Maçonaria e Política: uma visão crítica na pandemia

Maçonaria volta às sessões e abdica de alguns rituais | Covid-19 | PÚBLICO

A palavra “política” na sua origem nos remete à Grécia Antiga, à polis grega, quando fazer política tinha o sentido de participar da cidade, exercer a cidadania. Diz-se que eles inventaram a política por ela ser imprescindível na vida do ser humano, fazendo-o distinguir-se dos deuses e dos animais. Para Aristóteles (384-322 a.C), “o homem é um animal político”, estando, assim, destinado a viver em sociedade. Platão (427-347 a.C.) já afirmava que,

“Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.”

A capacidade de traduzir demandas da sociedade em meios aptos a converter a exigência em realidade pertence à Política. Governar é aumentar a confiança das pessoas e das empresas, alargar as esperanças e reduzir as incertezas. Entretanto, a percepção é que há uma simbiose entre política e corrupção. Mas, não é bem assim!

Tema polêmico por excelência, Política é o único mecanismo possível de solução pacífica de diferenças, compreendendo a busca de consensos. Os pontos mais complexos aí se circunscrevem. Política é inclusão social. O Papa Francisco diz que “a Política é a melhor forma da caridade, porque se empenha pelo bem comum”. A sua linguagem, a forma como a política dialoga com a sociedade, é um referencial da qualidade da democracia de um País.

A temática vem repercutindo em alguns oásis maçônicos, pois o trabalhar incessantemente pela felicidade do gênero humano enseja um caráter universal, tendo por isso cunho essencialmente político, por se impor como uma escola de civismo e de liberdade, onde se devem debater grandes assuntos de interesse do país. A realidade exponencial e disruptiva é o desafio.

Mas aí é que surge uma afirmação sobejamente decantada e que contrasta com sua missão. A Constituição de Anderson, de 1723, afirma que: “..deve-se evitar discussões sobre religião e política…”. Tal dispositivo vai de encontro ao conceito de liberdade que é um pilar da maçonaria moderna. As constituições dos países modernos e livres consideram como um direito inalienável do cidadão a liberdade de se manifestar e de debater os problemas políticos e sociais. Portanto, existe um dispositivo hierárquico atual e superior que abre os caminhos para uma efetiva participação, não obstante a disputa de narrativas.

Entende-se que as restrições quanto a debates sobre política e religião têm por cunho evitar-se apenas que a harmonia das Lojas não seja perturbada por discussões partidárias, contaminações ideológicas, proselitismo ou sectarismo que promovam o desentendimento e a desagregação. Assim, em decorrência das sucessivas crises políticas, a maçonaria não pode passar ao largo das questões de interesse do país. A realidade impõe-se, e ficar de fora, neste caso, é omitir-se, é ser cúmplice dos erros. Segundo o influente pregador Batista inglês. C. H. Spurgeon (1834-1892),

“Somente os tolos acreditam que politica e religião não se discute. Por isso os ladrões continuam no poder e os falsos profetas continuam a pregar.”

No contexto histórico vislumbra-se inegável a influência por vezes decisiva da ação política da maçonaria em vários acontecimentos de relevo. No caso brasileiro destacam-se os movimentos de rebeldia e de libertação que antecederam a Proclamação da República, e inúmeros outros conflitos e rebeliões, que contribuíram para o amadurecimento histórico do país, os quais contaram com a participação pioneira de várias Lojas e de membros expressivos da maçonaria, inspirados e movidos pelos princípios da Ordem.

Até um determinado período, a Maçonaria funcionou como veículo para expansão de ideias e organização de movimentos, atuando como um partido político camuflado. Em análise retrospectiva, a Maçonaria brasileira iniciou o século XX exercendo interferência política decisiva nos destinos do país, mas chegou ao final do período enfraquecida, gerando ilhas autossuficientes, em decorrência das cisões de 1927 e 1973, bem como do impacto das Revoluções de 1930 e de 1964, além de disputas intestinas de poder que são referências em sua estrutura administrativa. E com isso, esvaiu-se a medida de liberdade.

Apesar do conceito positivo junto àqueles que a conhecem, a Maçonaria ainda é desconhecida por grande parte da população brasileira. No cenário político nacional atualmente não tem nenhuma representatividade e não exerce qualquer sopro a exemplo da norte-americana ou da europeia, que mesmo assim vem decrescendo aceleradamente em número de obreiros. E vejam que capital intelectual e consciência de sua importância para liderar as transformações necessárias à promoção da justiça social é prédica recorrente entre suas colunas. O que falta é esse discurso repercutir no mundo profano.

