As motivações para filosofar

Alimentando a mente. É comum nos sentirmos ansiosos… | by Cali (Renato  Caliari) | KiSimples | Medium

Introdução

Um casal de bons dançarinos sempre se esforça na busca de uma melhor apresentação, indo aos limites de seus corpos, pois se emprenham ao máximo para situarem-se dentro do ritmo da música, se aplicam em seguir fielmente a coreografia planejada, empregando todas as suas forças na transmissão de um espetáculo sublime.

Contudo, qual o motivo que leva o casal a dançarem? Dentro de um período capitalista, a resposta mais provável seria a de que fosse simplesmente pelo dinheiro, porém se este mesmo casal estiver situado em uma festa entre amigos, certamente não são pelo dinheiro que eles articulam ritmados seus corpos.

Assim, refletindo sobre uma possível resposta do próprio casal, sobre o motivo pelo qual dançam, e sendo ela a mais nobre resolução, eles diriam que dançam pelo simples prazer de dançarem, ou talvez por que pela dança conseguem por meio de seus corpos atingirem e reproduzir estágios mais próximos do belo, dentro da finitude humana.

Sem embargo, a dança sendo uma arte, goza da mesma dificuldade da filosofia, na pergunta pela qual é exercida, ambas, dançarina e filosofa, acabam por se pegarem refletindo no motivo pelo qual praticam cada uma das suas atividades artísticas, porém a segunda respectivamente irá usar sua própria ferramenta para responder por que a utiliza. Enquanto que a dançarina não pode dançar para responder dignamente por que dança.

Desta maneira, este artigo irá tentar responder “Por que filosofar? ”, baseando-se nos seguintes autores: Max Horkheimer (alemão, escola de Escola de Frankfurt, falecido em 1973) escritor de Eclipse da Razão, Enrico Berti (italiano, da Accademia dei Lincei) autor de Convite à filosofia e Marilena Chauí (brasileira) Introdução à história da filosofia, tendo como filosofo central Aristóteles, em sua obra Metafísica. Tomando o cuidado de articular de maneira coesa tantas linhas diferentes de pesquisa.

Seguindo, em vista de responder à pergunta que motiva este artigo, cabe inicialmente destrinchar esta problemática – Por que filosofar? Assim, observando a oração, notam-se dois elementos: o primeiro “Por que” que questiona qual a motivação do exercício sobre o objeto no caso a “Filosofia”. Deste modo, metodologicamente para tentar responder “Por que Filosofar? ”, tomo a liberdade de inicialmente explanar sobre o que é a filosofia e como ela nasce; na sequencia apresentar o porquê, ou melhor, os motivos pelos quais somos levados a realizar tal atividade, ou não; ao fim evidenciando como filosofar quiçá contribui para o aprimoramento do ser humano que o faz.

O que é Filosofia?

Ainda seguindo com o exemplo da dança, para explicar o que ela é em si, se mostra bem mais fácil, expor ela como uma ação, e discorrer sobre como ela nasce, isto é, sem desejar alongar-me sobre o exemplo, talvez a dança nasça de um desejo do bailarino em expressar todo o seu vigor físico, pelo prazer em dançar. O mesmo método aplica-se a filosofia, destarte qual seria a semente que origina e mantem a filosofia? Para Enrico Berti (2013, p. 56) “a filosofia nasce da maravilha, ou da pesquisa, da pergunta, da dúvida”. Assim, a filosofia é um ato honesto de perguntar que nasce do espanto, do maravilhar-se, sempre em vistas do real, verdadeiro. Para Berti afirmar isto, ele se baseia em dois dos maiores filósofos que nosso planeta já teve a honra de gerar e prover sustento – Platão e Aristóteles, sendo que o último Aristóteles (1984, p.14) na Metafísica diz que “Foi […] pela admiração que os homens, assim hoje como no começo, foram levados a filosofar”.

Em resumo, a filosofia brota de um encontro espantoso com algo, cominando em um ato quase instintivo de perguntar sobre o algo visto. Cabendo a cada filosofo contribuir com a humanidade apresentando sua parte na resolução acerca da Verdade.

Por que filosofar?

Sabendo agora que a filosofia é sempre a tentativa de buscar dentro da limitação humana respostas para a maravilha, cabe discorrer inicialmente que maravilha é essa e na sequencia por que ela deve ser questionada.

