Organização, Preceitos e Elementos da Cultura Maçônica: fundamentos para a introdução aos estudos da maçonaria – Parte I

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Introdução

Nas últimas décadas, a maçonaria tem se tornado objeto de estudo de muitos campos do conhecimento[1]. No campo da história, a emergência de novos trabalhos, nos quais a maçonaria figura como tema principal de pesquisa, apresenta-se como consequência dos avanços obtidos pela renovação da história política. Por longo tempo, a política, sob influência da escola francesa dos Annales, esteve relegada à situação de mero apêndice da História. Criticada por sua superficialidade, a tradicional história política caracterizava-se pela defesa do trinômio: narrativa, crônica e acontecimento, estando aprisionada em uma visão centralizada e institucional do Estado. Contudo, a partir da década de 1970, a política voltou a assumir um lugar de destaque na historiografia ao tomar para si métodos e abordagens oriundos das ciências sociais. Este fenômeno de renovação chamado de “nova história política” permitiu a abertura dos estudos para novos objetos e novos enfoques que, até então, não eram encarados e nem tratados como parte do político. Em meio às inúmeras tendências e variações ocorridas nesse movimento de renovação historiográfica, destacam-se algumas temáticas novas tais como “os poderes, os saberes enquanto poderes, as instituições supostamente não políticas, as práticas discursivas”[2], bem como o estudo do político a partir das representações e imaginários sociais, das mentalidades, das simbologias e das memórias coletivas.

A renovação dos objetos e das visões da história acerca do político tem incitado inúmeros estudos da maçonaria, sobretudo, nas linhas de pesquisa de história e cultura política. Cada vez mais, a dimensão política da sociabilidade – característica constituinte da maçonaria – vem sendo apreendida. Antes negligenciada como um detalhe da vida privada, o pesquisador da Maçonaria, Maurice Agulhon defende a sociabilidade como um estimado objeto de reflexão social, psicológica e política[3]. Em consonância com este autor, René Remond reforça a importância de a história política abrir-se para pesquisas sobre a sociabilidade, a socialização e o fato associativo[4].

Igualmente importantes para a eleição da maçonaria como tema da história política, foram os trabalhos que, nesse movimento de renovação historiográfica, propuseram abordar as relações de poder para além do aparelho do Estado. Encontrado em lugares menos auspiciosos como a família, a escola, os asilos, as prisões, ou seja, no cotidiano de cada indivíduo e grupo social, o poder deixa de ser percebido como exclusivamente exercido pelo Estado para ser visto como algo que permeia todas as relações sociais[5].

Com base no exposto acima, a temática da maçonaria surge como mais uma possibilidade de compreensão das inúmeras relações de poder que perpassam as sociedades. Ao configurar um modelo de sociabilidade próprio baseado na filantropia, na rede de solidariedade entre os pares, nos juramentos e rituais que criam laços de pertencimento, percebe-se na maçonaria a existência de mecanismos próprios de dominação, constituindo-se em um dos espaços, fora do domínio direto do Estado, por onde o poder circulava e os homens faziam política.

Todavia, uma sólida investigação da temática da maçonaria e de suas múltiplas relações com a sociedade e seus espaços de poder exige um conhecimento profundo da complexidade da natureza maçônica, isto é, dos fundamentos e preceitos desta instituição e do processo histórico pelo qual ela se organizou e se resinificou. Do contrário, incorre-se seriamente no erro de tomá-la como uma instituição monolítica, a-histórica e com uma capacidade de atuação superdimensionada.

Os Preceitos Maçônicos

A maçonaria considera a si mesma como uma instituição universal e composta de um corpo de doutrinas acabadas, que permaneceram imutáveis através dos tempos. Entretanto, foi justamente a realidade idiossincrática, assumida pela ordem nas diversas partes do mundo, que dificultou, por vezes, a tarefa de demarcar o campo conceitual maçônico. Não obstante tal dificuldade, é possível buscar no texto primeiro da maçonaria, ou seja, na Constituição de Anderson, e em vários outros escritos[6], ideias recorrentes que nos apontam os preceitos fundamentais da instituição. Com base neste levantamento, identificamos como principais componentes desse fundo comum teórico, as divisas do progresso, da razão, da liberdade, da igualdade, da moral e da fraternidade.

