O Contributo da Maçonaria para a Abolição da Escravatura – Parte IV

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Filantropia para libertação (continuação)

Abrahim Sena Baze, historiador e diretor do Instituto Cultural Fundação Rede Amazônica, conta, como outro exemplo, a atuação da maçonaria no Amazonas:

Na alforria cearense, aquele Estado possuía cerca de 35 mil escravos, enquanto que no Amazonas só existiam 1501 pessoas na escravidão. Aí é necessário contextualizar a presença da maçonaria nesse processo, pois os maçons trabalhavam para que a escravidão fosse extinta, inclusive comprando e dando liberdade a escravos. O interessante é que o governo amazonense daquele período dava dinheiro para que a maçonaria pudesse comprar escravos e libertá-los, tema, inclusive, de um livro que escrevi denominado Escravidão – Amazonas e Maçonaria escreveram sua história.[35]

Confirmando a atuação maçônica no Amazonas escreve Tenório D’Albuquerque[36]:

O Palácio do Governo foi o ponto da reunião dos abolicionistas, que, constituídos em assembleias, tinham os seus trabalhos dirigidos pelo próprio Presidente da Província. Foi nesta época que a Maçonaria Amazonense mais desenvolveu sua atuação. Promoveu diversos meetings e passeatas por ocasião de entregar as cartas de alforrias que obtinha pela propaganda e à custa dos seus cofres.
Nesse período que vai de 24 de abril a 10 de julho de 1884, ou sejam 77 dias de porfiadas conquistas contra o obscurantismo, a Loja Amazonas, fazendo público que abria os seus cofres para alforriar quantos escravos dos que existissem na província, e pondo a dedicação dos seus obreiros ao serviço da Liberdade, bem mereceu o título que lhe outorgara a distinção de Benemérita conferida pelo saudoso Grão-Mestre da Ordem, Generalíssimo Manoel Deodoro da Fonseca.

Páginas à frente Tenório D’Albuquerque informa mais sobre o Amazonas:

A Maçonaria dispôs-se a lançar na luta impetuosamente. Comprou (o jornal) O Abolicionista Amazonense, assumiu a direção com destemor e inseriu a seguinte declaração no jornal:
“A Loja Maçônica Amazonas e a Sociedade Libertadora 25 de Março assumem de mãos dadas a propriedade, gerência e direção desta folha, para disputar palmo a palmo o campo que ainda, infelizmente, ocupam os poucos que têm a crueldade de supor-se com direito de possuir um homem, que teve a desventura de ser vítima de uma injúria do destino. A “Libertadora” e a “Amazonas” tendem para os mesmos intuitos: realizar a grande aspiração do povo amazonense, restituir o direito roubado aos cidadãos escravizados pela prepotência do obscurantismo violento e brutal dos séculos idos”.

O Amazonas aboliu a escravidão em 24 de maio de 1884. O presidente do Conselho de Ministros, Lafayette Rodrigues Pereira, notável jurista, à exemplo de Sátiro Dias, também demitiu o maçom e governador da província, Dr. Theodureto Souto, por ter se colocado à frente da campanha abolicionista, colocando no lugar o Cel. Joaquim Sarmento.

Portanto, o que se pretende mostrar é como esse movimento filantrópico à favor do escravo abrangeu os quatro cantos do país e seguiu uma dinâmica parecida nesses locais, ora num movimento articulado e meticuloso.

Outro movimento importante que deve ser citado é o dos Caifazes, organizado pelo maçom Antonio Bento. Sobre esse movimento a Emília Viotti informa:

Os caifazes foram organizados por Antônio Bento(…). Organizou uma sociedade secreta com sede na confraria dos homens negros da Igreja Nossa Senhora dos Remédios, em São Paulo. (…)
Os caifazes denunciavam ela imprensa os horrores da escravidão, defendiam na Justiça a causa dos escravos, faziam atos públicos em favor da sua emancipação, coletavam dinheiro ara alforrias e rotegiam escravos fugidos. Suas atividades não aravam por aí.