A Maçonaria, como instituição, não pode continuar na velha toada de que não deve envolver-se diretamente em temas políticos e nas grandes decisões de interesse do Brasil, candidamente delegando aos maçons que o façam individualmente, pois um regramento de 1723, editado em outro momento histórico, impede ações mais decisivas em pleno século XXI. Somente caprichar na retórica e bradar que alguém tem que tomar uma providência é muito confortável. Esse comodismo e o obsequioso silêncio político da Maçonaria do Brasil precisam ser quebrados. Repetindo a questão de sempre: sabemos ou não dialogar?

O espírito da Constituição de Anderson vislumbrava a Maçonaria como uma organização de cunho muito mais abrangente, suprapartidário, abrigando todas as tendências. Mentes tacanhas distorceram tal entendimento e têm conseguido mantê-la acorrentada. É hora de a Maçonaria repensar sua atuação, decretar a sua independência e de agir com responsabilidade. Chega de discursos pomposos, manifestos bem comportados, fotos teatrais, homenagens, firulas, reverências e salamaleques com autoridades de plantão! No caso específico dos “irmãos” titulares de cargos no poder executivo, o mote deveria ser de pressioná-los para cumprir o juramento ou dar baixa na Ordem.

Como reiterado em trabalho anterior, já passou da hora de maçons e a Maçonaria, como um todo, assumirem o papel que já foi sua marca registrada no passado: revolucionária, decisiva, incomodativa, marginal em outros momentos. Defender que a maçonaria seja apenas uma escola de pensamento onde se cultive exclusivamente moral e ética e acalente o sonho de que seus princípios e valores sejam amplamente conhecidos e que forças do além inspirem os tomadores de decisão, sem se envolver diretamente, ficando na torcida para que a justiça e os bons costumes prevaleçam, é mais do mesmo. Educar os obreiros para que sejam pessoas do bem e apenas sonhar com um futuro melhor, pregando como os outros devem agir, é muito bacana, supimpa mesmo! Podemos chamar esse contexto de Maçonaria Contemplativa.

Se o apenas falar dentro da bolha não deu certo, algo está errado. Ou se for isso mesmo, a Maçonaria agiria melhor como um clube de serviços e cultivar a memória de um passado confortável pela frente e permanecer admirando-se no retrovisor da história, sonolenta, a lembrar do conto “Cidades Mortas”, onde Monteiro Lobato escreveu: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”. E nada é tão ruim que não possa piorar!

“Apesar de tudo”, o momento é de despertar e de assumir o protagonismo, sair na dianteira, declarar guerra e partir para cima dos poderes constituídos exigindo competência e transparência, abraçar pautas de interesse da sociedade, promover debates públicos, videoconferências abertas para não maçons, encaminhar e liderar propostas de soluções, criar pontes e ocupar espaços que permitam aos obreiros a reivindicarem, de forma organizada, com uma Maçonaria que poderíamos chamar de Executiva, as mudanças que todos exigem, pois a perda de contato com a realidade paralisa a consciência crítica. O dramaturgo e poeta Bertolt Brecht (1898-1956) certa vez escreveu: “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”.

O obstáculo maior sempre foi escapar das velhas ideias, das formas arraigadas de pensar, mas, em solo fértil boas sementes frutificam. Com a provocação e o impulso de novas gerações, em especial a Geração Z[1] ainda como uma voz que clama, a GLMMG vem de algum tempo construindo propostas, várias submetidas à Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil, visando a promover a coesão e a credibilidade da Ordem. Os Projetos “Gestão Maçônica” e “Cultura Cidadã”, constantes do Site da GLMMG atacam o cerne dessa questão. A propósito, lembrando um certo juramento, imaginamos que todos já os tenham lido e discutido em Loja.

Mas, um velho ditado popular adverte: “uma andorinha só não faz verão”. Aplausos e aplausos em Plenárias somente alimentam egos. Ao término dessas reuniões, como bons isentões, voltamos para nossas Lojas e a “Ordem do Dia” continua a ser o mais do mesmo, e nada de falar em temas palpitantes de interesse do país. As melhores intenções morrem nas palavras, em face de discursos emocionados, carregados de simbolismos e vazios de concretude.

