O Discurso Ultramontano Antimaçônico

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Uma série de condenações por parte da Igreja Católica garantiram a consolidação do imaginário coletivo da Maçonaria que ficaria identificada com o perigo e a subversão. A primeira data de 1738, na carta apostólica In eminenti, de Clemente XII. Em 1751, se repetiria na constituição apostólica Providas, e desde então sucederam-se ininterruptamente: Pio VII – Ecclesiam a Jesu Christo (1821); Leão XII – Quo graviora (1825); Pio IX – Qui pluribus (1846), e entre outras a encíclica Quanta cura (1864); e depois Leão XI11 – Humanutn Genus (1884)[1].

O auge das condenações ocorreram entre os papados de Pio IX e Leão XIII, em um momento histórico adverso para o Papado, quando acontecia a unificação da Itália e o fim dos Estados Pontifícios. Durante os 25 anos do Papado de Leão XIII saíram cerca de 226 documentos para condenar e pôr em guarda o mundo a respeito da Maçonaria[2]. Trazendo embutido na Humanun Genus a crítica ao socialismo e ao naturalismo, nenhum outro Papa manifestou tanto a crença no complô quanto ele, e em como o segredo concorria para fazer com que ideias e instituições se equiparassem em um mesmo patamar de ameaça a sociedade.

Com efeito, há nelas espécies de mistérios que a sua constituição proíbe com o maior cuidado serem divulgados não somente às pessoas de fora, porém mesmo a bom número de seus adeptos. A esta categoria pertencem os Conselhos íntimos e supremos, os nomes dos chefes principais, certas reuniões mais ocultas e interiores, bem como as decisões tomadas, com os meios e os agentes de execução. Para esta lei do segredo concorrem maravilhosamente: a divisão, feita entre os associados, dos direitos, ofícios e cargos; a distinção hierárquica, sabiamente organizada, das ordens e graus; e a disciplina severa a  que todos estão sujeitos. [3]

Em 1917, foi promulgado o primeiro Código de Direito Canónico. Nele, mantém-se a proibição da filiação de católicos à Maçonaria, com a mesma motivação tradicional que remontava a Leão XIII, advinda do cânone 2335 “os que dão seu nome à seita maçônica ou a outras associações, que maquinam contra a Igreja ou contra os legítimos poderes civis, incorrem, pelo próprio Jato, em excomunhão simplesmente reservada à Sé Apostólica”, o Código estabelecia uma presunção de direito: a ação conspiratória (machinatio) contra a Igreja e o Estado seria algo intrínseco à Maçonaria e que não precisaria ser comprovado na prática[4].

No Brasil, a concepção de uma Maçonaria conspiradora dá-se no discurso oficial da Igreja, nas Constituições para as Províncias Eclesiásticas Meridionaes do Brasil, age no sentido de uma determinação aos párocos das leis da Igreja e suas aplicações. Publicada durante o período da Primeira Guerra, em 1915, incorpora em seu espirito a lógica já traçada na Humanun Genus e prescreve as condutas aplicáveis aos maçons individualmente[5].

Os perigos aos quais está sujeita a fé na modernidade reservam para a Maçonaria e para as sociedades secretas um lugar particular na lei eclesiástica; se a pena é inevitavelmente a excomunhão, é significativo observar as outras categorias de pecadores que acompanhariam o maçom em sua expiação, veja-se: “…das sociedades secretas, perversas e proibidas pela Egreja, das más companhias, das familiaridades com os ímpios e hereges,…”[6]

Para a não realização do casamento: “Quando os nubentes forem dados á embriaguez, quando for um impio, maçon, ou por outro vicio incapaz de cumprir as obrigações conjugaes…”[7]. Tratando-se de casamentos de impios e maçons, observe-se…”[8].

E, em se tratando da educação: ” …nos tempos modernos, os impios e as seitas nefandas apregoem…”[9].

