Maçonaria e Antimaçonaria: Uma análise da “História secreta do Brasil” de Gustavo Barroso – Parte VI

Historia Secreta do Brasil - Gustavo Barroso

3 – Os protocolos secretos da história do Brasil

Até hoje se têm escrito histórias políticas do Brasil. Empreendo, neste ensaio, a história da ação deletéria e dissolvente dessas forças ocultas. Até hoje se escreveu a história do que se via a olho nu, sem esforço. Esta será a história daquilo que somente se descobre com certos instrumentos de ótica e não pequeno esforço. É a primeira tentativa no gênero e, oxalá possa servir de ensinamento à gente moça, a quem pertence o futuro.[251]

Introdução

Para termos uma melhor compreensão sobre o desdobramento do processo de construção das narrativas antimaçônicas na primeira metade do século XX, é preciso atentar para dois fenômenos especiais que marcaram profundamente o contexto sócio-político daquela época. O primeiro fenômeno foi o crescimento do discurso anti-semita no Brasil na década de 1930. O segundo foi a concretização da “ameaça comunista”, confirmando a “profecia” de Karl Marx e colocando, definitivamente, alguns setores da sociedade em guarda contra o chamado “inimigo vermelho”.[252]

No decorrer deste capítulo, demonstraremos como o anti-semitismo e o anticomunismo contribuíram com recursos imagéticos no fomento de uma “nova” narrativa antimaçônica, inaugurando, deste modo, no cenário político brasileiro, aquilo que Gustavo Barroso chamou de “maçonismo anti-brasileiro”.[253]

Para darmos conta de nosso objetivo, trataremos de especificar os contextos de produção e circulação do livro História Secreta do Brasil e sua correlação com o best-seller anti-semita, Os Protocolos dos Sábios de Sião. Será analisado também o alcance da ideologia anti-semita. Sua forma tradicional e seus aspectos modernos serão destacados na medida em que percebemos que o ódio aos judeus se transformou num dos principais recursos das ações propagandísticas de Gustavo Barroso. Além disso, aprofundaremos o estudo acerca das diferentes apropriações do discurso anticomunista no Brasil, tendo como foco as manifestações de repúdio da Igreja Católica expressas fundamentalmente no discurso político-partidário de Barroso.

Assim sendo, o “novo formato” da narrativa antimaçônica brasileira, sobretudo, após a publicação do primeiro volume da História Secreta do Brasil receberá, nesta parte final da dissertação, um tratamento especial. Pois entendemos que as “revelações” guardadas na obra coincidiram, não por acaso, a um período especial da história nacional, marcado pela radicalização ideológica em detrimento das liberdades individuais. O fato é que o anticomunismo e o anti-semitismo tornaram-se forças decisivas nas lutas políticas do mundo contemporâneo. E no Brasil isso não foi diferente, haja vista, os episódios da chamada “Intentona Comunista” e do “Plano Cohen”.

3.1 – Segredos e Revelações da “História secreta do Brasil”

A História secreta do Brasil, de autoria de Gustavo Barroso, foi com certeza a obra que melhor sintetizou a narrativa, textual e imagética, contrária à Maçonaria. A obra pretendia ser um grandioso projeto de pesquisa englobando toda a história do Brasil, do descobrimento em 1500 até a década de 1930. Para esta empreitada, Barroso decidiu dividir o livro em quatro partes: A primeira, publicada pela Companhia Editora Nacional em 1936, abarcava Do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. A segunda e a terceira partes, ambas editadas pela Civilização Brasileira S/A, representavam, respectivamente, os períodos Da abdicação de D. Pedro I à maioridade de D. Pedro II (1937) e Da maioridade de D. Pedro II à proclamação da República (1938). A quarta e última parte deveria englobar o período Da proclamação da República à Revolução de 1930. Entretanto, por questões não muito claras, este volume não chegou a ser publicado.