Antes, contudo, acreditamos ser importante ressaltar que o processo de elaboração das divisas e dos preceitos maçônicos encontra-se intimamente vinculado à história sócio-política da Inglaterra. Já as divergências relativas à interpretação e implementação deste corpo teórico, refletem as turbulências europeias dos séculos XVII e XIX, período no qual foram elaboradas inúmeras e variadas propostas para a civilização humana, bem como as diferentes demandas impostas à maçonaria pelas conjunturas nacionais. A constituição histórica da maçonaria nada mais é do que fruto da soma destes fatores.

Embora o pensamento iluminista do século XVIII tenha se desenvolvido em direções várias, podemos perceber, na base das investigações científicas e filosóficas da época, algumas ideias recorrentes. Muito comum era a noção de que o espírito humano, ou a natureza humana, possuía uma estrutura fundamental e invariável, independentemente do tempo e do espaço. O caráter imutável da natureza humana permitiria, não apenas explicar a sua essência, mas também chegar, através de uma argumentação racional, a conclusões indiscutíveis que prescreveriam aos homens, a melhor forma de se organizarem. À luz desta premissa, os fenômenos humanos foram entendidos como sujeitos a leis verificáveis e, logo, susceptíveis de um tratamento similar ao das ciências naturais[7].

Ao interpretarem a história humana sob o ponto de vista acima descrito, os pensadores iluministas chegaram à conclusão de que esta história não poderia ser um mero agregado de fatos aleatórios, ao contrário, ela deveria seguir um padrão passível de compreensão por meio de leis gerais. Todavia, embora a razão tenha sido apreendida como principal instrumento de domínio do homem sobre a natureza, e logo, sobre a sua própria história, a emancipação das concepções morais e metafísicas não foi completa. A crença num padrão teleológico subjacente aos fatos da história humana foi explicitamente sustentada. Em conformidade com um modelo pré-estabelecido, postulava-se que a história se movia rumo a uma finalidade, a uma direção especial, moralmente aceitável. Em síntese, acreditava-se que “o homem é ou contém em si mesmo algo de valor absoluto, de modo que o processo da natureza, na sua evolução, tem sido um progresso, na medida em que tem sido um processo ordenado, conduzindo a existência humana”[8]. Surge daí, a fé na perfectibilidade humana e na inevitabilidade do progresso.

O pensamento maçônico, organizado no contexto das luzes, mostra-se herdeiro da crença escatológica do progresso, visto que elaborou para si uma cosmovisão que prevê uma idade de ouro, quando enfim, o homem atingirá sua plenitude moral. O preâmbulo do Código Maçônico brasileiro de 1914 apresenta os objetivos da maçonaria como sendo “o aperfeiçoamento material, moral e intelectual da humanidade, por meio da investigação constante da verdade científica, do culto inflexível da moral e da prática desinteressada da solidariedade”[9]. Para a maçonaria, a razão e a ciência são tidas como os principais instrumentos que levarão a humanidade a atingir um futuro de moral e virtudes que são certos e comuns a todos os povos, uma vez que se crê na unicidade da natureza humana. Contudo, se os instrumentos que levam ao futuro são de base objetiva e cartesiana, este futuro utópico a que se acredita chegar é essencialmente de caráter subjetivo, uma vez que se sustenta em valores (moral e virtude) histórica e culturalmente construídos. Além disto, a sociedade maçônica aproxima as modernas crenças na razão e na ciência a valores tais como o respeito à hierarquia e o culto ao passado, cuja origem e sustentação datam das tradições dos ofícios medievais.

Todavia, mais do que simplesmente acreditar na evolução da humanidade rumo a um futuro determinado, a maçonaria exprime-se como a instituição de vanguarda responsável por guiar os homens rumo à civilização. A passagem abaixo elucida bem a visão que os maçons nutrem de si próprios:

A única lei da vida é o progresso: progresso indefinido, sucessivo em todas as manifestações do ser, sob todas as fases de sua existência. Cremos que infalivelmente devem cumprir-se as leis do progresso, porém cremos também que, tendo-nos a missão de realizá-lo como obra nossa, devemos consagrar nossa liberdade, utilizando o tempo e o espaço que nos estão cedidos, de maneira que sua aceleração ou atraso dependam de nós, segundo nosso mérito ou demérito.[10]

