Τετρακτυς: a tétrada pitagórica

Rosicrucian Tradition - The Papers of Thomas D. Worrel

Onde quer que um símbolo esteja relacionado a um número, aí há, quase sempre, uma referência a Pitágoras. O que dele sabemos vem de comentários de outros pensadores e, no que concerne às interpretações pitagóricas dos números, a influência de pensadores tardios é imensa, principalmente do médio-platonismo e do período renascentista, de modo que não há como saber se realmente as interpretações correspondiam ao verdadeiro pensamento do Mestre ou se eram apenas divagações com apenas algum fragmento de verdade.

Um dos símbolos mais marcantes é a Tetraktýs ou Tétrada, simbolizada pela disposição dos números 1, 2, 3 e 4 em um triângulo equilátero. Para os pitagóricos, a Tetraktýs era sagrada e até se jurava sobre ela. As fontes hermenêuticas são Jâmblico e Nicômaco de Gerasa.

A palavra Tétrada é uma tradução do termo grego Τετρακτυς, cuja pronúncia é /tetraktýs/, com tônica na última sílaba e com o y tendo o mesmo som do u francês ou do ü alemão. Doravante, toda expressão escrita da pronúncia de um termo grego ou latino virá entre barras, /…/. A Tétrada, como disse, refere-se à coleção dos quatro primeiros números, 1, 2, 3 e 4. Para eles, tudo podia ser explicado a partir dela.

Para entender o porquê, é necessário compreender que esses quatro primeiros números simbolizavam princípios fundamentais norteadores da reflexão filosófica sobre o mundo. Em primeiro lugar, eles se referiam, respectiva e equivalentemente, às noções de Mônada, Binário, Ternário e Quaternário. A totalidade das coisas era simbolizada pela Década, ou seja, pelo número 10, pois a soma aritmética 1+2+3+4=10 era uma representação da totalidade abrangida pelos princípios fundamentais.

A chave para a compreensão da Tétrada, segundo opino – e entendo não ser definitiva ou consensual -, está na antiga questão platônica do Uno e do Múltiplo. Olhemos em redor. Percebemos a existência de diversos seres e vemos que estamos imersos no mundo do Múltiplo. O próprio fato de que nos percebemos como uma identidade psíquica separada dos demais seres nos faz ver que vivemos sob o império do Múltiplo. O mundo, em sua totalidade, é o reino do Múltiplo. Surge aí a questão que intrigou Platão em seu diálogo Parmênides. A leitura do Parmênides, de Platão, deveria ser acompanhada pelos comentários de Proclo. A edição de Carlos Steel dos Procli In Platonis Parmenidem Commentaria, pela Oxford University Press, é magnífica. Se o Uno é absoluto, se é infinito, se com seu pensamento abarca absolutamente a totalidade das coisas com inteligência infinita, como é que podemos intuir que a totalidade das coisas não se confunde com o Uno? Posto de outra forma, Deus é a causa primeira das coisas do mundo, mas como é que Deus e o Mundo não são o mesmo? Como é que podemos conceber a ideia de Deus ser Absoluto e, no entanto, não ser o Mundo, sem cair no panteísmo? A essa separação entre o Uno e o Múltiplo se dava o nome de diferenciação.

