A Serpente e o Pecado – 2ª Parte

Como a hidra da mitologia grega, dotada de várias cabeças de serpente, que voltavam a crescer caso fossem cortadas, o que a história vem testemunhando é o aparecimento de várias ramificações de interpretação dos acontecimentos na saga do Povo de Deuse as especulações para se descobrir sua “verdadeira mensagem”, gerando profetas e videntes do fim dos tempos,os quais, com leituras seletivas de textos religiosos, levam a interpretações tendenciosas e, às vezes, prejudiciais, com o uso abusivo de alguns pregadores do “isso não pode, é errado”, “Deus me revelou assim…”, “isso é pecado”, “eu tenho as respostas, portanto, sigam-me!”, “nossa religião é do bem, as demais são do mal”.  Muitos desses líderes focados nos bens terrenos e projetos sectários atuam como agentes comerciais da misericórdia divina e manipulam a ignorância e a miséria analfabeta de pobres incautos. Outros povos eliminam os que se opõem ou pensam de forma diferente, usando a violência como método de ação e punição em confrontos religiosos, fazendo de Deus uma divindade implacável.

No que se refere à nossa Ordem, por uma questão de desconhecimento de seus fundamentos, mesmo a filiação à maçonaria é vista por muitos como um pecado. Porém, e isso não é segredo, caso o iniciado sinta em algum momento que não tomou a decisão correta, vislumbrando na filosofia maçônica alguma contradição com a mensagem Cristã, ou com outros valores que defenda, existe sempre a possibilidade de seu desligamento, sem nenhum custo adicional e, conforme pregação de alguns religiosos, basta sair e pedir perdão a Deus, renunciando aos juramentos feitos como maçom. “Se reconhecemos os nossos pecados, Deus, que é fiel e justo, perdoará os nossos pecados e nos purificará de toda injustiça.” (1Jo 1,9).

Refletir se um caminho é bom ou não, desistir de um e seguir outro, por ver um sonho frustrado, pode ser aplicado a qualquer situação de nossas vidas. Jesus disse: “arrependei-vos porque está próximo o reino dos céus”. Segundo Cury (2004), “a palavra ‘arrepender’ usada por Jesus explorava uma importante função da inteligência. Ela não significava culpa, autopunição ou lamentação. No grego ela significa uma mudança de rota, revisão da vida. Queria que as pessoas repensassem seus caminhos, revisassem seus conceitos, retirassem o gesso das mentes. Os que são incapazes de se repensar serão sempre vítimas e não autores de sua história”.

No sentido coletivo, com o acúmulo dos pecados individuais, foi introduzida nos últimos tempos a figura do Pecado Social, considerado aquele representado pelas injustiças perpetradas contra os direitos dos pobres e indefesos, envolvendo questões do uso das riquezas e do poder, muito mais significativo do que apenas aquele vícios pessoais (Doutrina, 117-118).

No contexto das relações diárias encontramos os Pecados de Estimação, considerados as serpentes de criação, e entendidos como aqueles com os quais convivemos como se fossem um hábito qualquer, parecendo coisas simples aos nossos olhos, não nos incomodando e às vezes gerando certo prazer, como um vício. Dentre eles destacam-se aquele hábito de contar uma mentirinha, somente para marcar presença e atrair atenção;fazer uma fofoca, mesmo que leve; repassar uma anedota apimentada; ler e/ou repassar mensagens de cunho pornográfico;comprar produtos piratas; parar em fila dupla e bloquear o trânsito somente para resolver um probleminha pessoal; não cumprir o prometido ou fingir esquecimento; chegar atrasado a um compromisso sem justa motivação;alimentar pensamentos eróticos por uma pessoa que desperte atenção por alguma particularidade; dirigir após ingestão de bebida alcoólica;resmungar ou praguejar quando alguma situação desagrada; adotar atitude grosseira com as pessoas; jogar lixo na rua, viver e divertir-se somente à custa de amigos; submeter-se cegamente a um partido ou corrente política;enfim, dar vazão à  hipocrisia e atitudes egoístas e outros tantos desnecessários de relatar e que ocupariam ainda muitas linhas e que por aqui encerramos para não resvalar nos atos desonestos, tramoias e negociatas fruto da ganância que frequentam as colunas politicas e policiais, que se classificam na categoria de crimes.