Analisando alguns periódicos maçônicos publicados no Brasil, no século XIX, observa-se que a maçonaria atribuía a si uma missão de tamanha importância, ao se apresentar à sociedade profana como “A guarda avançada do progresso da humanidade”[11], “Anjos Tutelares do Progresso”[12], “Estrela Dalva que anuncia a madrugada da civilização”[13], dentre outros títulos. Tendo conseguido demonstrar à humanidade os fins aos quais a maçonaria se propõe, a imprensa maçônica afirma que a instituição “(…) se recomendará à posteridade por relevantes serviços em prol da civilização”[14]. Sustentando esta posição, os pedreiros livres assumem o papel de guias, vanguarda e tutores dos profanos, acreditando-se conhecedores de uma verdade absoluta acerca da humanidade e só acessível aos iniciados nas luzes. Tal atitude, além de valorizar o papel da instituição perante a sociedade, investe a maçonaria de poderes, uma vez que esta se torna, por princípio, o lugar do saber.

Em consonância com o discurso do progresso, a maçonaria mantém a liberdade de consciência como uma de suas divisas capitais. Afirmando-se como um espaço onde os homens colocam suas ideias e opiniões sem nenhuma restrição, a maçonaria acabou por constituir-se numa escola de formação política, na medida em que permitia e estimulava o livre debate e a deliberação. Esta característica da sociabilidade maçônica, aliada ao seu caráter secreto, levou muitos pensadores a procurá-la como abrigo, em diferentes contextos de perseguição.

Ressalta-se que a liberdade de consciência preconizada pela maçonaria apresenta-se como corolário do liberalismo inglês, surgido no bojo dos embates políticos e religiosos do final do século XVII, e que tinha como pilares, a tolerância religiosa e a expansão da liberdade civil. O fato de a Inglaterra haver conseguido refrear a arbitrariedade do poder político, não obstante este ainda estivesse restrito a uma oligarquia, e ter conquistado mais liberdade geral do que em qualquer outra parte da Europa, é de fundamental importância para a compreensão das razões que levaram os primeiros maçons modernos a elaborarem preceitos de natureza liberal[15].

A liberdade de culto e a tolerância foram, dos conceitos imanentes à liberdade de consciência, os que mais repercutiram nos séculos XVIII e XIX. Evidenciando sua herança moderna e iluminista, a Constituição de Anderson afirma que “seja qual for a religião de um homem, ou sua forma de adorar, ele não será excluído da ordem, se acreditar no glorioso Arquiteto do céu e da terra”[16].

A liberdade de expressar uma fé, bem como de conviver com pessoas de credos diferentes foi, sem dúvida, um dos principais responsáveis pela espantosa expansão da ordem pelo mundo, bem como pelas ferozes críticas a ela remetidas. Não seria equivocado afirmar que, no contexto setecentista, a maçonaria constituiu-se numa das primeiras instituições ecumênicas do mundo, criando um novo espaço de convívio social onde são suspensas as barreiras religiosas que, até então, segregavam os povos e os encerravam em comunidades naturais às quais eles deveriam pertencer, sem possibilidade de escolha. Lançavam-se, assim, os fundamentos das futuras organizações internacionais de caráter laico.

Entretanto, a modernidade maçônica encontra seus limites no próprio texto da sua Constituição. Se a maçonaria postula a liberdade de culto, por outro lado, ela estabelece que “um maçom é obrigado por seu título, a obedecer à lei moral e, se compreender bem a arte, nunca será um ateu estúpido, nem libertino irreligioso (…)”[17]. Deste modo, um dos pré-requisitos para a entrada na ordem é possuir uma religião e crer em um princípio criador, expresso na linguagem dos pedreiros livres, como o Grande Arquiteto do Universo. Tal princípio criador não passa por uma visão deísta, baseada na crença em um Deus sem atributos morais e intelectuais, como apregoavam muitos iluministas. Ao contrário, a Constituição de Anderson refere-se a um Grande Arquiteto que, baseado em valores e princípios morais, intervém providencialmente no universo. Por fim, além da imposição da crença em um princípio teísta, os maçons devem prestar juramento sobre o Livro Sagrado da lei. Este, no entanto, pode ser a Bíblia, como em geral o é, ou qualquer outro livro religioso como o Corão, a Torá, etc.

