Uma viagem ao topo do Norte

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1 – Introdução: venha conhecer o verdadeiro Norte

Logo após o calor do Natal no verão de 2017 E∴ V∴ passado com a família em Belo Horizonte fui conhecer outro belo horizonte a partir de um ponto de vista no Canadá em pleno inverno. Uma viagem marcante e repleta de primeiras experiências. Primeira vez no Canadá, primeira vez que experimentei a neve, primeira vez que visitei uma Loja fora do Brasil, primeira vez que visitei um Capítulo dos Graus Superiores do Rito de York, primeira vez que vivi num fuso horário com seis horas de diferença do fuso de Brasília, primeira vez numa temperatura abaixo de zero. E que temperatura!!!

O marketing canadense faz um convite, mas também uma provocação: Venha conhecer o verdadeiro norte!

O país é lindo, mas nessa época do ano as cores vibrantes são encontradas nos letreiros das lojas, nas roupas de inverno, nas pranchas de snowboarding, nos óculos de sol. Sim, os óculos de sol no inverno canadense precisam ter uma proteção extra para evitar queimadura nos olhos decorrentes do reflexo dos raios solares na neve.

Nos quase trinta dias que passei ali o termômetro permaneceu mais tempo marcando entre vinte e dois e vinte e seis graus negativos, mas chegou a marcar -33, -37 e -39º. Também o fotografei em zero e -1º para não me esquecer do efeito dessa temperatura no trânsito após uma temporada de neve.

A paisagem nessa temperatura tem uma beleza singular e certamente bem mais do que os cinquenta tons de cinza do cenário de Portland, no norte americano, romanceado numa famosa trilogia. A arquitetura da cidade de Vancouver é impressionante e uma das mais belas e ousadas que eu já vi. Encontra-se arte até na tampa de um bueiro. Se a folha de Maple é um símbolo apaixonante, o povo é ainda mais com a sua generosidade em tentar entender o parco inglês falado por um mineiro abestalhado por tamanha beleza. A educação deles chega a causar vergonha e inveja, desde o tratamento pessoal utilizando algumas palavrinhas mágicas como “sorry”, “thank you” e “you’re welcome”, passando pelo praticado “merge” nas encruzilhadas e estreitamento de pista pelo trânsito afora e culminando na limpeza da neve no passeio em frente às suas respectivas casas para que os outros não se machuquem ali. E por falar em símbolo e educação, é simbólico perceber que o “você é bem-vindo” deles seja traduzido “por nada” aqui.

No topo do norte, conhecendo um povo e uma cultura diferente, pude redescobrir o Brasil e resignificar muito de nossa cultura e de mim mesmo trabalhando na P∴ B∴.

2 – Especulação: no topo do Norte e ao Sul do Brasil

Nos primeiros dias do janeiro canadense os dias são curtos. O sol aparece por volta das 08h30 da manhã e se põe por volta das 16h30, sendo noite já às 17 horas. A vida noturna numa cidade com cerca de 70 mil habitantes no sul canadense atinge o seu auge por volta das 19h30m e nada mais há a fazer quando o relógio marcar 22h30.

Já no sul do Brasil nessa mesma época do ano os dias são longos com o sol aparecendo por volta das 07h00 da manhã e se pondo por volta das 20h00.

O movimento do sol, do oriente ao ocidente passando pelo sul, favorece o sul no Brasil com a sua luz e intensidade. Se por aqui o sol é sinônimo de calor, por lá não há essa correlação nessa época do ano.

Apesar de o sol cumprir a sua jornada no céu canadense entre 08h30 e 16h30, levando luz e renovando o ciclo diário, nada muda no que tange a sensação da temperatura. Ao meio dia o sol está no zênite, mas lá embaixo todos estão empacotados em seus trajes de inverno, com gorro, botas e luvas para suportar a gélida, porém, deliciosa temperatura de duas ou três dezenas negativas.