Antonio Bento de Souza e Castro (1843-1898), filho de um farmacêutico paulistano, era visto como excêntrico por seus modos e sua aparência. Formado em Direito em 1868, Antonio Bento se tornou promotor público da comarca de Botucatu. Anos depois foi juiz municipal em Atibaia. Aos 29 anos já acumulava as funções de juiz e delegado de polícia, tornou-se figura controversa na cidade, especialmente por seus despachos favoráveis aos escravos, sustentando que era ilegal manter nessa condição os africanos introduzidos no país após as leis de 1831 e 1850. Desencadeava a fúria das elites locais quando costumava nomear abolicionistas para arbitrar o preço das cartas de alforria. Antonio Bento chegou a sofrer tentativas de assassinato, e em 1875 acabou demitido, por pressão dos desafetos.

Radicado em São Paulo desde 1877, dedicando-se à advocacia e ao jornalismo – vale citar aqui que, entre outros, do jornal A Redenção –, e nesse jornal conhece o abolicionista Luiz Gama em 1880. Dois anos depois juraria, diante do túmulo do amigo, ocupar seu lugar à frente da luta contra a escravidão. Mas estava disposto a agir por métodos distintos da batalha jurídica travada por Gama. Longe de suas funções oficiais, passaria de juiz a justiceiro, caindo nos braços da militância abolicionista mais aguerrida. Nascia ali a ideia de organizar os Caifazes.

E como enviavam os “libertados” para fora da cidade e outros procedimentos dos Caifazes, nos informa Maria Lucia Montes:

Negando o instrumento legal da alforria como única via de emancipação, o grupo valia-se da força e da astúcia para atacar diretamente a propriedade escrava. Para isso, contava com centenas de colaboradores anônimos. Organizados em pequenos grupos de ação nas cidades ou disfarçados de caixeiros-viajantes no interior – os chamados “cometas” –, promoviam fugas em massa das fazendas, roubavam escravos em casas de família e realizavam mirabolantes resgates em estações ferroviárias. Depois ajudavam os fugitivos a chegar a refúgios seguros, como o Quilombo do Jabaquara, organizado e mantido por abolicionistas santistas a partir de 1882, e por onde se calcula que passaram cerca de 10 mil escravos fugidos.
Um dos segredos de Antonio Bento para costurar sua vasta rede de solidariedade era circular por diferentes setores sociais. Se por um lado era integrante da Maçonaria, filiado à loja Piratininga, e provedor da poderosa Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios, convivendo de perto com membros da elite, também participava ativamente das confrarias religiosas negras de Nossa Senhora do Rosário, Santa Ifigênia e Santo Elesbão. O movimento dos Caifazes contava assim com a ação de magistrados, advogados, chefes de polícia, parlamentares, jornalistas, comerciantes, donos de armazéns, controladores da Alfândega, empregados em serviços de navegação costeira e de longo curso e até mesmo membros de famílias de fazendeiros e corretores de café, mantendo também, ao mesmo tempo, uma vigorosa rede de apoio popular.[38]

Por fim, configurarão numa ação filantrópica as sociedades e confederações abolicionistas, onde as mais notáveis não passaram livres de ter, entre seus membros, maçons. Assim como a já citada Loja Simbólica Acácia Riograndense, que formou a primeira Sociedade de Emancipação de Escravos do Brasil, houve outras proeminentes.

Em 1880, políticos importantes, como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio, maçons, criam, no Rio de Janeiro, a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, inspirada na British and Foreign Society for the Abolition of Slavery, essa sociedade brasileira estimulou a formação de dezenas de agremiações semelhantes pelo Brasil. Essas sociedades estavam ligadas à periódicos, como o Abolicionista, criado em 1880 pela Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, e na redação da Gazeta da Tarde, do maçom José do Patrocínio, na rua Uruguaiana, no centro da cidade, organizou-se, em 1883, a Confederação Abolicionista, associação que patrocinou inúmeros eventos contra a escravidão no Rio de Janeiro e congregava importantes associações emancipacionistas. Curiosamente, essa Sociedade e essa Confederação tiveram André Rebouças, mais um maçom, como tesoureiro. No Recife, os alunos da Faculdade de Direito mobilizam-se, sendo fundada uma associação abolicionista por alunos como Plínio de Lima, Castro Alves, Rui Barbosa, Aristides Spínola, Regueira Costa, dentre outros. No Rio Grande do Sul foi fundada a Sociedade Abolicionista Nabuco e no Ceará, a já citada, Sociedade Libertador Cearense.

A Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e a Confederação Abolicionista, tinham também um papel de fomentadoras para novas sociedades abolicionistas em outras cidades e estados, serviam de modelos para outras, mantendo estreitas relações entre elas. Como nos informa Mariana de Almeira Pícoli[39].

Influenciados pelo Clube Radical do Rio de Janeiro, em 1868, os liberais paulistas fundaram seu próprio clube, o Clube Radical Paulistano e assim a exemplo do carioca, um ano depois criaram o jornal Radical Paulistano. As reformas políticas e sociais que defendiam eram praticamente idênticas às formuladas pelo Clube Radical do Rio de Janeiro. Entre elas, a substituição do trabalho escravo pelo livre.
Luiz Gama [maçom], um de seus mais respeitados redatores, exaltava nas páginas do jornal as iniciativas emancipacionistas do Imperador. As lojas maçônicas constituíram-se em importantes frentes de combate à escravidão. Desempenharam papel significativo no movimento emancipacionista paulista. Notadamente, a Loja América, cujos esforços filantrópicos eram reconhecidos pelos jornalistas do Radical Paulistano, teve suas ações antiescravistas propagadas nas duas décadas que antecederam à promulgação da Lei Áurea.
A loja constituiu-se em poderoso espaço de discussões favoráveis à reforma nas relações escravistas. Compareciam em suas reuniões figuras importantes do cenário emancipacionista em São Paulo, estudantes e professores da faculdade de Direito simpáticos à causa. Nomes como Rui Barbosa, José Bonifácio, o moço, Luiz Gama e Saldanha Marinho apareciam com frequência publicamente divulgando as ações da organização.
Da Loja América partiam atividades variadas em prol da emancipação, pode-se destacar entre elas o financiamento de ações de liberdade para escravos contra seus senhores; a concessão de alforrias, compradas com verbas do fundo de emancipação que mantinha através de doações de seus sócios e membros; e ainda, possuía uma associação libertadora de escravos onde promoviam diversos eventos públicos a fim de arrecadar dinheiro para manumissões e divulgar ideias antiescravistas. Consoante Elciene Azevedo, a organização estabelecia vínculos com outras associações libertadoras independentes que existiam em São Paulo, como é o caso da Sociedade Emancipadora Fraternização Primeira e a Sociedade Redentora. As medidas empreendidas pela Loja América e suas filiadas eram de caráter fundamentalmente emancipacionista, pois havia uma preocupação em não radicalizar o processo de transição do trabalho escravo para o livre. O que corrobora com o pensamento político dominante neste período e com as discussões realizadas no parlamento imperial. A concessão de liberdade através do fundo de emancipação e das ações de liberdade reforça tal concepção.

Ronaldo Ribeiro Jacobina também cita o papel fomentador dessas Sociedades Abolicionista na Bahia, em um artigo para a Faculdade de Medicina da Bahia (FMB)-UFBA[40]:

A Sociedade Libertadora Baiana era uma organização da sociedade civil, fundada em 8 de março de 1883, que congregava os abolicionistas baianos. É possível que outros professores e estudantes abolicionistas da Faculdade também fossem membros. Em novembro de 1882, José do Patrocínio em viagem ao Ceará, um grande reduto abolicionista do país, esteve em Salvador e fomentou a criação dessa associação libertária.
Patrocínio foi recebido como herói, sendo carregado do cais ao Hotel Bonneau, onde ficou hospedado. No Liceu de Artes e Ofício fez uma conferência que terminou com um apelo aos participantes para contribuírem pela libertação de uma escrava, cujo filho tinha sido beneficiado com a Lei do Ventre Livre, de 1871.
Logo depois de criada a Sociedade Libertadora Bahiana, foi fundada no Rio de Janeiro, a Confederação Abolicionista, em 10 de maio de 1883, que buscava reunir as associações abolicionistas de todo o país, tendo João Clapp como presidente.