Os ímpios, portanto não possuidores de quaisquer freios morais e blasfemos, os hereges, que trabalhariam para corromper a sagrada doutrina cristã de sua pureza e aqueles que como os viciados em álcool, não possuem controle sobre suas próprias ações, estão ininterruptamente condenados à exclusão ou à dissuasão para os caminhos da Igreja. Ajusta-se aos maçons à imagem da maquinação e a ausência de entendimento sobre as razões de sua própria conduta que a hierarquia e o segredo alimentavam.

As interdições sacramentais aos maçons, se explicam facilmente, já que, por princípio, o maçom estaria colocado à margem da lei da Igreja, pela excomunhão. A explicitação de condutas quanto ao batismo, à confissão e ao casamento se destinariam a uma forma de controle social e põe restrições, no caso do batismo, ao padrinho, quando esse for reconhecido como maçom. Na confissão espera-se a rendição:

“Tratando-se de maçons e outros filiados a seitas e sociedades secretas, os confessores auctorizados, antes de absolve-los, deverão exigir que os mesmos tenham abandonado absoluta e positivamente, para sempre, a seita condemnada.” [10]

E quanto ao casamento a exortação vai no sentido da não realização:

“Procurem os Rvds. Parochos, quanto possível, impedir casamentos que prevêm terão mau resultado. Quando os nubentes forem dados á embriaguez, quando for um impio, maçon, ou por outro vicio incapaz de cumprir as obrigações conjugaes, é por obra de caridade abrir os olhos da outra parte; pois está na consciência de todos os males que resultam de taes casamentos, são quasi sempre sem remédio.” [11]

Essas restrições vão ao encontro do rastreamento social, à medida em que estas recomendações atinjam não somente de forma individual o maçom, mas nas possibilidades de trocas sociais em que ele se envolveria, como: o batismo, o casamento e os apadrinhamentos. Envolvendo mais pessoas o controle não ficaria somente a cargo dos párocos, mas de toda a sociedade. Nesse aspecto as preocupações com a educação transformam-na em lugar estratégico, que exige uma ação enérgica, já que abarca uma parcela considerável da sociedade que estaria aberta a penetração dos maçons. As palavras do Papa Leão XIII, transcritas literalmente na pastoral, traduzem uma visão dos combatidos:

A educação única que agrada os maçons, e que elles pretendem se deve dar a mocidade, é a que chamam civica, desenvolta e livre, isto é, aquella em que não se diga nenhuma palavra da religião. … Onde essa educação começou a se desenvolver e campear mais livremente, excluindo todo ensino christão, ahi bem depressa foram desaparecendo a probidade e integridade dos costumes, cresceram os erros mais abominaveis, e pulularam os crimes mais audaciosos e horrendos. [12]

Onde a imagem do complô secreto e seus participantes faria mais dano a Igreja senão na educação? Veiculando a noção de um perigo iminente para a sociedade que acabaria sucumbindo sob o signo daquilo que pulula e é horrendo, que se projeta da sombra com seus vícios contra a fé cristã. Segundo a Igreja, a educação laica inevitavelmente arrastaria consigo todo aquele que não delatasse tais crimes secretos à autoridade eclesiástica.

Saibam emfim todos os fiéis que incorrem em excomunhão latae sententiae, reservada ao Summo Pontífice, os que dão seu nome á seita maçônica ou carbonária, ou á outra do mesmo genero, que aberta ou clandestinamente machinam contra Egreja e os legitimos poderes, assim como os que prestam ás mesmas qualquer favor, os que não denunciam seus corrypheus e chefes occultos, até que tenham cumprido o dever da denunciação. CPLA n 169 – Const. Apostolicae Sedis, 12 Oct. 1869. [13]

Individualmente e na coletividade, o maçom nas falas oficiais da Igreja estará sempre em pecado e a sociedade haverá sempre que redimi-lo ou combatê-lo.

No início do século XX, segundo Marchette, Curitiba foi palco de um movimento anticlerical que seria denotado pela estratégia ultramontana e romanizadora da Igreja. A autora alerta para a metáfora da luz e das trevas, na reatualização dessa batalha durante a clericalização da sociedade brasileira. A maçonaria, na ótica do clero de então, se relacionava intimamente ao movimento anticlerical e a ela se referia com termos como ‘antros tenebrosos’, ‘ritos grotescos’ e ‘práticas ridículas’. Isso porque Euclides Bandeira, Dario Vellozo, Nilo Cairo, Sebastião Paraná e outros livre pensadores e anticlericais pertenciam à ordem maçônica[14].

