Lobo em pele de bode

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“Cuidado com os falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores.” (Mateus 7:15).

A família “Bovidae” é pródiga em lendas e simbolismos. A ela pertencem animais domésticos como ovelha, cabra, boi e selvagens como os antílopes e bisontes. Nosso foco se deterá na subfamília “Caprinae”: carneiros e bodes, que por serem mais dóceis foram domesticados e têm registros marcantes na jornada humana.

O carneiro é o macho da ovelha e juntos geram os cordeiros (ovinos). Eles têm os pelos mais ondulados (lã) e cornos geralmente enrolados, sem barbela. O bode é o macho da cabra e o filhote deles é chamado cabrito (caprinos). Comumente o pelo tem um aspecto liso, possuem cornos quase direitos (direcionados para fora) e costumam ter uma barbela (“barba”). Culturalmente considerados símbolo de fertilidade, libido e força vital.

Segundo o épico bíblico, ao serem expulsos do Jardim do Éden Adão e Eva receberam a sentença de trabalho pesado, passando os infortúnios do vaso de Pandora a afligir a humanidade. Dos dois primeiros filhos, Caim se dedicou à agricultura e Abel ao pastoreio, já se consolidando como o tradicional inimigo do estado agrário. Ao ver sua oferenda recusada pelo Criador e a de Abel ser aceita, Caim inaugurou a era da violência.

Inicialmente, pastores nômades se dedicavam à criação de ovelhas e cabras, que representavam parte importante do patrimônio, consistindo em tema fartamente mencionado nas Escrituras. Depois se tornaram sedentários e organizaram uma sociedade patriarcal baseada na economia pastoril, com a criação de ovinos e caprinos, e cultivando cerais, quando o monoteísmo começou a ganhar forma.

Festas eram realizadas na época da tosquia dos animais, com presença de parentes, amigos e convidados, e em alguns casos com a participação dos pobres da comunidade. Da produção, o leite e a carne eram usados como alimentos e a lã destinada à confecção de tecidos. A pele desses animais era preparada para nelas se escrever, os pergaminhos, que sucederam os papiros, utilizados na antiguidade ocidental, em especial na Idade Média, até a descoberta e consequente difusão do papel.

O pastoreio sempre foi considerado uma atividade pesada dada a atenção requerida durante as 24 horas do dia, com sol ou chuva, contando com o auxílio de cães para evitar dispersões, além da proteção do rebanho contra as constantes ameaças dos lobos, dotados de inteligência, resistência física e furor guerreiro.

Assim, toda essa atividade deu origem a uma infinidade de fábulas e lendas envolvendo pastores e os temidos lobos, concorrentes do homem e símbolo de crueldade, onde estes predadores desenvolveram técnicas mirabolantes de se disfarçarem em ovelhas para em seguida invadirem o aprisco e atacá-las. Nessas narrativas os lobos saiam perdendo, literalmente “dava bode” para eles. Evidente, que em outras culturas, o lobo goza de farta participação na mitologia, ocupando posição de destaque como animal de símbolo benéfico.

Existe uma variedade de versões de fábulas que dão significado moral para a popular frase “lobo em pele de cordeiro”, todas ensejando mensagens ligadas a hipocrisia, enganos, desonestidade, disfarces, falsas aparências, fingimento, objetivos egoístas e/ou escusos, discursos contraditórios.

Na Parábola Jesus, o Bom Pastor (João, 10, 1-19), os personagens do pastor, do lobo, das ovelhas e do mercenário são emblemáticos. Seguindo as metáforas utilizadas por Jesus com os elementos presentes no quotidiano das comunidades à época, o Bom Pastor é aquele que cuidava de suas ovelhas. O pastor conhecia suas ovelhas e estas conheciam a sua voz. Os pastores enfrentavam lobos e ladrões, com risco à própria vida e, por vezes, costumavam se associar para a construção de um redil comum, feito com palhas, madeiras e pedras, para proteção do rebanho. Como armas portavam um cajado. Os falsos mestres, ou mercenários, eram aqueles que cuidavam do rebanho visando apenas a seus próprios interesses e em situações de perigo fugiam.

Pessoas com algumas dessas características de lobos ou falsos mestres, investidos de falsa plenitude, convivem harmoniosamente em nosso meio, mostram-se simpáticas e de boa índole, por vezes com atitudes colaborativas, mas escondendo os verdadeiros objetivos de levar vantagem em alguma situação ou envenenar as relações para tirar proveito dos conflitos. Nunca andam sozinhos, articulam-se em duplas ou em grupos. Como discípulos de Bakunin semeiam cizânia, são estrategistas, muito sagazes e despertam fascínio. Já os pastores são sábios, humildes e focados na sua missão.

Essa situação traz à mente outra conhecida frase do filósofo inglês Thomas Hobbes, introduzida na obra “Leviatã”, de 1651, atribuída ao dramaturgo romano Platus : “o homem é o lobo do homem”. Desta feita, existe uma constatação de que o homem é o seu próprio inimigo, sendo capaz de causar grandes males contra sua própria espécie, na defesa de seus interesses pessoais.

