e exposição internas, a portas fechadas. Mesmo que conhecêssemos a totalidade das obras escritas – ou exotéricas -, não conheceríamos a totalidade do pensamento platônico, pois suas obras esotéricas permaneceriam desconhecidas, destinadas apenas aos membros da Academia (CHAUÍ, p.212).

Assim, será feito um esforço para tentar compreender um pouco deste Platão metafísico, fortemente preocupado com questões cosmológicas e teológicas, levado a percorrer caminhos que tratavam, entre outras coisas, da imortalidade da alma.

Para Giovanni Reale, verifica-se que Platão começa a falar de imortalidade da alma quando começa a falar dos mitos órficos. E, será justamente a solicitação da visão órfica que levará Platão a empreender sua “segunda navegação”, vale dizer, a via que o levará a descobrir o mundo do supra-sensível (REALE, 1993, p.136).

Para melhor entender do que trata a “segunda navegação”, se faz necessário relembrar que a principal novidade da filosofia platônica consistiu na descoberta de uma realidade superior ao mundo sensível, ou seja, uma dimensão suprafísica (ou metafísica) do ser. Esta descoberta é ilustrada por Platão com a imagem marítima da “segunda navegação”[33]. A “segunda navegação” de Platão, nas palavras de Reale, “constitui uma conquista que assinala a fundação e a etapa mais importante da história da metafísica” (REALE, 1993, p.139).

Dada a magnitude da obra platônica e a profundidade de sua “navegação” metafísica, não será possível neste estudo apresentar nada que se assemelhe a uma análise completa do assunto. Será apresentada apenas uma síntese sobre a sua cosmologia, de forma a auxiliar o alcance de nosso escopo principal, que é o entendimento da alma segundo Platão e de que maneira o Orfismo e o Pitagorismo teriam, eventualmente, exercido alguma influência sobre este entendimento.

A Cosmologia platônica 

O plano supra-sensível do ser é constituído pelo mundo das Ideias[34] ou das Formas, e pelos Princípios primeiros do Uno e da Díade, dos quais Platão nos fala nas doutrinas-não-escritas. No vértice do mundo das Ideias encontra-se a Ideia do Bem, que coincide com o Uno das doutrinas-não-escritas. O Uno é o princípio do ser, da verdade e do valor. Todo o mundo inteligível deriva da cooperação do Princípio do Uno, que serve como limite, com o Princípio da Díade, entendido como indeterminação e ilimitação. No nível mais baixo do mundo inteligível encontram-se as entidades matemáticas, isto é, os números e as figuras matemáticas. Toda a realidade, em todos os níveis, consequentemente, apresenta uma estrutura bipolar, ou seja, deriva de uma “mistura”, uma mediação sintética do Uno e da Díade segundo a justa medida (REALE, 2004, p.137).

O Uno age sobre a multiplicidade ilimitada como princípio limitante e determinante, ou seja, como princípio formal (princípio que dá forma enquanto determina) ao passo que o princípio da multiplicidade ilimitada funciona como substrato, ou matéria inteligível. Por conseguinte, cada uma e todas as Ideias surgem como resultado de uma mistura dos dois princípios – inclusive o ser humano e sua alma.

Entende-se, portanto, que o mundo inteligível resulta da cooperação bipolar imediata dos dois Princípios supremos. O mundo sensível, entretanto, não é resultado direto desta cooperação: ele tem necessidade de um mediador, de um deus-artífice, nomeado por Platão de “Demiurgo”. Este cria o mundo animado através da “bondade”: toma como modelo as Ideias e plasma a khóra, isto é, o receptáculo material informe. O Demiurgo procura introduzir na realidade física os modelos do mundo ideal, em função das figuras geométricas e dos números. Os entes matemáticos são, portanto, os entes intermediários-mediadores que permitem à inteligência demiúrgica transformar o princípio caótico do sensível em kósmos, desdobrando matematicamente a unidade na multiplicidade em função dos números e, por conseguinte, produzindo ordem (REALE, 2004, p.137).

Deste modo, o mundo sensível aparece apenas como cópia do mundo inteligível. Enquanto o mundo inteligível é eterno, o mundo sensível existe apenas no tempo, que é a imagem móvel do eterno.

A nível originário, o princípio da Díade é o ápeiron, ou elemento infinito e indeterminado, que passa a ser determinado pelo Uno que o limita. No plano sensível, o princípio da Díade é a khóra, o princípio material caótico sobre o qual o Demiurgo age para produzir o mundo, transformando o caos em kósmos. É desta maneira que o Demiurgo cria o cosmos sensível, dotando-o de inteligência e alma. Permanecem na esfera dos intermediários – entre o sensível e o supra-sensível- os números, os entes geométricos e a alma. Estas realidades são intermediárias porque mantém, ao mesmo tempo, características do mundo ideal e relações com o mundo sensível (REALE, 2004, pgs. 141 a 145).

Assim, numa clara similaridade com a hierarquia do universo pitagórico, Platão concebe o complexo das Ideias como um sistema hierarquicamente organizado e ordenado, no qual as Ideias inferiores implicam as superiores, numa ascensão contínua até a Ideia que ocupa o vértice da hierarquia, Ideia que condiciona todas as outras e não é condicionada por nenhuma delas (o Incondicionado ou o Absoluto).

Como bem nos faz notar David Cooper (p.121), Platão não nos deixa a menor dúvida de que as Ideias têm seu próprio “grau de realidade” e não são, por conseguinte, meras construções psicológicas ou “ficções convenientes” utilizadas para ilustrar sua teoria. “Bondade e Beleza absolutas”, por exemplo, “existem no sentido mais pleno possível” (Fédon, 77). Como o conhecimento que temos delas precede o uso de nossos sentidos, as Ideias não podem ser, elas próprias, objetos de um tipo físico ou empírico. Em várias passagens Platão nos oferece “mitos” que recontam como, em sua existência pré-corporal, as almas passaram pelo mundo das Ideias, “uma realidade sem cor ou forma, intangível, mas extremamente real” (Fédon, 247).