A atuação dos maçons no Brasil até 1910, orientou-se no combate às ‘trevas’, que metaforicamente seriam o jesuitismo na Igreja, por meio da divulgação das ‘luzes’ advindas do iluminismo e da ilustração. Ao contrário da Igreja que iniciou um processo de alianças com os setores oligárquicos, a maçonaria orientou sua ação no sentido da instalação de escolas, voltadas para a alfabetização dos setores populares. Tal estratégia visava a ampliar seus quadros e romper com o senso comum que associava sua atuação com a noção da conspiração, tão difundida pela Igreja Católica[15].

A diabolização caricatural da maçonaria pela Igreja Católica, jamais ultrapassara a Humanuni Genus, embora houvesse associações em que o Grão-Mestre seria o próprio satanás, a maioria dos católicos modera a tese satanista[16].

O Vaticano apesar do desdobramentos do século XX, mantém a sua posição dos primeiros tempos, apóia-se nas posições expressas pelo Papa Leão XIII, e vê na maçonaria um instrumento privilegiado de Satanás e poderoso fator de heresia e de paganismo[17]. Os anticlericais no Paraná, até 1940, funcionaram para a Igreja como a ponta visível de um campo oposto. Segundo Balhana, os bens de salvação estavam sendo disputados na sociedade por meio da imprensa curitibana da época[18].

A paróquia de União da Vitória durante as décadas de 1930 e 40, pertencia à diocese de Ponta Grossa, tendo por Bispo D. Antonio Mazaroto, que escassamente à visitava. Do lado Catarinense a visita dos Bispos também é deficiente[19], e normalmente os ofícios religiosos ficam a cargo dos párocos. Frequentemente se vê entre a documentação, falas realizadas no sermão da missa alertando os fiéis para a ação maçônica, e ainda ocorriam troca de farpas por ocasião dos enterros de maçons.

União da Vitória, 5 de outubro de 1945.
Excelentíssimo senhor Presidente e demais membros da Loja Maçônica de Porto União – União da Vitória.
Na qualidade de principal representante, nesta cidade, da familia do extinto engenheiro EZEQUIEL PRIETO, sinto-me na obrigação de esclarecer a Vossas Excelencias que as considerações feitas pelo senhor vigário da Matriz desta localidade sobre a maçonaria, tomando, como oportunidade, a presença, na Igreja em apreço, dos restos mortais daquele senhor, não decorrem, diretamente ou indiretamente, da iniciativa da família de que se trata ou mesmo de pessoas de suas relações, mas sim daquele sacerdote que, em meu entender, conduziu a prática religiosa, à sua vontade.
A vista do que ora informo a Vossas Excelencias e do que já conhecem do caráter e convicção do falecido meu sogro, poderão, em verdade, concluir sobre as versões relacionadas ao presente assunto.
Pela atenção dispensada, sou mui grato a Vossas Excelencias e aproveito a oportunidade para reiterar os protestos de elevada estima e distinta consideração.
João Paes Filho [20]

Essa correspondência fora lida em Loja, segundo a ata da página 130, e não somente tida também fora transcrita na íntegra e comentada por Antonio Domit, que falou sobre o caso do falecimento desse maçom, recomendando conversarem com o padre. Cita ele o caso de uma parente, a qual o padre se negou a permitir a ida do corpo a Igreja, relaciona também várias casas em que os padres atrapalham e atacam os maçons, “Falou sobre o fanatismo das mulheres em favor dos padres, citando várias outras casas. Falou sobre os irmãos que se acham doentes e que deviam ou …, para evitar dissabores futuros, pois esteve doente e ninguém o visitou[21].

Este trecho mostra vivamente como a rede de solidariedade maçônica poderia ser requisitada e conferia ao cotidiano uma densidade incrivelmente real, ainda que não houvesse qualquer traço de anticlericalismo nas condutas desta Loja. O imaginário social coletivo parecia apontar como um todo para a mesma direção.