Num mundo banhado por estímulos vazios; gigantescos mundos ínfimos; dentro de aparelhos tecnológicos; e em diálogos vazios e sem paixão, realmente, fica difícil observar o maravilhoso universo que nos cerca e somos. Contudo, vale o esforço de abrir as janelas de nossas celas, e de nossas mentes e olhar tudo o que nos cerca, bem como os primeiros filósofos, chamados pré-socráticos fizeram, isto é, olharam para o mundo se se perguntaram o porquê daquilo, como diz Chauí (1994, p. 48) ao falar sobre Tales de Mileto: “Fez algumas descobertas astronômicas: além da previsão do eclipse solar, descobriu a constelação da Ursa Menor e aconselhou os navegantes a se guiarem por ela”.

Com efeito, o charme da maravilha está no olhar do observador, não é muito difícil, basta olhar o sol, e se perguntar o porquê de seu brilho, ver as aves que cantam e buscar entender o motivo do seu tipo de melodia, por fim, apreciar por exemplo, um par de bailarinos e se perguntar o porquê de seus movimentos precisamente coreografados despertam na plateia sentimentos tão alegres. Tudo isso passa despercebido aos olhares menos treinados e mais preocupados com a sobrevivência.

Assim, segundo Berti baseado em Aristóteles, existem três graus de maravilha. O primeiro baseado nos problemas mais simples, que estão presentes em nosso cotidiano, o segundo estágio se atem as problemáticas de ordem maior que a anterior, se na fase inicial maravilhamo-nos com a alternância das estações neste segundo indagamos sobre as fases da lua e os eclipses lunares. O último grau da maravilha é aquele que diferente dos anteriores se debruçam nos particulares, ao contrário, questiona o princípio de todas as coisas, ou melhor, a geração do universo. (BERTI, 2013, p. 63-66)

Após compreender a maravilha e seus graus, resta destrinchar os motivos pelos quais nós nos questionamos a cerca destas maravilhas ou não. Seguindo a regra popular que diz que ao se receber duas notícias uma boa e outra ruim, a péssima deve ser apresentada por primeiro, a fim de gerar inicialmente o impacto para depois ser amenizada pela novidade boa. Com efeito, começo na apresentação dos elementos de por que não nos questionamos acerca dos espantos do dia-a-dia, ou melhor, por que não filosofamos.

Por que não filosofamos

A filosofia entendida como ciência exige segundo Berti com base em Aristóteles, duas coisas básicas para seu exercício: pensar e tempo. A primeira uma raridade no atual contexto, ou até mesmo o exercício do pensamento acaba sendo ignorado. Assim, muitos de nós desprezamos nossa maior habilidade perante os demais animais, pois pensar sobre coisas úteis requer atenção, cuidado, paciência, elementos que não são dados a todos, ou não são desejados. (BERTI, 2013, p.104)

Já o tempo, tão escasso e mal utilizado é o segundo elemento de exigência, uma vez que somos seres finitos inseridos no tempo, o exercício do pensar exige intervalos, para que a reflexão acerca do se maravilhar possa ser frutífera.

Deste modo, uma pessoa pode não vir a filosofar, por que não possui tempo, para dedicar-se a pensar sobre a maravilha que até ela se deparou ou não, bem como também não deseja ou pode pensar sobre o espanto que a cerca. Resta seguir na discussão do outro extremo, por que somos motivados a filosofar?

O motivo de filosofar?

Retomando a analogia presente na introdução e repetida algumas vezes, agora frente a frente com a dançarina a questionamos, qual o motivo de você dançar? Muitas são as repostas, como exemplo: por questões culturais, devido a manutenção do corpo, para tranquilizar a mente, devido a religiosidade etc. Enrico Berti, buscando responder a mesma questão, porém tendo como objeto a filosofia, consome um capítulo inteiro de sua obra nesta empreitada na resolução das motivações que levam um ser humano a consumir tempo e pensamento no exercício filosófico.

Porém somente ao final de aproximadamente trinta páginas e sobre o ombro de Aristóteles ele chega a um consenso no qual consinto. O verdadeiro motivo que nos leva a filosofar é um desejo intrínseco ao ser humano em conhecer, essa é a primeira camada, a isca que todos mordem, porém somente os mais corajosos possuem o ímpeto de ir à ponta da vara. (BERTI, 2013, p.47)

Assim, o motivo de filosofar é de querer ir a fundo, de conhecer o que é o Real, concentrando-me ao máximo na investigação da Verdade, usando toda a minha capacidade intelectiva na busca das respostas. E tal processo é como que um ciclo infinito, pois à medida que se descobre respostas às maravilhas encontradas, novas surgem e as resoluções vão parecendo insuficientes. Mas, este processo que parece inútil, que exige tempo pode contribuir em algo para a humanidade, visto que em um primeiro olhar, ela não produz nada sensível, nada que agregue valor financeiro para a sociedade e mercado. Em suma, seria então a filosofia inútil?

