Maçonaria moderna: o legado escocês – Parte I

20 curiosidades sobre a Escócia - Viagens à Solta

A moderna Maçonaria, que tem como referência o ano de 1717[1] (ou 1721 para os puristas), não surgiu repentinamente como um raio em céu azul, como tentam argumentar alguns empoderados críticos internos da Ordem. Sem querer induzir ou convencer, vejamos os fatos históricos.

Entre os séculos X e XV, a Europa passou por diversas transformações sociais, políticas, econômicas e científicas, sobretudo, com o declínio do sistema feudal e o crescimento comercial e urbano, intensificado pelas Cruzadas e a expansão das rotas marítimas comerciais. A terra e o trabalho camponês perderam seu papel como única fonte de riqueza.

Nesse período houve um grande crescimento das atividades comerciais, oriundas dos trabalhadores que viviam numa sociedade agrária e estamental (que não permitia ou dificultava a ascensão social e antecedeu a Sociedade Industrial), os feudos, e passaram a comercializar os excedentes nos arredores das cidades, quando se deu o renascimento comercial e urbano.

Com o deslocamento de muitos trabalhadores para os burgos (antigas cidades medievais amuralhadas), o sistema feudal e agrário logo foi substituído por um capitalismo primitivo e urbano, fortalecido pelo surgimento da burguesia, formada por comerciantes, artesãos, alfaiates, sapateiros, ferreiros, carpinteiros, tanoeiros, marceneiros, artistas, mercadores, produtores têxteis etc.

Assim, com a necessidade de organizar e regulamentar determinadas profissões originou-se uma espécie de associações sindicais com o intuito de proteger interesses, de forma a melhorar o desenvolvimento da atividade laboral desde a distribuição dos produtos, garantir a qualidade e preços, bem como lidar com o mercado e seus concorrentes externos. Famílias mercadoras reuniram-se em guildas e assumiram a autoridade em muitas cidades, munidas de alvarás, como corporações municipais.

Nas cidades medievais, as instituições econômicas básicas eram as corporações de mercadores e as corporações de ofício com uma estrutura civil e administrativa, formada por pessoas de uma mesma profissão, de uma mesma orientação religiosa e que mantinham uma relação de proteção mútua. Por sua vez, o poder pessoal e universal dos senhores feudais foi gradativamente sendo substituído pelo poder centralizador dos soberanos, dando origem às monarquias nacionais centralizadas.

Por volta dos séculos XI, sob o manto da Igreja Católica, nasceu a Maçonaria Operativa ou de Ofício, que dominava a arte de construir, por intermédio das corporações ou confrarias dos mestres construtores de catedrais, abadias e mosteiros, que recebiam instrução e evangelização dos frades e protegiam os ensinamentos secretos da arquitetura e os interesses corporativos. Atribui-se o impulso das edificações de catedrais em louvor a Deus em virtude da não concretização da previsão apocalíptica dos fins dos tempos na virada do ano 1000.

A arquitetura medieval teve nas Igrejas a sua maior representatividade, com o desenvolvimento dos estilos românico e o gótico.  O românico, fruto da criação das comunidades rurais dos monges, típicas da Alta Idade Média (século V ao X) assinalou o seu apogeu no século XI, aparecendo em mosteiros, castelos e igrejas, com uma construção maciça, pesada, de linhas retas, com traços predominantemente horizontais e interiores sombrios. O florescimento do gótico, originário da região de Paris, esteve ligado à prosperidade da economia urbana e ao desenvolvimento do conhecimento, concebendo nas catedrais a obra da cidade e dos artífices das corporações de ofício, refletindo a mentalidade da Baixa Idade Média (século XI ao XV).

As catedrais góticas, banhadas de luz e calor, decoradas com pinturas e esculturas, significavam mais do que um templo de orações, eram utilizadas também como escolas, bibliotecas, galerias de arte, além de ponto de encontro de uma próspera sociedade. A burguesia também nelas se reunia em suas confrarias para realizar assembleias civis, funcionando como uma casa do povo e do poder da igreja.

Com as corporações ou confrarias surgiram os regulamentos na forma de cartas e constituições, descrevendo os compromissos dos membros, bem assim os conhecimentos e instruções morais e religiosas, de conteúdo explicitamente cristão, formando os “Antigos Deveres”, “Antigas Constituições” ou “Manuscritos”, delineando um sentido espiritual e material aplicáveis aos obreiros construtores, inspiradores da Moderna Maçonaria. O Museu Britânico e a biblioteca maçônica de West Yorkshire guardam vários desses documentos, que formam a base das constituições maçônicas.

Como não existia um organismo central que tomasse decisões para a totalidade das guildas de ofício, cada uma conservava sua autonomia e usava um manuscrito dos “Antigos Deveres” que melhor lhes aprouvesse e sobre os quais os juramentos eram prestados. Os mais famosos são o “Poema Regius” ou “Manuscrito Halliwell”, provavelmente de 1390, o mais antigo documento inglês sobre a Maçonaria, e o “Manuscrito de Cook”, estimado de 1450.

