A Maçonaria, o Bhagavad Gita e o Dharma – Parte II

Esta é a Parte II de uma série sobre Dharma, Dever e Maçonaria. Os leitores podem ver a primeira parcela clicando AQUI.

“Os quatro procedimentos corretos são: primeiro evitar o início do mau. Segundo eliminar todo o mal, tão logo apareça. Terceiro, induzir que se façam boas ações. Quarto, estimular o desenvolvimento e prosseguimento das boas ações que já começaram. É de suma importância que se pratiquem estes quatro procedimentos. Sidhartha Gautama – O Buda

No artigo anterior, apresentamos os conceitos de dever e dharma. Aqui, continuamos a explorar os fatores na determinação do dharma de alguém, a base teológica do dharma, e abordamos a conexão maçônica desses temas.

Ashrama (sânscrito: आश्रम, āśrama:  estágio da vida

Ashrama (sânscrito: आश्रम, āśrama) no hinduísmo é um dos quatro estágios da vida baseada em uma escala etária. Embora esse sistema não fosse seguido de forma rigorosa, supunha-se que cada homem das três castas superiores da Índia poderia passar por quatro fases diferentes.

O próximo fator para determinar o Dharma de alguém é considerar o estágio da vida em que se encontra:

  • JuventudeAPRENDIZ (estudante),
  • Idade adultaCOMPANHEIRO (foco mundano no material) e dono da casa),
  • Idade MédiaMESTRE (transição para longe da Idade avançada (devoção e isolamento). 

Essas etapas são as seguintes:

BRAHMACĀRYA:

  • Vida de preparação, responsabilidades como aluno;
  • Fase de educação religiosa, iniciava-se quando os meninos tinham 6 anos de idade, ou pouco mais do que isso. A entrada nesta fase era marcada por um ritual de iniciação, chamado upanayana. A partir desse momento, a pessoa era considerada um “renascido” (dvija) e passava a participar da vida religiosa. A duração desta fase não era rígida. Durante esse período, o jovem devia aprender os Vedas, era treinado na realização de rituais, aprendia as normas de vida ou dever, dharma, e praticava a autodisciplina. Desde a iniciação, a criança deixava a casa de sua família e passava a viver com um mestre ou acarya, obedecendo a regras ascéticas, em completa abstinência sexual;
  • Dever: aprender e adquirir habilidades.

GRIHASTHYA:

  • Vida do chefe de família, responsabilidade com a família e outros papéis sociais;
  • É o segundo estágio da vida dos homens segundo a tradição indiana, o estágio do chefe da família, no qual ele se casa e passa a cumprir o seu dever social, tendo filhos e cumprindo suas obrigações para com as outras pessoas, de acordo com sua casta social. Os principais valores que guiavam essa etapa de vida era a satisfação dos desejos, dharma;
  • Dever: Foco na família e na construção de riqueza material.

VĀNPRASTHA:

  • Vida de reflexão, retirada de ações passadas, em transição de ocupações e assuntos mundanos;
  • Vanaprastha ou vida na floresta é o terceiro estágio da vida dos homens, que deveria ser iniciado quando a pessoa já tivesse cumprido o seu papel social, seus cabelos estivessem brancos e seus filhos já tivessem se casado. Ao atingir essa fase, a pessoa poderia optar por permanecer com sua família, ou ir para a floresta e se tornar um eremita, dedicando-se apenas ao estudo espiritual. Se sua esposa ainda estivesse viva, ela poderia ir com o marido para a floresta, ou ficar morando com os filhos;
  • Dever: contribuir de volta para a sociedade com riqueza intelectual, espiritual ou material, e dedicar tempo à promoção do desenvolvimento espiritual.