A sabedoria está nas palavras de Paulo, compreendendo que o significado do discipulado de Cristo é viver a dimensão da fé, quando escreveu: “Posso fazer tudo o que quero. Sim, mas nem tudo me convém. Posso fazer tudo o que quero, mas não deixarei que nada me escravize” (1Cor 6,12). E o vício, definido como “um hábito [pecado] repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem”, pode ser identificado em outra passagem do Evangelho de João 8,34:“Jesus respondeu: Eu garanto a vocês: quem comete o pecado é escravo do pecado” e, portanto, escravo da serpente.

Na medida em que esses pecados se repetem, geram-se vícios, que “são hábitos perversos que obscurecem a consciência e inclinam ao mal”. Os vícios podem estar ligados aos chamados sete pecados capitais: soberba, avareza, luxúria ou impureza, inveja, gula, ira e preguiça ou acídia. A Igreja ensina também que temos responsabilidade nos pecados cometidos por outros, quando culpavelmente neles cooperamos (Catecismo, 397-398).

Os sete pecados foram formalizados no século VI, quando o papa Gregório Magno, tomando por base as Epístolas de São Paulo, definiu como sendo sete os principais vícios de conduta. A lista só se tornou “oficial” na Igreja Católica no século XIII, com a Suma Teológica, documento publicado pelo teólogo são Tomás de Aquino (1227-1274). Outras religiões, como o judaísmo e o protestantismo, também têm o conceito de pecado em suas doutrinas, mas os sete pecados capitais são exclusivos do catolicismo.

A Igreja ofereceu soluções para os pecados capitais, criando uma lista de sete virtudes fundamentais ou virtudes opostas, que serviriam como antídotos para aqueles vícios, ou seja, a humildade (para combate à soberba), a generosidade (avareza), a castidade (luxúria), a caridade (inveja),a temperança (gula), a paciência (ira) e a disciplina (preguiça), mas os pecados acabaram ganhando mais destaque, pois bem sabemos que notícia boa não repercute.Ou como dizem os entendidos, “o que seria da virtude sem o pecado?”. O que dizer ainda do ócio criativo, título de um texto do cientista e sociólogo italiano Domenico De Masi. E a preguiça contemplativa que nos é tão cara?

Voltando ao leito do rio, acrescentem-se também as virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e as humanas (prudência, justiça, fortaleza e temperança), conforme esclarecido no Compêndio do Catecismo da Igreja Católica(378 a 389). As virtudes humanas foram denominadas de cardeais por Platão, no seu livro “A República”, escrito por volta de 380 a.C, quando se referia às qualidades que uma cidade deveria possuir e depois as estendeu à conduta humana.

Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Londrina, publicou no portal da CNBB (Comissões Episcopais – Vida e Família), em 09.12.2009, um artigo denominado “Os Sete Pecados Capitais Globalizados”, que transcrevemos:

  • (1) O orgulho, que é a soberba, ostentação, vanglória, presunção. A globalização do orgulho está no mau uso do poder, nas atitudes de dominação, de intolerância, de discriminação, de prepotência. É a onipotência da economia intencional, cujo rosto mais concreto é a exclusão, a miséria e a superprodução para uma minoria. Hoje o orgulho tem seu rosto mais visível nas guerras e na violência;
  • (2) A avareza, que é a ganância do ter, a ambição. A globalização da avareza é o jogo do mercado, o consumismo mundial com a depredação do meio-ambiente, as manobras dos países ricos, mais a corrupção. A concentração da renda, a competição, o lucro são formas globalizadas da avareza;
  • (3) A gula. Sua globalização se expressa no consumismo e no desperdício. O narcotráfico, o alcoolismo, são também expressões globalizadas da gula ao lado da miséria galopante e das novas pobrezas que surgem. As multinacionais e o mercado se encarregam de globalizar a gula, impondo necessidades desnecessárias e aguçando o desejo do consumo;
  • (4) A luxúria, ou seja, a permissividade, o hedonismo, a exasperação do prazer, a aids, a pornografia agora na internet, a pedofilia, o turismo sexual, a prostituição, agora estão globalizados, endeusados, liberados e mesmo assim a humanidade não alcançou a felicidade esperada;
  • (5) A Ira. Sua globalização é a violência e agressividade, especialmente o terrorismo e as guerras. Ira hoje é “cultura da morte”, violência urbana, armas nucleares. Há no mundo uma multidão de refugiados, prófugos, órfãos, viúvas, encarcerados políticos. São 150 milhões os migrantes das guerras no mundo;
  • (6) A inveja. Uma vez globalizada se manifesta na concorrência, na competição e nos lobbys, na formação de cartéis, nas empresas multinacionais, na fome de sucesso, no exibicionismo, no supérfluo, nas rivalidades, nas calúnias, difamações. Inveja é infelicidade diante da felicidade do outro, ou, felicidade pela infelicidade alheia;
  • (7) A preguiça. Sua globalização está na apatia, na acomodação, na mediocridade, na facilidade. No túmulo de Gandhi estão escritos os sete pecados sociais da humanidade moderna: “política sem princípios; riqueza sem trabalho; prazer sem consciência; conhecimento sem caráter; economia sem ética, ciência sem humanidade; religião sem sacrifício”.

Conclui, afirmando que “A superação dos vícios capitais globalizados acontecerá pela força da educação e da evangelização, até que seja globalizada a solidariedade”.

Na conjuntura surreal que hoje se nos apresenta podemos até medir a evolução de alguns pecados. Por exemplo, a roubalheira (também conhecida como cachorrada, ladroagem, safadeza, canalhice, tramoia, maracutaia, negociata, etc.), por muitos aceitos como normal, como uma “esperteza” é tida apenas um “pecado velado” na vida empresarial e política virou prática corrente, com prejuízos para todos, e agora caso de polícia e rotina nas manchetes jornalísticas. Partidos e coalizões políticas se revelaram grandes ninhos de serpentes peçonhentas. Nunca antes da história do nosso país, a mentira desmoralizada de tão explícita e natural na boca dos cínicos que as proferem de forma tão deslavada parece até verdade.A nossa sensação é de que algo está errado com a nossa vida espiritual e vários sentimentos evocam essa situação, como a raiva, a indignação.É sabido que a consciência sobre o pecado nos mostra onde estão nossos problemas ou onde eles se concentram e abrem nossa mente para o encaminhamento de soluções e não de mais desculpas para justificar os erros.

No que se refere em especial à mentira temos observado que em nosso país ela ganha contornos de profissionalismo, levando empresários, políticos e governantes a contratarem especialistas em marketing de manipulação para auxiliarem nos processos que demandem necessidade defensiva de mentir insistente e continuadamente, no sentido de negar, de alegar não saber, de fazer falsas promessas, de difamar, desqualificar opositores, de esconder uma realidade comprometedora e imoral, para ludibriar e iludir a opinião pública, criando, enfim, um teatro enganoso e malicioso. Tudo isso a um custo que é suprido com recursos oriundos dos cofres públicos e desviado de sua finalidade legal por meio de mãos fraudulentas. Recomendo uma leitura do artigo “A Bem da Verdade”[1], de nossa autoria e postado no Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.

Como essa situação caracteriza a cultura de nossa sociedade, e se agiganta a cada dia, não restam dúvidas de que pagamos um alto preço (castigo) em termos de menor grau de desenvolvimento e qualidade de vida quando comparados às nações ditas desenvolvidas.A condescendência com esses pecados criou a nossa “jabuticaba” (somente existe no Brasil) resultante na cultura do “jeitinho brasileiro”, da “lei de Gerson”, fazendo do nosso povo uma sociedade desqualificada e corrupta aos olhos do mundo.A corrupção de fato é um mal que se manifesta em pequenas atitudes, curável e reversível nos primeiros sintomas, porém fatal em estágios mais avançados. Estudos demonstram que o avanço cultural, econômico e social de muitos povos se deve ao menor grau de incidência desse e de outros pecados.