Filosofia como possibilidade de aprimoramento

Sim, a filosofia é inútil. Parece uma expressão forte e devastadora para qualquer estudante de filosofia, porém a dançarina também receberia a mesma resposta. E isso mostra como estamos avançados, ou seja, enquanto humanidade nos damos ao luxo de gastar tempo e recursos com coisas que são inúteis. Pois se a filosofia tivesse como princípio e objetivo algo, este algo faria dela escrava. Por exemplo, dizer que a filosofia serve para construir conceitos somente, logo a filosofia é serva da construção de conceitos não possuindo possibilidade de ser utilizada para outros fins. Assim, a filosofia é útil pelo valor que ela possui em si mesma, bem como a dança e as outras artes. (BERTI, 2013, p.106)

Porém é notável a evolução física e mental de uma bailarina, que dançando aprimora-se como humana, o mesmo se dá no exercício filosófico, ao passo que a investigamos o porquê das coisas, nos debruçando sobre as perguntas que busquem revelar a verdade. Com efeito, a filosofia segundo Berti (2013, p. 111) é a “aquisição e uso da sabedoria”, desta forma neste caminhar de “por que filosofar? ”, dentre tantas respostas incertas algo se mostra claro, que nessa devassa o seu protagonista no mínimo irá conhecer um pouco mais sobre a sabedoria e como aplicá-la.

Enfim, o saber filosófico carregado de toda tradição e legado, possui em si o que a sociedade detém de mais nobre e próximo do Belo, e aqueles que segundo Max Horkheimer contribuíram na descoberta de um fragmento da verdade, são hoje lembrados pelos mais sábios como pessoas dignas de memória e honra. (HORKHEIMER, 2002, p. 172)

Conclusão

A filosofia nascendo deste maravilhar-se, e o exercício do filosofar o processo honesto e racional de questionamento a cerca deste espanto, motivado pela busca de respostas verdadeiras, tendo nenhuma utilidade prática, porém contribuindo indiretamente num aprimoramento das capacidades intelectuais daqueles que realizam tal ato de filosofar, resta então saltar e dizer para que fim a filosofia caminha.

É notável que o número de filósofos nunca foi grande, deste a antiga Grécia, berço da filosofia ocidental, tal habilidade somente estava ao alcance de um seleto grupo de homens. Contudo, em nosso contexto contemporâneo, inundado de estímulos e prazeres inúteis sempre à disposição, “por que filosofar? ” Não passa nem próximo de um número mínimo daqueles que nobremente conduziriam este saber sagrado as próximas gerações.

Sem pretensão de ser dogmático, porém, é evidente como ainda após a revolução digital com tanta informação, a humanidade não consegue refletir sobre a veracidade dos dados que nos cerca, e de como a Verdade constantemente é relativizada, sendo escrava daqueles que desejam utiliza-la para seu bel-prazer.

Desta maneira, as estantes das livrarias ficam abarrotadas de livros de autoajuda, sempre repetindo as mesmas formulas, os filmes lacaios do mercado presos em repetir as mesmas histórias, dentre tantas artes que perdem cada vez mais seu brilho, como uma dançarina que vai esgotando suas forças próximo ao término do espetáculo.

Deste modo, “por que filosofar? ” É um meio de se salvar da savana que não tem piedade, é a pequena brecha de luz da caverna, o conjunto de desenhos de uma dança que leva a Verdade. Assim, nós pequeno grupo nobre, somos incumbidos pela própria Verdade a tentar conduzir outros para fora, para abrirem seus olhos ao Belo e ao Bom.

Uma vez que do mundo recebemos tal habilidade que nos melhora constantemente, é justo devolver, animando outros neste movimento de também filosofar. Pois, somente desta maneira, com pessoas cientes da incrível capacidade que possuem de refletir e pensar, talvez possamos crescer pequenos passos no sentido de uma melhor humanidade, comprometida sobretudo com a Verdade que é intrinsicamente absoluta e imutável.

Autor: Anderson Alves Francisco

Fonte: Revista Pandora

Referências

ARISTÓTELES. Metafisica: Livro I; Tradução: Vincenzo Coceo. São Paulo: Abril S. A. Cultural, 1984 (Coleção os Pensadores).

BERTI, E. Convite à filosofia; Tradução: Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2013.

CHAUÍ, M. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. 1 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

HORKHEIMER, M. Eclipse da Razão; Tradução: Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Centauro, 2002.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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