SANNYĀSA:

  • Vida de Renúncia, doando todos os bens, tornando-se recluso e devoto aos assuntos espirituais;
  • Sannyasa ou renúncia é o quarto e último estágio da vida do homem, no sistema indiano, no qual ele se despede da vida material buscando apenas a libertação espiritual ou moksha. Nessa etapa, ele passa a vaguear de um lugar para outro, sem residência fixa, vivendo dos alimentos que lhe são dados. Já não tem família nem qualquer posse, além de uma cuia para alimentos, um pote para água, sua roupa e alguns poucos objetos. O sannyasin deve voltar sua atenção constantemente para a realidade absoluta, Krishna (Bhagavan), sem se interessar mais por qualquer outra coisa;
  • Dever: meditação, estudo espiritual e adoração.

Observe que os indivíduos passam por esses estágios de maneira única. Alguns pulam totalmente os estágios e alguns nunca chegam aos estágios posteriores. Isso é parte do Svadharma ou chamado da vida de uma pessoa.

SVADHARMA:  O chamado ou propósito de vida de um indivíduo

Por exemplo, Sannyasa é uma forma de ascetismo e é representado por um estado de desinteresse e desapego da vida material com o propósito de passar a vida em uma vida espiritual pacífica, inspirada no amor e simplicidade. Siddhartha, ou Buda, abandonou a vida material para seguir o caminho de Sannyāsa. Semelhante a um monge ou freira, os indivíduos podem seguir este caminho após Brahmacharya e pular os dois estágios intermediários.

Isso significa que o que é ação “certa” para um indivíduo é conduta “errada” para outro.  O dever de um soldado pode exigir que o indivíduo mate alguém, mas o assassinato é uma conduta incorreta para um comerciante ou professor.

Dharma no Bhagavad Gita

Existe um tratado de mais de 5 a 3 mil anos a.C., chamado Bhagavad Gita ou “Canção do Senhor”, que é considerado a maior escritura do mundo sobre o Dharma. Uma seção menor da obra épica maior chamada Mahabharata, os setecentos versos do Bhagavad Gita são organizados em um formato de conversação entre dois personagens principais, Krishna e Arjuna.

Dharma é a primeira palavra do Bhagavad Gita.  A grande obra começa quando o velho rei cego, Dhritarashtra, perguntando a seu secretário, Sanjaya, sobre a batalha que ocorreria no “Campo dos Kurus” (kurukshetra). Em nome do Dharma, Arjuna (um grande guerreiro e general dos Pandavas) defende a não violência assumindo que atacar e matar tantos líderes, quase todos pais e maridos, desestabilizará as famílias e comunidades importantes para as quais esses homens são os responsáveis. As próprias famílias são vitais para a paz e a virtude da sociedade.

O Senhor Krishna (mestre espiritual de Arjuna) não aborda imediatamente o argumento de Arjuna sobre o Dharma,como  esperaríamos  em  um  debate  típico.  Em vez disso, o Senhor Divino revela primeiro a Arjuna, em vinte versos (Bg.  2.11-30) a natureza eterna da alma.  Então o Senhor volta ao tópico do Dharma para mostrar que é Arjuna quem está negligenciando seu Dharma ao se recusar a lutar:

“E mesmo considerando seu Dharma pessoal também, não é certo que você hesite.  Não há nada melhor para um guerreiro do que uma luta baseada no Dharma.”  (Bg.  2.31)

Aqui, descobrimos que o próprio Dharma se destina a auxiliar o verdadeiro objetivo da vida: compreender a alma eterna e seu relacionamento com a Alma Suprema, Krishna. O Senhor Krishna conclui esta breve referência ao Dharma como um dever pessoal dizendo: 

“Agora, se você não executar esta batalha, então, tendo desistido de seu Dharma pessoal e reputação, você incorrerá em pecado.”  (Bg.  2,33)

Ao longo do restante do Baghavad Gita, o Senhor Krishna fala do Dharma em termos de Seu próprio ensino de conhecimento espiritual e não diretamente em resposta ao argumento de Arjuna sobre o Dharma como práticas religiosas e morais comuns. A próxima referência de Krishna ao Dharma reforça sua declaração anterior de que Arjuna deve realizar seu próprio Dharma e não o negligenciar em nome do Dharma.  Arjuna não pode proteger o Dharma nem se manter na plataforma espiritual se abandonar os deveres nascidos de sua natureza.  Krishna explica:

“O Dharma de uma pessoa, executado de maneira imperfeita, é melhor do que o executar o Dharma de outra pessoa de forma perfeita.  Morrer cumprindo o próprio Dharma é correr menos perigo, pois realizar o Dharma de outra pessoa leva a ruína.”  (Bg.  3.35)

Assim, o quadro completo começa a emergir. Um governo eficaz não deve apenas criar leis, mas também aplicá-las.  Da mesma forma, o Senhor Supremo traz Sua lei como Dharma.  Quando a obediência à Sua lei entra em colapso e os seres humanos, em vez disso, propagam sua própria “lei” ilícita, o Senhor desce para proteger os bons cidadãos de seu reino, derrotar os proscritos que praticam adharma e restabelecer na sociedade humana o prestígio e o poder de Sua vontade.

Agora podemos ver por que o argumento inicial de Arjuna – que obedecer ao Senhor Krishna e lutar iria contra o Dharma – não pode ser correto.  Dharma nada mais é do que a vontade do Senhor.  Para Arjuna lutar, então, é o verdadeiro Dharmae seu verdadeiro dever. Assim, o Senhor Krishna contrasta fortemente o Dharma comum dos Vedas com “este Dharma”, que é puro serviço devocional a Krishna.  Krishna conclui o importante nono capítulo mostrando o poder desse Dharma – consciência de Krishna pura – para purificar e salvar a alma.  É simplesmente pela força da devoção a Krishna que mesmo um homem de conduta terrível se torna rapidamente devotado ao Dharma. Portanto, desta maneira, todos os seres humanos podem abordar o dever ou o Dharma da mesma maneira.  Se todos os indivíduos buscam o Divino e seguem a liderança que surge, as diferentes regras ou requisitos do Dharma individual tornam-se um único caminho.

Dharma e Maçonaria

DEVER é um conceito importante na Maçonaria, semelhante a um código de conduta pelo qual os indivíduos devem moldar seu caráter. Além disso, os membros são instruídos a cumprir seu dever, independentemente das consequências.

Visto que a Maçonaria é uma instituição fundada nas mais altas virtudes e princípios de moralidade, os deveres maçônicos estão em harmonia com a conduta adequada e as leis de seu país. Algumas dessas funções incluem:

Pensar alto, falar a verdade, fazer o bem, ser tolerante com os outros, buscar a verdade e praticar a liberdade perante a lei, a igualdade fraterna, a justiça e a solidariedade.

Além disso, a Maçonaria convida seus membros a seguirem um caminho individual enquanto também trabalham juntos para elevar a humanidade.  A Arte Real também inspira o cultivo de virtudes semelhantes àquelas consideradas partes do sistema de Dharma, como paciência, fortaleza e prudência.  Para alguns indivíduos, acredito que a Maçonaria pode ser vista como um componente principal ou a culminação do dharma individual daquele Irmão.

Pois uma pessoa verdadeiramente calma e tranquila, que não se deixa afligir ou apegar por essas formas e objetos, e permanece sempre estável em meio às dores e aos prazeres, se torna apta a trilhar o caminho para a imortalidade. Bhagavad Gita (2.15)

Aos Buscadores, onde quer que estejam sobre a face da terra.

Autor: Geovanne Pereira (@conhece.a.ti.mesmo)

*Geovanne é professor de Filosofia, Psicanalista, Psiconauta, Yogue e Mestre Maçom da ARLS Jacques DeMolay, n°22 – GLMMG e, para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para A Maçonaria, o Bhagavad Gita e o Dharma – Parte II

  1. Carlinhos de Brito disse:

    Que Krishna direcione nosso Karma para cumprirmos bem nossos Deveres Maçônicos e cumprimos o Dharma..

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