Maçonaria: História e Historiografia – Parte I

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Durante todo o século XIX são inúmeras as referências à atuação da maçonaria no Brasil. A julgar pelos testemunhos históricos de contemporâneos e pelas narrativas deixadas pelos primeiros historiadores do Brasil seria difícil encontrar um político do primeiro e do segundo Reinado, ou mesmo dos anos iniciais da República, que não tivesse em algum momento de sua vida se filiado a uma loja maçônica. Entretanto, com exceção de alguns estudos a esse respeito, a história da maçonaria é ainda pouco conhecida no nosso presente, não tendo chegado a se constituir em tema corrente de pesquisas acadêmicas [1].

O desinteresse, ou melhor, o silêncio atual em torno da história da maçonaria é particularmente intrigante ao atentarmos, por um lado, para a visibilidade dos maçons nos escritos de diversos matizes produzidos ao longo do século XIX e, por outro, para o modo como aqueles mesmos personagens históricos foram destituídos de sua identidade maçônica nos estudos acadêmicos das últimas décadas. Embora as referências à filiação maçônica de tal ou qual personagem continuem a constar dos estudos históricos produzidos no âmbito da universidade, o seu registro se assemelha a um daqueles adjetivos inseridos casualmente em uma frase e cuja retirada não faria a menor falta na medida em que pouco contribui para estabelecer o nexo explicativo de uma questão.

O ponto de partida deste artigo, portanto, é o problema da perda de visibilidade da maçonaria na história do Brasil. Para começar a elucidar este problema, percorreremos, em primeiro lugar, alguns dados da maçonaria e sua história geral e, especialmente, sua história no Brasil; em segundo lugar, vamos examinar os modos de abordagem da maçonaria por parte de três historiadores cujos trabalhos imprimiram tendências duradouras na historiografia do Brasil monárquico. São eles: Francisco Adolfo de Varnhagen, Manuel de Oliveira Lima e Caio Prado Jr.; e em terceiro lugar, veremos os novos rumos da historiografia ocidental sobre a maçonaria, assinalados em particular pelas contribuições recentes de Margaret C. Jacob, historiadora dos Estados Unidos[2].

A Maçonaria e sua História

Seria uma tarefa vã querer precisar o momento de fundação da maçonaria, uma vez que suas origens se perdem em um passado povoado de mitos e lendas, remontando ao rei Salomão e outros personagens do Velho Testamento, a começar de Adão, apontado em algumas versões como o primeiro maçom. Segundo Paul Naudon, há entretanto um ponto de concordância entre seus estudiosos quanto à filiação direta da franco-maçonaria moderna (a maçonaria especulativa) à antiga maçonaria de ofício (a maçonaria operativa)[3].

A franco-maçonaria pode ser considerada como a continuação por um lado, e a transformação por outro, da organização de ofício da Idade Medieval e da Renascença quando o elemento especulativo se sobreleva ao elemento operativo. Isto não significa, porém, dizer que as organizações de ofício da Antiguidade tenham sido puramente operativas ou profissionais. Como enfatiza Naudon, a tendência à especulação no sentido da investigação teórica, da reflexão, já se fazia presente nas finalidades das antigas corporações, uma vez que entre os povos antigos todos os atos da vida se confundiam com a religião. O trabalho mesmo se revestia de um caráter sagrado, constituindo-se na própria imagem renovada da criação dos seres e das coisas pela divindade[4].

Entretanto é preciso esclarecer as raízes etimológicas do termo franco-maçonaria, o que nos permitirá uma melhor compreensão a peculiaridade das sociedades de franco-maçons em relação a outras guildas existentes durante a época medieval. Segundo Naudon, paralelamente aos artesãos reunidos em ofícios regulares ou jurados, isto é, ofícios que se organizaram a partir do século XIII sob a égide de um feudo ou de uma cidade, havia outros artesãos que escapavam a todas as obrigações e sujeições
locais, usufruindo da liberdade de circulação. O único poder então existente capaz de conceder tais privilégios, ou seja, as franquias, era a Igreja. E foi sob a sua tutela que se desenvolveram essas confrarias laicas de artesãos privilegiados conhecidos na época como os francs-mestiers. Os textos mais antigos nos quais se faz menção a esses artesãos itinerantes, devotados às mais diversas atividades de construção, foram encontrados na Inglaterra ao tempo em que o francês era a língua oficial, e também a língua dos ofícios. Assim, além do termo francs-mestiers, consta em documento de 1376 o termo ffremason; em 1381, masonfree; em 1396, ffremaceons[5].