É fundamental, todavia, não tomar as proposições estabelecidas pela Constituição como sendo um reflexo da realidade maçônica em seus múltiplos lugares e tempos históricos. No que se refere à posição da ordem em relação à religião, por exemplo, esta variou conforme a tendência maçônica de cada país, a obediência à qual pertencia e o contexto religioso preponderante. A maçonaria francesa, por exemplo, foi considerada irregular pela Grande Loja de Londres, por repudiar as exigências de caráter religioso e metafísico. Também a maçonaria portuguesa do século XVIII, em parte, afastou-se do cristianismo e do catolicismo tradicional, preferindo outras crenças menos organizadas, deuses mais “filosóficos”, próprios de pensamentos religiosos panteístas[18]. Conclui-se, assim, que a relação da maçonaria com a religião mostrou-se possuidora de múltiplas facetas, sendo a instituição mais teísta e conservadora nos países britânicos, mais laica na França e nos países de sua influência e, até mesmo, partidária de segmentos religiosos específicos como o protestantismo, no caso de algumas lojas latino-americanas, no período áureo da perseguição católica do século XIX[19].

A liberdade de consciência ecoou, também, no relacionamento da maçonaria com a política profana. Na medida em que postula o direito dos homens de expressarem-se livremente e divergirem uns dos outros, a maçonaria acabou acolhendo, em seu interior, homens de diferentes convicções políticas. Assim, com o intuito de evitar que questões não maçônicas perturbem as boas relações entre os obreiros, a Constituição de Anderson, proíbe as discussões de caráter político dentro das lojas, devendo os maçons submeterem-se às leis do seu país e não tomar parte em nenhuma conspiração ou motim[20].

As lojas britânicas, sempre próximas do trono e da nobreza, foram as que mais primaram pela defesa do caráter apolítico da instituição e de sua finalidade puramente filantrópica e filosófica, embora, em muitos casos, a própria defesa do não comprometimento com o jogo político apresente-se como uma maneira particular de realizá-lo[21]. Entendemos, todavia, que, à exceção do caso inglês, este princípio recebeu múltiplas interpretações ao longo da história maçônica, sendo, inclusive, motivo para a cisão de muitas obediências.

Antônio H. Marques argumenta que a sujeição aos governos estabelecidos foi considerada, por vários maçons, como mais de caráter teórico e geral do que prático e aplicável a todos os países[22]. Pedreiros livres de diferentes lugares interpretaram tal exigência como sendo anacrônica, uma vez que o maçom deve defender a legitimidade do poder político. No caso de sistemas políticos despóticos nos quais a liberdade individual e coletiva encontra-se cerceada, não só pertenceria ao maçom o direito de rebelar-se, como lhe caberia o papel de vanguarda nessa rebelião[23]. Assim, enquanto algumas lojas, na tentativa de escapar do controle absolutista, optaram por conquistar a adesão dos monarcas e dos nobres à ordem maçônica, outras, por sua vez, apostaram numa intervenção política direta, como por exemplo, no caso dos movimentos de independência das colônias americanas. O fato é que, nas inúmeras disputas políticas que marcaram a história dos povos, maçons e maçonaria encontraram-se presentes nos dois lados dos campos de batalha.

Outra divisa bastante propagada pela ordem dos pedreiros livres diz respeito às “virtudes” maçônicas. A loja é entendida, antes de tudo, como um local de aperfeiçoamento moral de seus homens. Assim, ao adentrar a ordem, o membro é instruído acerca da “moral universal”, terminologia maçônica referente a um conjunto de virtudes as quais se vê obrigado a praticar, tais como a bondade, lealdade, honra, honestidade, amizade, tranquilidade, obediência, fraternidade, etc[24]. A prática das virtudes deve refletir-se no modelo de vida adotado pelos maçons fora das lojas. Assim, o maçom virtuoso deve, por exemplo, santificar a família e o lar, sendo um bom pai, um bom filho ou um bom esposo, condenando o vício do jogo e do álcool e insurgindo contra a imoralidade das modas e divertimentos nocivos[25]. A “moral universal” maçônica, além de pretender nortear a conduta dos maçons, é também apresentada como parâmetro para a humanidade profana que, ainda em processo de evolução, deverá um dia alcançá-la plenamente. Deste modo, as lojas maçônicas desejam apresentar-se como um prenúncio desse mundo perfeito e virtuoso e, aos olhos do mundo profano, os maçons devem possuir uma conduta exemplar.