Antes de continuar, convém que esclareçamos o conceito de número. Para os antigos, a série dos números começava no 3. Número vem do latim numerus /númerus/, que, por sua vez, é correlacionado com o grego νόμος, /nómos/, que significa norma com caráter de lei. Seu correspondente grego é a palavra ἀριθμός, /arithmós/, que, além de significar número, também significa ordemdisposiçãoarranjo. Ela vem de ῥυθμός, /rhythmós/, isto é, ritmo, cuja raiz é a mesma do verbo ῥέιν, /rhéin/, que significa fluir. Assim, o fluxo do mundo implica o número. Portanto, o conceito pitagórico de número não é o quantitativo, não é o número do cálculo. O número é a ordem, a coerência que subjaz a relação entre um todo e suas partes. O número é processo, ritmo e fluxo, é o produto das relações entre os opostos. Oposição não tem o sentido de confronto. Vem do verbo opponēre, /opponêre/, formado pelo prefixo ob adjunto a ponere, /ponêre/, ou seja, significa “pôr diante de”. A relação que surge da oposição é definida por sua proporcionalidade intrínseca. O número é, assim, a forma dessa proporcionalidade intrínseca, é a harmonia que resulta do ajustamento dos opostos. Esse produto munido de harmonia interna é representado pelo 3. Se recordarmos que ἀριθμός, /arithmós/ significa ordem, disposição ou ajustamento, fica claro o conceito de número e porque, para os pitagóricos, o 1 não era um número. Segundo Pitágoras, o ἀριθμός /arithmós/ é a série móvel que flui da Mônada, simbolizada pelo número 1. Toda criatura finita é número e possui número. Com efeito, todo ser finito é composto e, portanto, as suas partes constituintes relacionam-se conforme proporções específicas. O único ser absolutamente simples é o Ser Supremo, a Mônada. No Uno, o entendimento é absoluto, é direto, não requer a mediação de outras verdades representadas por proposições, pois o Uno é a própria Verdade. Dessa forma, o 1 não podia ser número, pois não se caracterizava por uma relação com um terceiro. Similarmente, o 2 não podia ser número, pois embora indicasse a multiplicidade do duplo, um oposto ao outro, não subsumia a relação entre esses opostos e, por conseguinte, nada dizia da relação entre os eles.

O Múltiplo é o universo, a totalidade das coisas. Há dois princípios básicos no universo e esses princípios são separados: Espírito e Matéria.

O Espírito é simbolizado pelo número 3. Por quê? Porque 3 é símbolo da Razão. Com efeito, razão, que vem do latim ratio, /rátio/, é aquela relação entre duas coisas distintas. Na Matemática, a razão aparece quando dizemos que A está para B assim como B está para C. A relação entre A e C é mediada por B. Na Ontologia, a razão aparece quando um ente A mantém com B uma relação específica. Essa relação também pode ser expressa pela Lógica, como no silogismo, em que a premissa menor se conecta à conclusão pela premissa maior. O Eu só se percebe como unidade completa porque está imerso na multiplicidade. A percepção da multiplicidade é a percepção do Não-Eu, do que é oposto (oppositum, isto é, ob-positum, /ob-pósitum/) ao Eu, posto diante do Eu. O Eu, em sua unidade, só se dá conta da dualidade porque a diferença é sempre uma diferença relativamente a algo que está idealmente no ato gnosiológico. O Ternário é o símbolo do Espírito, que participa simultaneamente da Unidade e da Dualidade, mediante a categoria da relação, ou seja, pela Razão. Por isso é o número do Grau 1 em certas ordens inicáticas. O homem criado é ainda puro trabalho, porém, como a relação implica ratio /rátio/ ou razão, o iniciado é o homem racional na etapa inicial de sua ascensão. Jâmblico considerava o 3 o primeiro número, justamente por que ἀριθμός /arithmós/ ou numerus /númerus/ pressupõem disposição, arranjo, relação e harmonia.

O número 4 é símbolo das coisas temporais e das coisas corpóreas. Por isso, pode ser visto como um símbolo da materialidade, já que Matéria, tempo e espaço são correlacionados. A associação do 4 à Matéria pode ser decorrência histórica da associação que os antigos faziam entre o mundo material e as quatro direções cardeais. A Matéria em si mesma é caótica, não tem forma nem ordenação. Ela precisa da Vontade criadora do Espírito para obter uma forma ordenada. Assim, o Universo, entendido como o reino do Múltiplo, é representado pelos números 3 e 4, ou seja, Espírito e Matéria, os seus dois princípios básicos. Obviamente, acima desses dois princípios está Deus.