Além de fomentar outras sociedades, outro papel dessas Sociedades, era a de representar os interesses dos abolicionistas e trocar experiências com sociedades internacionais, entre elas a British and Foreign Society for the Abolition of Slavery e o Comitê de Emancipação da França, entidade que, segundo Castellani[41], “a maçonaria francesa participava através do Grande Oriente da França”.

Como presidente da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, Joaquim Nabuco enviou cartas, ao ministro norte-americano H. W. Hilliard, interessado em saber como estava a relação dos ex-escravos com seus antigos senhores, o estado da agricultura sob o regime de contratos de trabalho, enfim, sobre a economia daquele país após a abolição da escravidão.

Nabuco enviava ao ministro Hilliard também o Manifesto Abolicionista, e as informações recebidas dele davam conta do sucesso em todos os âmbitos da abolição nos EUA. Mr. Hilliard exaltava os benefícios trazido pela abolição e como lá, ao contrário do que todos aqui temiam, a abolição não faliu o país. Essas boas-novas Nabuco publicava em 1880, para o bem da campanha abolicionista, desmistificando os argumentos escravagistas.

Nabuco também enviava cartas para a British and Foreign Society for the Abolition of Slavery, mantendo contato com Charles Harris Allen, secretário da Sociedade, e outros abolicionistas britânicos, ao longo da década de 1880 e posteriormente, como informa Leslie Bethell e José Murilo de Carvalho[42]:

Um dos aspectos menos estudados da luta de Joaquim Nabuco contra a escravidão é sua relação com os abolicionistas britânicos. Essa relação aparece em geral como algo secundário, como um recurso para cobrir os intervalos em que ele era excluído da Câmara. As 110 cartas incluídas neste livro, trocadas entre ele e os abolicionistas britânicos, indicam coisa diferente. O contato entre eles significou uma parceria buscada conscientemente por Nabuco com a finalidade de expandir a arena da luta para o cenário internacional. Melhor dito, para o centro da economia e do poder mundial na época. Como mostram as cartas, a tática foi plenamente exitosa.

A primeira Sociedade abolicionista britânica foi fundada por George Fox, a Sociedade dos Amigos, também conhecida como “Quakers”. Essa sociedade evoluiu, em 1823, para Society for the Migration and Gradual Abolition of Slavery throughout the British Dominios, ou somente Anti-Slavery Society e a British and Foreign Society for the Abolition of Slavery, criada em 17 de abril de 1839, era um braço da Anti-Slavery Society.

A Anti-Slavery Society existe até hoje, e no site oficial dessa Society encontra-se um artigo sobre a fundação da British and Foreign Society for the Abolition of Slavery:

The organisation was founded in 1839. The following year a large international conference was organised that attracted delegates from around the world to the Freemasons’ Hall43, London on June 12 1840. Many of the delegates were notable abolitionists and the image of the meeting was captured in a remarkable painting that still hangs in the National Portrait Gallery in London.
Delegates included: George William Alexander (Treasurer), William Allen, Saxe Bannister (Australian), Rev. Thomas Binney, James G. Birney U.S. delegate, Samuel Bowly, Sir John Bowring, George Bradburn, Rev. William Brock, Sir Thomas Buxton, Anne Isabella Byron, Baroness Byron, Thomas Clarkson (key speaker), Josiah Conder, Daniel O’Connell (Irish), John Ellis, Josiah Forster, Robert Kaye Greville, William Forster, Elizabeth Fry, Samuel Gurney, John Howard Hinton, John Angell James, Rev. Joseph Ketley (Guyana), William Knibb, Dr. Stephen Lushington M.P., Dr. Richard Robert Madden, James Mott (American), Lucretia Mott (American), Amelia Opie, Wendell Phillips, Samuel J. Prescod (Barbados), John Scoble (Canada), Joseph Sturge (founder), George Thompson and Sir John Eardley-Wilmot M.P..[44]

O Freemason’s Hall era o local ideal para realizar a convenção de 1840, pois poderia congregar diversas delegações vindas de todo mundo, onde ali, quakers, católicos, batistas, muçulmanos estariam num território neutro, pois a maçonaria prega a crença apenas num único Deus, os maçons se referem a Ele apenas como O Grande Arquiteto do Universo, ou GADU.