A fraternidade, entendida como auxílio mútuo, filantropia e um modo de convívio entre os irmãos, corresponde à virtude mais associada à sociabilidade maçônica. Diz a Constituição de Anderson que os maçons devem “praticar a caridade fraternal, que é a pedra fundamental, a chave, o cimento e a glória” da antiga confraria[26]. Percebe-se que a maçonaria, apresentada como uma associação de socorro mútuo encontra na fraternidade a essência da instituição. Foi justamente esta concepção ampla de uma fraternidade que ultrapassa fronteiras internacionais e as barreiras religiosas e culturais que tornou a maçonaria uma organização sui generis no contexto histórico em que foi constituída. Finalmente, comportando dois significados – a ajuda entre os irmãos da ordem e o socorro aos necessitados em geral – a filantropia subjacente à noção de fraternidade, tornou-se um instrumento de coesão entre os maçons, bem como a base de sustentação da instituição no mundo profano.

A fraternidade propalada pela maçonaria dá-se, primeiramente, entre os irmãos da ordem. Em caso de vários necessitados em igual situação, o ato de caridade deve ter como alvo prioritário o iniciado na maçonaria[27]. De modo geral, a ajuda prestada aos irmãos corresponde ao auxílio material, em contexto de carestia, e o socorro às viúvas e órfãos de maçons que passaram para o “Grande Oriente Eterno”[28]. Os maçons veem-se, também, obrigados a acolher, proteger e ajudar da melhor maneira, os irmãos que, devidamente identificados enquanto membros da ordem provierem de outras regiões ou países. Por fim, a solidariedade maçônica reflete-se nas inúmeras outras relações estabelecidas entre os obreiros em espaços profanos. Ao fecharem acordos comerciais, por exemplo, os pedreiros livres são orientados a darem preferência ao elemento maçônico[29]. Frente a isto, parece-nos claro que a estrutura de ajuda mútua, criada dentro da ordem maçônica, acabou por representar um importante instrumento de cooptação de homens para dentro da instituição, o que, por vezes, gerou distorções sobre o verdadeiro propósito da iniciação nas lojas[30].

A fraternidade entre os irmãos pode também ser entendida como uma nova proposta de convívio entre os homens, pautada na cordialidade, no respeito e na conduta pacífica dos membros. A loja deve ser um lugar de harmonia, sendo proibidos qualquer palavra ofensiva e atos que interrompam a reciprocidade das boas relações[31]. Contudo, caso haja alguma querela entre os maçons, estas devem ser submetidas a um júri maçônico, nunca sendo levadas ao mundo profano. A história, todavia, demonstra o quanto este preceito vem sendo desrespeitado, não sendo incomum a intervenção da justiça profana em questões maçônicas, bem como as cisões no interior de obediências e lojas.

No que concerne à beneficência para com os nãos iniciados, percebemos a constante colaboração da maçonaria na implantação de creches, asilos, escolas e hospitais, além da presença de maçons no próprio gerenciamento destas instituições, muitas das quais, de caráter para-maçônico[32]. Além da ajuda material, a caridade maçônica é entendida também como colaboração para o aperfeiçoamento intelectual e moral da humanidade[33]. Neste caso, cabe aos iniciados levarem as luzes do saber aos despossuídos, guiando-os, pela via da instrução, rumo às ideias mais elevadas. É importante destacar que a filantropia configurou-se como um instrumento de aceitação dos pedreiros livre e de sua ordem por parte da sociedade, principalmente, em momentos nos quais a Igreja radicalizou sua condenação às atividades maçônicas. Portanto, a filantropia pode ser entendida como um mecanismo de divulgação e enaltecimento da ordem que lhe garante um legitimado espaço de atuação. Mais do que isto, ela cria redes de poder e laços de clientelismo que garantem a influência da instituição e de seus membros em importantes círculos do mundo profano.