No topo do norte além da luz permanecer por pouco tempo, a sua intensidade, ou para mais bem dizer, a sua força e vigor não é percebida como se percebe mesmo no inverno do sul brasileiro.

Há algum tempo a correlação de luz e calor tem sido minimizada por conceitos que marcam o terceiro milênio. Antigamente as lâmpadas mais comuns eram as chamadas incandescentes e nos queimavam as mãos ao serem tocadas quando em pleno uso. Atualmente as lâmpadas da moda são as ditas frias: fluorescentes ou de LED.

Essa também tem sido uma marca simbólica para o terceiro milênio. Trocou-se a especialização de conhecimentos aprofundados em determinadas matérias como marcou o mecanicismo numa época denominada de Modernidade, pela superficialidade das informações rasas em todas as matérias como tem sido a marca da globalização nessa época que eu prefiro denominar por Hipermodernidade enquanto alguns estudiosos ainda insistem no termo Pós-modernidade. Trocou-se o sólido pelo líquido, o fixo pelo móvel, o coletivo pelo individual, o laço social vertical pelo horizontal, o simbólico pelo real. Parece-me que algumas pessoas vivem como algumas águas dos lagos do Canadá: no inverno a água sem movimento se congela.

Por outro lado, nem todo movimento produz o efeito de quebra da inércia e alguns deles servem para manter o sujeito numa mesma posição. Quanto mais se move, mais firme se permanece no mesmo lugar, como um hamster correndo na roda ou como um sujeito dentro de uma piscina que, não sabendo nadar, bate mais rapidamente os braços na esperança de se manter na superfície da água.

Na rotina humana este fenômeno acontece quando se vive correndo no curso do dia e apesar disso não se consegue realizar tudo o que foi planejado, e, ao fim, tem-se a sensação de que o dia foi curto demais. Talvez ainda mais curto do que o dia no inverno canadense. Apesar de se ter vivido 24 horas da mesma forma que se mede o dia há anos, algumas pessoas têm a nítida sensação de que apesar da correria os problemas e as tarefas continuam lá, intactos.

As águas superficiais dos rios canadenses também podem se congelar no inverno, apesar de seu movimento.

3 – Construção: as Luzes e o trabalho na Maçonaria

Em Maçonaria a repetição tem o poder de fixar um conhecimento, ou melhor dizendo, ela tem o poder de fixar um aprendizado, a ponto de o Obr∴ não mais ter que pensar no comportamento em si para executá-lo, pois o mesmo estará gravado na memória. Grosso modo, o que acontece na memória é que gravamos o que aprendemos e lembramos o que gravamos.

Contudo, tal repetição também está no lado negro do Pav∴ Mos∴ já que se pode esquecer do valor simbólico dos objetos, símbolos, sinais, posturas e alegorias. Movimentos e repetições sem valor simbólico pode manter o sujeito estático e permitir o congelamento das águas.

Eis um exemplo:

Pouco antes da primeira das três LLuz∴ de uma Oficina declarar que a mesma se encontra aberta e seus trabalhos em plena força e vigor, um diálogo alegórico acontece entre estas LLuz∴, o qual é acompanhado por todos os OObr∴.

Somos instruídos pela alegoria de que a primeira luz do dia nasce no oriente e, portanto, a Luz no Ori∴ lá ocupa aquele lugar para abrir a Loja, dirigir-lhe o trabalho e esclarecê-la com as LLuz∴ de sua sabedoria nos assuntos de nossa Sublime Instituição.

Assim como o sol se põe no ocidente a segunda Luz ocupa um lugar no Oci∴ para terminar o dia, fechar a Loja, pagar os OObr∴ e despedi-los contentes e satisfeitos.