Desde a menção feita por Nabuco na Câmara, sobre a questão da St. John del Rey Mining Company em 1879 (empresa inglesa que mantinha escravos nas minas do Brasil), que repercutiu na Europa provocando a reação da Anti-Slavery Society, Nabuco e outros abolicionistas passaram a ter prestígio nessa Society e despertaram para a importância da opinião pública internacional em favor da abolição. Mesmo com a pressão Inglesa nos portos e o “Bill Aberdeen”, no Brasil, a opinião pública ainda não estava mobilizada nessa campanha. Claro que a pressão internacional, principalmente a inglesa, tinha seu peso para as decisões do Império, o apelo da Junta Francesa de Emancipação de 1866 e a mensagem ao povo brasileiro da Associação Abolicionista Internacional de Paris de 1869 contribuíram para reforçar a decisão imperial de levar adiante a aprovação da Lei do Ventre Livre. Era o período final da Guerra do Paraguai, Zacarias de Góes, chefe do Gabinete de Ministros, respondia, então, em nome do governo, atenciosamente, esclarecendo que, após a Guerra, a questão dos escravos seria tratada com carinho.

Apesar da presença de um escravista na presidência do Conselho, a maré abolicionista subia rapidamente e o movimento atingia seu ponto mais alto. O imperador, doente, achava-se em tratamento na Europa e a regente Isabel manifestava clara simpatia pela abolição. Multiplicavam-se as fugas de escravos. O Clube Militar pedia a Isabel que não utilizasse o Exército na captura de escravos fugidos. Sentindo próxima a vitória, Nabuco viajou em novembro para a Europa. Mas dessa vez mirava mais alto, seu principal objetivo era ir à Itália para solicitar ao papa Leão XIII que publicasse uma bula condenando a escravidão. Calculava que, diante da conhecida religiosidade de Isabel, se o papa falasse, ela obedeceria. Seus amigos da Anti-Slavery Society lhe conseguiram uma carta de apresentação do cardeal Manning, arcebispo de Westminster, chefe da Igreja Católica na Grã-Bretanha (21.12.1887 e 4.1.1888). A audiência aconteceu em 10 de fevereiro. Leão XIII recebeu-o com simpatia e prometeu uma encíclica condenando a escravidão para antes da abertura das câmaras, tradicionalmente feita no início de maio. A diplomacia de Cotegipe conseguiu, no entanto, adiar sua publicação. Mas o relato da entrevista, com a promessa do papa, escrito pelo próprio Nabuco, tinha sido publicado em O País, e tornara-se de conhecimento geral.
(…)
Uma das primeiras medidas tomadas pela Sociedade Brasileira contra a Escravidão foi fazer traduzir seu manifesto para o inglês e o francês, e enviá-los, junto com o anúncio de sua fundação, às congêneres no exterior, aí incluída a Anti-Slavery Society. A escolha da Anti-Slavery Society como principal interlocutora era lógica. Ela era a mais conhecida sociedade abolicionista do mundo, localizava-se no centro do grande império britânico e na cidade amada por Nabuco, e tomara a iniciativa de entrar em contato com os brasileiros. Como vimos, a resposta da associação britânica, pela voz de seu secretário, não se fez esperar. Além de se congratular com a coirmã brasileira, a Anti-Slavery aprovou plenamente o manifesto e prometeu intercâmbio de informações e cooperação. Não se esqueceu de mencionar que a troca de informações contribuiria para o melhor conhecimento da situação brasileira na América e na Grã-Bretanha.
Em Londres, Nabuco e a Anti-Slavery Society montaram um esquema eficiente de propaganda da luta abolicionista. O brasileiro passava as informações a Allen que se encarregava de as colocar na imprensa, sobretudo no influente The Times. Quando não conseguia, publicava-as em sua própria revista, o Anti-Slavery Reporter. O Times era o veículo ideal pela influência que exercia dentro e fora da Grã-Bretanha. O próprio Nabuco disse em uma das cartas: “no Brasil, o Times é considerado a voz da civilização” (17.7.1883). Em carta de 11 de junho de 1885 ao editor do jornal, publicada no dia 12, Allen repetiu essa opinião, observando que a publicidade no Times representava grande ajuda aos esforços dos abolicionistas brasileiros porque “os fazendeiros [planters] são particularmente sensíveis às críticas do povo inglês” (22.6.1885). O jornal tinha clara postura abolicionista e raramente se recusava a publicar as matérias enviadas por Allen que as extraía das cartas de Nabuco. Quando o jornal publicava alguma matéria desfavorável, Nabuco inquietava-se e insistia em responder. É um tanto duvidoso que os fazendeiros em geral fossem de fato tão sensíveis às criticas do jornal, mas a elite política brasileira certamente o era.
A Anti-Slavery Society ajudava também levando Nabuco a participar de congressos internacionais. Em 1883, ela financiou a participação dele na 11ª Conferência da International Law Association, dedicada à reforma dos direitos das gentes, realizada em Milão (28.7.1883; 4.8.1883 e 24.8.1883). Nova reunião dessa Associação realizou-se em Londres em 1887, com sua participação (19.7.[1887]). Os dois congressos aprovaram moções de Nabuco contra a escravidão. Tais arenas ampliavam muito o alcance da campanha. Em outra frente, Allen conseguiu um convite para uma recepção na casa do influente William Gladstone, várias vezes primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Às vésperas da abolição, os quakers da Anti-Slavery Society ainda lhe arranjaram uma carta de apresentação escrita pelo cardeal Manning para lhe facilitar conseguir audiência com Leão XIII.[45]

