Maçonaria: Magistra vitae

luzdomundo

Antes de tratarmos especificamente do tema escolhido para esse ano, “Papel da maçonaria na sociedade atual. O que estamos fazendo/o que podemos.”, me permitam abordar alguns fatos que, acredito eu, nos ajudarão a encontrar respostas para a questão apresentada.

O historiador Leandro Vilar, em um artigo de 2014, nos conta que:

“No século I a.C, Marco Túlio Cícero (106-43 a.C) proeminente político, advogado, orador, filósofo e escritor romano em seu livro Da Oratoria, obra dedicada a abordar a prática da oratória, algo bastante importante para o ofício de político, advogado e filósofo os quais Cícero exercera, nesse livro, ele falara em alguns momentos que a História seria a magistra vitae, ou seja, a “mestra da vida”. Cícero quisera dizer que a função da História era ser um repositório, um manual, uma professora, que através dos exempla (exemplos, experiências) teria lições a ensinar as pessoas. Para ele, conhecer a História, era se deparar com as ações de várias pessoas, ações essas que repercutiram em êxito ou fracasso, em vitória ou derrota; na prática, a História teria uma função pedagógica, de instruir o individuo a pensar acerca de seu presente e planejar seu futuro tendo como base o passado.”

Surgido no séc. I a.C., esse conceito sobre para que serve a História perdurou até o séc. XIX, quando então alguns historiadores alemães abriram um debate sobre qual seria a verdadeira utilidade da História e como deveríamos olhar para ela.

Em 1598, William Shaw publicou os seus “estatutos”, sendo esses uma série de regras que visavam regulamentar as atividades e ações dos maçons operativos na Escócia do fim do século XVI. Escreveu ele:

“…os maçons devem ser sinceros uns com os outros e viver juntos caridosamente como convém a irmãos e companheiros jurados do Ofício.”

Já no séc. XVII, a Inglaterra passava por uma terrível guerra civil entre monarquistas e parlamentaristas, que culminou com Carlos I tendo sua cabeça cortada. Em 1660, doze membros de um grupo que ficou conhecido como Colégio Invisível, fundaram uma sociedade científica que recebeu o nome de Royal Society. Em 1667, Thomas Sprat, historiador daquela instituição escreveu:

“No que diz respeito aos próprios membros que devem formar a Sociedade, é preciso destacar que eles aceitaram livremente homens de diferentes religiões, países e profissões de vida. Eles foram obrigados a fazê-lo senão teriam se afastado rapidamente da amplitude de visão de suas próprias Declarações. Eles professavam abertamente não estabelecer os fundamentos de uma filosofia inglesa, escocesa, irlandesa, papista ou protestante, mas uma Filosofia da Humanidade.”

São os integrantes da Royal Society que, a partir de 1719, com a eleição de Jean Théophile Désaguliers como Grão-Mestre da Grande Loja de Londres e Westminster, irão fazer parte da nascente maçonaria moderna, levando consigo os princípios citados por Sprat.

Desde então muitos são os fatos ocorridos na história da Humanidade, por exemplo, a Revolução Francesa no fim do séc. XVIII e, pelos nossos lados, a Inconfidência Mineira, independência do Brasil, a abolição da escravatura, a Questão Religiosa, proclamação da República, o governo Vargas, 1964, Diretas Já, impeachments (2 em 7), entre outros acontecimentos relevantes.

Vários desses episódios são invariavelmente relacionados à maçonaria, como se existisse apenas UMA maçonaria, com pensamento unificado, diretrizes únicos, formada por pessoas com objetivos, aspirações, desejos, vontades ideias, ideais, posições, ideologias , todas unas.

Aqueles que assim pensam se esquecem de que havia maçons dos dois lados: Bonifácio x Ledo por exemplo.

Pergunto meus irmãos: Como pode então A MAÇONARIA ser considerada como realizadora de tais feitos?

O que ouvimos muitas vezes em nossas lojas ou em conversas durante ágapes ou grupos de whatsapp é que a maçonaria está acabada; nada mais faz; perdeu sua essência; a maçonaria está acomodada; a maçonaria não toma atitude; apontam-se os “grandes feitos da Sublime Ordem no passado” (muitos daqueles que foram há pouco citados) e critica-se a ausência de liderança no presente.

Novamente questiono meus irmãos: Quem é a maçonaria? Se ela nada faz, quem não faz nada? Quem é que está a lamentar o presente e a enaltecer os “feitos do passado”?

Nelson de Carvalho, em seu artigo intitulado Como é sua maçonaria? Como é sua Loja? Faz a seguinte pergunta: Onde começa a Maçonaria? Para em seguida responder:

“Na Loja. Pois na Loja existe o ingrediente mais importante e basilar da Instituição: o maçom, o ser humano, o pensante, o agente.”

E ele continua:

“Se quisermos saber sobre a Maçonaria, olhemos às nossas Lojas. Quais suas preocupações, quais seus planejamentos de curto, médio e longo prazo (ou sequer tem planejamento?). Tem feito diferença em sua área de ação e atuação junto á comunidade?”

