Arte, Símbolo e Mito nas Culturas Tradicionais

Para um homem tradicional ou arcaico tudo é sagrado, e o universo, um jogo perene de relações misteriosas e simbólicas, possuidoras em si mesmas de significados evidentes. Vive num assombro perpétuo e, por sua vez, está perfeitamente integrado a seu ambiente e participa constantemente dos eflúvios do céu e da terra. É nesse momento um mediador e como tal encontra seu lugar no mundo, correspondente com sua verticalidade. Deve portanto reproduzir estes mistérios à imitação do grande gesto criador de um construtor original, fecundando a possibilidade de uma cultura. Deste modo, a natureza e todo o manifestado, especialmente os animais, participam dessa mediação, pois são símbolos de outros mundos secretos dos quais este é só um reflexo.

A analogia estabelece leis de correspondência entre o macro e o microcosmo, entre o universo e o homem, o visível e o invisível, o aparente e o real, o passageiro e o eterno, o natural e o sobrenatural, duas faces de uma mesma moeda, que os povos primitivos e/ou arcaicos não distinguem de modo limitado, ou excessivamente diferenciado. O símbolo é o revelador destas correspondências e igualmente o veículo capaz de religá-las; o símbolo, portanto, está fundamentado nas leis da analogia, e nas correspondências naturais entre a totalidade dos seres, fenômenos, e coisas; simpatias e repulsas que todos os povos conheceram; energias que se agrupam em conjuntos que, por sua vez, relacionam-se com outros, e estes com terceiros de maneira indefinida, formando cadeias e gerando códigos simbólicos que obedecem este mesmo tipo de estruturas (tal qual a mitologia de todos os povos), e que conformam sua própria cosmovisão derivada de uma Cosmogonia Perene, de um modelo universal, válido para qualquer tempo e lugar.

Isto é assim, embora adote formas adequadas a diversas circunstâncias e lugares, conforme pode constatá-lo qualquer investigador que se ocupe da simbólica, ou aquele estudioso da antropologia ou da sociologia, já que esta possibilidade de gerar códigos simbólicos (que abrangem a totalidade do ser de uma sociedade tradicional) é inerente ao próprio homem, posto que este é um universo em miniatura e, como tal, tem a possibilidade de recriar as leis cósmicas, gerando desse modo as culturas particulares dos inumeráveis povos.

Mas um autêntico símbolo não é só um mero signo capaz de ser o intermediário entre uma imagem e um conceito a nível psicológico, sociológico ou horizontal, mas sim a realidade manifestada de um processo vertical no qual ele constitui per se o significado e o significante, já que é revelador na escala humana dos segredos de uma Superestrutura, sempre presente, imagem da Mente Divina, a que ordena permanentemente relações e analogias que dão lugar ao mundo do perceptível pelos sentidos, e às leis e mecanismos mentais dos humanos, sinalizados estes por uma dualidade que devem transcender.

Esta necessidade de neutralizar opostos para conhecer a ordem cósmica, ou modelo universal, e se inserir conscientemente nele, obtém-se pois a partir do símbolo que, ao conjugar em seu corpo de maneira unitária a expressão conhecida com a origem desconhecida, manifestada por ele, e ao mesmo tempo a emanação da imanifestação que lhe deu sua própria forma, sua identidade, concretiza toda a possibilidade de Conhecimento, ou seja, de ser, e se constitui assim no elemento imprescindível para sintetizar qualquer realidade ou verdade, começando com a necessidade de sua mediação, permanentemente capaz de revelar o supranatural pelo desenvolvimento de todas as potencialidades da natureza.

Estas últimas não são mais que fatores do supra-humano no ser particular, a afirmação de uma negação, melhor, uma negação afirmada. Por outro lado, não se deve esquecer que os símbolos, como os mitos, não devem ser considerados de maneira individual, mas sim em relação com outros símbolos e mitos com os quais se vinculam, formando conjuntos, ou estruturas, que por um lado são arquetípicas, ou seja: inamovíveis, e simultaneamente móveis, como suas projeções no espaço-tempo, e sua adequação a distintas geografias e circunstâncias históricas.