Finalmente, o Binário ou Díada. O 2 simboliza o processo de diferenciação entre o Uno e o Múltiplo. Como se dá essa diferenciação? Esse processo é incompreensível para nós. Está além de nossa capacidade racional e intuitiva. De fato, se encontrássemos uma explicação racional de como se dá a diferenciação, estaríamos usando a Razão, o 3, para explicar algo que ontologicamente a antecede. Assim, como falamos do Uno com termos tais como Absoluto, Infinito etc., isto é, dele falamos sem que verdadeiramente compreendamos o que seja a experiência do Absoluto e do Infinito, assim também falamos da diferenciação sem, contudo, poder compreender intrinsecamente o que seja. A inescapabilidade com relação à multiplicidade é uma limitação da mente finita do homem. A Mente Absoluta de Deus abrange todas as coisas em um único Pensamento. A ideia de oposição é uma necessidade da mente humana que surge exatamente da sua finitude. A dualidade como símbolo da oposição não é, assim, uma emanação do Sumo Bem, pois, se assim fosse, seria forçoso admitir um princípio oposto ao do Sumo Bem, ou seja, um princípio do mal, o que é impossível. No Uno, a Vontade não se diferencia do Ato. O lapso entre a vontade e o ato é algo da mente finita, da mente humana, não da Mente Infinita. Embora não possamos “vivenciar” essa unidade, podemos pressupô-la. Na Mônada, vontade e ação são idênticas. Assim, o construto pitagórico da Díada é um artifício da mente humana para dar uma racionalidade ao problema da Totalidade Absoluta de Deus e Sua independência relativamente ao Múltiplo. As cosmogonias e psicogonias, inclusive a própria ideia de criação do mundo, são mecanismos mentais de supressão do vácuo intelectivo inerente à questão da diferenciação. Falamos em Criação justamente como forma de suprir de intelecção aquilo que é ininteligível.

Uma curiosidade surge. Gershom Scholem é enfático ao mostrar as origens neopitagóricas e neoplatônicas da Cabala medieval. Para explicar a emanação, os cabalistas medievais da Catalunha conceberam a ideia de tzim-tzum, um pontinho no Uno do qual se inicia a emanação até se chegar a Malchut, a Matéria, a décima sephirah. Essa ideia é uma representação simbólica do processo de diferenciação entre o Uno e o Múltiplo. É evidente, porém, que são tentativas de explicação para algo que é essencialmente incompreensível. A diferenciação é incompreensível. Simplesmente não temos como responder à pergunta “Porque o universo é em vez de não ser?” Note que aí já se admite que o Uno é superior ao Ser, além do Ser, super esse, como diziam neoplatônicos com Pseudo-Dionísio Areopagita.

Se considerarmos a totalidade dos números abrangidos pela Tétrada, os números de 1 a 10, o que devemos ter em mente é que cada um deles possui uma interpretação metafísica. Para os quatro primeiros números já demos nossa interpretação. O que mais nos chama a atenção, entretanto, é a incompreensibilidade quanto ao número 7.

Em geral, os comentários sobre o número 7 se restringem a listar uma série de coisas que têm sete. Nem expoentes da Renascença como Marsilio Ficino e Pico della Mirandola escapam a essa sina irritante. Por exemplo, o 7 é dito sagrado porque simboliza os sete planetas, os sete dias da semana etc. e uma porção de outros exemplos que, na verdade, não explicam coisa alguma.

Mais uma vez, a solução está na Tétrada e na questão do Uno e do Múltiplo. Devemos ter como referência a ideia de que Deus é uno, absoluto, que não está sujeito nem à divisibilidade nem à multiplicidade. Ora, nós somos espíritos e, portanto, cada um de nós é indivisível, uno. Mas somos muitos, portanto a ideia de espírito está sujeita à multiplicidade, justamente por estarmos falando do espírito criado, não do Espírito Criador. A não-Multiplicidade do Criador refere-se ao Absoluto, à unidade absoluta, total, infinita. Nós, diferentemente, somos unidades finitas no reino do Múltiplo.

Continuemos. Todos os números pares são divisíveis. Por exemplo, o número 6 pode ser dividido em um par de Ternários, sendo que 3 é um número dentro da Década. Em outras palavras, os números pares estão sujeitos à divisibilidade, que é uma característica de imperfeição.

