O Desenho e o Canteiro no Renascimento Medieval (séculos XII e XIII): Indicativos da formação dos arquitetos mestres construtores

ESTUDOS: HISTÓRIA DE DUAS PRÁTICAS RITUALÍSTICAS NO REAA

Introdução

Neste início do século XXI, a Idade Média e o Renascimento passaram a ser temas recorrentes na literatura e no cinema. Apesar deste interesse e do volume da produção artística, a Idade Média em particular é mostrada tão eivada de preconceitos e estereótipos, que não deixam transparecer as profundas mudanças historiográficas que o período sofreu durante todo o século XX.

Até então, a Idade Média era considerada um período a ser esquecido e desprezado na história da humanidade, considerado como a Idade das Trevas.

A visão que a recente literatura e cinema transmite, é ainda a mesma vinda do Iluminismo do século XVIII e do idealismo dos românticos do século XIX: uma época de violências, ignorância, opressão, galanterias, cavalheirismo, heroísmo e honra.

Todo este culto romântico à Idade Média deveu-se ao fato de que os Estados Nacionais modernos, tiveram sua gênese exatamente neste período.

Na verdade, toda a civilização ocidental e cristã começa a ser moldada a partir do Império Carolíngio, em sua busca de reviver o Império Romano. Carlos Magno construiu muitas igrejas em seu reinado, com o intuito de fortalecer a rede de controle do território.

A mudança historiográfica no período medieval começa a ficar evidente quando os limites temporais que originalmente definiam a Idade Média começam a ficar mais elásticos e passam a ser contestados pelos novos historiadores.

A antiga divisão da História em períodos (BURNS,1968) colocava a Idade Média como tendo seu início com a queda do Império Romano e seu final com a tomada de Constantinopla (fim do Império Bizantino) pelos turcos. Logo após, iniciava-se como algo mágico, o Renascimento.

Atualmente, o período medieval passou a ter cada vez mais subdivisões, como a demonstrar maior heterogeneidade e fluidez entre os acontecimentos ocorridos nos diferentes intervalos temporais. A ideia de um período paralisado pela brutalidade e ignorância começa a se desfazer.

Na verdade, os acontecimentos foram muitos e díspares: invasões bárbaras, Inquisição, gênese de ciências e técnicas modernas, as magníficas catedrais, a racionalidade acadêmica com a Escolástica, a fundação das Universidades e o sistema econômico capitalista ainda vigente.

A reavaliação do período mostra uma riqueza de fatos e acontecimentos culturais que baniram o fantasma da Idade das Trevas que pairava sobre toda a Idade Média.

Realmente, houve um período na Alta Idade Média, ou seja, logo após a ruína total do Império Romano (que já vinha se desagregando desde muito tempo) e a desorganização social que se seguiu às invasões bárbaras, onde tudo que denotava civilização foi destruído, desapareceu ou fechou-se para o mundo exterior.

É neste período de invasões de povos bárbaros e retrocesso cultural (que ficou como marca perene de toda a Idade Média), que tem início um processo de transformação do latim pela convivência forçada com as línguas bárbaras.

A língua de norma culta começa a degenerar no que se chamou de latim vulgar (surgirão também deste fenômeno as línguas neolatinas que serão a base de aglutinação dos futuros Estados Nacionais) que sendo absorvido pela população e aliado ao elevado índice de analfabetismo distancia-a ainda mais da língua da transmissão do conhecimento que é o latim culto.

Aliada a esta importante modificação linguística que terá fundamental importância no modo como a transmissão do conhecimento se dará, destaca-se como regra geral o analfabetismo, já que o privilégio da leitura e da escrita concentrava-se principalmente nos clérigos, primeiros depositários e reprodutores da cultura herdada da Antiguidade.

Daí, a transmissão do conhecimento seguirá um modo quase obrigatoriamente oral e com esquemas gráficos de simples leitura e compreensão.

Foi este riquíssimo período histórico que suscitou a pergunta: se a historiografia vai revendo fatos e situações, terá acontecido algo parecido com a formação do arquiteto mestre construtor? Como se reproduzirá esta mão de obra especial, quando o trabalho torna-se essencialmente profissional?

A curiosidade sobre a utilização do desenho medieval para o projeto e o canteiro de obras, o número relativamente reduzido de registros gráficos remanescentes e as informações quase sempre distorcidas sobre o período, foram pontos de estímulo e dificuldades para esta pesquisa.

Assim, é no sentido de conhecer melhor o trabalho dos arquitetos mestres construtores, desde seu embasamento até suas técnicas, num período onde segundo Mário Mendonça de Oliveira (op.cit.,2002) estão os “injustiçados” da História do mundo ocidental, que os diversos capítulos seguintes se estruturam.

