Lilith. Um Texto Fundador da Mulher na Maçonaria

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A maçonaria, como todos sabem, procura suas origens em mitos fundadores de origens longínquas na corte de Salomão. São contribuições lendárias que estão ligadas aos grandes mitos da criação.

O nome “Lilith” tem uma filiação semítica e indo-europeia. A palavra suméria “lil” significa “vento”, “ar” e “tempestade”. Lilith foi inicialmente associada às forças hostis da natureza, parte de um grupo de três demônios, um masculino e duas femininas: Lilu, Lilithu e Ardat Lili, esta última sendo a companheira do portador da luz.[1]

Lilith também está sempre associada a uma mulher lasciva, sedutora e de rara beleza. Com seus longos cabelos negros mostra-se altamente sensual e destrutiva. Muito provavelmente os judeus a conheceram no cativeiro da Babilônia.

Lilith é mencionada no Antigo Testamento, Livro dos Profetas, Isaías 34/14:

“Lá também descansará Lilith, achará um pouso para si em companhia dos gatos selvagens, das hienas, dos sátiros da víbora e dos abutres.”

Para transportar Lilith para a modernidade, entendida como estilo, costume de vida ou organização social que emergiu na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência[2], vou chamar a atenção para os dois relatos da criação do homem e da mulher nos capítulos I e II do Gênesis de onde foi extraído o mito reatualizado de Lilith.

Modernamente ela é considerada a primeira mulher que ousou pronunciar o nome inefável que lhe deu as asas por meio das quais fugiu do Éden, abandonando o seu companheiro, com quem não se entendia.

Apesar de perseguida por três anjos – Sinou, Sinsinoi e Samengelof – recusou-se a deixar sua nova morada no mar vermelho e a sua fuga transformou-se em expulsão. Tornou-se, posteriormente à criação da segunda mulher – Eva – , não mais criada do barro, mas de uma costela, uma rival vingativa para fazer o mal aos descendentes de Adão e Eva. Esta a razão de diversos textos judaicos associarem Lilith aos demônios com asas e formas humanas, inclusive na Cabala, onde vemos Lilith unir-se a Sammael.

Interessa neste estudo mostrar a Lilith transformada na mulher libertada e revoltada na afirmação dos seus direitos, na busca da igualdade em relação ao homem. Uma mulher rejeitada pela sociedade dos homens e que está sempre buscando o seu reconhecimento, ainda que para isso tenha que fazer “mal” aos homens.

Em diversas formas de sociabilidades, e entre elas, fundamentalmente, a maçonaria, ela, a “mulher”, está excluída sob o argumento de que, por sua própria essência, arrastaria os homens para o infortúnio.

É o próprio Pierre Brunel[3] que nos lembra certas associações de Lilith com a Rainha de Sabá na aparência falsamente luminosa. Cumulando com seus dons, o homem, se deixa prender por seus atrativos, ela o orienta para uma procura que o isola dos outros e o arrasta para um caminho que segue em sentido contrário à vida.

Portanto, o mito de Lilith, assim como a mulher moderna na maçonaria, tem por objetivo afastá-la dos homens, por ser perigosa e destrutiva, apesar de certos homens estarem dispostos a visitá-lo no seu exílio.

Assim, Lilith pode vir a representar possíveis respostas para a mulher excluída em determinadas sociabilidades centradas simbolicamente nos mitos fundadores de origens longínquas que não têm nada a ver com o racional. Trata-se do arrebatamento do Ser em contraposição ao Não Ser. O único caminho que pode ser transitado.

É possível que surjam aporias[4] a este ensaio. Entretanto, já ensinava Aristóteles que existe uma interessante ligação entre a lógica e a metafísica. O que procurei fazer foi convidar os meus leitores para verem as coisas de um outro modo, mas sempre cauteloso com os conceitos e com a linguagem. Lilith é o desejo libertado: a contestadora. Ela representa a mãe das excluídas.

Ela é o prazer, o desejo, logo, o perigo, a transgressão, a culpa e o medo. Ela não pode participar do centro, da Ágora. Ela deve ser excluída do espaço da produtividade. Enfim, ela deve viver no exílio que escolheu porque corrompeu os valores da dominação masculina e ousou dizer que foi feita do mesmo pó e não admitir a submissão. Esta é Lilith!

Autor: Frederico Guilherme Costa

Notas

[1] – Remeto o interessado ao excelente trabalho de Pierre Brunel (organização), Dicionário de Mitos Literários, Brasília: Editora UNB/José Olympio Editora, 1997, pp. 582/85.

[2] – Anthony Giddens, As Consequências da Modernidade, São Paulo: Edusp, 1991, p11.

[3] – Pierre Brunel, op. , cit., p. 584.

[4] – . Estou me referindo a eventuais conflitos entre opiniões, contrárias e igualmente concludentes, em atenção às questões aqui expostas.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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3 respostas para Lilith. Um Texto Fundador da Mulher na Maçonaria

  1. Uma abordagem medieval e preconceituosa. É totalmente tendenciosa e equivocada. Falta estudo e respeito pelo Feminino. Quem escreveu se esquece que nasceu de uma mulher, que talvez tenha se casado com outra e que todas as mulheres são arquetípicamente uma só, assim como os homens arquetípicamente também são um só.
    Em um Templo vê-se claramente alusões à mulher, seja na Coluna da Beleza, seja no símbolo da Lua no Trono de Salomão, ou ainda no pavimento mosaico, coluna B, e por aí vai.
    O homem que abomina o feminino deve cortar seus testículos, se unir a outro homem, abrir mão de sua alma e se abster de qualquer alimento que venha da natureza, mesmo que indiretamente.

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  2. Beth Pires disse:

    Parabéns Sr.Juarez de Fausto Prestupa penso da mesma forma. Ainda bem que dentro da Maçonaria, existem pessoas com esse pensamento. Infelizmente o Sr. faz parte de uma minoria.

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