A corda de 81 nós – Parte 2

Infraestruturas e o gargalo financeiro: como cortar o nó górdio? | JOTA Info
Alexandre corta o nó górdio (Jean-Simon Berthélemy – 1767)

3 – A corda

Quando buscamos nos aprofundar no objeto corda, percebemos que ele é mais do que isso. Conforme registros existentes, as primeiras cordas de que se tem conhecimento remetem a mais de vinte mil anos. Feitas dos mais diversos materiais, peles, fibras, plantas, algodões, entre outros, podemos dizer que, apesar do seu baixo reconhecimento na história como instrumento de alta importância, diversas coisas não seriam possíveis sem ela e deve ser considerado isso até os dias de hoje.

Apesar de parecer um objeto rudimentar, a corda acompanha as civilizações até os dias atuais. Aplicada na construção de grandes monumentos, como as pirâmides e o Coliseu, usada como recurso para confecção das maiores obras de arte, como capela Sistina, ela também foi fundamental para explorações, fabricação de armas, armadilhas de animais e pessoas, domesticações de animais, entre diversas outros usos.

A exemplo, na Grécia antiga, os cabelo longos das mulheres eram usados para fazerem as cordas necessárias para utilização na defesa das cidades. Já no Egito, usavam as cordas com “nós” para delinearem os terrenos a serem edificados, sendo que os “nós” demarcavam os pontos específicos das construções, onde deveriam ser necessárias aplicações de travas, colunas, encaixes, representando, portanto os pontos de sustentação. Também foi utilizada, na Idade Média, como instrumentos para medir e demonstrar dimensões e proporções da cúpula que se desejava construir através da sombra sabiamente provocada por uma luz.

Sua origem mais remota parece estar nos antigos canteiros dos trabalhadores em cantaria, ou seja, no esquadrejamento da pedra informe medieval, que cercava o seu local de trabalho com estacas, nas quais eram presos anéis de ferro, que, por sua vez, ligavam-se uns aos outros, através de elos, havendo uma abertura apenas na entrada do local.

Com a evolução das tecnologias e o avançar da história, a corda também passou por diversas transformações. A exemplo na Idade Média (cerca de 1300) as cordas eram bastante aplicadas nas navegações. As cordas eram fabricadas em até 300 metros de comprimento ou mais e eram chamadas de entrançaduras, Esse sistema que permitia unir duas cordas ou mais, dobrando seu diâmetro. Além da sua aplicabilidade como recursos de trabalhos. a corda em diversos momentos foi utilizada como meio de castigos, penitências, símbolos de orações e marcos na história da humanidade. Além disso, a sua maneira de utilidade varia de acordo com a sua inserção, como laços, tranças, nós, entre outros.

Como exemplos podemos citar as cordas com nós que, ao logo dos anos, se transformaram em correntes, terços e outros meios de oração. Comum entre muitas religiões, a corrente ou cordas possuem nós. Para os mulçumanos, os 99 nós ou contas, simbolizam os 99 nomes de Alá e são conhecidos como misbaha[1] ou subha. Já os Hindus e budistas usavam as cordas e/ou correntes, conhecidas como mala, onde temos 108 nós que refletem os vários estágios de desenvolvimento do mundo. As cordas ou rosários católicos possuem, em média, 165 nós ou contas, divididas em 15 conjuntos de 10 pequenos nós e um grande representando as orações da Ave-maria e Pai Nosso.

Outra representação da corda é com o laço, nesse caso símbolo maçônico que liga alguém à vida. Em alguns ritos, é utilizado em cerimônias especiais.

Segundo FILHO (2012, p.184):

A corda ao redor da cintura é o estado da escravidão às paixões; lembra-nos também o cordão umbilical do feto no ventre materno, um ser sem individualidade. Simboliza tudo o que ainda prende o Profano ao mundo de que está saindo.

Tanto nas literaturas quanto nas mais diversas tradições sagradas, os nós também simbolizam o poder de prender e libertar. No antigo Egito, segundo Connell’ Marks

“… o nó de Ísis[2] (um tipo de Ank[3] com braços amarrados) era um emblema da vida e da imortalidade. Os nós podem ser utilizados para simbolizar o amor e o casamento. Um tema recorrente na arte Celta, seu simbolismo está ligado aos ouroboros5, o movimento e união contínuos dos seres humanos e das atividades cósmicas. Um nó entrelaçado e frouxo simboliza eternidade ou longevidade. Nós apertados simbolizam união, mas também bloqueio ou proteção.“

Outro exemplo marcante da corda e os nós se refere ao nó Górdio. Trata-se de uma lenda que envolve o rei da Frígia (Ásia Menor) e Alexandre, o Grande. Górdio, um camponês que foi coroado com o novo rei da Frígia (Ásia Menor), com o objetivo de não esquecer seu passado e agradecer sua coroação, amarrou sua carroça a uma coluna no templo de Zeus com um enorme nó. Ele, na prática, era impossível de ser desatado, ficando assim famoso.

Quinhentos anos se passaram sem ninguém conseguir realizar esse feito, até que, em 334 a.C., Alexandre, o Grande, ouviu essa lenda ao passar pela Frígia. Intrigado com a questão, foi até o templo de Zeus observar o feito de Górdio. Após muito analisar, desembainhou sua espada e cortou o nó. Lenda ou não, o fato é que Alexandre se tornou senhor de toda a Ásia Menor poucos anos depois.

Continua…

Autor: Marcelo Marcus Martins Costa

*Marcelo é Aprendiz Maçom na ARLS Jacques DeMolay, nº22, do oriente de Belo Horizonte e jurisdicionada à GLMMG.

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Notas

[1]Masbaha ou misbaha (em árabe: مسبحة ), também conhecido como subha ( سبحة ), tasbih ou tespih (تسبيح , [taṣbīḥ]) é um objeto similar a um rosário, de uso tradicional entre os fiéis da religião islâmica. Conhecido na Grécia como kombolói, chamado também de terço grego, terço árabe e terço islâmico, é usado para meditações, orações e pedidos de auxílio.

[2] – Isis é uma das deusas mais importantes da mitologia egípcia! Também chamada de Sait, Ist, Iset, Aset ou Ueset, ficou famosa pela sua postura como esposa e mãe, sendo vista como deusa da fertilidade e da maternidade. Filha de Geb (deus da terra) e Nut (deusa do céu), esposa de Osíris e mãe de Hórus.

[3] – Ankh (pronuncia-se “anrr” nas línguas semitas, como hebraico e árabe. A junção das consoantes k e h cria o som de dois r em um fonema a partir da garganta como uma expiração) conhecida também como cruz ansata, era na escrita hieroglífica egípcia o símbolo da vida. Conhecido também como símbolo da vida eterna. Os egípcios usavam-na para indicar a vida após a morte.

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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