Ecos do anticlericalismo literário puderam ser percebidos na Loja União III, mas não uma proposta de ação efetiva, que se delineasse a partir daí, nem na imprensa, nem social. Se a força do movimento não arrebanhou adeptos, a força do estereótipo do maçom como o homem do segredo, ao que se viu proliferou.

Ainda que o discurso de ataque da Igreja não chegasse uniformemente a todas as paróquias, não se pode negar sua existência, mais das vezes é provável que atitudes antimaçônicas se deram devido muito mais às leituras que o integralismo proporcionava, do que ao conteúdo da pastoral propriamente dito.

Autor: Jefferson William Gohl

Nota do Blog

O texto acima é parte da dissertação apresentada como requisito à obtenção o grau de Mestre em História, Curso Pós – Graduação em História, setor de Ciências Humanas, Universidade Federal do Paraná, intitulada O Real e o Imaginário: A Experiência da Maçonaria na Loja União III em Porto União da Vitória – 1936 a 1950.

Notas

[1] – BENIMELI, José F. Maçonaria e Igreja Católica.2 ed. São Paulo: Paulinas, 1983. p. 23

[2] – Ibidem, p. 40

[3] – LEÃO XIII. Sôbre a Maçonaria. In: Encíclica Humanuni Genus. Documentos Pontifiícios. Petrópolis, RJ: Editora Vozes. 1960. p. 08

[4] – HORTAl, Jesus. Maçonaria e Igreja: conciliáveis ou inconciliáveis. São Paulo: Edições Paulinas, 1993 (Estudos da CNBB,66). p. 42

[5] – Pastoral Conectiva dos Senhores Accrbispos e Bispos das PROVINCIAS ECCLESISAT1CAS de S. Sebastião do Rio de Janeiro, Marianna, S. Paulo, Cuyabá e Porto Alegre. Rio de Janeiro: Typ. Martins de Araújo, 1915.

[6] – Ibidem p. 14

[7] – Ibidem p. 94

[8] – Ibidem p. 117

[9] – Ibidem p. 377

[10] – Ibidem p. 73

[11] – Ibidem p. 94

[12] – Ibidem p. 377

[13] – Ibidem p. 22

[14] – MARCHETTE, Tatiana Dantas. Corvos nos Galhos das Acácias. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999. p. 40

[15] – BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e Sombras. A Ação da Maçonaria Brasileira. Campinas: Editora da Unicamp, 1999. p. 149

[16] – LACORDAIRE, Jérôme Rousse. Antimaçonismo. Lisboa: Hugin, 1999. p.44

[17] – Ibidem p. 48

[18] – BALHANA, Carlos A. de Freitas. Ideias em confronto. Curitiba: Grafipar, 1981.

[19] – CLETO DA SILVA, José Julio. Apontamentos históricos de União da Vitória (1768-1933) Curitiba: IHGEP, s/d. p. 169 e 206

[20] – Arquivo Particular Loja União III. Arquivo de correspondências. Pasta 1945, fl. 50

[21] – Arquivo Particular da Loja União III – Livro de Atas, p 130 A recusa em se aceitar a entrada do corpo na Igreja foi confirmada através do Livro Tombo da Igreja Matriz de Porto União.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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2 respostas para O Discurso Ultramontano Antimaçônico

  1. moysestomaz disse:

    Seremos eternamente dissidentes da igreja católica…

    Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

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  2. Paulo Fernandes Moura disse:

    Parabém pelo excelente texto! Direto e esclarecedor. Mesmo diante de tantas ações da ICAR contra a Maçonaria ao longo dos tempos, não impediu que padres fossem iniciados, em diferentes épocas e lugares. No Piauí o Anticlericalismo ganhou força e vigor, no início do século 20, com notáveis irmãos maçons como Abdias Neves, Clodoaldo Freitas e Higino Cunha. A luta continua, ao contrário do que pensam alguns poucos irmãos de que a Igreja perdoou os maçons, através da apócrifa “Oração aos Maçons” atribuída ao Papa João XXIII. Uma mentira disseminada em nosso meio que devemos combater.
    T.:A.:F.:

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