Quando identificado em um grupo recebe o atributo de “ovelha negra”, tanto pela má reputação como pelo estranhamento e desvio em relação aos demais. Em outra vertente, pode ter também o sentido de uma pessoa que é diferente dos demais e não se enquadra em algum quesito ou valores compartilhados. Em outros contextos pode ensejar avaliação positiva, demonstrando que toda moeda tem duas faces.

Porém, quando a situação compromete um indivíduo sobre o qual recai culpa alheia, pesando a acusação de algum delito para o qual não tenha contribuído e não consegue provar a sua inocência, recebe o atributo de “bode expiatório”, que pode ser vítima e réu ao mesmo tempo. Segundo um adágio popular, “quem menos pode é quem paga o bode”. Por outro lado, sonhar com bode enseja vários enigmas que desafiam quem ousa interpretar o oráculo da noite.

Os relatos contam que no antigo Israel o sumo sacerdote levava dois bodes ao Templo de Jerusalém no Dia das Expiações (Yom Kippur). Um era sacrificado para expiar os pecados da comunidade e o outro recebia, pela imposição das mãos, a transferência das más ações das pessoas e era despachado para fora da cidade, levando a culpas para bem longe. A confissão a um bode, símbolo do silencio absoluto, era certeza de que não iria transmitir os pecados confessados para mais ninguém. No Cristianismo, o sacrifício do cordeiro da páscoa representa a expiação de Jesus, o Cordeiro de Deus, que pagou os pecados e resgatou a humanidade.

A figura do bode pertence às mais velhas tradições e crenças pagãs. Foi usado para representar diversos deuses do panteão egípcio, entre eles Set, Rá e Amón. Nos mistérios de Dionisius, os gregos utilizavam a máscara e a pele de bode nas cerimônias. Nos cultos celtas e dos etruscos era parte dos rituais. O carro da divindade do trovão (Thor) era puxado por bodes. Na idade média, o bode emprestou sua forma para o diabo e era associado à prática de bruxarias. As mulheres associadas a tal prática utilizariam os bodes como montarias por adorarem a divindade Pã, metade homem, metade bode. Curiosamente acreditava-se que o bode parecia saber muito mais do que aparentava. No zodíaco o carneiro representa o signo de Áries e o bode o de Capricórnio, signo este sob o qual teria nascido a maçonaria moderna.

Por tudo isso e mais, o bode, em especial, é considerado um animal enigmático, e acabou firmando-se no folclore maçônico. No passado, os maçons foram acusados de reunirem-se clandestinamente para realizar cerimônia ritualística de sacrifício de um bode, evocando uma visão equivocada de sua identificação com seres da escuridão, fruto de acusação de detratores em obras antimaçônicas que incriminavam a maçonaria por suposto culto a um bode preto e da associação com a figura de Baphomet,  Bode de Mendés ou ainda Bode do Sabbath, da qual os Templários e outros grupos eram acusados de prestar adoração. Como a ignorância é pródiga em abençoar, tal interpretação não tem nenhum vínculo com a realidade histórica, comprovando-se que fake news e imaginação pra lá de criativa não é privilégio dos novos tempos. A narrativa do escritor maçom José Castellani (1937-2004) é a mais divulgada.

Transformando o limão em limonada, a “gozação” caiu no gosto dos maçons e o desvirtuamento virou grife, no sentido de trabalhar em silêncio e de ser guardador de segredos, que no fundo virou uma boa propaganda. Na região nordeste do Brasil diz-se que a boca do bode fecha-se tão certinha, de forma a não deixar nenhum dente à mostra, por isso a expressão “mais certo que boca de bode!”.

Mas, a preocupação continua sendo em relação aos lobos em pelo de bode que vicejam por aí. Como na fábula “O Escorpião e o Sapo”, os lobos não mudam a sua natureza. É o joio que precisa ser arrancado, mesmo que seja tarde. Sepulcros caiados, que por fora realmente parecem justos e perfeitos diante dos outros, com discursos fundamentados, posando de intelectuais experientes, ora afáveis e acolhedores, ora fazendo os tipos melindrosos e nervosões, com vozes empostadas e cheios de razão, mas por dentro plenos de hipocrisia e injustiça. Os bravateadores de sempre. Como diz a sabedoria popular, vai dar bode, esses lobos que se cuidem, pois ao fim e ao cabo todo espertalhão escorrega na própria esperteza ou é vítima da intriga que semeou.

Enfim, ainda existem aqueles que sabiamente recomendam aos desencantados que “peçam para sair”. Mas, se levarmos essa orientação ao pé da letra estaremos “jogando a toalha” e reconhecendo a vitória da alcateia. É o mesmo que jogar o sapo n’água. Procuremos, pois, despertar em nós aquela criança inocente do conto do dinamarquês Hans Christian Andersen para quem o vaidoso rei estava realmente nu, não nos deixando passar por “pessoas parvas, tolas e estúpidas”. O lobo está nu, esse bode é fake!

“Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos.” (Lc 10,3).

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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