Resta considerar os ímpares. O números 1, 3 e 5 são indivisíveis, mas estão multiplamente dentro da Década. Por exemplo, 3 é indivisível, mas cabe três vezes dentro da Década. Assim também o 5, que cabe duplamente. Restam apenas 7 e 9. O número 9 só cabe uma vez dentro da Década e, portanto, não está sujeito à multiplicidade, mas pode ser dividido em três Ternários, estando, por conseguinte, sujeito à divisibilidade. Finalmente, o número 7 é indivisível, não estando sujeito à divisibilidade. Além disso, ele só cabe uma única vez dentro da Década e, por isso, também não está sujeito à multiplicidade.

Em outras palavras, de todos os números da Década, apenas o 7 é capaz de simbolizar a Divindade em seu caráter uno, indivisível e absoluto. Dessa forma, o 7 é símbolo do Divino em seu aspecto indivisível, infinito e absoluto. Ele é o único número dentro da Década que é não só indivisível como também não sujeito à multiplicidade e, portanto, é símbolo do Uno, pois compartilha com o Uno dessas características. É por isso que o 7 é considerado um número divino.

Vejamos algumas consequências para a prática simbólica. Em primeiro lugar, considere a Escada de Jacó, à qual são associadas as sete virtudes. Se a Escada é símbolo de ascensão espiritual, então o 7 nos diz que essa ascensão é infinita, que é divina. A Escada dos Mistérios Mitraicos tem sete metais, a Escada do sonho de Buda tem sete cores. No Apocalipse, João é chamado a escrever num livro o que estava prestes a ver e a enviá-lo às sete Igrejas. Isso quer dizer que a mensagem deveria ser universal, não às sete igrejas específicas, como a de Éfeso e outras. A ideia dos sete pecados e das sete virtudes é a forma simbólica de dizer que os pecados e virtudes são infinitos. São tantos setes! Toda vez que virmos 7 num símbolo, associemos a ele o infinito e o absoluto divinos e vejamos o que daí decorre. A similitude da plausibilidade dessa interpretação do 7 em tantos mitos e símbolos de diversas culturas apenas nos mostra algo arquetípico da mente humana. Mircea Eliade dá vários outros exemplo e eu particularmente penso ser esse arquétipo uma realidade cultural entre os povos.

Assim como o 1 simboliza o Uno e a origem de todas as coisas abrangidas pela Década e, portanto, a imanência, o 10 simboliza a transcendência. Se a formação do Microcosmo, pela ação inteligente do Espírito sobre a Matéria, se inicia no 3, entre o início e o fim, bem no meio do caminho, está o 5, símbolo do Homem completo, representado pelo Homem Vitruviano. Nessa etapa, o intelecto é sua principal característica A partir do 5 começa o caminho da transcendência rumo ao Infinito, ao 10. Aqui já tenho em mente o pensamento cabalístico medieval de natureza pitagórica. Tão longo, tão infinito e absoluto é esse caminho que a ele poderíamos associar o número 7 ou mais.

A razão da carência de interpretações satisfatórias repousa precisamente na incapacidade de introspecção simbólica a que estamos acostumados em razão da descrença implícita que temos de que a simbologia seja algo útil e fundamental para nossas vidas. Enquanto o homem apenas aceitar a reflexão simbólica superficialmente e não na profundidade de sua alma, jamais será capaz de compreender os magníficos ensinamentos dos símbolos.

A simbologia dos números, iniciada há dois milênios e meio pelos pitagóricos, continuou sua evolução ainda por vários séculos a fio até hoje. Não é uma evolução linear, obviamente. A cada etapa sofreu adaptações a diferenças culturais e aos interesses específicos dos intérpretes. Mas o que me surpreende é como o princípio geral contido na Tetraktýs perpassou todas essas idiossincrasias culturais e temporais.

Autor: Rodrigo Peñaloza

Fonte: Medium

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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