E foi em 1883, numa dessas viagens à Londres, que Nabuco escreve O Abolicionismo, onde critica a classe dominante por sua atitude diante da grave situação social que a escravidão trazia.

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[35] – BASE, Abrahim Sena. Resgate da história dos portugueses na região. Amazon View, Amazonas. Entrevista concedida a Amazon View.

[36] – D’ALBUQUERQUE, A. Tenório. A maçonaria e a libertação dos escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970

[37] – COSTA, Emília Viotti da. A ABOLIÇÃO. São Paulo: UNESP, 2008.

[38] – MONTES, Maria Lucia. Quando o crime compensa. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2009

[39] – PÍCOLI, Mariana de Almeida. Ideias de liberdade na cena política capixaba: o movimento abolicionista em Vitória (1869/1888). 2009. 142 fls. Dissertação (Mestrado Centro de Ciências Humanas e Naturais). Universidade Federal do Espírito Santo, Espírito Santo.

[40] – JACOBINA, Ronaldo Ribeiro. Sérgio Cardoso (1858-1933): um acadêmico de medicina abolicionista e republicano. Gazeta Médica da Bahia. Bahia, UFBA, 94-103, 2008.

[41] – CASTELLANI, José. Os maçons e a abolição da escravatura. Londrina: A Trolha, 1998.

[42] – BETHELL, Leslie; CARVALHO, José Murilo de, Org. Joaquim Nabuco e os abolicionistas britânicos (Correspondência, 1880-1905). Rio de Janeiro: Topbooks, 2008.

[43] – Quartel General da Grande Loja de Londres.

[44] – Anti-Slavery Org.

[45] – BETHELL, Leslie; CARVALHO, José Murilo de, Org. Joaquim Nabuco e os abolicionistas britânicos (Correspondência, 1880-1905). Rio de Janeiro: Topbooks, 2008.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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