O colarinho sem chopp

Como o colarinho da cerveja influencia no sabor?

Antes de abrir a primeira rodada e explicar o título invertido acima, meu Irmão Heberth Ávila ensina que cada tipo de cerveja tem sua medida desejada e esperada de espuma. Muita carbonatação pode ser sinal de excesso de gás carbônico. Sai o chopp com colarinho, entra a aberração do “colarinho sem chopp”, não havendo o que saborear. Pode ser culpa do mestre cervejeiro imperito ou do garçom distraído na biqueira, tanto faz. Para esse desvio, bradamos logo: “tem muita espuma e pouco chopp”, ou seja: tem gás demais!

Em nossa Sublime Ordem, também é indesejada a sensação de “muita espuma, pouco chopp”: discussões infindáveis sobre o que deve ser feito, a melhor estratégia, pautas paquidérmicas para, ao fim e ao cabo, reconhecer que muito pouco ou nada se aplicou no mundo real. Muito volume sem efetividade equivale-se ao insonso “colarinho sem chopp”. É a Oficina que perdeu a mão na especulação. Nessa hipótese, ao inverso da cerveja, sua causa é o contrário: tem gás de menos!

Muita calma nessa hora! Desce bem uma boa dose de cautela e equilíbrio (com gelo, limão e gentileza): não se nega o planejamento e a abstração, ínsitas à boa reflexão. O que se condena é fazer da especulação escudo para a inércia. Espuma demais é como planejamento sem nenhuma execução: muito volume, pouco gosto!

Também é servido aos Iniciados, como aperitivo, que ninguém conseguiu ainda a posse integral da Verdade. Quanto mais se resiste na inércia, mais se ilude. Noutro dizer, é mais provável que o simples ignorante esteja mais próximo da Verdade que o teórico que se jacta, sentado em falsas noções.

Como qualquer teste cego, comprova-se o bom mestre cervejeiro pelo resultado do produto no campo dos sentidos e não pelo seu currículo quilométrico. Tal regra aplica-se a toda e qualquer Arte, dentro ou fora das Colunas.

Entrando na conversa, O Caibalion alerta que a posse do Conhecimento desacompanhado da Ação é como o amontoado de metais preciosos, uma coisa vã e tola. O Conhecimento é, como a riqueza, destinado ao Uso. A Lei do Uso é Universal, e aquele que a viola sofre por causa do seu conflito com as forças naturais” (Os Três Iniciados).

Se o discurso convence, o exemplo arrasta. Se isso desce amargo demais, é porque os sentidos ainda não estão despertos.

Puxando uma cadeira, Immanuel Kant explica que o esclarecimento (aufklärung) é a saída do homem da menoridade, da qual ele próprio é o culpado.  Sobra entendimento, mas falta resolução e coragem para usá-lo sem a direção de outra pessoa. Um manual me mastiga um conceito. O guru massageia minha consciência. O sacerdote me lembra que tenho de acreditar. Meu nutricionista conta minhas calorias. Porém, para além da explicação, do entendimento, urge a coragem para o “uso público” da razão. O “Relógio de Königsberg” sugere servir-se do teu próprio entendimento para quebrar os grilhões da menoridade. Ao desafiar ousar saber, brada o lema do Esclarecimento: Sapere Aude!

O que o idealista transcendental avisou é que preceitos, fórmulas, frases de efeito e planilhas não podem virar a “rodinha do hamster cuspidor de regras”, o ápice do mau uso das aptidões naturais, as correntes da menoridade. Assim com o Kant já fez, é preciso despertar do “sono dogmático”.

Especular, do latim speculari, é observar, projetar possibilidades, alternativas. O erro não está na especulação em si, mas na ilusão dela virar um castelo e dele nunca mais sair. Isso faz do meio o próprio fim e nada se transforma. Ariano Suassuna conta que um maluco acordou cedo, encostou o ouvido no muro e ficou em silêncio. Dez minutos depois, um curioso repetiu o mesmo gesto. Em duas horas, vários outros copiaram a escuta até que alguém questionou: “nada ouço!”. O louco mais antigo então tranquilizou: “está assim desde que eu cheguei”

Maçonaria especulativa não poder ser levada à última instância. O Obreiro encastelado pode virar especulador de ofício, na pior acepção do termo. No jogo rasteiro do mercado variável da consciência vai querer sempre “entrar na baixa e sair na alta”. Tudo vira uma rodada de poker em que as frases decoradas são suas cartas, mas, de blefe em blefe, a moeda de aposta é o seu próprio tempo, já perdido.

A transcendência já superou o embate entre racionalistas e empiristas, ou, como cravou Kant: “experiência é percepção compreendida”.

Quando os celulares disputam espaço na mesa, é que percebemos o perigo também do excesso especulativo virtual: textos e frases de efeito rolam frenéticas pelas telas iluminadas. Não há navegação, mas naufrágio nesse black mirror em alta resolução. Se surgir alguma frustração, basta “sair do grupo”. E assim prossegue nossa pobreza de sentidos nas experiências a que nos propomos.

Voltando à degustação, primeiro vem o colarinho e, em seguida, o contato com o líquido, a matéria densa. Da aparência à essência, todos os sentidos devem se unir para abrir as portas da verdadeira percepção. Depois do saber, é preciso sentir o sabor.

Almir Sater e Sócrates concluem que o velho boiadeiro, tocando a boiada, tem certeza de que muito pouco (ou nada) sabe; mas, assim mesmo, vai pela longa estrada. Segue tocando em frente.

As Leis Universais não podem ser violadas, principalmente a da Compensação: “antes que alguém possa gozar um certo grau de prazer, deverá ter movido, proporcionalmente para o outro polo da sensação”. O gozo e o sofrimento são os batentes do pêndulo do relógio da vida. É preciso a chuva para florir.

Completa O Caibalion, simplificando que, dentro do paradoxo divino, “tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés”. Noutro dizer, onda boa só pega o surfista que se joga na água. Sem rodeios, chegando da Terceira Margem do Rio, Guimarães Rosa resume: “O que a vida quer da gente é coragem!”

Irmão reconhecido como tal é o que está na seara, desbastando sua pedra bruta, sem fugir dos golpes contundentes. A matéria não se movimenta só com a ideia. Se insistir nisso, viola outra lei universal, a da Correspondência: “o que está em baixo é como o que está em cima e vice-versa”, ou, pra bom bebedor, debaixo de espuma vistosa tem que vir cerveja boa.

Antes da “saideira”, não se nega o essencial papel da especulação, leve e abstrata, desde que não se ignore a matéria, densa, pesada, com seus enfrentamentos, temperaturas e pressões variáveis.

Conservai sempre a vossa mente nas Estrelas, mas deixai os vossos olhos verem os vossos passos para não cairdes na lama, por causa da vossa contemplação de cima.” (O Caibalion).

Então, procuremos não só o saber, leve como a espuma, porém, sem a especulação contraproducente e excessiva, mas também os erros e acertos da vida que nos desafia a ousar saborear seus doces e amargores Sapore Aude!

A conta, por favor!

Autor: Luciano Alves

Luciano é analista judiciário, professor, M.M. da A.R.L.S. Jacques DeMolay nº 22 da GLMMG e, para nossa alegria, também colaborador do blog.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para O colarinho sem chopp

  1. Cláudio Rodrigues disse:

    Então, não só o Parabéns pelo texto, e Tchin ! Tchin ! Tchin !, por 3 vêzes !. Não importa o cargo em Loja e sim o compromisso de assumi-lo.
    Um abração do
    Cláudio Rodrigues

    Curtir

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