As pedras e as almas

Pico das Almas - Rio de Contas - Bahia - Brasil | Trilhando Montanhas

A comparação da pedra com a alma humana nos parece inevitável e, imaginamos, essa analogia já deve ter sido usada por inúmeros livres-pensadores ao longo da história. Timidamente, ousamos usufruir de sua energia e nos somamos a todos eles. Ainda sob o impacto dos primeiros raios de luz da irmandade, somos levados ao sabor dos pensamentos.

“O rei ordenou que extraíssem grandes e belas pedras, que deviam ser talhadas para os alicerces do templo.” I Reis 5,17

Não seriam, por acaso, as grandes e belas pedras que Salomão manda extrair da pedreira, a própria grandeza e beleza da alma humana no seu estado mais bruto, quando, pela primeira vez, lhe é dado tomar contato com o mundo? O que é a alma de uma criança senão uma pedra intocada a esperar lavradura? Quantas serão as marcas nela esculpidas durante a vida? Será que, ao seu final, lembrará, ainda que vagamente, sua forma original?

E o que seria o cinzel? Não seria, talvez, os sentidos, através dos quais o homem adquire os conhecimentos que lhe são entregues ao longo da vida?

Não se pode moldar a pedra sem o concurso do cinzel, da mesma forma que é impossível moldar a alma sem chegar a ela através dos sentidos. Um homem que não dispusesse dos sentidos teria sua alma intocada do nascimento à morte. Nada o faria aprender o que quer que fosse. Não teria sequer o conhecimento da própria existência. É através do cinzel que a pedra recebe – e percebe – a intensidade do golpe do maço, este último, quem sabe, o mundo que nos cerca, ou em outras palavras, a criação do Grande Arquiteto e o conhecimento a ela inerente.

Não há como dar forma à pedra sem, de alguma maneira, ser parte de Deus e, como tal, atuar sobre Sua criação. Quem é que, no papel de pai, já não foi responsável por um ensinamento do qual a criança jamais se esquecerá, seja por palavra, gesto ou atitude?

Às vezes, o aprendizado do ensinamento dependerá da intensidade com que é transmitido – como a força pode ser necessária para deixar na pedra uma marca profunda. Em outras ocasiões, em função da delicadeza do desenho que se pretende imprimir na pedra, o aprendizado decorrerá da paciência, constância e habilidade do artesão. Cabe, nesse particular, um breve comentário: a marca profunda sempre poderá resultar de golpes sutis e constantes. Mas raramente se verificará o contrário: golpes muito intensos e sem a necessária habilidade correm o risco de deformar a obra.

Mesmo o mais experiente escultor poderá experimentar o fracasso, vez por outra, por não respeitar os veios da pedra, por não perceber se o cinzel esta bem amolado ou por aplicar ao maço mais força do que a necessária. Cabe, portanto, ao pai, esmerar-se no uso do martelo e do cinzel e no conhecimento da pedra, cuidando para que o aprendizado do filho seja calmo e sereno e para que em sua alma não fiquem marcas desnecessárias. Lembremo-nos de que os seres de alma luminosa e de caráter reto serão sempre, a qualquer tempo, o sustentáculo da humanidade.

“O Senhor disse a Moisés: ‘Talha duas tábuas de pedra semelhantes às primeiras: escreverei nelas as palavras que se encontravam nas primeiras tábuas que quebraste.’” Êxodo 34,1

Mais que qualquer outra coisa, é a palavra escrita ou falada – apreendida através dos sentidos da visão, audição e, eventualmente, do tato – que leva o homem adulto a tomar consciência da própria razão. Dotado dessa capacidade, torna-se vetor do Grande Arquiteto, tirando de Sua sabedoria os ensinamentos para lapidar a própria alma, através da reflexão. E, com isso, pode contribuir para aprimoramento dos seus semelhantes, tal como é feito nos templos da Ordem. Era através da palavra que o Deus de Moisés se comunicava com o povo de Israel. E foi a palavra o meio escolhido por Ele para diferenciar o homem dos demais animais.

“Não se assemelha ao fogo minha palavra – oráculo do senhor – qual martelo que fende a rocha?” Jeremias 23,29

A palavra marca a alma como o maço e o cinzel a pedra. Mas tem um poder infinitamente maior. Não há na história da humanidade qualquer guerra deflagrada pelo estalido do maço e do cinzel cravando a pedra. Nem há notícias de amores nascidos pelo uso dessas ferramentas. Mas foi usando a palavra que o Deus de Israel criou o mundo. E, quando quis deixar aos homens uma mensagem para ser sempre lembrada, usou-a novamente e a gravou sobre a pedra. E fez dessa palavra a régua, pelo uso da qual todas as pedras serão medidas.

Aos aprendizes que trabalharam na construção do templo de Salomão era requerido aprimorarem-se no uso do maço e do cinzel e no conhecimento das pedras brutas. Assim, dominando a arte da preparação das pedras, poderiam estabelecer a base sobre a qual se erigiria o templo. Analogamente, não só aos iniciantes na Arte, mas a todos os maçons,é essencial a dedicação e a perseverança para que, pouco a pouco, cresçam em sua proficiência no trato das almas humanas, embora a estas, como às pedras, seja impossível conhecê-las todas. Mas é preciso estar preparado para perceber suas nuances, analisar suas formas, identificar seus veios e respeitar suas particularidades. Cada pedra é única em todo o universo e é como tal que deve ser tratada.

“Na construção do templo só se empregaram pedras lavradas na pedreira, de sorte que não se ouvia durante os trabalhos da construção barulho algum de martelo, de cinzel ou de qualquer outro instrumento de ferro.” I Reis 6,7

Assim como no templo de Salomão, quer me parecer que o Templo Maçônico é um lugar de instrução onde não deve ser ouvido o barulho do maço e do cinzel batendo sobre a pedra. A prática dos ensinamentos adquiridos deve ser realizada na “pedreira”, ou seja, no mundo profano, buscando-se trazer para o Templo o fruto do trabalho já realizado e a experiência dele decorrente. É fora do Templo que os ensinamentos passados aos aprendizes serão postos em prática. É lá, além dos muros, que se porá realmente à prova o que foi aprendido. E é lá, também, que cada pedra será medida e, uma vez aprovada, considerada apta para fazer parte dos alicerces do Templo do Grande Arquiteto do Universo.

Estejamos atentos, pois, ao ruído que vem da pedreira. É de lá que vêm as pedras sobre as quais se erguerá o Templo. Não permitamos que artesãos despreparados façam dele apenas um amontoado de pedras disformes e inaptas a fazer parte da Grande Obra. Perante o Grande Arquiteto somos responsáveis por aquilo que sabemos. Portanto, nós, os pedreiros espalhados pelo mundo, temos, queiramos ou não, a Incumbência Divina de mostrar à humanidade como se tratam as pedras que a erigirão.

“…’Ouve, ó Israel, as leis e os preceitos que hoje proclamo aos teus ouvidos: aprende-os e pratica-os cuidadosamente.’” Deuteronômio 5,1

Autor: Sérgio Koury Jerez

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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