Finalmente, o último preceito maçônico por nós analisado, corresponde ao da igualdade entre os homens. Todos os obreiros, diz a maçonaria, “consideram-se iguais entre si e irmãos, só havendo entre eles as diferenças que decorrem da prática da virtude”. A maçonaria pretende ser um espaço de encontro onde os homens veriam anuladas suas diferenças provenientes do nascimento, da classe, da religião ou da nacionalidade, havendo como único critério de diferenciação, o mérito individual. Dentro da loja, homens de diferentes posições no mundo profano, sentariam, comeriam e cantariam juntos, sem distinção. Todavia, vale ressaltar que a dimensão da igualdade maçônica encontrou inúmeras oscilações ao longo da história, sendo que as hierarquias e distinções do mundo profano, por vezes, refletiram-se no interior das lojas. Antônio H. Marques, ao analisar a maçonaria portuguesa do século XVIII, ressalta que a indistinção entre ordens e classes, não ocorria de forma absoluta. Diz o autor que “a maçonaria portuguesa discriminava em termos sociais, surgindo como união entre nobreza, clero e burguesia e não como uma sociedade cem por cento democrática”[34] o que, segundo ele, seria consequência mais da realidade objetiva da sociedade portuguesa naquele tempo do que de uma discriminação de princípio.

Os pré-requisitos exigidos para que um homem adentrasse a maçonaria, mantiveram, principalmente ao longo do século XVIII e XIX, aspectos excludentes, uma vez que seus critérios ultrapassavam as questões do mérito pessoal. Segundo o texto da Constituição de Anderson, “as pessoas admitidas na qualidade de membros das lojas devem ser homens bons e leais, de nascimento livre, de idade madura e razoável, de boa reputação, sendo proibido admitir na maçonaria, escravos, mulheres e homens imorais, cuja conduta seja motivo de escândalo”[35]. Aproximando-se do texto citado, a maçonaria brasileira no século XIX estabelecia como requisitos mínimos para pertencer à ordem: ser homem, ter 21 anos de idade, instrução primária, reputação de bons costumes, ter ocupação livre e decente, meios suficientes de subsistência, estar isento de crime e não possuir nenhum defeito físico[36].

É importante, todavia, não negligenciarmos a dimensão histórica da instituição maçônica. Seria anacrônico exigirmos que a maçonaria, nos séculos XVIII e XIX, atribuísse ao conceito de igualdade o mesmo sentido que lhe é dado nos dias atuais. É preciso termos em mente que as sociedades que elaboraram os dois textos acima citados, isto é, a inglesa e a brasileira, encontravam limites para a efetiva implantação de novos modelos e valores sociais. José Guilherme Merquior, por exemplo, ao analisar o liberalismo inglês, demonstra que, no século XIX, os privilégios aristocráticos ainda não haviam sido completamente superados. Do mesmo modo, as elites brasileiras oitocentistas ainda demonstravam um profundo apego aos valores nobiliárquicos herdados da cultura ibérica[37]. Diante do exposto, é possível afirmar que a igualdade preconizada pela maçonaria, embora não tenha sido implementada de modo absoluto, apresentou-se como uma proposta inovadora em meio a seu contexto histórico.

Por fim, Marco Morel chama-nos a atenção para a verdadeira incoerência do discurso igualitário maçônico. Fundamentando-se sobre uma forma aguda de distinção: os iniciados e os não iniciados, os que habitam as luzes e os que se mantêm nas trevas, a maçonaria acaba por colocar seus obreiros como qualitativamente superiores aos profanos[38].

Continua…

Autora: Françoise Jean de Oliveira Souza

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

Para ler a segunda parte do artigo, clique AQUI

Notas

[1] – Maurice Aguilhon, Peniténitents et frances-maçons de l´ancien provence:essai sur la socialité méridionale (Paris, France : Fayard, 1984); Célia M. M. de Azevedo, « Maçonaria: história e historiografia », Revista USP 32 (1996- 1997) ; Alexandre Mansur Barata, Luzes e Sombrasa ação da maçonaria brasileira (1870-1910) (Campinas, Brasil: UNICAMP, 1998); Barata, Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência (Brasil 1790-1822) (Tese Doutorado em História, Universidade Estadual de Campinas, Brasil, 2002); Jean Pierre Bastian, Protestantes,liberales y francmasones. Sociedades de ideas y modernidad en América Latina, siglo XIX (México D. F., México: Fondo de Cultura Económica, 1990); Eliane Lucia Colussi, A Maçonaria gaúcha no século XIX (Passo Fundo, Brasil: Ediupf, 1998); Marco Morel & Françoise Jean de Oliveira Souza, O poder da maçonariaA história de uma sociedade secreta no Brasil (Rio de Janeiro, Brasil: Nova-Fronteira, 2008); Luz Eugênio Vescio, O Crime do padre Sório: maçonaria e igreja católica no Rio Grande do Sul. (1893-1928) (Santa Maria-Porto Alegre, Brasil: UFRGS, 2000).

