Caritas est

Resultado de imagem para virtudes teologais

Introdução

“A caridade é a principal virtude social e a característica distintiva dos maçons.” William Preston (1742 – 1818)

Há um momento em que o candidato a fazer parte de nossos Augustos Mistérios é questionado sobre o que é a virtude para, logo após ouvida sua resposta, ser-lhe dito que “a virtude é uma disposição da alma que nos induz à prática do Bem”.

Nas instruções ministradas em Loja após a iniciação são abordadas as sete virtudes, quatro cardeais e três teologais, e sua prática comentada, incentivada, exaltada. Mas, afora aquela ocasião citada acima, são poucas as oportunidades em vimos o significado do que é virtude ser explanado.

Immanuel Kant (1724-1804) disse que a virtude não é aquilo que nos torna mais felizes, mas sim algo que nos torna dignos de ser felizes. Também afirmou que não existe virtude se suas ações são realizadas apenas porque estão na lei. Para Santo Tomás de Aquino (1225-1274) virtudes humanas são hábitos. E aqui encontramos a palavra-chave para compreendermos o que é virtude: hábitos.

Se o que fazemos o fazemos não porque a lei manda, mas porque temos o hábito de fazê-lo, sendo este uma verdadeira inclinação que nos induz para o Bem, então praticamos a virtude.

As sete virtudes e suas relações

Uma vez que a Temperança consiste em controlar os apetites do corpo; a Prudência é capacidade de ponderar sobre os meios para se atingir um fim; a Fortaleza é uma vitória sobre o medo, constituindo-se na capacidade de enfrentar os perigos, os males e a morte; e a Justiça significa retribuir a alguém aquilo que lhe foi tirado, o professor Rodrigo Peñalosa, em aula em que aborda o significado das sete virtudes, coloca as virtudes cardeais como próprias das relações humanas. Segundo o professor isso se dá porque:

  • Não há Temperança para com Deus, pois Ele não é um apetite sensitivo; ​
  • ​Não se admite ao homem ser prudente com Deus, pois Deus não é um meio; ​
  • ​Não há necessidade da Fortaleza para com Deus, uma vez que Ele não é um mal; ​
  • ​Não se exerce a Justiça para com Deus, pois Deus não erra e nem carece de justiça. ​

Por outro lado, de acordo com Peñalosa, as Virtudes Teologais dizem respeito às relações do Homem com a Divindade, uma vez que:

  • Fé é a certeza íntima da existência do Criador, para além da razão. Todo homem traz em si o sentimento inato de que há uma Causa Primeira​; ​
  • Se temos a fé em Deus e reconhecemos a imortalidade da alma, é racional que esperemos a felicidade futura. A Esperança é, portanto, uma emoção relativa ao homem e a Deus. É inata justamente porque sem fé não pode haver esperança; ​

Já a Caridade é a bondade suprema para consigo mesmo, para com os outros e para com o Ser Infinito.

A maior das virtudes

Tomás de Aquino definiu a caridade como “mais excelente que a fé e a esperança e, por conseguinte, que todas as outras virtudes”.

William Shaw (c. 1550-1602), em seus estatutos de 1598, determinava que os maçons devem “viver juntos caridosamente como convém a irmãos e companheiros jurados do Ofício”.

Na sua obra Esclarecimentos sobre maçonaria (1772), William Preston escreve que a caridade “além de incluir um grau supremo de amor ao grande Criador e Governante do universo é um afeto ilimitado pelos seres de sua criação, de todos os tipos e de toda denominação”. (grifo nosso).

Apesar de discursos inflamados e de cobranças a nossos aprendizes e companheiros, é notório como tal virtude tem faltado em diversos segmentos da sociedade, inclusive entre “entre irmãos e companheiros jurados de Ofício”.

Talvez tal fato ocorra por não sabermos lidar com o pensamento contrário, com as alteridades, com as escolhas, com o outro. Muitos são os que se acham os donos da razão, modelos a serem seguidos, como se apenas o seu modo de ver seja o correto, o que lhe dá então um suposto direito de atacar o próximo, alguns se valendo do anonimato das redes sociais, se esquecendo que “a verdade ainda está lá fora”.

Palavras distintas, amores diferentes

Na Antiguidade Clássica, os gregos empregavam palavras distintas para os diversos tipos de amor. Por exemplo:

  • Éros (ἔρος) representava a ideia de paixão sexual e desejo. Era visto como uma forma perigosa, ardente e irracional de amor que poderia dominar e possuir você. Envolvia uma perda de controle que assustava os Gregos. (INDIVIDUAL)​;
  • Storgí (στοργή) se referia ao mais benéfico dos afetos. Acontece especialmente com a família e entre seus membros, normalmente afeição (carinho) de pais aos filhos. (NÚCLEO FAMILIAR);
  • Filía (Φιλία) abrangia a amizade camarada profunda que se desenvolvia entre irmãos em armas que haviam lutado lado a lado no campo de batalha. Tinha a ver com demonstrar lealdade aos seus amigos, sacrificando-se por eles. (SOCIEDADE)​;
  • Por fim, agápi (ἀγάπη) era relacionada a ágape ou amor abnegado. É a transcendência total. O amor incondicional. É a bondade amorosa universal. Esse amor satisfaz porque é compartilhado e tem resposta entre todos aqueles que se reúnem para formar uma fraternidade de homens, mulheres e crianças. Agápi foi traduzida para o latim como caritas, que é a origem de nossa palavra “caridade”​.