Apesar de não termos os números exatos da tiragem do livro, podemos supor que pelo menos o primeiro volume da História secreta do Brasil obteve uma boa receptividade dos leitores, sendo reeditado duas vezes em 1937 e outra em 1939, todas edições pela série Brasiliana da Biblioteca Pedagógica Brasileira da Editora Companhia Nacional. A Brasiliana era uma coleção que reunia ensaios sobre a formação histórica e social do Brasil, estudos de figuras nacionais e de problemas brasileiros (históricos, econômicos, geográficos, etnológicos, políticos…), além de reedições de obras raras e de obras estrangeiras. Deste modo, o objetivo da editora era a sistematização e coordenação de estudos e de pesquisas sobre temas nacionais, o que definia desde já o caráter cientifico esperado na publicação da História secreta do Brasil. Em nota, o editor deixa claro que Gustavo Barroso propunha uma sondagem profunda em busca de um saber científico, de uma verdade histórica ou de uma “história subterrânea dos acontecimentos”, como afirmava o próprio autor.

Terá o ilustre escritor encontrado o fio da meada? Terá o mergulhador conseguido trazer de suas sondagens, a perola da verdade histórica ou uma parcela da verdade? Nos dramas, representados por personagens conhecidos, nos largos cenários das agitações publicas, ou nos palcos dos teatros políticos, terá o seu olhar penetrado os bastidores? A todas essas perguntas que se reduzem, afinal, a uma só, responderão os seus leitores, que serão muitos e os seus críticos que serão bastante competentes para julgar da imparcialidade, segurança e penetração do historiador brasileiro.[254]

Mesmo colocando em questão alguns objetivos do escritor, a editora não deixa de reconhecer o grande esforço de pesquisa e a abundante documentação utilizada por Gustavo Barroso, trazendo luz sobre as “zonas de mistério de nossa história”. Um artigo publicado no jornal A Offensiva, na cidade do Rio de Janeiro, elucida de maneira apropriada aquilo que pretendia ser o principal atrativo da História secreta do Brasil. Segundo o jornal, o livro de Gustavo Barroso era uma obra de grande vulto e até então inédita no Brasil, pois representava um “compêndio de finalidades educativas” revelando aos leitores a “verdadeira história do Brasil”, dos primórdios da colonização até os dias atuais.

[A obra] Encerra o resultado de uma investigação meticulosa e profunda, a que se dedicou Gustavo Barroso na irriquieta atividade que vem exercendo no estudo do judaísmo, da maçonaria e sociedades secretas, cujos assuntos conhece sobejamente. É um trabalho de grande mérito, mostra a quem ler, como se prepararam os grandes acontecimentos da nossa Pátria, e quais os objetivos que êles, em verdade visaram.[255]

Um exemplo da difusão nacional da primeira parte da História secreta do Brasil pode ser observado no artigo publicado pelo jornal o Diário da Tarde, da cidade de Manaus. Segundo o jornal, Gustavo Barroso não precisaria de referências especiais, uma vez que esse intelectual possuía um nome consagrado, destacando-se entre os grandes “trabalhadores da imprensa no Brasil”.

É um dos mais interessantes conhecedores da história brasileira, tendo manifestado a sua curiosidade erudita em diversos ramos do conhecimento. O volume de agora é um pouco sectarista. Mas, por isso mesmo, fazendo-o a margem dos fatos históricos, deu a esses acontecimentos uma interpretação que na nossa literatura, não tem precursores.[256]

Mais uma vez o caráter científico do livro era exaltado, despontando como um grande resumo da história pátria, amparado por uma vasta documentação. Segundo o editorial, Gustavo Barroso com “inteligência e sentido critico”, de acordo com os princípios atuais da ciência histórica, realizou algo inteiramente novo, comparado à importância do trabalho de Manoel Bomfim.