Assim como em outras organizações de ofício, os traços especulativos das sociedades de franco-maçons mesclavam-se às suas bases operativas. As preocupações de ordem teórica e cultural como a solidariedade de culto, os deveres religiosos e filantrópicos, o papel educativo ou de transmissão de vastos saberes como a geometria, a arte, a filosofia e a teologia aos seus filiados estiveram sempre presentes entre as metas profissionais. Mas, gozando de privilégios desconhecidos em outras confrarias de ofício, os franco-maçons aprofundaram rapidamente o caráter especulativo de suas organizações. Isto se deu sobretudo a partir do ingresso de membros “aceitos”, ou seja, estranhos porém agregados à profissão, entre eles filósofos hermetistas e alquimistas.

Como explica Naudon, a franco-maçonaria, com suas franquias, seus mestres ilustrados e contando ainda com a proteção de poderosos, exercia especial atração sobre os espíritos estudiosos, desejosos de aprofundar seu saber e de revelar livremente suas próprias reflexões sem incorrer em suspeitas. Além disso, a franco-maçonaria atraía intelectuais pelo próprio caráter itinerante de seus trabalhos. Durante a Idade Média e início da Renascença, a maçonaria era o único ofício não localizado, mantendo laços organizativos entre cidades e mesmo entre países, o que garantia a proteção e a acolhida de irmãos em trânsito[6].

Este processo de transformação da antiga maçonaria operativa em moderna maçonaria especulativa se completa na Grã-Bretanha no início do século XVIII, primeiramente em lojas escocesas e em seguida em lojas inglesas. Nesse momento o número de membros “aceitos”, isto é, estranhos ao ofício, passa a ser tão considerável que os antigos critérios operativos de ingresso nas lojas perdem a sua razão de ser. Segundo Margaret C. Jacob, a nova maçonaria expressava o surgimento de uma nova cultura secular. As pessoas ganhavam ingresso nas lojas maçônicas da Escócia e Inglaterra não devido às suas ocupações ou status per se, mas devido à sua maneira de ser. Requeria-se apenas que os irmãos fossem alfabetizados, de bom caráter e capazes de arcar com cotizações substanciais[7].

Para Jacob não foi por acaso que essa nova forma de sociabilidade emergiu na Grã-Bretanha. Nesse país os ofícios e guildas entraram em declínio já a partir do século XVII, bem antes de que o mesmo ocorresse no continente europeu. Ao mesmo tempo desenvolvia-se a economia de mercado muito mais rapidamente na Grã-Bretanha do que no resto da Europa. Isso se refletia inclusive no modo de relacionamento social, mais aberto e menos formal, entre aristocracia, pequena nobreza e comuns[8].

Apesar das suspeitas que esta nova forma de sociabilidade despertava, sobretudo em países católicos, a maçonaria de “irmãos livres e aceitos” se expandiu rapidamente pelo continente europeu. Em meados do século XVIII havia lojas maçônicas na maioria dos países da Europa ocidental, sobretudo na França. Estima-se que havia cerca de dez mil maçons vivendo em Paris na década de 1770. Em fins do século XVIII esta “migração cultural” maçônica – nas palavras de Jacob – já se espalhava pelos Estados Unidos, colônias da América espanhola e portuguesa e Rússia[9].

No Brasil há notícias da existência de maçons desde fins do século XVIII, com envolvimento na Inconfidência Mineira e depois na Conjuração Baiana de 1798[10]. Mas o que se tem por certo é que a primeira loja brasileira, Reunião, foi criada em 1801 no Rio de Janeiro vinculada ao Oriente da Ilha de França. No ano seguinte fundou-se uma segunda loja na Bahia, Virtude e Razão. Em 1804 foi a vez do ingresso da maçonaria portuguesa no Rio de Janeiro, constituindo-se duas lojas, Constância e Filantropia, sob a égide do Grande Oriente da Lusitânia.

Os anos que se seguiram revelam uma história de relacionamento ambíguo e inconstante entre os organismos maçônicos e as altas esferas do governo. Durante os últimos anos da colônia portuguesa, e depois já como país independente, alternaram-se fases de perseguições policiais e proibições oficiais à maçonaria e fases de tolerância, permissão e mesmo participação ativa de altas autoridades políticas em suas lojas, como foi o caso de d. Pedro I, José Bonifácio de Andrada e Silva e o visconde do Rio Branco. Ao mesmo tempo percebe-se uma história de rivalidades internas na presença concomitante de lojas de obediência distinta, quer no plano internacional, quer no plano nacional.