A cultura é um jogo de símbolos, uma simbólica da qual participa não só o corpo social, ou individual, mas também constitui, além disso, a origem do pensamento, das estruturas e das imagens dos processos mentais da tribo, ou da pessoa. Portanto, toda cultura histórica é necessariamente “mítica” em suas origens, ou seja, atemporal, quando não terá gerado seus protótipos simbólicos e ainda o próprio mito não terá fixado de maneira exemplar os parâmetros culturais derivados de sua potência, e extraídos do Conhecimento de uma Cosmogonia revelada pelos símbolos universais, aos quais se tratam de interpretar e traduzir a uma linguagem que se adapte às necessidades, imagens, e vivência de um povo ou indivíduo.

Também devemos ter em conta o caráter iniciático do símbolo e do mito, tendo estes como transmissores do Conhecimento, de seus poderes transformadores e generativos, de suas realidades metafísica e mágica (ou seja, atuante) e, portanto, da veneração popular que sempre os acompanha ou, pelo menos, que os acompanhou.

O rito é o mito em ação e os elementos que utiliza são simbólicos, sejam sonoros, visuais ou gestuais. O rito dramatiza o mito através dos símbolos. Há pois uma unidade entre símbolo, mito e rito, como já manifestamos em outras oportunidades. O gesto, a palavra e a forma atualizam os mitos permitindo sua encarnação. Para os povos tradicionais, estas três expressões do homem efetivavam permanentemente o mundo, regenerando-o, permitindo seu normal desenvolvimento, graças a sua reiteração.

Uma das diferenças entre uma sociedade sagrada e outra profana é que tanto os símbolos, quanto os ritos e os mitos, desapareceram virtualmente destas últimas, ou se lhes ignora ou, o que é até pior, tergiversou-se seu significado, adulterando–o, confundindo–o com a alegoria, com o emblema, e também com a mera convenção; no caso particular dos mitos, terei que adicionar que o coletivo oficialista os qualifica como ficções, quando não de mentiras, o que é paradoxal ao se pensar que os mitos expressam para as culturas tradicionais toda a verdade e constituem a realidade. Terei que adicionar que o dom da profecia, ou da visão, bem conhecido por todas as sociedades “primitivas” em geral, é tomado em nossos dias como pura lábia, ou ao menos como algo de teor muito duvidoso.

Permita-nos insistir: nas sociedades tradicionais, como foi por exemplo a civilização maia, tudo é simbólico. A vida é um rito perene que se verifica em todos os labores cotidianos e de maneira constante. Qualquer ação e até qualquer pensamento estão assinalados pela presença do significativo, do mágico, do transcendente, já que tudo acontece em distintos planos da realidade e por isso também no mundo do oculto, do invisível.

As artes, ou o que nós hoje chamamos artes, são para estes povos gestos naturais que repetem e recriam vez por outra o cosmo através de símbolos precisos, efetuados de maneira ritual, que foram concebidos, ou melhor, revelados com esse fim aos homens por inspiração legada a seus ancestrais, para organizar sua vida de acordo com a vontade divina. O criador de todas essas estruturas culturais, que fazem tão somente imitar as coisas do céu, é o executor da obra, o homem verdadeiro, o chefe, aquele que produz ou governa com arte. Como se vê, esta forma de encarar os fatos é diametralmente oposta ao que nós, os contemporâneos, acostumamo-nos atribuir com relação ao criador e à arte.

O artesão tradicional repete na forma ritual as ideias de sua cosmovisão que são perfeitamente claras para ele, modela-as, quer dizer, gera-as, reiterando com isto o gesto criacionístico primigênio do Ser Universal. Neste sentido, é um indivíduo que extrai coisas de um nada e sua função se assemelha com a sacerdotal e xamânica. O xamã é neste caso também um artista, e a dramatização das energias cósmicas, um modo extático de conhecimento. A arte é uma forma do rito e, por sua vez, necessariamente, todo rito autêntico, quer dizer sacralizado, está feito com arte, ou melhor, é uma expressão artística, face aos preconceitos que às vezes nos impedem de vê-lo, mercê à “propriedade” de nossos gostos, fobias e manias, ou seja, de todas aquelas coisas relativas com as quais nos identificamos.