Assim como o extraordinário Manoel Bomfim deu á historia a tradução nacionalista dos seus principais característicos, o sr. Gustavo Barroso aliou-se a essa versão uma outra, procurando a sua causa determinante em influencias até então despidas de elucidações completas. Trata-se, aliás, de um trabalho em serie, da qual este é o primeiro volume publicado. Êle viu nos fatores econômicos a origem de quase todas as transformações políticas e, nesses fatores, a determinação dos interesses ocultos. Começando pelo monopólio do pau de tinta, viu o caso do açúcar, do trafico de negro, a tragédia do ouro, o drama dos diamantes, a inconfidência mineira e as outras de igual natureza, que se fizeram sentir na época colonial e no primeiro império.[257]

É importante verificar que apesar do radicalismo ideológico de Barroso, seu prestígio intelectual permanecia em alta, fazendo com que editoras de tendências esquerdistas, como é o caso da Civilização Brasileira S/A, aceitassem publicar alguns de seus livros. Talvez essa atitude da editora estivesse atrelada a interesses comerciais apostando no potencial de vendagem dos livros de Barroso. De qualquer forma, em 1938, na publicação da terceira parte da História secreta do Brasil, a editora tentou demonstrar imparcialidade com a temática do livro, declarando enfaticamente que não era de sua alçada intervir nos pontos de vistas defendido pelo autor.

O que importa á Civilização Brasileira S/A, verificar no exame dos originais, é o valor intrínseco da obra, quanto á forma e ao fundo, é a responsabilidade e a probidade intelectual dos autores aceitos ou chamados a colaborar no progresso e no desenvolvimento da cultura brasileira, pelo debate amplo e livre de questões literárias, históricas e cientificas e dos grandes problemas nacionais. Foi este o critério que seguiu ao resolver tomar ao seu cargo a publicação deste 3 ° volume, que lhe apresentou o sr. Gustavo Barroso, da Academia Brasileira.[258]

Com esta nota a Civilização Brasileira pretendia livrar-se da responsabilidade de ter publicado um livro anti-semita, antimaçônico e anticomunista deixando o debate para os
chamados “especialistas no domínio dos estudos históricos”.

A questão esta aberta. O ilustre escritor chega a conclusões discutíveis. Que as discutam os competentes na matéria. É desse debate franco, por homens de responsabilidade, que resultará o esclarecimento dos pontos controvertidos de nossa historia.[259]

Como vimos no segundo capítulo, Barroso foi um intelectual ativo, pertencente à geração dos “explicadores”, ou seja aqueles intelectuais preocupados em apontar um “saída” para os dilemas do país[260]. Sua obra contém um conjunto de sugestões para a compreensão dos problemas políticos, econômicos e sociais. É, por um lado, uma interpretação do complexo jogo político e, por outro, a tentativa de construção da identidade nacional com base na “revolução integral”. Vimos também que o anti-semitismo foi abertamente inserido e defendido nos discursos de alguns dos principais integralistas como, Tenório D’Albuquerque, Madeira de Freitas, Ulysses Paranhos e, em especial, Gustavo Barroso. Entretanto, afirmar que o integralismo, como já apontando no segundo capítulo, foi um movimento amplamente anti-semita seria, no mínimo, reducionista mesmo que seja indiscutível a existência de uma forte corrente anti-semítica dentro do movimento influenciada por Barroso.[261]

Na conturbada década de 1930, ideologicamente marcada pela disputa entre fascismo e comunismo, o anti-semitismo se constitui num dos alicerces em que se sustentava a extrema direita na Europa e no Brasil. O judaísmo e a raça semita apareciam nos discursos como os inimigos a serem combatidos, assim como o capitalismo, o liberalismo e o comunismo mesmo porque, a lógica desse discurso político era associar o judaísmo a essas ideologias[262]. Os escritos de Barroso tentavam alardear o integralismo como o antibiótico eficaz para curar as infecções causadas pelos invasores externos, como o judaísmo. Conforme destacou Ribeiro, o integralismo foi um movimento muito amplo, que admitiu desde as classes sociais até os movimentos religiosos, mas evidentemente alguns ou muitos dos integralistas acabaram entrando na onda anti-semita e um dos grandes responsáveis por isso foi o historiador Gustavo Barroso, que apanhou esse veio crítico e desenvolveu uma série de trabalhos em cima deste tema.[263]