Em 1835 a maçonaria no Brasil dividia-se em quatro Supremos Conselhos e dois Grandes Orientes, a saber: o Grande Oriente do Brasil, criado em 1822 e depois reconstituído em 1831 sob a direção do grão-mestre José Bonifácio de Andrada e Silva; o Grande Oriente Brasileiro, instituído também em 1831, de obediência ao rito francês moderno; o Supremo Conselho Brasileiro, fundado em 1832 por Francisco Gê Acaiaba de Montezuma, visconde de Jequitinhonha, sob a autoridade do Supremo Conselho da Bélgica e mediante a introdução dos Altos Graus do rito escocês; em reação a esse último, cada um dos dois Grandes Orientes mencionados constituíram os seus Supremos Conselhos; e, por fim, um quarto Supremo Conselho surge de uma cisão de um dos Grandes Orientes.

Ao longo dos anos 1830, 1840 e 1850 as primeiras lojas filiadas à maçonaria inglesa são instituídas em Pernambuco e Rio de Janeiro, vindo portanto se somar às lojas existentes que, como vimos, tinham vínculos com as maçonarias francesa, belga e portuguesa.

Em 1860 uma nova fase de intervenção governamental impõe novos desenvolvimentos às rivalidades maçônicas. D. Pedro II decreta a dissolução do Grande Oriente Brasileiro e seu Supremo Conselho, deixando o campo livre para o primeiro Grande Oriente. Entretanto, em 1863 uma nova cisão divide o Grande Oriente do Brasil. As duas novas Obediências foram designadas de acordo com as localizações de suas sedes no Rio de Janeiro. Por um lado, constituiu-se o Grande Oriente do Lavradio sob a direção do grão-mestre Bento da Silva Lisboa, segundo barão de Cairu. Nos anos de 1870 a direção desta Obediência coube a José Maria da Silva Paranhos, visconde de Rio Branco. Por outro lado, fundou-se o Grande Oriente dos Beneditinos sob a direção do grão-mestre Joaquim Saldanha Marinho.

A Questão Religiosa da década de 1870, quando a Igreja Católica põe em causa o direito de existência da maçonaria, determina uma reaproximação entre os dois Grandes Orientes rivais. Eles voltam a se fundir em 1883 sob a denominação de Grande Oriente Supremo Conselho do Brasil[11].

A história das rivalidades e cisões da maçonaria brasileira, pautada por diferentes vínculos nacionais e internacionais, não termina aqui e muito menos se esgota na exposição destes dados de superfície. Entretanto, mesmo superficiais e pouco elucidativos, eles nos permitiram traçar o pano de fundo necessário para que comecemos a perceber a dimensão dos interesses e aspirações em jogo no cotidiano das lojas maçônicas e seus organismos superiores.

Em conclusão a este item, podemos destacar três pontos relevantes que nos conduzem a uma percepção de um aspecto fundamental da história maçônica, porém ainda muito pouco reconhecido: a dimensão social e cultural da maçonaria. São eles:

  • o caráter cosmopolita da maçonaria, com suas conexões organizativas e migrações culturais entre cidades, países e continentes;
  • a utopia da fraternidade como impulso à organização entrelaçada de lojas maçônicas em níveis nacional e internacional; e como base de convivência intelectual entre pessoas, não obstante diferenças sociais de origem;
  • as rivalidades internas e disputas em torno do apoio de governantes a romper constantemente a sociabilidade maçônica.

Percursos Historiográficos

De um modo geral, os historiadores brasileiros do passado e do presente reconhecem o envolvimento de maçons em diversos movimentos políticos ocorridos ao longo do século XIX. Entretanto o papel da maçonaria, isto é, o seu significado histórico, é avaliado de modo distinto por uns e outros.

Há muito que a maçonaria deixou de ser tema corrente de estudos históricos, tornando-se tão-somente um assunto de maçons, ou quando muito o tema obrigatório de autores maçons interessados em construir uma história maçônica do Brasil. Entretanto, os estudos históricos acadêmicos do presente nunca deixam de mencionar a maçonaria, uma vez que determinados episódios, como a Questão Religiosa do início da década de 1870, seriam incompreensíveis se não houvesse referências aos conflitos entre maçons e Igreja Católica. Para romper com essa postura ambígua da historiografia do presente, que reconhece a presença da maçonaria na nossa história, sem porém se aprofundar ao nível de pesquisas e estudos acadêmicos a respeito, é preciso inquirir sobre o significado da maçonaria ao longo do processo de constituição da nação brasileira. Para isso será necessário tentar recuperar a história da maçonaria no século XIX, alargando-se porém o olhar instituído pelos nossos primeiros historiadores, cujos horizontes não iam muito além da participação da maçonaria nos grandes eventos políticos e seus bastidores.