Alguns autores advogam a precedência da Carta de Bolonha, de 1248, como o primeiro documento maçônico operativo conhecido. Também referenciado como os “Estatutos de Bolonha”, sob os auspícios da Igreja Católica, o documento estabelecia a existência jurídica de uma associação no qual constavam a denominação e forma de eleição dos constituintes, com o objetivo de “proteger o ofício tanto no plano financeiro quanto no ético moral”. A proteção aos associados, tanto profissional quanto assistencial, incluía até as viúvas. O referido documento já fazia menção a “não operativos”, cuja lista de matrícula, datada em 1272 e ligada à “Carta de Bolonha”, consta “371 nomes de Mestres Maçons (Maestri Muratori), dos quais 2 são escrivães públicos, outros 2 são freis e 6 são nobres”, conforme registros no Arquivo de Estado da Bolonha.

Esta situação prevaleceu por 142 anos, até 1390, quando surgiu o “Poema Regius”, oportunidade em que foi introduzida a história de como Euclides de Alexandria simulou a geometria e traçadas normas de conduta ética e moral, alertando que a Maçonaria e o Maçom não devem ter um comportamento hipócrita (Hic incipiunt constituciones artis gemetriae secundum Eucyldem – Art. XV). O Manuscrito de Cook (1450), escrito em prosa, continha repetições dos anteriores, e, após uma prece de ação de graças de abertura, o texto enumera as Sete Artes Liberais (Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), dando prioridade à geometria, a qual é equiparada à Maçonaria.

Passados mais 208 anos do Poema Regius, em 1598, até então sob a proteção da Igreja, apenas com modificações administrativas, alteração significativa foi aquela introduzida na Escócia por William Schaw (1550-1602), Mestre das Obras da Coroa e Vigilante Geral dos Pedreiros, na área de construção de castelos e palácios, com larga experiência adquirida em cargos ocupados no reinado de Jaime VI. Segundo Nicola Aslan, “a maçonaria escocesa não possuiu ‘Old Charges’ como a sua congênere inglesa”, mas, do período operativo, afirma, destacam-se outros documentos como as Cartas de Saint-Clair (uma de 1601 e outra de 1628) e, principalmente, os Estatutos Schaw, que nenhum outro supera.

William Schaw mantinha estreitos laços com personalidades da elite do império, além de filósofos, políticos e livres pensadores. Reorganizou a profissão de pedreiro ao incluir alterações estruturais nas Lojas, entre elas as de fundo cultural e histórico, com manutenção de arquivos com registros de todos os acontecimentos relevantes e envolvendo a maçonaria do passado e perspectivas para os tempos vindouros.

Tais medidas abriram caminhos para que “não operativos”, pertencentes ao círculo de influência de William Schaw, então se constituindo em um novo protetor da Maçonaria (especulativa de transição), pudessem ser atraídos, não apenas para introduzir conhecimento humanístico e sim para inserir as Lojas nos meios políticos. Os dois regulamentos promulgados (1598 e 1599) definiam a organização territorial das lojas por cidades e por regiões, impondo a eleição anual dos Oficiais. Por ter lançado as condições que mais tarde se transformariam, no território escocês, na Maçonaria Especulativa, Schaw é considerado por muitos como o inventor da Maçonaria Moderna.

A mudança significativa, mal compreendida e criticada pelos puristas e chamada de teoria de transição, à míngua de documentação comprobatória, teria ocorrido no final do século XVI, em vista do declínio das antigas corporações medievais de construtores, quando, em número cada vez maior, os denominados “Maçons Livres e Aceitos”, homens que não eram pedreiros, substituíram os trabalhadores, transformando-se em sociedade de auxílio mútuo e num espaço para a livre manifestação do pensamento, com seleção dos membros “entre os homens conhecidos pelos seus dotes culturais, pelo seu talento e pela sua condição aristocrática, que poderiam dar projeção a elas, submetendo-se, todavia, aos seus regulamentos” (Castellani, 2007).

Em análise de David Stevenson (2009), historiador não maçônico, a evolução da Maçonaria na Escócia no século XVII surgiu em muitos sentidos da Renascença, mas sua evolução também foi profundamente influenciada pela Reforma, podendo ser vista como uma reação contra algumas das mudanças que o advento do Protestantismo trouxe ao país, envolvendo não apenas uma mudança em crenças religiosas, mas em todo o conceito do que era religião, antes vista como um método ritual de viver e não um conjunto de dogmas. “Com a vinda do Protestantismo, a ênfase mudou do comportamento e das ações para as crenças abstratas e a fé individual”. A reforma promovida pelos calvinistas liderados por John Knox (conhecidos como presbiterianos na Escócia), que aboliu o catolicismo romano em 1560, significou a completa abolição do lado religioso da fraternidade-guilda, levando ao desaparecimento daquelas organizações que funcionavam apenas como fraternidade. Restaram elementos de ritual e cerimônia em ocasiões como a admissão novos membros.

As medidas introduzidas por William Schaw, com a organização das lojas, ensejou um sistema no qual os rituais poderiam desenvolver-se, avalia Stevenson (2009), suprindo um vácuo deixado pela Reforma, como uma possível explicação por que tantos indivíduos de fora quiserem entrar para as lojas no século XVII, possivelmente de forma que fossem atendidos desejos de satisfazer o anseio humano por ritual, que a igreja reformada da Escócia ignorava.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Nota


[1] Para melhor entendimento, recomenda-se a leitura do artigo “1717? 1721? Por enquanto, ainda 1717…”, no Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em https://opontodentrocirculo.com/2016/09/22/1717-1721-por-enquanto-ainda-1717/

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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