Quanto àquilo que se refere ao texto da primeira parte da História secreta do Brasil, pode-se dizer, que o estilo da escrita é norteado por uma linguagem rebuscada e uma noção de história típica dos historiadores do século XIX, em especial Varnhagen. Como foi visto no segundo capítulo, as referências ao historiador oitocentista são constantes na obra de Barroso, principalmente quando se trata da história da Maçonaria no período da Independência do Brasil. As lutas políticas entre Gonçalves Ledo e José Bonifácio, em várias ocasiões, foram analisadas por Barroso a partir de uma perspectiva historiográfica inaugurada pela obra História geral do Brasil.[264]

Além disso, Barroso desejava demonstrar, numa mesma obra, erudição, autoridade intelectual e militância partidária. Ciente deste desafio não se incomodava em afirmar que aquele era um livro dedicado aos assuntos mais “ocultos” da história, realizado graças a sua altíssima “sensibilidade de historiador”. Acreditava que a leitura dos símbolos era um dos principais requisitos para se atingir a verdade histórica[265]. Barroso praticava uma pesquisa semiótica buscando desvendar o significado das bandeiras. O intelectual acreditava que por traz da combinação de elementos enigmáticos, presentes, sobretudo nas flâmulas, escondiam-se verdades que somente os “iniciados” poderiam conhecer. Pois, embora existissem símbolos que são reconhecidos internacionalmente outros só poderiam ser compreendidos dentro de um grupo privilegiado e restrito, no caso os maçons.

A bandeira da Inconfidência Mineira, proposta por Tiradentes, representaria, por exemplo, o “Emblema da Divindade. Em sentido literal – chapéu.” Além disso, o mesmo triângulo poderia ser visto no capitel da coluna J. (Jakin) uma das colunas do Templo de Salomão, reproduzidas nos altares maçônicos.[266]

O triângulo maçônico é o triangulo dos Pentaculos cabalísticos, o Triângulo de Salomão dos ocultistas, o Infinito da altura ligado ás duas pontas do Oriente e do Ocidente, o triângulo visível da razão revelando o triângulo invisível, isto é, o ternário do Verbo, origem do dogma da Trindade para os magistas e cabalistas judaicos, o que justifica maçonicamente a explicação dada por Tiradentes.[267]

Do mesmo modo, o estandarte da “Revolução dos alfaiates” em 1798, guardava os objetivos “socialistas” daquele motim subversivo. A estrela central de ponta para baixo, segundo Barroso, representava a figura de Lúcifer, a imagem caricatural de Baphomet.[268]

A título de exemplo, Barroso resgatou também a figura demoníaca de Eliphas Levi conhecida como Baphomet, a cabra sabática portadora do mesmo pentagrama invertido na testa. A tradição popular que afirmava o culto do bode preto nas Lojas maçônicas seria, portanto, herança da adoração deste ídolo pelos maçons. A palavra cabalística Baphomet é o contrário de TEM-O-H-P-A-B e significaria: TEMPLI-OMNIUM HOMINUM PACI ABBAS, “O Pai do Templo – Paz Universal dos Homens”.[269]

Os símbolos para quem os saiba discernir ensinam mais do que muitas páginas de história, dizia Barroso, parafraseando o maçom Dario Veloso. Segundo o autor maçom, o símbolo era a afirmação discreta das “verdades profundas, maravilhosos segredos,” ensinamentos que só poderiam ser conhecidos pela “iniciação sistemática e progressiva”.[270]

Temos no decorrer desta historia secreta de interpretar constantemente muitos símbolos e alegorias do judaísmo-cabalista-maçónico. Somos por isso obrigados a documentar fartamente o assunto, afim de que não haja suspeita de que inventamos cousas do arco-da-velha.[271]

A narrativa histórica do livro começa no dia 26 de setembro de 1498, quando a frota portuguesa que partiu de Lisboa levava a bordo um “astuto e inescrupuloso judeu polaco”. Seus conhecimentos náuticos e sua experiência no comércio das “coisas das índias” seriam de grande utilidade. Foi batizado pelos portugueses e recebeu o nome de Gaspar da Gama, sendo, vulgarmente, conhecido por Gaspar das índias. Como descreveu Barroso:

Este judeu conversava muitas vezes com El Rei D. Manuel, que folgava de lhe ouvir falar sobre as coisas da Índia, e lhe fez muitas dádivas e mercês. A Vasco da Gama e outros almirantes portugueses, Gaspar das índias prestou inestimáveis serviços. Dois anos depois, vestida de luto, como era de praxe na época, quando as armadas iam em busca de terras desconhecidas, a corte manuelina assistia do eirado da torre de Belém a partida dos navios de Pedro Álvares Cabral. O judeu Gaspar embarcara na nau do capitão-mor como língua e conselheiro, hoje diríamos intérprete e técnico, em coisas e negócios das índias.[272]

Logo que aportou em terras brasileiras, o “esperto judeu” percebeu as possibilidades inesgotáveis de tirar vantagem daquele achado. Para o autor, o oportunismo e a inteligência nos negócios eram características centrais do povo de Israel.

Seus olhos vivos e espertos, olhos de rato fugido dos ghetos da Polônia, viram o nosso Brasil no primeiro dia de seu amanhecer. Ao lado de Pedro Alvares Cabral, “de quem não se apartava”, avistou o vulto azul do Monte Pascoal nos longes do horizonte, contemplou a terra virgem e dadivosa, a indiada nua e emplumada de cocares, assistiu a primeira missa celebrada por frei Henrique de Coimbra e ouviu a leitura da carta de Pero Vaz de Caminha.[273]

Barroso retomava em suas páginas o tradicional discurso religioso anti-semita, informando seus leitores sobre a falta de lealdade e o espírito de traição do judeu.

Por adulação e baixeza, afirmamos diante dos fatos. Batizado por Vasco da Gama, o israelita tomou, de acordo com o costume em má hora instituído por D. Manuel e que estragou, na judiaria, os grandes apelidos da nobreza lusa, o nome de família do seu padrinho; mas, quando a estrela do navegador se foi empanando ante a glória de Dom Francisco de Almeida, o poderoso Vice-Rei do Ultramar, o hebreu mesquinho abandonou o nome de Gama e adotou o de Almeida, sem mais tirte nem guarte…[274]

O primeiro assalto judaico ao Brasil teria ocorrido ainda no período colonial. O governo português influenciado por “conselheiros infiéis”, que o faziam enxergar somente as “maravilhas das índias”, deixou nas mãos dos cristãos novos (israelitas) o comando total do lucrativo “comércio do pau de tinta”. Foi quando, segundo Barroso, Fernando de Noronha e seus sócios arrendaram o Brasil.

O judeu Fernando de Noronha e seus sócios haviam arrendado o Brasil a D. Manuel, que continuava dentro do sortilégio, deslumbrado com as maravilhas da Ásia. Pelo contrato de arrendamento, os judeus deviam mandar todos os anos seis navios ao Brasil, para explorar ou descobrir trezentas léguas de costa para além dos pontos já conhecidos, fincando um forte no extremo em que tocassem. Esses navios poderiam levar qualquer produto para a metrópole sem pagar o menor imposto, tributo ou finta, no primeiro ano; pagando um sexto do valor, no segundo, e um quarto no terceiro. O prazo de arrendamento, como se vê, era de três anos. No dia 24 de janeiro de 1504, D. Manuel fez doação da ilha de S. João ã Fernando de Noronha, a qual foi confirmada por D. João III em 3 de março de 1522.[275]

No texto existe uma forte argumentação no sentido de demonstrar que muito antes de qualquer concessão de sesmarias, os judeus já desfrutavam de domínios e monopólios da, recém descoberta, colônia portuguesa.

