A Royal Society e a Grande Loja de Londres de 1717 – Parte I

Construtores (em francês: Maçons) existiram por toda a Europa desde a baixa Idade Média, desde quando os senhores precisaram construir seus castelos para defender suas comunidades contra  ataques e a Igreja impôs seu domínio construindo imensas catedrais nos locais de culto das populações conquistadas. E sendo homens especializados e raros, eles tinham trânsito livre e proteção para ir de obra em obra por anos a fio.

Já em 1149, as primeiras Zünftes alemãs, ou sindicatos de pedreiros, se desenvolveram em Magdeburg, Würzburg, Speyer e Straßburg. Em 1250, a primeira Grande Loja dos Maçons formou-se na cidade de Colônia (Köln), Alemanha. A Grande Loja foi formada como parte do imenso empreendimento para erguer a catedral de Colônia.

Durante a Idade Média a atividade floresceu até que se esgotaram os recursos para a construção de grandes obras.

Assim, no final do século XVI, na Escócia, William Schaw fundou uma Grande Loja de fato, visando organizar a atividade naquele reino. Com base em conhecimentos transmitidos oralmente, criou algumas regras para o exercício do ofício de construtor. Essa estrutura não tinha o nome de Grande Loja, mas na prática ela congregava diversas lojas escocesas que aceitaram as regras.

Durante o século XVII, essa estrutura evoluiu aceitando entre seus membros os chamados “cavalheiros maçons”, pessoas que não tinham relação com o ofício de construtor, mas que ofereciam proteção e prestígio às lojas existentes.

As lojas proliferaram por toda a Escócia, Irlanda e Inglaterra congregando “cavalheiros maçons” que tinham suas preferências políticas e apoiavam diferentes pretendentes ao trono inglês.

Com a evolução política e a sucessão, considerando as diferenças religiosas entre escoceses e ingleses, uma parte dessas lojas apoiava pretendentes católicos ao trono de uma Inglaterra protestante.

Nesse quadro se insere a conferência do Ir. Roberto Lomas sobre um desses “cavalheiros maçons” que teve influência fundamental na invenção da Maçonaria Especulativa como a conhecemos em nossos dias.

 SIR ROBERT MORAY – SOLDADO, CIENTISTA, ESPIÃO, MAÇOM E FUNDADOR DA ROYAL SOCIETY

Quando a ciência moderna nasceu

No século XVII, a Inglaterra sofreu uma guerra civil devastadora. Ela começou como uma discussão sobre a importância relativa dos Reis Stuart e seu Parlamento Inglês, e terminou com Carlos I tendo sua cabeça cortada. Durante este período turbulento, a magia morreu e a ciência começou.

De alguma forma, no meio das batalhas entre o Rei e o Parlamento, a ciência moderna, experimental surgiu. Um país, que queimara vivas pelo menos 100 mulheres idosas por ano por suspeita de que eles estavam causando doença, lançando “mau-olhado”, desenvolveu espontaneamente uma massa crítica de cientistas com discernimento e lógica.

Quando, como e por quê isso aconteceu?

O “quando” e “como” é fácil. Foi quarta-feira 28 de novembro de 1660, no Gresham College. Esta foi a primeira reunião da Royal Society, realizada após uma palestra pública nesse colégio.

O “por quê” é uma questão mais difícil. Velhas crenças em forças mágicas não morrem instantaneamente, nem mesmo entre os fundadores da Royal Society. Em 1657 quando o fundador Christopher Wren, deu sua aula inaugural como professor de Astronomia, aqui no Gresham, ele falou de como Londres era particularmente favorecida pelas “várias influências celestes dos diferentes planetas, como a sede das artes mecânicas e comércio, como bem como das ciências liberais”. Nenhum professor de Astronomia moderno faria uma afirmação tão astrológica hoje.

Como um jovem cientista, aprendi que uma das maiores honras que um membro da comunidade científica pode aspirar é tornar-se um Fellow da Royal Society (FRS). A Royal Society é a sociedade científica mais antiga e respeitada em todo o mundo, onde os nomes de seus primeiros membros vivem em meio aos índices de livros didáticos de física onde estudei. Nós, físicos, ainda aprendemos a Lei de Hooke, a Lei de Boyle, a construção de Huygen, as Leis de Newton, o teorema de Leibniz e o movimento browniano. E ainda olhamos com interesse para os trabalhos de cientistas menores, como Christopher Wren, John Evelyn, John Wilkins, Elias Ashmole, John Flamsteed e Edmund Halley.

Os homens que fundaram esta sociedade não eram apenas os primeiros cientistas, eles também foram os últimos feiticeiros. Ashmole pertencia a uma sociedade de Rosacruzes e era um astrólogo praticante; Newton estudou e escreveu sobre os conceitos Rosacruzes de alquimia; enquanto Hooke realizava experimentos mágicos envolvendo aranhas e chifres de unicórnio.

O que inspirou um grupo improvável de refugiados de ambos os lados da Guerra Civil a se reunir; formar a sociedade científica mais antiga e respeitada do mundo; e, em seguida, continuar a desenvolver as ferramentas da ciência moderna? Esta é a pergunta que me fez partir em uma busca para compreender como a Royal Society veio a ser formada. Eu queria saber onde esta estranha mistura de clérigos e políticos teve a ideia de proibir a discussão de religião e política nas suas reuniões. Em uma época dominada pela política e religião, parecia uma coisa estranha a fazer. Mas, quando olhei na sequência de eventos, o papel de um homem, Sir Robert Moray, se destacou. Ele não era muito um cientista, mas ele foi o primeiro fixador de taxa e um sobrevivente nato. Ele reuniu homens com dinheiro e homens com conhecimento, e os fez trabalhar juntos. Esta palestra é uma celebração de sua realização.