Nesse sentido, pode-se especular que a força e o vigor dos trabalhos de uma Loja passam pelo crivo dessa segunda Luz que deve avaliar os trabalhos realizados e conceder o pagamento devido a cada Obr∴. Dito de outra forma, é responsabilidade da segunda Luz avaliar os trabalhos realizados, instruir os OObr∴ para que sejam capazes de trabalhar com toda força e vigor, mantendo o respeito, disciplina e ordem, e, por fim, efetuar os pagamentos, incluindo os aumentos de salário e a composição dos cargos de uma próxima gestão, já que ambas as ações são formas de pagamento e reconhecimento pelo trabalho realizado numa certa temporada.

A missão da terceira Luz que ocupa um lugar ao Sul é melhor observar a direção do Sol no seu meridiano, ou a direção dada pela primeira Luz na condução da Loja, chamar os OObr∴ para o trabalho e mandá-los à recreação, a fim de que os trabalhos prossigam com ordem e exatidão.

A primeira Luz é responsável pela sabedoria na direção dos trabalhos, a segunda Luz é responsável pela força dos trabalhos e a terceira Luz é responsável pela beleza do canteiro de obras e pelas tendas repletas de OObr∴ prontos para o trabalho.

Se no inverno canadense a luz do Sol não está em sua plena força e vigor, se no terceiro milênio as luzes frias são moda e fazem parte do conceito de sustentabilidade, o mesmo é insustentável em Maçonaria.

Na Arte Real o trabalho realizado deve sempre estar em sua plena força e vigor, tanto o realizado pelas LLuz∴ móveis quanto o realizado pelos OObr∴ fixos, seja pelos trabalhadores no Oci∴ ou pelos que estão no Ori∴, seja o trabalho coletivo ou individual.

Assim como no Canadá cada morador é responsável em manter o passeio na frente de sua casa limpo de neve, cada Obr∴ é responsável pelas suas próprias ferramentas e pelo seu quinhão no canteiro de Obras que nos concedeu o G∴A∴D∴U∴.

Nesse sentido, uma vez iniciado na Arte Real, uma vez que a Luz foi dada ao Maçom, cada Obr∴ se torna um foco de luz, um luzeiro. Ser luz fria não é uma opção nem mesmo em tempos de Hipermodernidade. A força e vigor do trabalho de cada Obr∴ dependerá do tempo que se dedica na manutenção e no uso de suas ferramentas, em especial, a régua de 24 polegadas.

Antes de terminar, porém, é mister, afirmar aqui que os OObr∴ não trabalham apenas durante as poucas horas de suas reuniões, mas em todo o restante do tempo que passam fora.

Se voltarmos os olhos para a Maçonaria Operativa, rapidamente identificaremos que o termo “lodge” tão mal traduzido em “loja”, assim como aconteceu com o “você é bem-vindo” canadense pelo “de nada” brasileiro, significa, de fato, “tenda” ou lugar de afiar as ferramentas de trabalho. Quando uma Loja se reúne não é uma reunião de OObr∴ no canteiro de obras para realizar o trabalho, mas antes, uma reunião de OObr∴ na tenda para planejar o trabalho, bem como para inspecionar e afiar as ferramentas necessárias para tal.

Visitar o Norte em temporada de dias cinzas e frios é sempre uma boa forma de renovar a força e o vigor, de realinhar a direção, de afiar as ferramentas e de relembrar o propósito do movimento.

O Norte é sempre o ponto inicial de onde se separa, em Maçonaria, os sujeitos dos hamsters.

Autor: Júlio César Mendes Pereira

Júlio é Mestre Maçom da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte.

Referências Bibliográficas

GRANDE LOJA MAÇÔNICA DE MINAS GERAIS. Aprendiz Maçom: Ritual Grau 1 – R∴ E∴ A∴ A∴ [1928]. Belo Horizonte: Infinity, 2017. 162p.
______. Aprendiz Maçom: Instruções Grau 1 – R∴ E∴ A∴ A∴. Belo Horizonte: Infinity, 2012. 88p.
PEREIRA, Júlio César Mendes. COELHO, Solange. Relações Sociais Virtuais: uma leitura psicanalítica. Governador Valadares: UNIVALE, 2010.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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