Ao contrário dos historiadores do presente, os historiadores nascidos no século XIX reconhecem a maçonaria como uma instituição organicamente ligada aos movimentos políticos de seu tempo. Com isso quero dizer que esses historiadores antigos conferem à maioria das lideranças políticas uma identidade maçônica, sem o que
não se poderia compreender a essência das suas ações e pensamento.

Começaremos, portanto, por historiadores nascidos no século XIX, e cujos estudos assinalam a presença constante, e marcante, de maçons no mundo da política. Em seguida vamos buscar o enfoque historiográfico mais recente nos escritos de Caio Prado Jr., o qual assinala a passagem da história da maçonaria para a sua condição atual de invisibilidade.

Continua…

Autora: Celia M. Marinho de Azevedo

Fonte: Revista USP

Célia é é graduada em jornalismo (1974) e em ciências sociais (1983), ambos pela Universidade de São Paulo; mestre em história (1985) pela Universidade Estadual de Campinas; M. Phil. (1991) e PhD em história (1993), ambos pela Columbia University, New York, Estados Unidos. É professora doutora aposentada da UNICAMP.

Para ler a segunda parte do artigo, clique AQUI

Notas

[1] – Quando a autora escreveu este artigo ela estava desenvolvendo dois projetos de pesquisa nesse sentido: “Identidade, Cultura e Sociabilidade: uma História Social da Maçonaria no Brasil (Século XIX)”, com apoio da Unicamp e do CNPq; e “O Negro e a Maçonaria no Brasil (Século XIX)”, com apoio da Unicamp, do Centro de Estudos Afro-Asiáticos e da Fundação Ford.

[2] – Há uma vasta bibliografia específica sobre a história da maçonaria com enfoque partidário, isto é, a favor ou contra a maçonaria. Escritos deste teor têm sido uma tendência constante desde as origens da maçonaria chamada especulativa em diversos países, o Brasil inclusive. Neste artigo, porém, eu tratarei somente de estudos históricos produzidos no âmbito acadêmico.

[3] – Paul Naudon, La FrancMaçonnerie, Paris, Presses Universitaires de France, 1963, pp. 9-13.

[4] – iIdem, ibidem, pp. 14-7.

[5] – iIdem, ibidem, pp. 20-2.

[6] – Idem, ibidem, pp. 24-7.

[7] – Margaret C. Jacob, Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth Century Europe, New York, Oxford University Press, 1991, p. 31; e também Naudon, op. cit., pp. 27-30.

[8] – Jacob, op. cit., p. 31.

[9] – Idem, ibidem, p. 73; a população de Paris em 1770 oscilava entre 500 e 600 mil habitantes segundo Jacob. Ver também a respeito desta migração cultural: P. Naudon, op. cit., pp. 35-43, 64-8; e R. R. Palmer, The Age of the Democratic Revolution: a Political History of Europe and America, 1760-1800, 2 vols., Princeton, NJ, Princeton University Press, 1959 e 1964, especialmente o segundo volume. A primeira bula papal desautorizando a maçonaria data de 1738.

[10] – Joaquim Felício dos Santos, Memórias do Distrito Diamantino, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1976; Affonso Ruy, A Primeira Revolução Social Brasileira, Rio de Janeiro, Laemmert, 1970; Célia de Barros Barreto, “Ação das Sociedades Secretas”, in História Geral da Civilização Brasileira: o Brasil Monárquico, tomo II, vol. I, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1993; Emília Viotti da Costa, “Introdução ao Estudo da Emancipação Política do Brasil”, in Da Monarquia à República: Momentos Decisivos, São Paulo, Ciências Humanas, 1979.

[11] –  Esses dados foram compilados com base no verbete “Brésil” de André Combes (in Daniel Ligou, Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie, Paris, Presses Universitaires de Frances, 1987). Para uma lista de maçons brasileiros, segundo publicação maçônica recente, ver: Nicola Aslan, Pequenas Biografias de Grandes Maçons Brasileiros, Rio de Janeiro, Ed. Maçônica, 1973; o autor pertence à Academia Maçônica de Letras.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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