Nietzsche e a morte de Deus

As doutrinas esotéricas sugerem que nos primórdios da criação, a humanidade compartilhava dos mesmos símbolos arquetípicos, razão pela qual havia uma unidade cultural que unificava os grupos humanos e os fazia partícipes de um mesmo destino. Nesses áureos tempos, havia uma língua universal, falada por todos os povos, e a humanidade vivia em paz, sob os olhares de deuses bondosos e complacentes.

Foi a partir da multiplicação das línguas que tudo mudou, e nesse dia o mal entrou na terra. Isso é o que dizem as antigas tradições e a Bíblia, no episódio da Torre de Babel, atesta essa velha memória como sendo a experiência básica que destruiu a unidade da raça humana e implantou as diferenças que até hoje se observam.

É possível que o mal tenha realmente entrado no universo quando os homens começaram a “fazer” história, ou seja, a partir do momento em que passaram a compor exercícios semióticos variados, como consequência da multiplicidade de linguagens que se instalou na terra com a multiplicação das famílias humanas. Por essa razão os símbolos deixaram de ser comuns e Deus afastou-se dos homens, pois desse momento em diante, sua história não seria mais que um reflexo das suas próprias consciências, não mais refletindo a Consciência Dele.

É provável, também, que até certo momento na vida dos grupos que povoaram a terra, tivesse sido possível para os homens captar o reflexo da Consciência Divina e com isso interferir nas próprias ações da natureza. Mas isso, como se pode perceber, deixou simplesmente de acontecer a partir de certa época.

É certo que até os tempos de Josué, pelo menos a Bíblia está a indicar isso, Deus parecia estar bem presente na história humana. Grosso modo, parece que a intervenção divina, imobilizando o sol no firmamento para que os israelitas pudessem vencer os amorreus e depois marchar em volta das muralhas de Jericó para derrubá-las com o som de suas trombetas, foi uma das últimas ações diretas da Divindade na história dos homens. Depois dela as intervenções pessoais de Deus na terra escassearam e a partir de certa época não se falou mais nisso. Deus passou a falar com os homens através de seus profetas, isto é, não mais diretamente, como antes fazia, quando se manifestava em tudo e em todos, de tal forma que suas figurações eram tantas que se podia dizer que os antigos povos tinham mais deuses que população.

A doutrina cristã sugere que Deus deixou de falar com o homem “face a face”, como fazia nos tempos bíblicos, em virtude de Ele ter mandado à terra seu próprio filho, que seria o primeiro e último verdadeiro enviado divino, o Cristo. Depois da vinda de Jesus, Deus não precisou mais falar com os homens diretamente, pois toda comunicação entre o céu e a terra seria feita pela Igreja que ele fundou. Esse postulado encontraria fundamento nas palavras de Jesus: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” e na tese que fundamenta as pretensões da Igreja de Roma, segundo a qual Jesus teria dado a Pedro a incumbência de ligar a terra ao céu, e esse prerrogativa ele teria repassado ao Papa.

Aos ouvidos de Nietszche tudo isso soava como uma grosseira usurpação. Entendia ele, que a partir do momento em que os hebreus se apropriaram do conceito de Deus e fizeram de si mesmos os seus eleitos sobre a terra, na verdade eles “mataram” a verdadeira divindade ─ ou seja, a ideia da existência de uma energia que formata e organiza o universo ─ e a substituíram por uma Entidade amorfa e mesquinha que reflete o homem em sua mais abjeta condição. Assim, o Deus judaico-cristão, no entender do polêmico filósofo alemão, nada mais era do que uma cópia modelada no velho patriarca dos antigos clãs, que refletia suas virtudes e defeitos, enquanto as deidades dos antigos povos, que viam a divindade nas forças da natureza, especialmente o sol, eram bem mais representativas e estavam muito mais próximas da ideia que se deve ter de um verdadeiro Deus.

Assim, a partir da oficialização de uma religião como sendo a única verdadeira na face da terra, tudo acontece como se a divindade se desinteressasse do destino dos homens, provocando uma ruptura entre os dois estratos que formam o universo: o divino e o profano. Então matéria e espírito também se separam em duas realidades diferentes e às vezes antagônicas, cada uma vivendo em substratos diversos, com necessidades que muitas vezes se chocam. Dai o surgimento das moléstias psíquicas, causadas por esse descompasso. E também a ansiedade do homem moderno para voltar a esse mundo de harmonia, beatitude e paz que havia antes da queda, ansiedade essa que ele reflete na multiplicidade de religiões e teorias que ele inventou para tentar falar novamente com Deus face a face.

Mas para que Deus se daria ao trabalho de se comunicar com os homens se Ele agora tem emissários oficiais para isso? Assim, a partir do advento das religiões reveladas, a presença de Deus entre os homens foi considerada desnecessária e por isso o Zaratustra de Nietzsche pode dizer: “Deus morreu. Eu vos anuncio o Super-Homem.”[1]

Sim, porque o pensamento de Nietzsche era exatamente esse. O homem, se quisesse voltar à era dourada dos seus primeiros tempos teria de abandonar a crença estereotipada que a religião judaico-cristã lhe impusera. Por que essas crenças haviam criado um homem fraco, senil, subserviente e incapaz de cuidar de si mesmo. Esse era o homem do Velho Testamento, que vivia sob o tacão de um Deus cruel, ciumento e injusto, que era capaz de fazer seletivas entre a própria família que Ele criou, privilegiando uns e relegando todo o resto a uma cruel exclusão. E tudo isso culminou depois numa outra crença mais limitante ainda, que levou os homens a se transformarem em vermes do seu próprio cadáver. Essa crença foi o Cristianismo, com sua falsa noção de valores, socializando a fraqueza, a fome, a servidão e a covardia. Por isso, diz Nietzsche, os cristãos eram vermes e o seu deus um pastor de larvas. Essa foi a crítica mais ácida e contundente do irrequieto filósofo alemão, e foi esse pensamento que encantou Hitler e seus “guerreiros do fogo”. E desse ponto de vista é possível entender o Holocausto que ele provocou, especialmente em relação aos judeus.

Autor: João Anatalino

Nota

[1] – Friedrich W. Nietzsche- Assim Falava Zaratustra, Ed Hemus, São.Paulo,1979. Evidentemente, essa é uma opinião do próprio Nietzsche, que desprezava as doutrinas judaico-cristãs. O Zaratustra histórico (Zoroastro) jamais diria uma coisa dessas, pois na verdade, a doutrina que ele pregava (O Mazdeímo) era altamente espiritualista e em nossa opinião, foi a precursora do Cristianismo. Sobre esse assunto ver a nossa obra “Mestres do Universo”, publicada pela Biblioteca 24×7. Nietzsche era o filósofo favorito dos nazistas e dos anti-semitas que os precederam.

Anúncios

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
Esse post foi publicado em Filosofia e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s