Não obstante o sofrimento e custo social decorrente da pandemia do coronavírus, que superou os piores prognósticos realizados ainda no primeiro trimestre de 2020, navegamos nos últimos meses por mares turbulentos, com vários percalços e tropeços, que pegou a todos desprevenidos, com impactos na economia global, de vidas que se foram e o isolamento social (“fique em casa”), inédito nos tempos modernos, evocando sentimentos de perplexidade, inquietação, sensação de vulnerabilidade, de finitude e até de medo.

Tempo suspenso, portas trancadas, cortinas cerradas, famílias separadas, mortes transformadas em números, rituais de despedida não autorizados, sistema global econômico e de produção paralisados, além do conceito de liberdades individuais com leitura distorcida por autoridades confusas, conflitantes entre si e sem um norte. De outra sorte, água suja se limpando, poluição diminuindo e pássaros retornando aos locais de onde tinham desaparecido.

Nesse interim, boa parte das nossas Lojas encontrou o caminho das videoconferências para não interromper os estudos e a divulgação da cultura maçônica, procurando, ainda, manter os laços de fraternidade, mesmo que virtuais, porém com adesão ainda não avaliada de forma consistente, mas estimada em número inexpressivo em face da quantidade de maçons ativos, haja vista as mesmas carinhas a frequentar nossas telinhas, não obstante artilharia pesada de argumentos contrários a esse tipo de evento.

Não se pode descurar das sessões presenciais, quando possível, mas o papel complementar das reuniões virtuais é inquestionável. Vários temas estão sendo explorados, muitos conhecimentos compartilhados e ideias borbulhando, mas o da Política com “P” maiúsculo ainda encontra resistências. O mundo lá fora pegando fogo e a gente, por ora, apenas filosofando nas “lives maçônicas”!

A Maçonaria precisa ser protagonista e não apenas apoiadora ou um rebanho carneiril pastoreada por dirigentes políticos que sabidamente jogam mal, com raras exceções. Para isso, urge mudar sua forma de ação e trabalhar em um plano conjunto entre as Potências soberanas, com fôlego e determinação para ser uma influenciadora permanente, pela prática da moderna advocacy, sem se envolver no círculo vicioso da politicagem tradicional, que tem o hábito de dar voltas e parar no mesmo lugar, ensejando as mesmas contradições.

Agora que descobrimos um novo meio de reunir os maçons das várias Potências pela força das redes sociais e já estamos familiarizados com os recursos tecnológicos disponíveis, a novel missão seria a prática de um ativismo orquestrado, ombro a ombro, mesmo que virtual nesta fase, envolvendo a Ordem como instituição, seus Grão-Mestres na postura de estadistas e os maçons alinhados em torno de projetos amplamente discutidos e aprovados, distinguindo-se pelo exercício ético e competente de influenciar o comportamento e ações de outras pessoas, como “Agentes Cidadãos”, formando alianças do bem, não apenas com foco em resultados de curto prazo, mas de construir um país melhor para todos os brasileiros e uma saída para a atual crise que nos acorrenta.

A sociedade saberá reconhecer o empenho e certamente o exemplo da Maçonaria arrastará outros movimentos que anseiam por uma liderança competente e decisiva na Politica.

“Somente quem, frente a todas as dificuldades, pode dizer ‘Apesar de tudo! ’ tem a vocação para a política.” (Max Weber)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida e da Academia Mineira Maçônica de Letras.

Notas

[1] – Ver artigo “Maçonaria e Geração ‘Z’ Pós-pandemia”, em: https://opontodentrocirculo.com/2020/08/26/maconaria-e-geracao-z-pos-pandemia/

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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2 respostas para Maçonaria e Política: uma visão crítica na pandemia

  1. brunoblg disse:

    Ótimo artigo Márcio!
    Realmente precisamos separar a política partidária, seus representantes e bandeiras, da política pública, gestão de áreas estratégicas como educação, saúde, desenvolvimento econômico, etc.
    As duas tem seus papéis, que são extremamente relevantes na sociedade.
    Mas na maçonaria devemos privilegiar a política pública, não apenas em discussões como também em ações, como bem colocou.
    Por isso as ações da GLMMG estão de parabéns pois tanto seus projetos, como “Gestão Maçônica” e “Cultura Cidadã”, estimulam exatamente a participação ativa na gestão de áreas de interesse público.

    Curtido por 1 pessoa

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