O Grão-Mestre ad vitam da GLMMG Leonel Ricardo de Andrade, no artigo A que viemos? Levanta as seguintes questões:

“Quantas vezes ficamos a esperar que as outras pessoas façam por nós, aquilo que podemos e devemos fazer em prol de nosso próprio crescimento e das coletividades onde estamos inseridos? Quantas vezes cobramos das outras pessoas atitudes que deveriam partir de nós mesmos e que, em função da falta de atitude e da omissão, acabamos que levados ao ostracismo?”

Lembremo-nos agora dos princípios defendidos por aqueles homens que, na segunda metade do séc. XVII fundaram uma sociedade de estudos e pesquisas em Londres. Naquela sociedade tinham como premissa o respeito às diferenças em prol da busca da verdade para o bem da humanidade.

Não tratamos aqui de “olhar para o passado para não repetir os erros no presente ou no futuro”, até porque a ideia da história como magistra vitae já que, como vimos, essa foi há muito superada. O objetivo é procurarmos entender o que perdemos de lá para cá, e porque presenciamos tantos exemplos de intolerância e desrespeito entre membros de nossa Sublime Ordem.

Mais uma vez recorro às palavras escritas pelo Grão-Mestre Leonel Ricardo de Andrade:

“…nós Maçons somos parte de uma humanidade que ainda engatinha sob o ponto de vista do respeito a tudo que a cerca. O ser humano, e muitos de nós Maçons, infelizmente é caprichoso e tende a ver no seu semelhante o mal que não consegue enxergar em si mesmo. Por isso julga e transporta para o outro tudo que é próprio de sua forma de ser e agir, ou seja, atribui para os demais, os vícios e defeitos que em verdade são marcantes em sua personalidade – como é fácil e cômodo se sentir injustiçado e atribuir à outrem as suas mazelas íntimas e particulares.”

Outro ilustre irmão, nosso querido Márcio dos Santos Gomes, membro da Academia Mineira Maçônica de Letras, disse certa vez que “nós, maçons, vivemos sentados sobre um tesouro, mas muitos são os de nossa Ordem que, por desinteresse, morrem na mais absoluta miséria.”.

A falta de instrução, conscientização e do que verdadeiramente vem a ser a maçonaria e qual seu propósito, provoca noções equivocadas dos objetivos a serem perseguidos por seus membros. Muitas são as lojas que se vangloriam das doações realizadas, mas se esquecem de trabalhar o aprimoramento dos seus membros. Dedicam-se ao assistencialismo, tornando-se muitas vezes clubes de serviço ou associações beneficentes, e não reservam o tempo necessário para as instruções que têm por fim a capacitação dos irmãos para a busca da verdade, para formação de líderes e homens que serão exemplos a serem seguidos na sociedade em que a loja está inserida e aí fazerem a diferença.

Vemos no artigo A que viemos?, nosso irmão Leonel indicar qual pode ser o Papel da maçonaria na sociedade atual. O que estamos fazendo/o que podemos:

“Sejamos conscientes de nossos deveres e compromissados com o Progresso e a Evolução da Humanidade, buscando a reforma interior e a responsabilidade solidária de nosso livre arbítrio, tão bem fortalecidos pela vivência plena no Seio da Maçonaria. Contudo, nobres Iniciados na Arte Real, é necessário que tenhamos vontade, posicionamentos, envolvimento, fé e, mais do que tudo, disposição, liderança e capacidade de planejamento, buscando a construção e a implementação de projetos voltados para o desenvolvimento humano.”

É nosso dever termos com aqueles a que chamamos de irmãos ações condizentes com a prática das virtudes que tanto nos são caras em nossas lojas e que muitas vezes passam a ser totalmente ignoradas ao nos encontramos fora do templo ou em postagens nas redes sociais.

O que estamos fazendo? Estamos sendo o exemplo de comportamento em nossa sociedade? Somos o farol que ilumina o caminho nas trevas da ignorância? Vivemos juntos caridosamente como convém a irmãos e companheiros jurados do Ofício? Aceitamos livremente homens de diferentes religiões, países, profissões de vida, pensamento político? Estamos respeitando as diferenças? Somos virtuosos? (lembrando que a virtude é um hábito e que vem da alma)

O que podemos? Podemos procurar nos capacitar mais, criticar menos, agir melhor, pensar mais e incentivar que o outro pense. Podemos trabalhar tendo como objetivo

“Tornar feliz a humanidade pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade, pelo respeito à autoridade e à religião de cada um, combatendo a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros; glorificando o Direito, a Justiça e a Verdade, sempre tendo em vista o bem-estar da Pátria e da Humanidade.”

Podemos enfim, queridos irmãos, sermos maçons, pois a maçonaria, com tudo que ela nos oferece, é uma verdadeira magistra vitae.

Autor: Luiz Marcelo Viegas

Palestra ministrada em 17 de agosto de 2019 na Augusta e Respeitável Loja Simbólica Deus, Pátria e Família, nº 154, oriente de Corinto, como parte das comemorações relativas à Semana Maçônica organizada pela União das Lojas Maçônicas do Centro-Norte de Minas Gerais.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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