Desta sorte, antes de dividindo o Brasil em capitanias hereditárias muito antes das primeiras concessões de sesmarias, origem dos primitivos latifúndios, a coroa portuguesa alienava uma parte do Brasil, dando-a de mão beijada a um judeu traficante do pau-de-tinta, que era a anilina daquele tempo. Terminou o prazo de arrendamento da costa brasileira em 1506. Fernando de Noronha agenciou, na corte, sua renovação ou prorrogação, obtendo-a por dez anos, em troca do pagamento anual de quatro mil ducados, o que deixa ver que os lucros auferidos no comércio da madeira de tinturaria, único no amanhecer da vida brasileira, não tinham sido de desprezar. Além da prorrogação, os judeus obtinham o monopólio do negócio, pois que o rei se obrigava a não permitir mais o “trato do pau-brasil com a Índia”. Era, com efeito, do Oriente que vinha o pau-de-tinta, berzi, ou verzino, segundo Muratori e Marco Polo. O descobrimento do nosso País, em verdade, graças às informações levadas pelo astuto judeu que Vasco da Gama açoitara e conduzira àpia batismal, tivera como resultado a formação, para empregar a linguagem moderna de um TRUST DAS ANILINAS. Naturalmente, que era o monopólio do comércio da madeira tintória, desde que o sapang de Java e Ceilão fora corrido dos mercados europeus, senão isso? Tanto assim que os navios do consórcio Fernando de Noronha carregavam por ano de nossas matas litorâneas a bagatela de “vinte mil quintais da preciosa madeira”.[276]

O escritor procurou enfatizar que, no Brasil, a presença do judeu estava há muito tempo arraigada. A “judiaria” aproveitara da “boa sociedade cristã” para instalar-se no território luso-brasileiro e, em troca, “apunhalava” pelas costas os portugueses, pois os semitas só amavam a Sinagoga e o Kahal, afirmava Barroso.

No palco: a armada de Cabral com as velas pendentes em que o sol empurrava as cruzes heráldicas; a cruz erguida na praia, diante da qual um frade diz a primeira missa; um padrão cravado no solo virgem da terra descoberta em forma de cruz, a cruz nos punhos das espadas linheiras que retiniam de encontro aos coxotes de aço fosco; a cruz nas bandeiras alçadas, os nomes de Vera Cruz e Santa Cruz impostos a toda a nova região americana: o idealismo cristão, o heroísmo cristão, o sentido cristão da vida, a propagação da Fé e a dilatação do Império que a gesta dos Lusíadas cantaria com o ritmo do rolar das ondas. Nos bastidores, manobrando os cenários e arranjando as vestiduras, o judeuzinho de Goa, o cristão-novo Fernando de Noronha, os Cristãos-novos e israelitas do seu consórcio comercial, inspirados pela sinagoga e pelo kahal, realizando o lucro à sombra do idealismo alheio; ganhando o ouro à custa do esforço e do sangue dos outros; apagando o nome da Cruz com o nome do pau-brasil, o que indignou a João de Barros; usando a epopéia da navegação e o poema do descobrimento para a fundação trivial de um monopólio de anilinas…[277]

Uma das características marcantes da História secreta do Brasil é o esforço para evidenciar, perante o “tribunal da história”, que o judaísmo, inescrupulosamente, utilizava-se de todos os meios para apoderar-se da riqueza e da pecúnia no Brasil. Para Barroso, o assalto às fortunas públicas e particulares foi levado a efeito, primeiro através do monopólio do pau-brasil, logo depois, pela especulação sobre o açúcar, seguido do tráfico negreiro, da pirataria, da conquista, das companhias de comércio e navegação, do açambarcamento de gêneros, do estanco de produtos e, finalmente, da expropriação forçada das minas, do contrato dos diamantes e do contrabando.

Possuindo os meios pecuniários, a força do ouro, o judaísmo atacará o segundo sector da força da sua luta, o Estado. Aí já se não apresentará tão a descoberto e se valerá das sociedades secretas, que organizará em compartimentos estanques e superpostos, tornando-as fontes de iniciação nas doutrinas cabalistas-talmúdicas, as quais teem o dom de transformar os cristãos em “traidores da própria pátria e da própria fé, em proveito do judeu cabalista, cuja ambição é conquistar pela astúcia e pela traição o domínio universal ”.[278]

Barroso explicou, com uma impressionante riqueza de detalhes, o surgimento da “maldade do povo judeu”, que infiltrado no seio da Igreja Católica nascente, provocaram várias divisões heréticas, “multiplicando-as num labirinto diabólico”. Segundo ele, toda a gnose dos primeiros séculos do cristianismo tem origem na cabala judaica. Além disso, afirmou que quase todos os grandes heresíarcas foram judeus.

