Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte II

EXPERTOS - ARLS:. Universitária Professor José de Souza Herdy

II – Evolução dos cargos em loja nos “Modernos” e nos “Antigos” até a união de 1813

Vimos que a estrutura da maçonaria inglesa da década de 1720 deriva globalmente das estruturas da maçonaria escocesa do século XVII. No entanto, não sabemos onde, quando, como e por quem essa transmissão foi feita[1]. Por outro lado, sabemos que houve, durante a transmissão, uma série de mudanças, das quais as mais significativas são o fato de que a Presidência da loja não é mais confiada a um “Warden” ou a um “Deacon”, mas a um “Master of lodge” (Mestre de loja), e que este presidente é ajudado não por um, mas por dois assessores, os “Wardens” (Vigilantes). Sabemos, também, que esta nova estrutura (isto é, um Venerável Mestre e dois Vigilantes) vai se impor. Aliás, na década de 1740, é a única conhecida, e é aquela da Grande Loja de Londres. É então que aparece um novo sistema, importado pelos irmãos vindos da Irlanda que tinham, provavelmente, costumes, práticas e tradições próprias. Em 1751 e depois em 1753, esses maçons constituem uma nova obediência, a “Grande Loja da Inglaterra segundo as Antigas Instituições”.

Como sabemos, esses maçons se auto denominavam “Antigos”, porque alegavam ter uma tradição mais antiga que a da Grande Loja de Londres, e atribuíam aos membros desta última, entretanto mais antiga que eles, o adjetivo pejorativo de “Modernos”. Esta “Grande Loja dos Modernos” é hoje chamada “Primeira Grande Loja”. Em 1772, os “Antigos” elaboraram uma lista de pontos de desacordo com os “Modernos”, em que levantaremos duas questões que são relevantes para o nosso tema:

O Venerável Mestre

Os “Antigos” reprovavam nos “Modernos” ignorar a instalação secreta do Venerável Mestre, considerada fundamental pelos irlandeses. Isto, na prática, permite o acesso ao grau do Arco Real, um grau que é considerado pela tradição irlandesa como a cúpula da Maçonaria. Esta instalação secreta de que não há praticamente nenhum testemunho antes de 1760 em solo britânico, transmite uma palavra, um sinal, um toque e é de fato uma espécie de super grau de Mestre. Assim, junto aos “Antigos”, o cargo de Venerável Mestre está relacionado com uma cerimônia que tem a estrutura de um grau: a Instalação. Isso rapidamente se imporá aos “Modernos”.

Os Diáconos

Os “Antigos” culpavam os “Modernos” por ignorar o cargo de Diácono. Lembremo-nos que os “Diáconos” existiam na Escócia, no século XVII nas corporações de ofício, mas não os encontramos na Inglaterra em 1723. São os irlandeses que implantarão o cargo de Diácono na Inglaterra e isso não é surpreendente uma vez que este cargo é claramente atestado em uma loja na Irlanda desde 1733 e, em 1743, durante uma procissão maçônica onde os diáconos desfilaram com uma espécie de bastão ou cana dourada. O cargo de diácono torna-se assim, em 1753, junto aos “Antigos”, um cargo da loja colocado imediatamente na hierarquia de cargos abaixo dos Vigilantes[2].

No entanto, a origem desses Diáconos vindos da Irlanda permanece um mistério. De fato, parece não haver realmente nenhuma relação entre o Diácono Escocês (que é único e que dirige a Corporação) e os Diáconos irlandeses (que são dois oficiais secundários da loja), apesar da homonímia aparente[3].

Assim é que este cargo, desconhecido dos “Modernos”, vai gradualmente se estabelecer em suas lojas. As divulgações impressas da década de 1760, principalmente originários da tradição dos “Antigos”, certamente contribuíram, de modo que, antes da União de 1813, em 1810 e 1812, já se encontram Diáconos nas lojas dos “Modernos”[4]. Estes Diáconos carregam um bastão negro com joias prateadas.

O Telhador (Cobridor Externo)

Originalmente, este cargo (como outros cargos talvez) era provavelmente uma dignidade específica da Grande Loja. Só então, e provavelmente por mimetismo, ele se tornou um cargo nas lojas. O Telhador[5] exerce, além da função de guarda externo da instalação secreta, a da ordem das palavras sagradas.

Na loja tem por função enviar as convocações aos irmãos, em mãos. Ele deve também traçar o painel da loja[6]. O cargo do Telhador evoluirá gradualmente para se tornar uma espécie de zelador da loja mediante uma pequena remuneração, que é sempre o caso na Inglaterra. Ao lado do Telhador apareceu depois de 1813 um Cobridor, tradução mais extensa que “Guarda Interno” ou guarda do interior, cargo que resulta simplesmente da divisão do cargo de Telhador[7].

A estrutura da loja depois da União de 1813, emprestou a maioria de suas formas dos “Antigos”. Seja quanto ao vocabulário utilizado, a presença de Diáconos, no lugar dos três oficiais principais[8], os “Antigos” impuseram seus usos aos “Modernos”[9] que, de fato, já os tinham amplamente adotados antes da União. Então, foi nessa época que foi fixado, e até nossos dias, o sistema de cargos e dignidades de loja na Inglaterra.

Continua….

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[1] – O sistema escocês ainda está presente no manuscrito Keavan (1714), enquanto que o sistema Inglês é certamente atestado a partir de 1723.

[2] – Uma parte do papel dos vigilantes na tradição dos “Modernos” foi transferida para os diáconos que se tornam, de algum modo, seus adjuntos. Por exemplo, são os diáconos, e não os vigilantes como na tradição dos “Modernos” que orientam o candidato nas viagens.

[3] – Recordemos uma vez mais que o diácono escocês é uma espécie de delegado geral, enquanto o diácono irlandês, como o diácono da igreja católica, tem uma função subordinada.

[4] – Na época da União, em 1813, será reconhecido que o ofício de diácono não é apenas útil, mas necessário.

[5] – A palavra “Tyler” (Cobridor externo) aparece pela primeira vez na ata da Grande Loja em 1732.

[6] – Estas funções são encontradas na França, cf. O segredo dos maçons do Abade Perau.

[7] – O cargo de cobridor é estranho à tradição dos “Modernos”. Por exemplo, no Rito Escocês Retificado, cuja estrutura empresta muita coisa dos “Modernos”, vemos que é o Mestre de Cerimônias que exerce as funções de cobridor.

[8] – Nos “Modernos”, os dois vigilantes estão no ocidente, enquanto que nos “Antigos”, há um no ocidente e outro ao sul.

[9] – Pode-se acrescentar a isto, a questão da instalação secreta e a da ordem das Palavras sagradas.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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