Isto que é válido para as cerimônias tradicionais e para a arquitetura e para as artes plásticas, também o é para tudo no que se refere à palavra, portadora do ensino e da Tradição. Por outro lado, a palavra é mágica pois manifesta uma energia milagrosa que produz simultaneamente o som e a audição. Não só na civilização maia, conforme o testemunham o Popol Vuh e outros textos sacros da área, mas também em numerosos povos pré-colombianos em correspondência com os do Velho Mundo, está presente a ideia da geração mediante o verbo, o que dá sentido precisamente à transmissão oral do conhecimento e à narração dos mitos. Mas fundamentalmente o que afirmamos da arte é vigente para o conjunto de sua cultura e de seu cotidiano, começando por seu conhecimento metafísico e cosmogônico que se traduz em seus mitos e símbolos que, como já o afirmamos, são os que inspiram e regulam seu ser no mundo.

Vemos então que o mito é o paradigma cultural e que o rito ou arte da atividade diária –que por certo não exclui tampouco ao pensamento– e as cerimônias mágico-religiosas se encarregam de regenerá-lo constantemente, mantendo dessa maneira incólumes as energias que ele representa, garantindo assim a estabilidade do universo e, portanto, o ser e as possibilidades de existência do social e individual.

Embora há autores como Mircea Eliade que distinguem entre mitos de origem individual, de um ser, fenômeno ou coisa (por exemplo: o de uma planta ou de um animal) e os relativos ao Universo, ambas as categorias são, entretanto, em última instância cosmogônicas, posto que qualquer geração particular depende e está intimamente ligada à manifestação do conjunto (ver também aqui capítulo II: A Iniciação); o mesmo vale para os ritos chamados “sociais” e os “xamânicos”. Desta forma, os ritos da vida cotidiana, expressão de uma cultura viva em todas as ordens, não só tocam o metafísico e o ontológico como possibilidade cósmica, mas também igualmente abrangem o social, o econômico e inclusive qualquer instituição ou forma menor, que estão baseadas e sempre se referem à estrutura arquetípica do mito.

Os ritos não são pois exclusivamente cerimônias mágico-religiosas, mas sim a soma, ou melhor, o conjunto das expressões de uma cultura (em qualquer campo), fundamentadas no conhecimento do real manifestado de modo simbólico-mítico. A arte é o melhor exemplo de dita asserção e essa é a função ritual que sempre possuiu: a de fixar a Tradição em seu aspecto mais profundo, expressando, recriando as origens (daí sua originalidade) por mediação da beleza. Esta atitude ainda subsiste na grande maioria dos povos nativos americanos, embora os autênticos símbolos gráficos se degradaram, às vezes a ponto de se fazerem “decorativos”, ou mitos “lendas”. Para tomar um só exemplo na área maia, basta-nos recordar os desenhos têxteis, verdadeiros códigos onde os indígenas imprimem seus conhecimentos mítico-cosmogônicos. O mesmo se observa em suas cerimônias (mesmo que estas sejam “festas” e não só atos litúrgicos) em relação à ordem simbólica que preside sua estrutura: gestos, cantos, dança, cores, objetos, etc.; assinalaremos que isto ainda se faz mais patente dado o caráter obviamente sagrado das mesmas, embora pensemos que numa sociedade perfeitamente integrada não há diferenças entre o sagrado e o profano; quer dizer, que para essas mentalidades tudo é uma epifania que não pode deixar de representar os diversos modos expressivos de um Grande Espírito, ainda que sua manifestação possa ser atroz.

Na realidade, o que todas as sociedades tradicionais pré-colombianas conceberam – ou melhor, o que se conhece – é que o homem e o mundo formam um segmento do Ser Universal que se manifesta mediante estados, princípios ou determinações, que são apenas algumas das modalidades em que o Ser Desconhecido se expressa permanentemente, gerando o modelo universal e dando capacidade à possibilidade de todo o criado. Nisso têm feito tão somente coincidir com o pensamento (Conhecimento) de todas as culturas e das grandes civilizações, entre elas os Egípcios, Caldeus, Judeus, Gregos, Herméticos, Romanos, Cristãos e Islâmicos, sem mencionar outras muitas tradições ocidentais autênticas e as grandes civilizações da Índia e do longínquo oriente.