As sociedades secretas gnósticas se espalharam pelo Ocidente e pelo Oriente, sobretudo as sociedades secretas maniquéas a que a bula Humanum genus de S. S. Leão XIII mui acertadamente compara a maçonaria. Catáros, patarinos, brabantinos e albigenses saem em plena idade média dessa fonte manaquéa e cobrem a França com uma rede invisível de sociedades secretas.[279]

Seja por necessidade ou por natureza, na opinião de Barroso, os judeus sempre procuraram, utilizaram e amaram o mistério e, desde o tempo dos romanos, possuem um governo oculto organizado, denominado de Kahal. Não obstante, demonstrou haver uma íntima ligação entre a Ordem dos Templários e o judaísmo.

O fim secreto dessa ordem de cavalaria, fundada na Palestina em 1118, era a reconstituição do templo de Salomão, em Jerusalém, de acordo com o modelo da profecia de Ezequiel; seu exemplo, os maçons guerreiros de Zorobabel; suas tradições, as judaicas do Talmud; sua regra, a cabala dos gnósticos; seu ideal, adquirir influencia pela riqueza, intrigar e se assenhorear do mundo. Tinha duas doutrinas: uma oculta, reservada aos mestres; outra pública, a católica-romana, enganando, dessa sorte, aos adversários que pretendia suplantar. Obedecia a esta palavra de ordem: enriquecer para comprar o mundo. Queria, assim, derrubar a autoridade do Papado e o poder da Realeza. Havia traído São Luiz nas Cruzadas e preparava vasta conspiração em toda a Europa, Filipe o Belo e Clemente V a dissolveram de surpresa. Os sectários de toda a espécie teem, desde muito tempo, acumulado mentiras sobre mentiras, tentando inocentar a Ordem do Templo, destruída pelo Papa e pelo Rei de França. Todavia, quanto mais se aprofunda a questão, mais aparece a culpabilidade dos Templários, que, em toda a cristandade, sofreram condenações infamantes, depois de longos e minuciosos processos, segundo as confissões pormenorizadas, idênticas todas elas nos países os mais diversos.[280]

Continua…

Autor: Luiz Mário Ferreira Costa

Fonte: Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2009.

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Notas

[251] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. (op. cit), São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937.p. 15.

[252] – ENGELS, Friedrich & MARX, Karl. O Manifesto do Partido Comunista. Trad. Marco Aurélio Nogueira e Leandro Konder. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 65.

[253] – 3 BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. (op. cit), p. 301

[254] – Idem, p. 1

[255] – Jornal A Offensiva, Rio de Janeiro 31 de Dezembro de 1936. s/n.

[256] – Jornal Diário da Tarde. Manaus 8 de Fevereiro de 1937 s/n.

[257] – Idem, s/n.

[258] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: da Maioridade á República. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938. p. 3.

[259] – Idem, p.4.

[260] – PANDOLFI, Dulce (org). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1999.

[261] – RIBEIRO, Ivair Augusto. O Anti-semitismo no discurso integralista no Sertão de São Paulo: os discípulos de Barroso. In: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: EDUSP-Fapesp, 2007. p. 354

[262] – Idem, p.355.

[263] – Idem, p. 358 – 359..

[264] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. (op. cit), p. 258

[265] – Idem, p. 186 – 187.

[266] – Idem, p. 164.

[267] – Idem, p. 165.

[268] – Idem, p. 186.

[269] – Idem, p. 184.

[270] – Idem, p. 187.

[271] – Idem, p. 187.

[272] – Idem, p. 21.

[273] – Idem, p. 21.

[274] – Idem, p. 22.

[275] – Idem, p. 25.

[276] – Idem, p. 26.

[277] – Idem, p. 27.

[278] – Idem, p. 151.

[279] – Idem, p. 153.

[280] – Idem, p. 154.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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