No Capítulo 1, apresentamos Os Elementos, a obra de Euclides de magnitude inigualável na história e desenvolvimento da Matemática. Euclides era o ídolo dos pedreiros medievais, reverenciado por lendas que o ligavam à figura bíblica de Abraão.

A Geometria era sinônimo da profissão de pedreiro, embora não fosse diretamente a obra de Euclides que fornecesse as condições para seu trabalho.

Durante a Idade Média, a difusão parcial de sua obra por intelectuais romanos como Boécio, é feita em escolas, o que a distanciou dos arquitetos mestres construtores.

Todas as 23 Definições, os 5 Postulados, os 5 Axiomas e os 48 Teoremas do Livro I são aqui registrados para contrastar este imenso volume de conhecimento geométrico com a pequena fração com que trabalhavam os Arquitetos Mestres Construtores.

No Capítulo 2, tratamos de procurar as referências da obra de Vitrúvio durante o período medieval, especialmente no espaço entre os séculos XII e XIII, nosso principal interesse.

Apontamentos sobre o quanto e por quem o De Architectura era conhecido, desde o século I ao século XV, são aí apresentados. Sua penetração apenas em círculos teórico-eruditos fica evidente. Importante destacar ainda, a data da primeira edição ilustrada de Vitrúvio: Roma, 1511, no século XVI.

É no Capítulo 3, na apreciação dos cadernos de Villard de Honnecourt e na análise particular das Folhas com desenhos referentes à alvenaria que o nível do conhecimento geométrico fica evidente e demonstra seu caráter prático, na direção oposta da Geometria Teórica de Euclides.

Esta que é a mais importante coletânea de desenhos do período medieval, surgida entre 1220 e 1235, registra procedimentos práticos para se obter elementos arquitetônicos, esquemas geométricos para facilitar o desenho de figuras e até receitas para ferimentos que possivelmente ocorressem no canteiro de obras.

No Capítulo 4, a tradicional separação entre Teoria e Prática, comum a muitos textos da Antiguidade e mesmo medievais, é exposta através da Geometria Teórica e da Geometria Prática (Geometria Fabrorum).

Está dada a característica principal do arquiteto mestre construtor: a busca do fazer arquitetônico, antepondo a prática à correção matemática. A convivência dos dois mundos, o teórico e o prático, com seus poucos pontos de contacto, prestam-se a aclarar a visão sobre as particularidades da vida social medieval.

O desenvolvimento do ofício de pedreiro, desde as oficinas monásticas, passando pelas loggias e dessas pelas Corporações de Ofícios, enlaça-se perfeitamente com as transformações econômicas, as novas formas arquitetônicas e a emergência da burguesia no cenário urbano.

Alguns procedimentos gerais de projeto para o edifício são colocados, esclarecidos pelos escritos do Mestre alemão Matthias Roriczer.

O quinto e último Capítulo aborda o conjunto de ferramentas e instrumentos utilizados nos séculos XII e XIII, como auxiliares das técnicas e dos procedimentos geométricos desenvolvidos até então.

A padronização e uniformização das atividades no canteiro são inesperadas e surpreendentes. As ferramentas e instrumentos aplicados a cada tarefa, juntamente com os registros de pagamentos a operários, recepção de materiais nos canteiros e a iconografia medieval, informam-nos dos métodos aplicados ao erguimento das imensas obras medievais.

Muita organização e padronização, buscando a rapidez e a economia de meios materiais, era a nova situação financeira crida pelo nascente capitalismo mercantil. O desenvolvimento financeiro do lugar e a provisão de dinheiro aceleravam ou retardavam o tempo de duração das obras.

A extração de peças modulares nas pedreiras levava em conta o transporte até a obra e as dificuldades no assentamento final. Os gabaritos unificam o trabalho dos pedreiros, submetendo a forma final não à vontade de cada um, mas a uma direção artística única, dada pelo arquiteto mestre construtor.

Esta figura, que tem uma formação bastante variada em função do acesso a fontes do saber acumulado do ofício, dependia para evoluir ao longo de sua carreira profissional, do contacto com tratados e textos mais antigos, na maioria das vezes somente disponíveis nas bibliotecas dos mosteiros. Ainda assim, o conhecimento e aprofundamento nos tratados antigos do ofício somente eram possíveis quando estes se encontravam em língua vernacular ou o arquiteto mestre construtor recebia informações sobre o conhecimento erudito por meio da convivência com um clérigo que dominava a língua latina.

Através deste canal de informação do conhecimento erudito, o arquiteto mestre construtor incorporava o que achasse útil aos costumes e tradições do ofício, enriquecendo assim sua prática profissional.

Continua…

Autor: Francisco Borges Filho

Tese apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor. Área de concentração: Estruturas Ambientais Urbanas.

Fonte: Digital Library USP – Theses and Dissertations

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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