As Sete Artes e Ciências Liberais – Parte I

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As Sete Artes Liberais. Livro de registro da biblioteca da Universidade de Tübinger (séc. XV).

As “Sete Ciências Liberais” da Antiguidade e sua significação Maçônica e, a reminiscência monástica introduzida na Maçonaria.

Na Maçonaria se mencionam muito as sete ciências liberais da antiguidade: Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia. Os pedreiros-livres medievais enalteciam essas artes, nos seus regulamentos, envolvendo-as de lendas “secretas”. Numa época de menor divulgação da cultura, anterior à deste século, os maçons, ingenuamente, acreditavam também que essa arcaica seriação de ciências e artes fosse um mistério incomunicável a profanos, quer porque tivesse relação com o número sete, quer porque, de acordo com a opinião de “entendidos”, podiam representar os degraus que levam o maçom até o trono do Oriente, desde a Grade, como também poderiam ser o significado de certas escadas simbólicas.

A verdade é que as “sete ciências” ou “ artes” eram tudo quanto conheciam os antigos, ainda que os gregos se tivessem referido à física, à filosofia (Pitágoras) e a química fosse desconhecida, pois era praticada já no antigo Egito.

Ocorreu que Boécio (470-525), poeta e filósofo, secretário de Estado ou ministro do monarca ostrogodo Teodorico e, por ordem deste rei, condenado e decapitado, criou a divisão “trivium et quadrivium”, estabelecendo a seriação pela qual as três primeiras ciências deveriam ser a Gramática, a Retórica e a Lógica, e as quatro restantes a Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia.

Boécio foi autor da Consolação da Filosofia, na qual ensinava a vencer as paixões para conquistar a paz de espírito, a felicidade e a comunhão com Deus. Seu contemporâneo, o macróbio Cassiodoro (468-561 ou mais), depois de ser ministro de Teodorico, retirou-se para um convento que resolvera fundar numa sua propriedade da Apúlia, na Itália, e ordenou aos monges que passassem a copiar os manuscritos antigos e a estudar e praticar as “sete artes liberais”.

Essa prática passou a ser seguida pelos beneditinos, monges da Ordem de São Bento, fundada em 529, em Monte Cassino, cujo célebre mosteiro viria a ser destruído pelos lombardos, em 580.

Os beneditinos foram os principais divulgadores da cultura na Europa medieval. Dedicavam-se ao arroteamento de terras e a vários ofícios e, ao mesmo tempo, entregavam-se aos estudos e à religião. Construíam seus próprios conventos e assim a constituir a Maçonaria monástica (ver nota, mais adiante).

Quando passaram, em parte, a dedicar-se às construções, os beneditinos disseminaram a arte românica. Depois criaram a própria arte beneditina. Congregando como irmãos (frates), nas oficinas que dirigiam os profissionais leigos da arte da construção, chegaram a monopolizar a edificação até o advento da arquitetura gótica, preferida para as catedrais.

A Ordem beneditina criou outras corporações monásticas.

Em 910, beneditinos dispostos a recuperar a severidade monástica, então em decadência, fundaram a célebre abadia de Cluny.

E, 1098 foi fundada a Ordem de Cister, no retiro de Dijon, perto de Citeaux, na França. Entre os monges cistercienses haveriam de surgir operosos construtores e seguidores do exemplo dos beneditinos, seus antecessores e fundadores. Ainda hoje há exemplos de monastérios construídos pelos atuais cistercienses, entre os quais há o Irmão Arquiteto.

Porém, os artistas leigos da construção, seguidores de uma profissão nobre e de velhíssima origem, não ficariam muito tempo sob a total dependência dos monásticos.

Entretanto, quando passaram a construir a Maçonaria-Livre, os profissionais da construção, católicos de religião, haveriam de conservar vários ensinamentos monásticos. Desse modo, as sete artes liberais continuaram a figurar nos seus códigos e regulamentos. Quanto às sete artes, a Maçonaria atual conserva o simbolismo moral e disciplinar que a elas emprestavam os obreiros medievais.

A Gramática, sistematização dos fatos da linguagem, a Retórica, arte da boa expressão e norma de eloquência, e a Lógica, ciência do método, ou da investigação da Verdade, ensinam que o maçom deve aperfeiçoar-se no falar e escrever, manifestar-se de maneira clara e dizer sempre a Verdade. Em suma, o maçom deve falar pouco e dizer muito.