O maior símbolo possível é a unidade do cosmo, e também a soma de todas e cada uma de suas partes indefinidas assim que estas se manifestam a nível sensível, todas as possibilidades do que pode ser percebido que sempre é em última instância a unidade do ser. O mito expressa estas potencialidades inerentes ao humano e, portanto, as mitologias são cosmogônicas enquanto pretendem, por seu discurso exemplar, ir além do que percebe o homem em estado ordinário e conformam um conjunto de ensinos revelados sobre o ”modelo do universo”, com o propósito de superar este quanto a suas limitações evidentes, as leis universais, e obter assim –mediante as iniciações– a reintegração do ser particular no Ser Universal, com o propósito de transcender, por mediação da verdade e da beleza, os encadeamentos que o atam ao mundo ilusório.

Por isso é que os protagonistas dos mitos são seres fabulosos, deuses ou entidades sobrenaturais, personagens heroicos, ou animais, em contraposição com a horizontalidade da vida diária, criando assim uma possibilidade de ruptura, vertical, com os condicionamentos próprios da existência, invertidos em relação ao mistério original.

Entretanto, queremos observar que tanto o mito quanto o rito carregam o símbolo com um componente emocional; na mitologia, sempre o assombro está presente; do mesmo modo, nos ritos aparentados com as cerimônias religiosas o fator emotivo é determinante, e embora símbolos, mitos e ritos possam identificar-se, posto que em definitivo são três expressões diferentes de uma mesma realidade, poder-se-ia afirmar que o mito é a vivificação do símbolo e os dois conformam a posterior representação prototípica e sagrada do rito e da cerimônia, e também a da arte; ambas, imitações ou representações deles. Isto poderia parecer uma subordinação do mito ao símbolo, e do rito e da arte à mitologia, se não se compreendesse que se trata de uma mesma energia operativa em modalidades diferentes; inclusive, poder-se-ia dizer que rito (não só enquanto cerimônia religiosa) e arte, quer dizer, ambos tomados em sentido absoluto, são apenas representações da regeneração perpétua do cosmo enquanto estão identificados com ele, formando portanto uma unidade; também poderia argumentar-se que o mito não é tão preciso como o símbolo numérico ou geométrico, que por seu conteúdo universal Arquetípico, ou pelo menos por sua estrutura mais abstrata, é mais adequado para traduzir a Ideia. Em se tratando de dar nossa opinião, pensamos que a fusão destas energias é a encarregada de outorgar todo significado em três níveis de consciência, conhecimento, ou leitura, em correspondência com os estágios cosmogônicos hierarquizados e ao mesmo tempo indissolúveis, nos quais os maias, como muitíssimos outros povos tradicionais, dividiam qualquer realidade (céu, terra e inframundo).

E certamente que é a vibração comum, a correspondência, a analogia, a simpatia, ou seja, a magia que liga estes planos entre si, embora tome formas tão intelectuais e sofisticadas como as matemáticas e a astronomia, bases do calendário ritual maia, talvez a realização mais acabada da arte deste povo, cuja maior originalidade, ou paradoxo, talvez se constitua em ser uma alta civilização primitiva, contradição nos termos que só existe ao se lhes atribuir exclusivamente o valor que lhes é outorgado correntemente. De fato, pareceu que esta civilização, mesmo alcançado seu máximo esplendor, continuou sendo o que em muitos aspectos hoje se entende por “primitiva”; nisto tampouco se diferenciaram de gregos, hindus e chineses, entre outros[1]. Ao contrário, a decadência pode se ser observada em expressões que são tomadas erroneamente por “culturais” na atualidade e que desembocaram em absurdos tão grandes como a falsa erudição, e a arte pela arte.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[1] – Ainda hoje, o pensamento “científico” vê os poucos restos tradicionais que ficam em ritos e religiões como algo “atrasado” e “anti-racional”, quando não se encontra o suficientemente esterilizado.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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