[2] – Francisco Falcon, “História e Poder”, Domínios da História, eds. Ciro Flamarion Cardoso & Ronaldo Vainfas (Rio de Janeiro, Brasil: Campus, 1997), 75.

[3] – Aguilhon

[4] – Remond, “Uma História presente”, Por uma história política (Rio de Janeiro, Brasil: Editora UFRJ, 1988).

[5] – Michel Foucault, Microfísica do Poder (Rio de Janeiro, Brasil: Edições Graal, 1979).

[6] – Para a elaboração deste estudo utilizamos escritos de diferentes datas, visto tratar-se da análise de divisas que, em sua forma, permaneceram iguais em diferentes locais e contextos históricos.

[7] – Patrick Gardiner, Teorias da História (Lisboa, Portugal: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995).

[8] – R. G. Collingwood, A ideia de História (Lisboa, Portugal: Presença, 1986).

[9] – Código Maçônico, Constituição, Regulamento geral, Leis Penal e Processual e Beneficência Maçônica (Rio de Janeiro, Brasil: Typografia do Ouvidor, 1914).

[10] – Biblioteca Nacional, Boletim do Grande Oriente do Brasil/GOB 1872, n°6, 194.

[11] – Ibid., 187.

[12] – Biblioteca da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, Noticiador de Minas. Ouro Preto, 1872, nº422, 2

[13] – Boletim do Grande Oriente do Brasil/GOB, 237.

[14] – Ibid., 194.

[15] – José Guilherme Merquior, O Liberalismo – antigo e moderno (Rio de Janeiro, Brasil: Nova Fronteira, 1991), 16

[16] – José Castellani & Raimundo Rodrigues, Análise da Constituição de Anderson (Londrina, Brasil: A Trolha, 1995), 53.

[17] – Ibid

[18] – Antônio. H. de Oliveira Marques, “História da Maçonaria em Portugal”, Das origens ao triunfo (Lisboa, Portugal: Presença, 1990), Vol., 1, 28.

[19] – Bastian.

[20] – Castellani & Rodrigues, 15.

[21] – Marco Morel, “Sociabilidades entre luzes e sombras: apontamentos para o estudo histórico das maçonarias da primeira metade do século XIX”, Estudos Históricos (Rio Janeiro, Brasil) 28 (2001): 3-22.

[22] – Oliveira Marques, Vol., 1, 28.

[23] – Castellani & Rodrigues, 15.

[24] – Oliveira Marques, Vol., 1, 28.

[25] – Regulamento Particular da Aug. Bem. E BENEF. Loj. Cap. “ Estrella Caldense” (Poços de Caldas, Brasil, 1934).

[26] – Castellani & Rodrigues, 49.

[27] – Ibid.

[28] – Terminologia maçônica referente aos casos de falecimento.

[29] – Regulamento Particular da Aug. Bem. E BENEF. Loj. Cap. “ Estrella Caldense”.

[30] – Barata, Luzes e Sombras: a ação da maçonaria brasileira (1870-1910), 159.

[31] – Castellani & Rodrigues, 49.

[32] – A Instituição para-maçônica caracteriza-se por ser criada, fomentada ou dirigida pela maçonaria e estruturada dentro dos preceitos da ordem, embora possua profanos dentre seus componentes e seja administrativamente autônoma em relação à ordem maçônica. Código Maçônico, Constituição, Regulamento geral, Leis Penal e Processual e Beneficência Maçônica, 6.

[33] – (inexiste)

[34] – Oliveira Marques, 291.

[35] – Castellani & Rodrigues, 41.

[36] – Barata.

[37] – Merquior.

[38] – Morel.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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2 respostas para Organização, Preceitos e Elementos da Cultura Maçônica: fundamentos para a introdução aos estudos da maçonaria – Parte I

  1. Nereu de Oliveira Maicá disse:

    BRILHANTE MATERIA. É UM BOM ESTUDO. TFA.’.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ronaldo José Luiz disse:

    Excelente estudo…Parabéns à autora pelo seu trabalho que muito me motiva aos estudos maçônicos…Gostaria de ter suas publicações em minha biblioteca para consultas…Agora vamos à parte II…grato…Que o GADU continue a iluminar sempre…Saúde. Ronaldo

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