O Amor

Agora que sabemos o conceito da palavra agápi, podemos desfrutar da riqueza do seu significado no que para nós foi apresentado como “amor” em alguns textos, como por exemplo  na 1ª Epístola de Paulo aos Coríntios, 13: 1-13:

1 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. 2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. 3 E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.​ 4 O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece, 5 não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; 6 não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; 7 tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. 8 O amor nunca falha; mas, havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; 9 porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos.​ 10 Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é em parte será aniquilado. 11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. 12 Porque, agora, vemos por espelho em enigma; mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido. ​13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.​ (grifo nosso).

Conclusão

Entendemos assim que caridade é diferente de filantropia. Caridade não é benemerência. Caridade é amor; amor incondicional e puro. Caridade é o respeito ao direito do outro ter uma opinião diferente e mesmo assim eu saber respeitá-lo.

Me valho das palavras do professor Rodrigo Peñalosa quando ele diz que “muitos são os que se vangloriam da filantropia que fazem, mas se esquecem da Caridade que está lá no alto”. Sendo a virtude, segundo Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), a disposição adquirida voluntária, em relação a nós, na medida, definida pela razão em conformidade com a conduta de um homem ponderado, é hora de mudarmos esse comportamento e praticarmos a caridade em sua essência.

Autor: Luiz Marcelo Viegas
ARLS Pioneiros de Ibirité, 273 – GLMMG

Doação para manutenção do blog

Está gostando do blog, caro leitor? Só foi possível fazermos essa postagem graças ao apoio de nossos colaboradores. Todo o conteúdo do blog é fornecido gratuitamente, e nos esforçamos para fazer um ambiente amigável para os públicos interessados. O objetivo é continuar no ar oferecendo conteúdo de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E agora você pode nos auxiliar nessa empreitada! Faça uma doação e ajude a manter o blog funcionando. Para garantir sua segurança utilizamos a plataforma de pagamentos PayPal e você pode contribuir usando o cartão de crédito, para isto basta clicar logo abaixo na bandeira correspondente ao seu cartão. Se preferir, pode também fazer sua doação por transferência bancária em favor de Luiz Marcelo Viegas da Silva, CPF 633.643.366-87, Banco do Brasil, Ag: 2115-6 CC: 14770-2.

R$10,00

Referência

Este texto é baseado na aula 5 do professor Rodrigo Peñalosa na disciplina A Filosofia Maçônica: Valores, Virtudes e Verdades do curso de pós-graduação Maçonologia: História e Filosofia ofertada pela Uninter.

Outras referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco​

PRESTON, William. Esclarecimentos sobre maçonaria​

Bíblia Sagrada​

Ritual de Aprendiz – REAA – GLMMG​

As Virtudes Teologais: Fé, Esperança e Caridade. Disponível em: http://brasilfranciscano.blogspot.com/2014/08/as-virtudes-teologais-fe-esperanca-e.html​  Acesso em 12  de out. 18.

Virtude. Disponível em: https://sites.google.com/site/filosofiapopular/virtude-filosofia​ Acesso em 11  de out. 18.

SCHERER, Berta Rieg. A concepção de virtude em Kant. Disponível em: http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php/Poiesis/article/view/642/600​ Acesso em 10  de out. 18.

Erevoktonos blogspot. Disponível em: http://erevoktonos.blogspot.com/ssearch?q=Φιλανθρωπία​ Acesso em 12  de out. 18.

A suprema excelência do amor. Disponível em: https://www.biblegateway.com/passage/?search=1+Cor%C3%ADntios+13&version=ARC​ Acesso em 12  de out. 18.

Você já experimentou as seis variedades de amor? Disponível em: https://www.melhorconsciencia.com.br/2014/01/voce-ja-experimentou-as-seis-variedades-de-amor/​  Acesso em 10  de out. 18.

O amor em seus quatros aspectos: Eros, Filos, Storgé e Ágape. Disponível em: http://vstorge.blogspot.com/p/blog-page_24.html​ Acesso em 11  de out. 18.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
Esse post foi publicado em Virtudes e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Caritas est

  1. Márcio dos Santos Gomes disse:

    Prezado irmão Luiz Marcelo, parabéns pelo excelente trabalho e grato pela oportunidade de refletir sobre tema tão momentoso. Fraterno abraço.

    Curtir

  2. LENIRA FREIRE ENGEL disse:

    Texto excelente, tanto em conteúdo como mensagem.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.