A Aritmética, ciência das propriedades dos números e a Geometria, medida da extensão, ensinam ao maçom o dever de contar e medir as próprias ações e palavras. Essa regra se aplica principalmente àqueles obreiros que comparecem às Lojas para mostrar os seus dotes oratórios e cansarem a assistência com os seus discursos carregados de rançoso lirismo. Entre esses maçons há aqueles que se entregam a dar conselhos que ninguém pede e a recomendar aos aprendizes o dever de frequentar as sessões. A Maçonaria não é qualquer instituição acaciana e, muito menos, uma ordem que precisa mendigar o comparecimento de seus obreiros.

A Música lembra, em primeiro lugar, a harmonia que deve reinar entre os obreiros e os acordes de consonância. Lembra, mais, que o som afinado corresponde a uma frequência exata ou número certo de vibrações por segundo.

A Astronomia demonstra, antes de tudo, a perfeição da obra do Grande Arquiteto do Universo. Ensina, mais, o movimento aparente dos astros, a rotação e a translação da Terra, a lei da atração universal (Newton) e tudo quanto mais a ciência dos astros possa proporcionar ao simbolismo e ensinamentos maçônicos.

Nota – Fundação da Ordem de São Bento.

Fundada por São Bento, em 529, a Ordem Beneditina teve por berço o afamado mosteiro de Monte Cassino, na Itália. A própria Ordem construiu o mosteiro que em 580 viria a ser destruído, pela primeira vez, pelos lombardos.

A cultura medieval é, de um modo geral, privativa das ordens monásticas, principalmente a dos beneditinos, havidos como os “únicos eruditos” da Idade Média. Os beneditinos mais versados sempre se distinguiram nas letras e nas ciências e depois nas artes, inclusive a de construir. Os demais se dedicavam ao arroteamento de terras e ao plantio.

Foram os beneditinos que transcreveram, traduziram e interpretaram as obras gregas e romanas, bem como escritos e documentos do Oriente. Disseminaram a cultura medieval europeia e serviram de exemplo a outras ordens religiosas que surgiriam posteriormente. Encarregaram-se da missão de converter “pagãos” por toda a Europa. Na arte de construção, passaram a monopolizar e a dirigir a maçonaria operativa. Começaram pelo estilo românico. Depois implantaram na arquitetura as próprias características beneditinas e, mais tarde, também se dedicaram à Arquitetura Gótica. Associados aos pedreiros e canteiros fundaram autênticas organizações fraternais, as quais, por ordenamentos, costumes e certas cerimônias, seriam uma espécie primitiva de Lojas maçônicas.

Foi em 597 que os beneditinos se dirigiram à Inglaterra, (chamada Ilha dos Santos) e fundaram a abadia (não a catedral gótica) de Cantuária (Canterbury). No século VII, espalhando-se pela Alemanha, fundaram a abadias de Ettenheim, Lauresheim, Prüm, Monse, Hirschfeld, Fulda e outras. Da Alemanha passaram à Dinamarca, depois à França, pátria do estilo gótico e, enfim a quase toda Europa.

OS CISTERCIENSE – A Ordem de Cister, instituída, em 1098, foi fundada pelo abade De Molésme, no retiro de Citeaux, perto de Dijon, França. A princípio os cistercienses, como os beneditinos, seus inspiradores, se dedicaram ao ensino gratuito e à agricultura. Posteriormente, por seus mestres e arquitetos, passaram a erigir grandes catedrais e grandes construções, seguindo o exemplo dos beneditinos, seus mestres e fundadores.

AS CATEDRAIS – Na Idade Média a catedral não era uma simples sede religiosa ou uma igreja comum. Era realmente o centro das comunicações. Quase sempre abrangia uma escola gratuita, biblioteca e até uma sede de câmara municipal. O povo contribuía para a construção de grandes igrejas e havia, entre os habitantes de várias cidades, a emulação no sentido de construir catedrais maiores, mais altas e mais imponentes do que as outras.

Nota ao Aprendiz – Na Maçonaria atual ainda se preconiza o exemplo das antigas catedrais. Recomenda-se às Lojas para que se esforcem no sentido de se tornarem o centro social de todos os assuntos de seu “Oriente”.

Continua…

Autor: Jeffson Magnavita Barbosa Filho

Fonte: página da ARLS De Campos Ribeiro, 51

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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