Curiosamente, o Brasil é o maior país cristão do mundo e, por outro lado, é considerado o mais corrupto, ensejando rápida conclusão de que não praticamos a fé e os valores atinentes à nossa fé, o que demonstra uma grande contradição.

Nesse contexto, para que haja uma mudança consistente e o nosso país corrija seu rumo é necessário que mudemos nossas atitudes. O rigor com o cumprimento das leis começa com a mudança em cada um de nós. Os políticos e empresários que hoje criticamos e contra os quais esbravejamos são o reflexo de nossa sociedade. Afinal, se chegamos onde estamos é por causa do pecado. Se continuarmos como estamos estaremos apenas palmilhando o caminho para o inferno, que dizem ser um caminho espaçoso é muito fácil viajar por ele, bastando apenas deixar do jeito que as coisas estão acontecendo.

Assim, já que segundo Sartre “estamos condenados a ser livres” e “o inferno são os outros”, não podemos incorrer no “dilema do prisioneiro” (Albert W. Tucke),cabendo-nos agir logo,à frente do inimigo, e confessarmos os nossos pecados, aproveitando o ensejo da confissão premiada e cumprindo, quem sabe, uma curta temporada na Gehenna, antes que o Anjo Vingador nos sentencie ao Vale dos Condenados, o Sheol, onde a Serpente reina triunfante.

Pensando nisso, o Papa Francisco decidiu recentemente enviar, por conta do Jubileu do Vaticano, mais de mil Missionários da Misericórdia, também chamados “Superconfessores”, em missão global de perdão a pecados graves, proporcionando aos católicos que estão afastados da fé a oportunidade de retornar ao Rebanho do Senhor. Por oportuno, conforme ensina Pierre Hadot (2016), “É muito bom se confessar pecador, mas seria melhor ainda pensar no mal feito aos outros pelo próprio pecado”.

Por fim, para um rápido tour pelo Sheol, recomendamos o vídeo disponível no YouTube:“Salve-se quem puder”, do rapper Dexter.

“Pedir a graça de pisar a cabeça da serpente…..de todas as víboras que insistem e persistem em nossa vida”. (Dom Darci Nicioli – Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Aparecida)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Nota

[1] – Para ler o artigo A Bem da Verdade, clique AQUI

Bibliografia

Archanjo, José Luiz. Teilhard de Chardin.Vida e Pensamentos. Ed. Martin Claret. São Paulo, 1997;

Biblia Sagrada.Edição Pastoral: Paulus. São Paulo, 1990;

Bíblia de Estudo Mattew Henry, Editora Central Gospel. Rio de Janeiro, 2014;

Baker, Mark W. Jesus, O maior psicólogo que já existiu. Sextante. Rio de Janeiro,2009;

CNBB Portal: Comissões Episcopais -Vida e Família

http://www.cnbb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=579:os-sete-pecados-capitais-globalizados&catid=196&Itemid=179

Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, Edições Loyola, São Paulo, 2005.

(Download em http://www.catequisar.com.br/dw/compendio.pdf)

Compêndio da Doutrina Social da Igreja, LibreriaEditriceVaticana,2004.

(Download em http://www.veritatis.com.br/ebooks/cdsi.pdf)

Coelho, Sacha Calmon Navarro. Breve história do mal.Ed. Luminis, BH, 2013.

Cury, Augusto. Nunca desista de seus sonhos. Sextante. Rio de Janeiro, 2004.

Gibbon, Edward. Os Cristãos e a queda de Roma. PenguinClassics Companhia das Letras. São Paulo, 2012.

Hadot, Pierre. A filosofia como maneira de viver: entrevista de JeannieCarlier e Arnold I. Davidson. É Realizações, 2016;

Karnal, Leandro. Pecar e perdoar: Deus e o homem na história. HarperCollins Brasil. Rio de Janeiro, 2014;

Pires, J. Herculano. Agonia das Religiões. Editora Paideia. São Paulo , 10ª ed, 2009;

Revista Mundo Estranho: Qual a origem dos sete pecados capitais, em: http://mundoestranho.abril.com.br/religiao/pergunta_287783.shtml

Sites religiosos na Internet.

 

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
Esse post foi publicado em Filosofia e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.