Além disto, para Platão, as Ideias[35] não existem apenas “no sentido mais pleno possível” como também possuem um grau de realidade maior que o das coisas do mundo empírico. Entre as razões para isso, parece constar o fato de as Ideias serem eternas e imutáveis e estas características serem prova de uma maior realidade, já que o não-eterno estará sempre sujeito à corrupção e à alternância (COOPER, p.122).

É importante salientar que Platão não considera o mundo empírico uma mera ilusão, como às vezes lhe imputam. Em relação a seu reflexo na água, por exemplo, Narciso é real; entretanto, não o é em relação à Forma da Beleza, da qual ele é uma cópia, assim como seu reflexo é apenas uma cópia dele (COOPER, p.123). Tampouco Platão considera o mundo destituído de propósito e valor. É, na verdade, “a mais bela das criações”, uma cópia dos exemplares ideais, das Formas (Timeu, 29).

Para finalizar esta parte, deve-se salientar que, dentro do sistema apresentado, o Bem não é substância ou essência, mas firma-se acima da substância, transcendendo-a em dignidade hierárquica e em poder (REALE, 2004, p.142). O Bem é o ser uno e indizível, luz infinita, impensável e inalcançável pelo espírito comum, espalhando-se em emanações que formam o mundo, indo desde as formas puramente espirituais e imateriais até a matéria bruta, treva pura. Assim, a Forma do Bem comunica a todas as Formas existência e essência, mas ela própria está ainda além da essência (GOLDSCHMIDT, p.44).

Ainda de acordo com Goldschmidt (p.49), nenhum diálogo platônico tenta o conhecimento do Bem. Nenhum deles se aventura senão na medida de sua necessidade para conhecer uma determinada Forma particular. Logo, o Bem nunca é definido em todo o seu “brilho”, mas apenas suficientemente para terminar o estudo da Forma particular que constitui o objeto daquela pesquisa. O Bem ilumina toda a pesquisa dialética, sem ser visado, diretamente, por nenhuma. Sobre este princípio incondicionado e absoluto, Platão reservou o que tinha para dizer às suas exposições orais, ou seja, às lições que, como já mencionado, possuíam exatamente o título Sobre o Bem.

Continua…

Autora: Anna Maria Casoretti

Anna é Graduada em Filosofia, mestranda em Filosofia pela PUC, participante do Grupo de Pesquisa de Estudos Platônicos (PUC-SP/ Cnpq).

Fonte: Revista Pandora Brasil

Notas

[31] – Platão nasceu em 427 a.C e morreu em 347 a.C.

[32] – Também na opinião de Edson Bini, é bastante provável que durante sua juventude e até os 42 anos Platão tenha se enfronhado, muito especialmente, na filosofia da Escola itálica: as doutrinas pitagóricas (mormente a teoria do número – arithmos– e a doutrina da transmigração da alma – metempsükhosis -) exercerão marcante influência no desenvolvimento de seu próprio pensamento, influência essa visível mesmo na estruturação mais madura e mais tardia do platonismo original, como se pode depreender dos últimos diálogos, inclusive as Leis (comentários de Edson Bini, tradutor do Fédon da Ed. Edipro, 2008).

[33] – A “primeira navegação” era a entrega às forças físicas do vento e das velas do navio, e representa a filosofia dos Naturalistas que explicavam a realidade apenas com os elementos físicos e as forças físicas a eles ligadas. A “segunda navegação” entrava em jogo quando as forças físicas dos ventos não eram suficientes e o navio era entregue às forças humanas que impulsionariam o navio com os remos: para Platão, ela representa a filosofia que, com as forças da razão, se esforça para descobrir as verdadeiras causas da realidade, para além das causas físicas (Reale, 1993, p.137).

[34] – Uma tradução bastante precisa do termo Ideia seria “Forma”. De acordo com Giovanni Reale, nós, modernos, entendemos com o termo “ideia”, um conceito, um pensamento, uma representação mental, enquanto Platão, ao contrário, com “Ideia” entendia, em certo sentido, algo que constitui o objeto específico do pensamento, ou seja, aquilo a que o pensamento se dirige de modo puro, sem o que o pensamento não seria pensamento. Em resumo, a Ideia platônica não é realmente puro ente da razão, mas é um ser, aquele ser que existe de forma absoluta, o verdadeiro ser. Afirmar que as Ideias existem “em si e por si” significa que elas não são arrastadas pelo vórtice do devir que carrega todas as coisas sensíveis (Reale, 2004, p.139).

[35] – A Ideia ou Forma é a realidade imaterial, abstrata, universal, singular, imperceptível, perfeita, eterna, imperecível e imutável presente no mundo ou região inteligível; essa Forma é a matriz ou modelo original de todas as incontáveis cópias ou simulacros, que “são” as coisas materiais, concretas, particulares, múltiplas, perceptíveis, imperfeitas, dotadas de começo e fim, perecíveis e mutáveis que estão no mundo ou região sensível em que vivemos. Assim, as inumeráveis coisas que captamos pelos sentidos (dita “realidade” sensível) não passam de imagens ilusórias das realidades verdadeiras ou coisas que são. As coisas do mundo sensível só “existem” enquanto simulacros necessária e exclusivamente por participação e imitação das Formas. Esse dualismo é absoluto e sua aplicação é universal (é o chamado realismo das Ideias) (nota de Edson Bini, tradutor do Fédon, 2008, pg. 256).

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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