Com o retrospecto de uma educação científica, parece inevitável que a lógica da ciência deveria ter sucesso em banir mito e superstição. No início de 1660, no entanto, esse resultado não era tão certo. Foi apenas sorte que juntou tantos pais importantes da ciência moderna neste momento difícil e os inspirou a desenvolver uma nova lógica positiva? Ou foi um ato intencional por parte de alguém?

Apenas cinco meses após Charles II ter retornado ao trono da Inglaterra, este pequeno grupo de homens deu o pontapé inicial da ciência moderna.  Porque o método científico desenvolver-se a partir de uma comunidade que acreditava em magia é um evento improvável. Quando você adiciona à mistura que um número quase igual de membros fundadores da Royal Society tinha recentemente lutado em lados opostos da brutal Guerra Civil, tal encontro  fortuito de mentes não apenas parece improvável, mas impossível.

Na história das ideias geralmente há um caminho que pode ser seguido para trás, mostrando onde elas aparecem pela primeira vez, e como elas se desenvolvem. No entanto, se formos acreditar nas narrativas tradicionais da formação da Royal Society, o conceito de ciência experimental foi desenvolvido e completamente formado, independentemente, mas simultaneamente, em ambos os lados durante a Guerra Civil. Então, através de um interesse comum em palestras públicas, aconteceu de todos os membros dos dois grupos se reunirem para o chá no Gresham College em uma tarde enevoada de novembro. Este resto é história.

Os sobreviventes de uma guerra civil não parecem ser as pessoas mais propensas a iniciar um novo clube de ciências. Após a morte de Oliver Cromwell, o país cambaleava à beira de um novo conflito, até que a polêmica decisão foi tomada de convidar o Rei a retornar. Ele tinha, no entanto, que prometer se comportar. No entanto, neste ambiente caótico da Restauração, começou a Royal Society. E não era barato participar. Ela tinha uma taxa extremamente elevada de adesão e uma taxa de atualização semanal pesada a ser paga, tivesse você participado ou não das reuniões.

Durante a Guerra Civil, os filhos haviam lutado contra seus pais; irmãos tentaram matar uns aos outros, grandes propriedades foram expropriadas, um Rei tinha sido decapitado publicamente e príncipes reais haviam fugido para o exílio. Durante doze anos, o país tinha sido conduzido segundo o capricho pessoal por um ditador militar e só a ameaça imediata de uma nova guerra civil havia convencido o Parlamento a restaurar o Rei. No entanto, como um olho de calma no meio de tempestades furiosas, devemos aceitar que esses homens instruídos tenham se sentado tranquilamente a conversar sobre como desenvolver uma nova filosofia radical de ciência experimental. Apenas a visão perfeita em retrospectiva pode fazer isso parecer natural.

Os fundadores da Royal Society questionavam as premissas básicas da religião e da teologia. No entanto, eles conseguiram evitar lutar contra os fanáticos radicais que estavam forçando os seus pontos de vista sobre todos os outros. Tendo evitado com sucesso as atenções dos Covenanters, dos Levellers, dos Fifth Monarchists, dos Papistas e dos seguidores do Livro de Oração Comum, eles pareceram livres para investigar assuntos heréticos, como a praticidade da bruxaria, e ninguém os desafiou.

Eles pareceram evitar os problemas de fé, aceitando a visão da Igreja sobre Deus e a alma, mas questionando tudo o mais. Mas, se eles estivessem desenvolvendo tais questionamentos durante o tempo de Matthew Hopkins, (que como Descobridor Geral de Bruxas em 1647 executou 200 mulheres idosas pela prática de bruxaria) eles devem ter mantido o silêncio sobre eles ou eles também teriam sido perseguidos. No entanto, para que estas ideias aparecessem 23 anos mais tarde, totalmente formadas, sugere-se que elas devem ter existido por um tempo considerável. Por volta de 1660, os membros da Royal Society não estavam dando nenhuma credibilidade à bruxaria e estavam rindo publicamente de “milagres papistas”, como prova de superstição.

Por que ninguém percebeu essas ideias se desenvolvendo? Por que dentro das primeiras semanas da Restauração, a ciência de repente se libertou do dogma sufocante da crença religiosa e da superstição repressivo da magia, em um caminho sem volta?

A mudança pode ser atribuída diretamente a esses homens que se reuniram em Gresham e criaram uma sociedade para estudar os mecanismos da natureza. Foi um movimento inspirador proibir a discussão de religião e política em suas reuniões pois isso fez com que eles não se distraíssem com dogmas. Deste grupo cresceu a ciência experimental moderna.

Parece bastante simples. Um número de cavalheiros se encontrou por acaso quando frequentavam regularmente as palestras públicas de Gresham, em Londres. Eles gostavam tanto de falar sobre a ciência que montaram uma sociedade científica para se divertir. Eles não estavam com falta de dinheiro, assim eles fixaram uma taxa de adesão de dez xelins e uma contribuição de um xelim por semana para pagar por sua diversão (isto equivaleria a cerca de 500 libras (R$ 1.860) para aderir e uma taxa contínua de cinquenta libras (R$ 186) por semana em termos de hoje).

Mas, quem eram exatamente esses homens que fundaram a Royal Society? Bem, seu fator comum mais importante é que todos eles eram participantes regulares das palestras públicas no Gresham, algo que eles compartilham conosco esta noite. Então, comentarei sobre cada um deles, começando com o homem que assumiu a presidência na primeira reunião da Royal Society, John Wilkins.

Continua…

Autor: Dr. Robert Lomas

Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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